SOCO AMARETTO LIME
Por Zooey Mureau

Capítulo 04 – Revolution



You say you want a revolution

(Você fala que quer uma revolução)
Well, you know

(Bem, você sabe…)
We all want to change the world

(Nós todos queremos mudar o mundo)

You tell me that it's evolution

(Você me diz que é evolução)
Well, you know

(Bem, você sabe…)
We all want to change the world.

(Nós todos queremos mudar o mundo.)


"Soco Amaretto Lime." Disse Marlene, chegando um pouco para trás para que a porta se abrisse e ela e Lily entrassem. As duas observaram a decoração da Sala Precisa levemente impressionadas, tinha ficado bem legal.

Peter Pettigrew se ocupava em devorar pequenos brioches na mesa de comida. Alice, Frank e Gracus Sian conversavam em pé à beira da mesa, de costas para as recém chegadas. Potter, Remus, Liserre, Darius e Dorcas Meadowes faziam uma rodinha, já sentados nos pufes. Black encontrava-se mais ou menos na roda, mas estava visivelmente alienado, conversando baixo com Leslie Wallace em seu colo. Todos voltaram suas atenções a elas quando passaram pelo retrato porta adentro.

"Finalmente." Registrou Sirius, não conseguindo ignorar seu lado irritantemente chato. Provocação estava em seu sangue, era mais forte do que ele. Piscou para Marlene, sorrindo abertamente enquanto as duas se aproximavam, sentando-se no sofá azul que ficava encostado na parede. Lily fingiu que não ouviu o que ele dissera, cumprimentando os outros. Já Marlene sorria de volta para ele, dando um leve aceno de cabeça como cumprimento.

"Podemos começar, então?" Indagou Liserre, que tinha os cabelos presos num elegante rabo-de-cavalo e óculos de armação cinza que usava raramente. Ao ouvir a menção de um começo, Frank, Gracus, Alice e Peter deixaram o outro ambiente, se juntando ao grupo que já se encontrava sentado nos pufes.

A ordem do círculo ficara assim: No sofá azul da parede estavam Lily e Marlene. Do lado de Lily, num pufe pink, sentara Alice, e, ao seu lado, num sofá vermelho de três lugares, estavam Frank, Gracus e Darius. No pufe roxo do lado deles sentara-se Dorcas, que cochichava algo no ouvido de James, seu vizinho, no pufe verde limão. Do lado deste, num pufe laranja, estavam Sirius e Leslie. Continuando o círculo, no sofá branco de três lugares, sentavam-se Remus e Peter, e, para fechar a roda, num pufe amarelo entre os sofás branco e azul, estava Liserre. No meio de todos havia um grande pufe preto, que abrigava os pés dos presentes.

"Uhum." Assentiu Remus, colocando também seus pés no pufe preto. "Agora que todo mundo chegou, vou falar da proposta que nós" Indicou James, Sirius e Peter com o queixo. "pensamos, pra ver se todos estão de acordo." O restante que ainda conversava se calou para ouvir o que ele tinha a dizer. Até Sirius, que mordia a bochecha de Leslie, cedeu um minuto de sua atenção.

"Seguinte... À princípio teremos debates todas as sextas-feiras, tirando as que tiverem jogo de quadribol. Como todos aqui sabem, nós costumamos dar festas todas as sextas, então quem for - e quiser - pode até tomar banho e se arrumar aqui..." Indicou os banheiros com o olhar. "Ou pode voltar para os dormitórios e se arrumar lá. É que nós não teremos esse tempo, e qualquer companhia é sempre bem vinda." Não teriam tempo de ajeitar tudo nesse meio tempo entre o fim do debate e o começo da festa, se enrolassem e não fizessem tudo o mais rápido possível. "Cada semana é um tema diferente. Como foi a Lily que escolheu o de hoje, ela indica uma pessoa para escolher o próximo, e assim sucessivamente. A primeira pessoa a falar é a que estiver sentada à esquerda de quem deu o tema, a Alice no caso. A segunda pessoa é quem estiver à esquerda da primeira, ou seja, o Frank. Tudo no sentido horário, para ninguém se confundir e a última pessoa ser quem deu o tema da vez, que hoje é a Lily. Depois que todos falarem se são contra ou a favor, vem a segunda rodada, onde cada um expõe seus argumentos. Evitem falar muito, já que somos treze. Se alguém se empolgar e falar muito vai faltar argumento para os outros." Remus sorriu, olhando diretamente para Lily e Marlene, como se aquilo fosse uma indireta para elas. "A terceira rodada é quando um começa a contestar o que o outro falou, e nessa não tem mais ordem de quem vai falar primeiro, afinal, a pessoa de quem você vai discordar pode estar sentada bem longe. A única coisa que eu peço é pra que falem um de cada vez, para não virar zona." Todas as cabeças assentiram, aos poucos, concordando com tudo o que ele havia falado. Lily confessava que estava, quem sabe, um pouco empolgada com aquilo. A idéia era bem mais legal do que ela imaginara antes. "Alguém quer mudar alguma coisa na proposta?" Ninguém se manifestou. "Bom, acho que podemos começar. A discussão de hoje é sobre o ensino das três maldições imperdoáveis, proposta que foi recusada pelo Ministério. Alice?" Todas as cabeças se voltaram para Alice, que cruzou as pernas, chegando um pouco para frente.

"Sou a favor do ensino. Frank?"

"Sou contra. Gracus?"

"Sou a favor. Darius?" Sirius se escondeu atrás da cabeça de Leslie para lançar um olhar divertido a James, que riu baixo, sacando a comunicação. Almofadinhas fizera uma piada inaudível referente às táticas dos marotos de diferenciação dos gêmeos. Agora que sabiam onde Gracus estava sentado era só observá-lo, segui-lo com os olhos caso levantasse, etc.

"A favor. Dorcas?"

"Sou a favor. James?"

"A favor. Almofadinhas?"

"A favor. Paixão?" Disse Sirius, que brincava com as mãos de Leslie. Marlene se controlou para não revirar os olhos. Não era possível que ele a levasse a sério. Estava sempre brincando com a menina, mordendo, beliscando, dando beijinhos. Que coisa mais chata. E o pior de tudo era que Marlene estava realmente incomodada com aquela cena. Não tinha direito de sentir ciúmes de Sirius, sabia disso... Mas aquilo a estava dando náuseas.

"Sou contra. Peter?" Lily levantou os olhos para fitar Leslie Wallace, um pouco surpreendida – e divertida pelo sotaque escocês. Era fato que a grande maioria era a favor, esperava que a menina, por ter tamanha proximidade com Black e somente quinze anos de idade, fosse ser influenciada pela sua opinião, mas se enganara. Black, por sua vez, também parecia surpreendido, e fazia uma careta de descontentamento para Leslie.

"Contra. Remus?" Lily só não se surpreendeu novamente porque sabia que Pettigrew, o maior seguidor de Potter e Black, era também o maior covarde que andava sobre os terrenos de Hogwarts – ganhava até de Severus Snape, de quem adquirira um profundo asco nos últimos dois anos. Provavelmente a idéia de ter professores mostrando o que eram as maldições era algo assustador demais para ele. Potter revirou os olhos e Black balançou a cabeça vagarosamente, ambos desaprovando a opinião de Peter.

"Sou a favor. Liserre?" Perguntou docemente, colocando, inconscientemente, a mão esquerda sobre a dela, que estava apoiada no encosto do sofá branco. Ao notar o que ele mesmo fizera, Remus ruborizou, recolhendo a mão e entrelaçando-a na sua mão direita, como se assim pudesse controlar as duas e mantê-las longe da menina. Liserre sorriu um pouco abobada, demorando um pouco para falar, por estar olhando para ele com um meio sorriso.

"A favor. Lene?" Mas Liserre não estava mais prestando atenção na rodada. Fitava sua própria mão – a direita, que Remus tocara - com interesse, sentindo suas bochechas esquentarem um pouco.

"A favor. Lily?" Sirius abriu um enorme sorriso para Marlene, que fingiu não ter visto e virou para olhar a melhor amiga.

"Sou contra. Absolutamente contra." Ouch. James sentiu seu estômago ser golpeado pela ponta de um iceberg. Não era possível, ela só podia estar brincando. Quem, em sã consciência, era contra o ensino das maldições imperdoáveis? Frank era sempre politicamente correto, Peter era um covarde e Leslie prezava seus princípios 'paz e amor'. Provavelmente argumentaria falando que violência gera violência e que as maldições deveriam ser esquecidas. James estaria um tanto quanto indignado se um sentimento mais forte - o desolamento - desse espaço. Quando finalmente se convencera de que pelo menos uma vez na vida ele e Lily concordariam em algo, ela conseguiu ir contra suas expectativas. Perdido em pensamentos pessimistas, James mal notou que Alice agora argumentava.

"O objetivo de uma escola é educar, e, sendo Hogwarts uma escola, tem uma obrigação na nossa formação como seres-humanos mágicos. É importante que nós sejamos preparados para a vida, que não nos fechem ainda mais numa bolha. A guerra tá pra explodir! Você-Sabe-Quem tortura e manipula suas vítimas o tempo todo. Precisamos saber com o que estamos lidando." Alice abriu a boca para retomar a fala, mas fechou-a logo em seguida, considerando que ainda tinha muita gente pra falar a favor, e, portanto, ela deveria ser breve e não monopolizar argumentos. Colocou uma mecha de cabelo preto para trás da orelha, sossegando no lugar.

"Não existe uma só pessoa mágica que não saiba o que são as maldições, nós sabemos exatamente contra o que estamos lutando sem tê-las escancaradas abertamente num ambiente que nós chamamos de lar." Disse Frank, ao perceber que Alice não retomaria a palavra. "Essas maldições são proibidas por alguma razão. Seria uma grande hipocrisia serem ensinadas em escolas. Um péssimo exemplo para a sociedade bruxa." Finalizou, tentando se fazer o mais claro possível. Se era proibido, por que diabos deveria ser ensinado? Isso iria contra a lei, e se as próprias autoridades passassem por cima das regras que elas mesmas criaram, quem dirá o resto dos cidadãos? Olhou significantemente para Gracus, que se pôs a falar.

"Não sei se você está entendendo o que seria o ensino delas, Frank. Você tá falando como se elas fossem ser tomadas da gente numa aula de Artes das Trevas! E é exatamente o contrário: a idéia é nós aprendermos a nos defender delas, que seriam demonstradas – não em alunos – para vermos como é." Mirou Alice com o olhar, apontando para a garota. "É o que você disse, Alice, as pessoas ignoram a guerra porque é conveniente pra elas. Ninguém quer acreditar que tem um maluco por aí matando inocentes, nem que dia após dia ele fica mais e mais forte, e que, num momento ou outro, isso vai estourar. Se essas pessoas entrassem em contato direto, se ao menos vissem com os próprios olhos as maldições, se conscientizariam e reagiriam." Lily ponderou por alguns segundos, enquanto as palavras de Gracus ecoavam em sua cabeça. Era verdade que poucos se posicionavam. As pessoas que ali estavam sentadas, junto dela, eram a grande minoria politizada. A maioria filhos de Aurores, ou pessoas influentes o suficiente para saber os podres que o Ministério escondia. Mas aquele argumento não era forte o bastante para fazê-la mudar de opinião, não acreditava que alguém realmente determinado a ignorar a realidade fosse se sensibilizar a esse ponto só por ver maldições.

"Uma vez diante disso, todos teriam que escolher um lado." Constatou Darius, inconscientemente apenas reforçando o ponto de seu irmão. "Precisamos de o máximo de incentivos possíveis para fazê-los enxergar o que tá bem debaixo dos próprios narizes. Nós já estudamos em Drumstrang e somos testemunhas de que Artes das Trevas na grade semanal não é um determinante de caráter, e sim um incentivo ao seu desenvolvimento. Lá as pessoas não são indecisas, ou são boas ou não são, não tem esse meio termo." Se o menino ia acrescentar algo, ou não, ninguém nunca chegou a saber, porque no segundo seguinte foi praticamente interrompido por Dorcas.

"Frank, e daí que é proibido? Qual é a relevância disso? E não me diga 'toda', porque ainda que feitiços como estupefaça e poções como polissuco e veritasserum sejam proibidos, eu os vejo muito por aí, nas grades escolares. Um quarto do que nós aprendemos nesses sete anos não é aceito na vida em situações normais, e ainda assim aprendemos. Só porque é proibido não significa que deva ser ignorado." Lily se segurou para não interrompê-la e fazer um comentário irônico a respeito do que ela acabara de falar, contentando-se em girar os olhos. Que tipo de pessoa compararia estupefaça à avada kedavra? Aparentemente, ninguém notou sua descrente e não-amigável girada de olhos, estavam todos fitando Potter, que estava prestes a começar seu show.

"Sem contar que muitas pessoas desconhecem a realidade dessas maldições, sabem por cima para o que servem e só. Além de alertá-los e ajudá-los a se prevenir, o ensino das maldições seria mais uma forma de resistência. De escancarar por aí que estamos cientes, prontos para lutar contra elas, e não numa bolha ignorando tudo, os deixando fazer o que quiserem." Potter terminou, sorrindo como sempre. Por que ele se contentara em ser tão breve? Era uma convicção sua que ele faria de tudo pra provar que estava certo, que usaria todos os argumentos possíveis a ponto de não deixar nenhum para os outros. E, no entanto, ele tinha se controlado bastante e falado relativamente pouco. Lily mal teve tempo de se surpreender quando James, que travava uma luta interna para se manter calado, apresentou resistência ao que ele mesmo se impunha e voltou a falar. A verdade é que tinha mais um ponto muito importante que não podia simplesmente deixar passar. "O Ministério é bom o bastante para proibir que nos ensinem, mas se contradiz até nisso. Acho que eu não sou o único que despreza essa atitude deles de legalizarem maldições imperdoáveis para Aurores, para que estes prendam os criminosos de qualquer forma, custe o que custar. Os próprios Aurores não aprovam essa nova medida, isso sim é hipocrisia, Frank." Lily anotou mentalmente algumas observações para quando fosse sua vez. Ela mesma não era uma das grandes fãs do Ministério – longe disso – mas a postura de Potter era, no mínimo, a de uma criança mimada.

"Escolher um lado?" Começou Leslie Wallace, ignorando que, teoricamente, era a vez de Black, e não dela. E, aparentemente, ignorando também James e seu discurso, já que mirava Darius inconformada, como se aquilo estivesse entalado em sua garganta há um bom tempo. Black se adiantou em abrir a boca e contestar seu direito de falar antes dela, mas, prevendo que ele criaria caso, ela se antepôs: "Eu tô mais perto do James que você!" Indicou seu próprio pé direito, que se encontrava estrategicamente posicionado, quase encostando no pufe de Potter. Black abriu a boca novamente, inconformado com o fato de que ela havia plantado o pé lá de propósito para estar mais perto de Pontas e, conseqüentemente, ser a próxima a falar. E, estava, no fim das contas, mais inconformado ainda daquilo contar como alguma coisa. Era verdade que o debate acontecia no sentido horário e que a próxima pessoa a falar é a que estivesse mais perto à esquerda de James, mas a jogada do pé não fora razoável, e ainda por cima, eram seus glúteos que dominavam o pufe em questão. Decidindo não discutir sobre isso, fechou a boca, certificando-se que na próxima rodada algum membro de seu corpo estaria mais próximo do melhor amigo. Leslie voltou sua atenção para Darius, retomando o semblante inconformado. "Não se pode obrigar as pessoas a fazerem isso mostrando as maldições! Seria ótimo se elas se conscientizassem, mas ignorar a guerra é uma defesa natural, auto preservação. Influenciá-los a cair na real dessa forma só vai assustá-los e gerar pânico. Intimidar e pressionar pessoas não é como vamos ganhar essa guerra." Lily arqueou as sobrancelhas, se inclinando levemente no sofá, interessada na psicologia da menina, que agora se voltara para a amiga que há pouco falara. "E, Dorcas, as maldições não são só proibidas como você falou, são imperdoáveis, por trazerem o pior lado das pessoas. Ainda assim você quer que seja ensinado como acabar com a vida, que é a coisa mais preciosa que nós temos?" Dorcas não respondeu, respeitando a rodada que vetava contra-argumentos, mas imaginou se teria alguma resposta para isso. "Por mais que todos nós aqui tenhamos estrutura emocional firme o suficiente, quem disse que é todo mundo que consegue lidar com tamanha crueldade?"

"Você subestima a capacidade das pessoas, paixão." A voz rouca de Black soou, e ele não parecia se importar com o fato de não saber se ela tinha terminado de falar ou se aquela tinha sido apenas uma pausa reflexiva. "Tem vários estudantes por aí que não sabem o que é crucio. Tudo porque essa instituição imperialista que nós chamamos de Ministério resolveu vetar e nos reprimir, nos controlar como se ignorância fosse uma bênção. É um engano e um erro achar que nós estamos melhores sem conhecer a realidade atual. A verdade é que a cada minuto, montes e montes de pessoas se tornam vítimas, no mundo mágico e no mundo não-mágico, e nós temos que lidar com isso." Sorriu da sua forma particularmente cordial. "Living is easy with your eyes closed (viver é fácil com os olhos fechados)" Acrescentou seu grand-finale, com um quê de ironia na voz. Cutucou Peter com o pé, indicando que era sua vez de falar.

"Eu... Eu... Essas maldições são horríveis!" Começou, acuado. Estava visivelmente desconfortável naquela situação, fazendo com que Lily questionasse internamente se era por ter todas as atenções para si – coisa que o maroto não estava acostumado – ou se era pelas maldições. "Quanto menos contato nós tivermos com elas, melhor. Não acho que ninguém devia ter que ver, são horríveis. E já tem muito Sonserino ruim nessa escola, eles não precisam de um incentivo pra liberar toda a maldade deles!" Finalizou, após reunir certa quantidade de confiança. Mirou Remus com o olhar, esperando que ele prosseguisse.

"Eu passo." Disse, de forma um tanto quanto vaga. Recebeu alguns olhares indagadores como resposta, olhares esses que ignorou. Não tinha mencionado nada sobre poder pular a vez na proposta, mas pressupôs que esse fosse um direito seu, do qual resolvera usufruir naquele momento. Liserre respeitou sua vontade e, afastando um pouco a franja dos olhos, desatou a falar, na sua voz calma. "Acho que conhecimento nunca é demais." Comentou, simplesmente. James sorriu, concluindo que mesmo com uma oração tão pequena Liserre tinha dito mais do que outros que muito falaram. Simples e objetiva. "Lene?" Chamou, deixando claro que não tinha a intenção de prolongar mais sua vez.

"E se nós algum dia formos atacados por essas maldições? Eu sei que a chance de nos defendermos delas é bem pequena e conta muito mais com a sorte de se esquivar... mas se nós aprendêssemos, acredito que seria uma chance menos remota. E eu não sei vocês, mas eu já me posicionei e não vou ficar sentada assistindo a guerra, assistindo as pessoas morrerem de mãos atadas. E assim como eu, todos que escolheram lutar uma hora ou outra vão se encontrar em uma situação dessas, talvez sem o preparo ideal. Isso, quem sabe, poderia salvar pessoas de uma futura morte próxima." Parou de gesticular a medida que suas palavras iam morrendo, reprovando-se mentalmente pelo antigo hábito. Lily sentiu todas as cabeças se voltarem para ela e repassou rapidamente alguns pontos que tinham despertado seu interesse antes de começar a falar.

"Peter fez uma observação muito importante: Artes das Trevas é uma motivação desnecessária para alguns alunos, especialmente Sonserinos. Pessoas como Nott, Mulciber, Snape..." Abaixou um pouco o tom de voz, enojada só de lembrar da existência daquela trupe. "Já estão envolvidas demais. Comensais da Morte, essa é a denominação. Lembram do que eles fizeram com a Mary McDonald?" Mary era uma sextanista Grifinória que em seu quarto ano acabara cruzando o caminho deles, o que resultara em duas semanas na Ala Hospitalar, e mesmo assim a escola não encontrara formas de expulsar Mulciber. "E a coitada da Sloane, mestiça da Lufa-Lufa? Como você disse, Darius, Artes das Trevas pode não ser um determinante de caráter, mas é um incentivo muito perigoso para ser usado." Lily fez uma pausa para respirar, organizando seus pensamentos. Entretanto, não teve a oportunidade de continuar, James aparentemente concluíra que ela já tinha acabado e resolvera iniciar a terceira rodada do debate, pondo-se a falar.

"Perigoso? Talvez, Lily, somente talvez. Para muitos pode ser uma tentação, mas você não está pensando na parte forte, que se posicionaria contra as Artes das Trevas ao invés de se empolgar com seu ensino."

"E você está fazendo justamente o contrário, subestimando a parte com idéias fracas, que poderia encontrar nessa situação a oportunidade de liberar seu lado mau, e desenvolvê-lo."

"Não se iluda, querida. A falta do ensino das Maldições não vai impedi-los de desenvolverem esse lado, tem certas pessoas que já tendem para ele." Disse Sirius Black, tomando o ponto do melhor amigo. Tinha uma certa amargura na voz, que seria mais notada se o sarcasmo não prevalecesse. Marlene imaginou se aquela era alguma referência sucinta à própria família, concluindo que, de fato, era. Conhecia os Black o suficiente para saber que eles se enquadravam exatamente naquilo.

"Sim, mas pra quê dar sorte ao azar? A ocasião faz o ladrão, quanto menos incentivos, maior a chance de essa tendência ficar adormecida por uma vida toda."

"Marlene..." Leslie Wallace se adiantou, interrompendo a discussão sem fim de antes. Sabia que aquilo não ia chegar a lugar algum, mas que nenhuma parte desistiria, e então embarcariam em uma batalha de egos maçante. Encontrou então, naquele momento, uma ótima oportunidade de mudar o foco. "Não me leve a mal, você falou que muitos decidiram lutar e que não têm o preparo ideal, mas, me diz, quem está realmente preparado para uma guerra? Você já parou pra pensar que o motivo dos Aurores se darem melhor do que você numa batalha não é por conhecerem as Artes das Trevas e sim por serem mais velhos e experientes? Você acaba de completar a maioridade, não tem nem sete anos completos de educação escolar, e eles anos de treinamento. De qualquer forma, se qualquer um for atingido pela maldição da morte no peito, eu te garanto que o efeito vai ser o mesmo. Eles podem até ter mais chances de não serem atingidos por seus reflexos serem mais desenvolvidos, por terem treinado muito como se esquivar, mas uma vez que atingidos, não tem outra: Não tem como se defender. Ninguém nunca sobreviveu e nem sobreviverá, não existe contra feitiço ou escudo páreo para um Avada Kedavra. Guerra, para nós estudantes, sem nenhum conhecimento aprofundado em magia, é pura sorte. O ensino das maldições não ajudaria em nada." Marlene contorceu todos seus músculos faciais, impedindo-os de formarem uma careta, erguerem a sobrancelha ou denunciarem, de alguma forma, sua opinião em relação às palavras recém dirigidas à sua pessoa. Leslie Wallace era irritantemente arrogante, justamente como Carole Gray havia dito mais cedo. Usava os argumentos contra seus próprios donos, distorcendo-os ao seu favor. Para uma menina que ainda debutante, era muito cheia de si, muito dona da verdade.

Lily mirou Marlene com olhar, encontrando-a ligeiramente inexpressível. Conhecendo-a como conhecia, e inteirada pela conjuntura na qual se encontravam, Lily teve a certeza de que a melhor amiga não estava nem perto de contente com aquilo. Sabia que o silêncio de Marlene era uma tentativa interna de autocontrole, e querendo evitar um possível desentendimento – além de aborrecida por ter sido cortada um pouco antes – voltou a falar, dando o assunto por encerrado.

"Eu, principalmente por não ser puro-sangue, também sou muito afetada por essa guerra. Também quero lutar, também quero prender quem machuca outras pessoas, também quero ver Voldemort cair. Mas nem por isso eu tô recorrendo a medidas extremas, nem por isso eu acho que expor adolescentes a Maldições Imperdoáveis é algo certo a se fazer." Lily mediu suas palavras, querendo que a introdução de seu ponto fosse amigável o suficiente para que pudesse começar a segunda parte sem soar ofensiva. "Parte do que vocês disseram" Voltou-se para James Potter e Sirius Black, olhando de um para o outro antes de continuar. "É, na verdade, puro comportamento adolescente. Eu concordo com vocês, em parte. Como todos aqui, eu, mais do que nunca, comecei a contestar tudo o que me é imposto diariamente. Comecei a contestar as regras que eu não concordo e a me perguntar por que as coisas são assim, se na verdade não deveriam ser. O Ministério deixou de ser a organização justa e correta que eu descobri quando fiz onze anos e se tornou apenas outro governo, como os do mundo trouxa, cheio de corrupção, tirania e injustiça. Eu não concordo com muitas coisas que eles fazem, assim como vocês, mas não acho que a solução é se revoltar contra o sistema e jogar a culpa de tudo o que dá errado pra cima do Ministério. É fácil encontrar um bode expiatório e condenar todas as atitudes de autoridades quando se tem a idade que nós temos, quando aceitar as regras que nós não julgamos dignas parece inconcebível. Difícil é deixar a rebeldia de lado e ver que o problema é bem maior do que o Ministério e suas hipocrisias, difícil é ceder, tentar se adaptar ao invés de atirar pedras em qualquer iniciativa. Quer nós queiramos ou não, fazemos parte do sistema, somos indivíduos únicos com formações e opiniões diferentes, Gregos e Troianos. A frustração da guerra cai em cima de todos, especialmente em nós, que estamos no auge dos dezessete anos, trancados em um colégio dez meses por ano, impedidos de fazer qualquer coisa a respeito por toda a sociedade. Parentes que se preocupam, sociedade que acha imprudente, Ministério que não nos julga capaz ainda. É revoltante, eu sei, mas essa frustração podia ser canalizada em algo produtivo, ao invés de jogada em cima de focos autoritários."

Lily terminou, respirando fundo para recuperar o fôlego de tanto tempo falando sem dar espaço para uma quantidade considerável de oxigênio no pulmão. Ficou contente com o monólogo, a idéia inicial era de acusá-los – sem ofender – de estarem se portando como jovens mimados que não aceitam regras impostas, jovens com impulsos contra qualquer forma de governo, facção com autoridade inquestionável, o que era até compreensível na idade e conjuntura. Saíra-se melhor do que imaginara, entretanto. E os colegas aparentemente ponderavam sobre o que haviam escutado.

"Você tá certa..." Ergueu os olhos, encontrando os de James Potter fixos nos dela. Castanho com verde, uma sensação de uma breve corrente elétrica percorrendo a espinha dorsal. Não teve tempo de se surpreender adequadamente, a expressão de Potter não suavizara e ele agora falava mais seriamente. "...em vários pontos, mas não todos. Justamente por não ser puro-sangue, você está em contato com o mundo-bruxo há menos de sete anos, Lily." Ela reprimiu o pequeno sentimento de alívio que sentiu ao notá-lo suavizar ao dizer seu nome, justificando mentalmente que só estava satisfeita por Potter ter voltado relativamente ao normal. Aquele tom sério não compunha a figura, não parecia certo. Imaginou então o que ele queria dizer com aquilo, tendo sua dúvida respondida logo em seguida. "Tem coisas que não são ensinadas na escola. Há um motivo para a resistência da sociedade em aceitar uma guerra. Todas das guerras bruxas são iguais, alguém poderoso o suficiente persuade uma minoria com ideais de uma raça superior, vai reunindo seguidores, seja por compatibilidade de valores ou por medo. Slytherin, Grindelwald, Voldemort... Milênio por milênio, século por século, a guerra entre bruxos é a mesma."

"Sim, Potter, é natural que as pessoas encontrem dificuldades em aceitar uma guerra-" Disse Lily, como se fosse algo óbvio, não entendendo onde ele queria chegar. Porém, foi interrompida por Liserre, cuja voz macia ecoou baixinho pela Sala Precisa.

"Não, Lily... A Profecia." Lily arqueou a sobrancelha, sem entender. Ouviu Sirius Black soltar uma gargalhada rouca, que mais parecia um latido. Tinha a expressão divertida, como se desacreditasse que o assunto tivesse chegado naquele nível.

"Tava me perguntando quando começaria a sessão sobrenatural." Comentou, cético. Lily não precisou perguntar em voz alta sobre o que trasgos estavam falando, alguém se apressou em explicar.

"A Profecia Suprema." Disse Leslie Wallace, de braços cruzados, ainda no colo de Sirius Black. Lily vasculhou em seu arquivo mental, tentando encontrar a familiaridade que aquela menção lhe causara, sem muito sucesso. Lembrou somente de Binns comentando sobre isso em seu primeiro ano, mas a verdade é que naqueles tempos ela estava ocupada demais deslumbrada com aulas como Transfiguração e Poções para dar o devido valor à História da Magia. "A primeira profecia feita." Lily agora lembrava vagamente do que se tratava, subitamente prestando mais atenção nas palavras da menina. "Merlin ficou devastado com sua própria profecia, e assim deixou a terra dos vivos e nunca mais voltou. Ele previu o que aconteceria em uma guerra bruxa que saísse das estribeiras. O lance é, uma vez que a guerra começasse a tomar proporções inimagináveis o mundo todo iria fugir do controle. Os trouxas, que são a grande maioria esmagadora, entrariam em pânico e eventualmente começariam a lutar entre sim e a se matar. Duendes, elfos e todas as criaturas mágicas não poderiam fugir da batalha pra sempre. Merlin previu que o mundo não ia acabar pela falta de água potável, pelo aquecimento global ou qualquer outro problema bobo que anda dando dor de cabeça para nós bruxos, e sim pelas nossas diferenças. Por não sermos tolerantes e aceitarmos que não somos iguais. Pela arrogância, prepotência. A cada guerra as coisas ficam piores, fica mais difícil fazer o controle de danos, fica mais difícil não envolver trouxas. Imaginem o caos que seria, as pessoas descontroladas se matando... Merlin previu o apocalipse." Leslie mediu o tom de voz, tentando não soar sensacionalista.

"E isso, é claro, é só uma lenda que os pais contam para os filhos antes de dormir, como lição de moral." Acrescentou Sirius Black, com um sorriso divertido. "Bom, não exatamente os meus pais. Eles na verdade pregavam que isso nada mais é do que puro sentimentalismo barato." Lily imaginou por alguns segundos como seria a família Black. Todos sabiam a importância deles na sociedade bruxa, seus valores e princípios – que ela particularmente considerava horríveis – e a influência que tinham, mas Lily começou a se perguntar em como isso refletia em Sirius Black. Ele podia até ter uma idéia deturpada do que é uma piada engraçada, um senso de humor um tanto quanto nefasto e uma indiferença a sentimentos alheios, mas não compartilhava da mesma opinião de sua raiz. Lily supôs que esse deveria ser um dos motivos de ter saído de casa e se juntado aos Potter.

"Sim, é uma lenda, mas eu não duvido que seja verdade." Lily duvidou que tivesse mesmo ouvido aquilo sair da boca de Liserre, uma vez que a amiga era sempre tão racional. "Eu acho provável que isso aconteça. Vejam bem, por que mais o mundo acabaria? Pragas? Falta de água? Aquecimento global? Pragas são difíceis de se controlar, mas não é impossível. Isolar área, mandar curandeiros especializados, iniciar quarentena... É chato, mas não é impossível. Nós temos meios de controlar o uso de água e impedir o aquecimento global, também. Os trouxas estão fazendo do nosso trabalho algo muito mais difícil do que deveria ser, mas ainda assim dá pra levar. Só consigo ver o mundo acabando com as pessoas se matando, em uma situação pior do que as guerras mundiais trouxas. É meio óbvio que se algum dia for acabar, vai ser por alguma questão desse gênero. Faz todo sentido." Lily ponderou um pouco, mas não teve tempo de formar uma opinião válida, já que James Potter retomou a palavra.

"Talvez, mas não é essa a questão. O fato é que a profecia é mais um motivo para as pessoas temerem uma guerra – como se já não tivessem motivos o suficiente. Não adianta apontar o que está embaixo dos próprios narizes se elas não querem ver. E, infelizmente, o preconceito contra nascidos trouxas ainda é muito grande. Por mais que tenha diminuído muito nesses últimos séculos, e, especialmente nas últimas décadas, ainda é algo presente que conta muito em dificultar a guerra. Ao mesmo tempo em que as pessoas não querem lutar a favor dos nascidos trouxas, também não concordam que eles sejam machucados, e ainda por cima, têm medo da guerra. É um conflito que, por ser complicado, leva as pessoas à inércia." Lily se virou ao ouvir o som de algo crocante e observou Dorcas Meadowes mastigando um bombom recheado, em pé na frente da mesa de comida, ainda os olhando extremamente interessada.

"Não adianta, nossa sociedade é preconceituosa, sempre vai ser." Disse, claramente sem se importar em contagiar os amigos com sua falta de otimismo. "Que foi? Só tô sendo realista." Murmurou entre uma mordida e outra do bombom, ao ver a cara de Alice.

"Eles não achavam que nascidos trouxas seriam admitidos em escolas antes, e, veja só, Dorcas... Agora a maioria dos colégios aceita. Na América tem até uma lei que exige cota de nascidos trouxas por escola." Gracus falou, caminhando na direção da menina para pegar uma coxinha.

"Que absurdo!" Exclamou Lily, indignada. Estava determinada a começar um discurso sobre como aquilo era absurdo, mas foi interrompida pelo outro gêmeo, Darius, na primeira frase: "Isso é combater preconceito com preconceito-"

"Exatamente. Mas relaxa, Lily, é a América. Ninguém considera a América, tudo lá é absurdo." Lily se aquietou, ouvindo o que ele tinha pra falar. Sabia que a única coisa que ganhava do preconceito contra bruxos Americanos era o preconceito contra nascidos-trouxas. Não entendia exatamente o motivo, era uma rixa velha e sem fundamento onde alegavam que a magia nasceu na Grã-Bretanha e que alguma família fugiu para a América muitos séculos depois, e, então, deu-se inicio a uma nova concentração de bruxos, com uma cultura parecida, porém questionável. "Eu entendo o preconceito." Muitas cabeças se voltaram para ele, descrentes do que haviam ouvido, e, desconcentrado, Darius tratou de se explicar melhor: "Não concordo! Só entendo. Nós, os bruxos, fomos os primeiros a surgir. Somos seres dotados de inteligência e poder. Não que isso nos faça melhor do que os trouxas, cada espécie tem seu valor. Mas a verdade é que somos capazes de fazer coisas que eles sequer imaginam e estamos sempre concertando os erros deles por termos essas condições. A real é que a maioria dos bruxos se sente superior aos trouxas, por menos que digam e por mais que pensem que não se sentem assim. É inconsciente em alguns casos. Entretanto, tem as famílias antigas e de sangue puro que valorizam isso acima de tudo, muitas vezes casando parentes para continuar a árvore da família. Isso mudou drasticamente nos últimos tempos, quando o número de bruxos começou a diminuir gradativamente e as pessoas começaram a se sentir ameaçadas. Muitas famílias hoje em dia não existem mais por conta do antigo preconceito. A situação tá mais controlada e os nascidos trouxas têm mais espaço na sociedade, e a tendência é isso melhorar a cada dia." Lily não pôde evitar um pequeno sentimento de decepção ao ouvir tais palavras. Ao descobrir a magia, seis anos antes, se deparara com um novo mundo, que primeiramente parecera perfeito. Havia encarado – ainda que inconscientemente – aquilo como uma fuga da crueldade humana, que tão bem conhecia no mundo trouxa. No entanto, com o passar do tempo começou a descobrir a realidade dos bruxos. Os podres da cultura, da sociedade. Descobriu, com muito pesar, que eles eram apesar de tudo... humanos. Com as mesmas limitações, defeitos e qualidades, e que aquele novo mundo era tão imperfeito quanto o outro. E aquela constatação de que estivera anteriormente errada em ter esperanças de uma realidade melhor doía, principalmente quando jogada em sua cara.

"Entendo quando você diz que nós deveríamos canalizar a raiva em algo produtivo, Lily. Aliás, acho que debater sobre esse tipo de coisa já é um bom começo, mas a nossa insatisfação com o Ministério não se limita na má influência dele na educação escolar, ainda temos Dumbledore pra aliviar esse lado." Disse James, sorrindo ao mencionar o diretor. Passou os olhos de pessoa por pessoa antes de continuar. "Toda a instituição é revoltante. No mundo trouxa se briga por dinheiro, no mundo bruxo por poder. É deprimente como o Ministério, ao invés de e começar a fazer algo a respeito da guerra que já matou dezenas de pessoas, está ocupado demais promovendo jantares, festas e homenagens, ocupado demais com a imprensa. No nosso mundo o passaporte para o sucesso é um sobrenome, tudo gira em torno de status. Isso é primitivo. É como se tivéssemos parado no tempo e parado de evoluir." Lily ouvia a crítica um pouco surpresa, absorvendo as palavras dele com interesse. "Poucos departamentos do Ministério realmente funcionam com justiça. É difícil não se revoltar contra um governo que ao invés de incentivar o estudo, a cultura, a defesa, etc, está mais preocupado em gastar os fundos em construções majestosas. Vocês sabiam que tem cota para Aurores? Não é qualquer um que pode chegar e se inscrever para o treinamento, são só vinte vagas anuais para centenas de bruxos. É, é claro, os com mais contatos se classificam. São três anos de treinamento intensivo e muito puxado, sendo muitas vezes insuportável. Vocês tem noção que menos da metade se forma, no final das contas? Todo ano temos menos de dez Aurores novos. Tudo isso por quê? Porque o Ministério alega não ter dinheiro o suficiente pra pagar mais do que X salários e treinamento pra mais de 20 pessoas, quando todo mundo sabe que a única coisa que não falta no mundo bruxo é ouro. Que tipo de coisa eles devem fazer pra temerem tanto uma revolução? Quem não deve não teme. Claramente a pouca quantidade de Aurores se deve ao medo que o Ministério tem deles se rebelarem, e não pela falta de necessidade. Com esse desfalque, muitos bruxos são pagos por fora para ajudarem." Lily sentiu uma pontada astronômica de raiva, enquanto seu estômago revirava. Por mais que todos soubessem que os Aurores andavam há um bom tempo insatisfeitos, essas coisas não saíam nos jornais, eram abafadas. O novo ministro, Geronimus Brown, era neurótico e completamente apaixonado pelo poder. As novas medidas de seu governo frustravam grande parte da população – por isso a paranóia.

"Muitas pessoas estão descontentes com o Ministério, não somos os únicos." Comentou Remus, observando Gracus Sian voltar ao seu lugar com um brioche em mãos. Seguiu-o com olhar até que ele se sentou, certificando-se de identificar os gêmeos. "Sendo esse novo governo bom ou não, não importa. Não foram eles que decidiram que as Maldições Imperdoáveis não deveriam ser ensinadas. Eu ouvi tudo o que vocês disseram e mudei minha opinião." Sirius mirou Remus com um olhar descrente. "Não sou a favor. Nem contra. Sou indiferente. A verdade é que eu não acho que o ensino, ou a falta dele, fazem alguma diferença considerável. Todo mundo conhece as maldições. Por mais que seja interessante, não é nada que vá nos ajudar a nos defender contra, nem acrescentar algo que a gente não saiba. Só é interessante. Ou seja, ao meu ver não faz diferença nenhuma elas serem ou não ensinadas." Finalizou, sorrindo envergonhado ao notar a expressão de Leslie, que denunciava seu aborrecimento por ele ter praticamente cuspido em cima de todo o debate. No entanto ela sorriu, encantada pela simplicidade da opinião. "Dorcas, pega uma coxinha pra mim?" Pediu, aproveitando a oportunidade de não estar interrompendo a fala de ninguém.

"Um galeão." Brincou a menina, direcionando seus dedos de unhas imensas – que Marlene observou com nojo – a uma cumbuca de salgadinhos. Tinha um copo de suco de laranja na outra mão.

"Posso pagar com o corpo? Tô meio duro ultimamente." Revidou Remus, fazendo com que Lily sentisse um pouco de falta das rondas noturnas com ele. Remus, embora um pouco tímido no começo, tinha um senso de humor impagável, além de compreender intuitivamente o que se passa com as outras pessoas. Lily acabara se aproximando muito do maroto nos anos anteriores, por terem dividido a monitoria. Anotou mentalmente que deveria se esforçar para que não se afastassem durante esse último ano.

"Claro que pode. Se estiver duro, melhor ainda." O comentário final de Dorcas foi presenteado por várias gargalhadas. Remus ria, um pouco desconcertado, sendo esse mais um motivo para as risadas altas de Potter e Black, que ecoavam pela Sala. Os gêmeos, Marlene e Leslie riam – não com tanta intensidade. Pettigrew e Alice pareciam ser os únicos que não haviam entendido a piada, conservando um semblante de dúvida. Lily constatou um pouco surpresa que só ela, Frank e Liserre não haviam achado muita graça. Não que não tivesse um quê de graça, até tinha. Mas era o tipo de coisa que não se esperava que uma menina dissesse na frente de uma dúzia de pessoas. Com certeza um pouco sem noção.

"Então... Mais alguém quer falar alguma coisa?" Disse Remus, interrompendo as risadas e voltando ao final do debate. Pegou a coxinha da mão de Dorcas, estendida em sua direção. Dorcas sorriu demoradamente pra ele, por fim sentando-se ao seu lado. Mordeu o salgadinho, olhando para os colegas em busca de alguma resposta, que não veio. "Bom, eu acho que não." Concluiu o óbvio, dando mais uma mordida na coxinha rica de recheio. "Ok, pra finalizar, tem a última parte, que eu não mencionei nas regras porque achei que pudesse, sei lá, talvez alterar a postura de alguém." Lily arqueou as sobrancelhas, sem entender. "Quem mudou de idéia?" Lily sorriu, entendendo o que ele queria dizer. Se antes soubessem que no final poderiam mudar de idéia, as pessoas teriam se empenhado mais em mudar a opinião dos outros. E esse tipo de empenho teria sido o suficiente para uma guerra de egos, que já era uma opção em potencial sem uma competição registrada. Devido ao grupo que ali estava, Remus fizera bem em deixar essa parte por último.

"Eu." As cabeças de voltaram para Darius Sian. "Não acho mais que deveria ser ensinado." Sorriu, desviando os olhos para os próprios pés, deixando bem claro que não pretendia se estender no assunto ou dar qualquer tipo de motivo.

"Também mudei de idéia. Concordo em parte com o que você disse, sobre o ensino não fazer muita diferença." Liserre se manifestou, levantando os olhos para encontrar os de Remus. "Mas não acho legal correr o risco de incentivar ainda mais Nott, Mulciber, Snape, etc." Dorcas apoiou o rosto no ombro de Remus, virando-se para ouvir a oração final de Liserre, que desviou os olhos dos dois depois da dita atitude. Lily sorriu vitoriosa, feliz por ter conseguido converter duas pessoas ao clube dos não a favor do ensino das maldições.

"Acho que terminamos o primeiro debate, então. Agora só falta a Lily decidir alguém pra escolher o tema do próximo." Lily sentiu todos os olhares caírem sobre si, esperando uma resposta. Passou os olhos de pessoa por pessoa, não sabendo quem escolher. Sentiu-se tentada a escolher Leslie Wallace, que parecia ter idéias fortes, mas lembrou-se que não seria legal com Marlene - não depois do fora que a pirralha lhe dera um pouco antes. Black sorria convidativo, e aquele era o sorriso mais bonito que Lily já o vira dar – talvez, quem sabe, por ser pra ela. Contagiada, considerou sensivelmente indicá-lo, mas decidiu-se por outra pessoa.

"Liserre." Sentenciou, não como uma forma de presentear a amiga por ter mudado de lado, e sim como uma forma de mostrá-la que estava feliz com ela por tê-lo feito. Liserre refletiu um pouco, envergonhada por ter todas as atenções para si, chegando a uma decisão rápida.

"A máxima pena no mundo bruxo é receber o beijo do dementador, e, em penúltimo caso, prisão perpétua. Vamos discutir se somos a favor ou contra desses veredictos e se pena de morte deveria ser implantada no sistema legal." Lily anotou mentalmente os três tópicos com uma pontinha de ansiedade para o próximo debate. Observou Sirius Black, James Potter e Peter Pettigrew se dirigirem à mesa de comida, comentando sobre o futuro tema. Alice, Frank, Gracus e Darius embarcaram em um diálogo que não estava na linha de audição de Lily. Remus e Dorcas Meadowes conversavam em tom baixo, bem próximos, fazendo com que Lily se adiantasse a falar alguma coisa com Liserre, atraindo a atenção da amiga pra ela e não para Remus. Marlene se levantou, um pouco alheia da conversa. Parou ao lado de Sirius, perto da mesa de comida, pegando a jarra de água para se servir. No entanto, o menino parecera ter a mesma idéia no mesmo momento, fazendo com que suas mãos se encontrassem por um breve segundo, até Marlene puxar a sua de volta, evitando um contato prolongado. O breve momento de encontro da mão quente de Sirius Black na sua já fora o suficiente para que seu interior de contorcesse em um prazer desconfortável. O observou servi-la de água com um sorriso de canto.

"Pajeando?" Lançou, tomando um longo gole de água, fitando o copo para evitar olhá-lo nos olhos. Ao fazê-lo, porém, um rastro de desentendimento não lhe passou despercebido, e querendo fazer-se mais clara, indicou Leslie Wallace com o queixo. Sirius riu meio rouco, roubando o copo da mão de Marlene e levando-o a sua própria boca, tomando o resto de água em um só gole.

"Linda, né? Ela acha que é gente vindo aqui e argumentando." Disse, se referindo a Leslie. Marlene concordava em gênero, grau e número – exceto quem sabe pelo linda, que ela evitaria. Leslie Wallace parecia se achar gente grande para uma pirralha de quinze anos. Não que ela fosse mais de dois anos mais nova que Marlene, mas, aaah... Dois anos faziam muita diferença. O único porém da oração bem formulada de Sirius fora o tom pelo qual ele a proferira, com uma especiezinha de orgulho, e, talvez, argh... carinho. Desnecessário, ela constatou.

"Um amor." Opinou, transparecendo o sarcasmo. Não tinha exatamente tentado escondê-lo em sua voz, na realidade.

"Ciúmes, Lene?" Indagou Sirius, petulante, observando a menina se servir novamente de água.

"Talvez, um pouco." Admitiu, sem muita hesitação. Sentia-se ridícula por ter ciúmes de Sirius Black, que não era seu namorado, nem amigo colorido, nem amigo em potencial, e, acima de tudo... Sirius Black. E ainda que não soubesse se aquilo era ciúmes de fato, sabia que um sentimento bom não era, e não tinha motivos para esconder o que tornara tão óbvio.

"Que ótimo." Registrou, colocando uma das mãos na nuca de Marlene, entrelaçando os dedos nos fios de cabelo dela, dando uma puxadinha de leve.

Marlene sentiu o contato dos dedos quentes em sua nuca, estremecendo ao simples toque. Teve que respirar fundo para que seu coração não começasse a bater de forma descompassada quando Sirius puxou suavemente seu cabelo, aproximando seus rostos, sem pressa. Ele passeava os dedos pela pele fina do pescoço dela, fazendo um caminho até seu rosto, acariciando sua bochecha rosada com o polegar. Estavam muito perto. Muito perto. Marlene podia sentir mais que somente a fragrância do perfume dele, agora sentia o contraste desta com o cheiro do shampoo, que, embora fraco, compunha o conjunto. Umedeceu os lábios com a ponta da língua, perdida na imensidão que era os olhos de Sirius Black. O turbilhão de sensações que aquele olhar naquela proximidade lhe causava era o bastante para que desistisse de compassar as batidas do coração apenas respirando profundamente. Decidiu desviar o olhar, e numa tentativa fracassada acabou os pousando nos lábios entreabertos de Sirius. Lábios esses que estavam cada vez mais próximos dos seus. Sentiu sua cintura sendo envolvida pelo braço livre do maroto, e agradeceu mentalmente por isso, uma vez que suas pernas estavam ligeiramente enfraquecidas e um apoio viera em bom momento, principalmente porque podia sentir o corpo dele encostando-se aos poucos no seu, e o perfume embriagá-la de vez. Sentiu um arrepio se chocar com os músculos delineados do peitoral dele, fechando os olhos e respirando com certa dificuldade, amaldiçoando a demora. "Te vejo hoje na festa."

Abriu os olhos, porém, ao sentir um beijo que mal durou um segundo ser depositado no extremo de sua boca, mais conhecido como trave. Reprimiu um gemido frustrado ao senti-lo se afastar com tudo, retirando a mão de seu rosto e de sua cintura, e sem mais nem menos e após roubar o copo de água que estava na mão dela pela segunda vez, se dirigiu ao sofá onde Dorcas e Remus conversavam. Considerou maldosamente não ir à festa só pra se vingar do que acabara de acontecer, mas concluiu que isso não só o prejudicaria, mas a ela também. Parou de segui-lo com o olhar, não querendo transparecer mais ainda a insatisfação, e resolveu fazer o que mais alivia uma frustração: Comer.

Lily observou de camarote com certa incompreensão alguns segundos do relacionamento de Marlene e Sirius Black, constatando que a amiga estava em maus lençóis. Levantou-se disposta a honrar seu cargo de melhor amiga para todas as horas e consolar Marlene, com o discurso de que depois de uma derrota sempre vem uma vitória. Liserre, Alice e Leslie estavam entretidas imaginando quem apareceria na festa mais tarde, e, portanto, não sentiriam sua falta. Dirigiu-se até a mesa de comida, passando por Potter e Pettigrew que riam de alguma frivolidade qualquer.

"Lily." Chamou Potter, se adiantando em sua direção. Ela deu meia volta para atender ao chamado a tempo de ver Pettigrew a caminho do banheiro, cheio de comida na mão. Estava bem humorada. O debate havia sido bem melhor do que ela imaginara, e estava genuinamente feliz por ter participado e se divertido com os outros, e, por menos que gostasse de admitir, Potter havia subido no seu conceito com tudo o que dissera. Considerando isso, sorriu, surpreendendo-se por não ter tido que se esforçar para isso.

"Parece que eu acabei com você no debate." Disse, resultado de uma tentativa de reunir palavras no intuito de formar uma frase simpática. Não que o conteúdo se adequasse bem no conceito simpatia, mas seu tom de voz com certeza o fez, levando Potter a sorrir. Não respondeu, no entanto. Sabia reconhecer quando uma pessoa estava se esforçando e sabia que se não medisse as palavras todo o esforço seria em vão. Resolveu, por fim, apelar para a sinceridade.

"Fico feliz por você ter vindo." Singelo. Fofo. James Potter deus as costas, deixando Lily para trás, olhando para onde ele antes estivera com um misto de confusão.

"O que foi isso?" Perguntou Marlene, desistindo de descontar suas frustrações na comida.

"Não sei." Respondeu Lily, com sinceridade.

"Quer falar sobre?"

"Não. Definitivamente não."


N/A:

Finalmente o primeiro debate! Confesso que o resultado dele foi bem inesperado, bastante diferente do que eu imaginei... mas eu gostei. Espero que vocês tenham gostado também! No meu perfil eu coloquei a propaganda do Remus, e como disse na N/A final do capítulo anterior, tem também no perfil uma mini-planta da Sala Precisa, pra vocês se situarem melhor.

A música do capítulo é Revolution, dos Beatles, e tem uma hora que o Sirius cita Strawberry Fields, também deles, durante sua vez no debate. O próximo capítulo tá quase pronto também, e é a festa! Espero que vocês não me matem com o final dele hahaha e do próximo também. Queria agradecer, mais uma vez, minha beta Satty. Sem ela os capítulos seriam um graaande caos. Eu adoraria também, se possível, que vocês comentassem depois de ler os capítulos dos debates se são a favor ou contra. Adoro saber a opinião de vocês.

E, bom, tem uma última coisa que eu queria dizer... Queridas, tenho que ser honesta com vocês: Demorei pra postar por pura falta de motivação. Como eu disse na última N/A, esse capítulo tava pronto e eu pretendia postar em uma semana. Entretanto, eu desanimei. Foi o capítulo que menos recebeu reviews, o que me deixou além de desmotivada, super confusa. Eu continuo recebendo e-mails do de pessoas que favoritaram a fic (obrigada!) e fico acompanhando os hits, que são elefantescamente maiores que o número de pessoas que comenta.

Quem leu até aqui já perdeu bastante tempo, deixar um review não tomaria nem um décimo desse tempo todo. É bom receber críticas, opiniões, elogios, interagir com o leitor e ver que você não está postando pro além. É gratificante ter seu trabalho (acreditem, é trabalhoso) reconhecido, dá muita motivação para continuar.
Eu sei que muitas pessoas tem preguiça de perder dois minutos comentando, ou compartilham do mesmo pensamento que: "Ah, mas o que é o meu comentário no meio dos outros? Nem faria diferença", mas acreditem, faz. Faz muita diferença. Se eu tô escrevendo isso aqui agora é porque faz. Cada comentário tem seu valor, cada leitora é especial da sua maneira. No final das contas, não é só pra mim que eu escrevo, é pra vocês também! =)