"Mel! Precisamos ir agora, querida."
Edith gritou do pé da escada e soltou um suspiro, checando o relógio em seu pulso. Elas precisavam sair depressa se Melody queria chegar a tempo em sua primeira aula de dança, e a avó estava encarregada da tarefa de levá-la até que Lea saísse de sua reunião e fosse encontrá-las no estúdio de dança. Cory havia levado Lucas para uma consulta de rotina no pediatra e depois iria para o parque um pouco para que o menino pudesse brincar enquanto a irmã dançava.
A menina de nove anos veio descendo as escadas de dois em dois degraus e ganhou um olhar de repreensão da avó quando pulou os três últimos, sabendo que não deveria desobedecer aquela regra. Até o dia que ela cair e aprender, os pais diziam. E o pior, Lucas estava começando a imitar a irmã, para insatisfação de seus pais. Ela vestia um collant preto liso e um short de helanca da mesma cor, junto com sapatilhas de dança que haviam sido compradas com tanto afinco. Seus cabelos claros estavam presos em um rabo de cavalo e ela havia colocado um moletom cinza por cima da roupa.
"Nós podemos mudar de ideia e ficar em casa se você preferir", Edith ralhou e Melody encolheu os ombros.
"Desculpa, nana. Eu não vou fazer de novo."
"Tudo bem, agora vamos. Já estamos em cima da hora."
Edith recolheu a bolsa da menina no foyer e assim neta e avó deixaram o apartamento, desceram o elevador e chamaram um táxi. Melody foi todo o caminho saltando sobre seu assento, ansiosa para sua primeira aula. A garotinha vinha implorando pelas aulas há bastante tempo, e enfim Lea e Cory cederam e inscreveram ela em um estúdio localizado na Avenida Broadway. Melody sabia que algumas das meninas de sua escola dançavam lá e ela estava animada para encontrá-las.
"Aqui estamos nós, senhoras", o taxista se virou na cabine sorrindo gentilmente para suas passageiras quando chegou ao destino. Ora essa, não era todo dia que ele transportava rostos conhecidos.
"Muito obrigada, senhor", Melody disse alegre e abriu a porta traseira para sair. O taxista e Edith riram e ela pagou antes de seguir a neta.
Melody parou na entrada e esperou sua avó alcançá-la, Edith segurou a mão da menina e a guiou para dentro até a recepção do estúdio. Uma mocinha sorriu atrás do balcão quando percebeu as duas novas pessoas no recinto.
"Boa tarde, como posso ajudá-las?"
"Minha neta está começando hoje nas aulas", Edith informou apontando Melody ao seu lado enquanto a moça acenava em entendimento.
"Muito bem, eu só preciso do nome dela para verificar em nosso sistema", a moça, de nome Delilah como indicava seu crachá preso na roupa, instruiu enquanto digitava no computador.
"Melody Maria Monteith", Melody disse antes de sua avó e ficou na ponta dos pés para enxergar por cima do balcão.
Delilah ergueu brevemente o olhar antes de voltar a digitar. Melody também a encarou, ela estava acostumada a isso sempre que dizia seu nome completo. Ela abria a boca, as pessoas a encaravam. Ela saía na rua, as pessoas a encaravam. Mas Melody estava acostumada a dar de ombros também, esse era o trabalho do papai e da mamãe afinal.
A moça atrás do balcão finalmente sorriu outra vez.
"Vamos ver... Oh, sim, aqui está. Suas aulas são às terças e quintas, certo? Sua professora é a Madame Harrison."
"Sim, sim. Acho que minha filha já acertou tudo aqui quando a matriculou", Edith apontou. "Nós não estamos atrasadas, não é?"
"Oh, não se preocupe. Madame Harrison toma os primeiros dez minutos para as meninas se aquecerem, ela deve estar nisso neste momento", Delilah sorriu simpática. "Vocês podem seguir por esse corredor, facilmente encontrarão o estúdio e sua professora."
"Muito obrigada, senhorita", Edith agradeceu e guiou Melody naquela direção.
"Não há de quê, e bem vinda à escola."
Como Delilah havia dito, Melody e Edith facilmente encontraram Madame Harrison e ela sorriu reconhecendo Melody de quando a menina foi lá pela primeira vez. Melody devolveu o sorriso e se aproximou.
"Melody, querida. Bem vinda."
"Obrigada, Madame Harrison. Essa daqui é minha avó", Melody apontou e Edith sorriu estendendo a mão.
"Edith Sarfati."
"Oh, bem, sua filha se parece com você. Eu já a conheci. Me chamo Diane Harrison, é um prazer", Madame Harrison apertou a mão estendida e se voltou para Melody. "Querida, você pode deixar suas coisas naquele canto, eu vou apresentá-la às outras meninas. E avó, a senhora pode aguardar com as outras mães, se preferir."
"Claro, minha filha também chegará daqui a pouco."
"Tudo bem", Madame Harrison sorriu e voltou para suas meninas com Melody atrás dela.
Minutos depois que Madame Harrison iniciou sua aula, uma figura baixa de óculos escuros e cabelos em um rabo de cavalo adentrou o salão e tentou passar despercebida para não atrapalhar a aula. Edith segurou o riso observando sua filha caminhar até ela e se sentar ao seu lado, levantando os óculos para o alto da cabeça sem tirar os olhos das meninas dançando.
"Então, como ela está indo?", Lea cochichou sem olhar para a mãe.
"Muito bem, na verdade. Ela é boa", Edith cochichou de volta também observando sua neta. "Você está bem?"
"Sim, sim. Eu só precisei correr um pouco", Lea finalmente olhou em volta e percebeu alguns olhares em sua direção, mas resolveu ignorar. Ela estava ali para apoiar a sua garotinha.
"Muito bem, meninas, por hoje é isso. Na quinta-feira nós iremos aprofundar nossa coreografia e iniciar novos passos, por isso não faltem", Madame Harrison deu os avisos. "Vocês estão liberadas. Melody, querida, posso falar com você um instante?"
"Claro, Madame Harrison", a menina acenou e se aproximou de sua professora.
"Eu quero dizer que você foi muito bem. Precisamos verificar alguns pontos, mas logo logo você estará acompanhando as outras meninas impecavelmente."
"Obrigada, Madame Harrison."
"De nada, querida. Agora você pode ir, sua mãe e sua avó estão te esperando."
Melody virou a cabeça rapidamente, balançando seu rabo de cavalo no processo, suas bochechas vermelhas do esforço anterior, e sorriu ao avistar sua mãe sorrindo para ela e acenando ao lado de sua avó. Melody correu para elas e Lea a abraçou fortemente e depositou um beijo no topo de sua cabeça.
"Hey, docinho. Você foi muito bem! Estou orgulhosa."
"Você assistiu, mãe?"
"Eu nunca perderia", Lea afirmou e piscou um olho para a filha.
"Sim, querida. Nós assistimos daqui e já é nítido o seu talento", Edith regozijou sobre a menina. Melody assentiu e disse que elas já podiam ir.
As três caminharam para fora do estúdio e Lea percebeu a menina quieta de repente. Elas caminharam até o carro de Lea estacionado e Melody pulou para o banco traseiro sem nenhuma palavra e afivelou seu cinto.
"Que tal irmos comer alguma coisa antes de ir para casa? Papai e Luke estarão lá pelo tempo que terminarmos", Lea opinou e viu a menina dar de ombros e olhar para a janela.
A atriz estacionou em frente a um café e as três rapidamente entraram e pediram pedaços de torta depois de se sentarem. Alguns paparazzi tiraram algumas imagens na entrada, mas Lea tentou não se importar e se preocupou apenas em descobrir a mudança de humor de Melody.
"Mel, está tudo bem?", a mãe perguntou e a menina deu de ombros antes de enfiar uma garfada de torta de chocolate na boca. "Você não quer nos dizer sobre a aula? Como é sua professora?"
Melody suspirou "Ela é legal. A aula é legal também."
"Apenas isso?", Edith questionou. Sua neta não agia dessa forma com novidades. "Apenas 'legal'?"
Melody deu de ombros outra vez e apoiou a cabeça em uma mão sobre a mesa, brincando com seu pedaço de torta. Lea ergueu uma sobrancelha e se inclinou para chamar atenção da menina.
"Mel, qual é o problema?", a mãe perguntou. "Sabe que pode me dizer qualquer coisa, não é?"
Melody encarou sua mãe por alguns segundos antes de assentir. Ela intercalou o olhar entre as duas mulheres e finalmente baixou os olhos novamente para o seu doce.
"Não sei se quero continuar dançando", ela admitiu em um quase sussurro.
Lea se espantou. Foi ela mesma quem insistira tanto nas aulas, e agora mudou de ideia? Aparentemente, não havia acontecido nada demais e pela expressão da professora, Melody havia se saído bem. Mas Lea sabia, com certeza tinha algo incomodando sua menina.
"Por que isso agora, querida?", a mãe perguntou, tentando descobrir o problema.
A menina encolheu os ombros e empurrou a sobremesa em seu prato, não querendo encontrar os olhos da mãe. Ela estava nervosa e com medo de chatear Lea pela mudança drástica, logo depois do esforço que havia sido tentando convencer ambos os pais. Mas acontece que agora Melody não tinha tanta certeza sobre a dança, antes parecia empolgante, agora era... Sem graça.
"Mel?", Edith tentou, chamando a atenção da menina.
"Antes parecia legal, agora eu não sei se quero mais", ela sussurrou, lágrimas encheram seus olhos castanhos.
Lea suspirou. Ela conhecia sua filha e sabia que se Melody não queria algo, então ela não o faria. Mesmo sabendo que havia sido escolha dela, algo em si disse que era apenas fogo de palha. Entretanto Melody insistira tanto que, de repente, não custava tentar. No entanto, parece que as coisas tomaram um rumo diferente.
"Melody, olha pra mim", Lea chamou e recebeu um olhar molhado e envergonhado da garotinha sentada a sua frente. "Você sabe que nós nunca te obrigamos a fazer nada que você não quisesse, certo? Você quis entrar para as aulas de dança, ok, nós fizemos. E agora você não quer mais, e está tudo bem. O que eu quero saber aqui é se aconteceu algo que tenha feito você mudar de ideia."
"Não, mamãe. Eu só... Eu só achei que seria mais legal. As meninas ficam me encarando, isso é um pouco desconfortável."
Lea deu um sorriso simpático para a menina. Mesmo com nove anos, Melody ainda não entendia o porquê de todos a encararem por onde ela fosse. Sim, era o trabalho de seus pais, mas por que olhavam tanto para ela? E para Lucas? Tanto Cory quanto Lea, mesmo acostumados ao preço da fama, não queriam fazer as crianças desconfortáveis ou insatisfeitas. A segurança e bem estar deles era prioridade dos pais.
"Tudo bem, querida. Nós podemos cancelar as aulas, ok? Não precisa ficar chateada."
"Mas você vai ficar brava", Melody fungou.
"Querida, eu prometo que não vou. Nem o seu pai. Está tudo bem, ok? Nós vamos conversar com o pai quando chegarmos em casa e tudo ficará bem. Você não tem que fazer algo que você não está confortável", Lea esticou a mão e ergueu o queixo da menina até encará-la. "Não precisa chorar. Nós vamos resolver isso."
Melody finalmente deu um sorriso fraco para a mãe e assentiu, limpando as lágrimas e voltando a comer sua torta, lambuzando o queixo com merengue de chocolate.
Semanas depois, Melody saiu do prédio saltitando contente e encontrou o pai encostado no carro em frente à escola primária. Cory ergueu os óculos escuros e abriu os braços para sua garotinha, imitando seu sorriso. Melody abraçou o pai e imediatamente empurrou um panfleto em seu rosto.
"Hey, o que é isso?"
"Leia, papai. Eu recebi isso hoje."
Cory abriu o panfleto com curiosidade e imediatamente seus olhos cor de uísque caíram sobre as imagens: chuteiras, meiões, cones alaranjados, apitos e bolas de futebol. Erguendo os olhos novamente, Cory encontrou um enorme sorriso mil watts que ele via muitas vezes no rosto de sua esposa.
"Papai, eu quero entrar para o Pee-Wee!", Melody disse animada. "O time de futebol feminino da escola."
Agora eles entendiam porque as aulas de dança deram errado.
