Capítulo 4

Grantaire acordou no dia seguinte com um copo de água na sua cabeceira e duas aspirinas separadas junto. Tomou-as sem pestanejar.

- Ei, obrigado. – Sorriu ao ver Enjolras atravessar o quarto, arrumando um cachecol em volta do pescoço, quase pronto para sair para a sua aula

- De nada. – Dessa vez foi fácil para o loiro retribuir o sorriso, considerando o quão nervoso estava antes. – Está se sentindo melhor?

- Um pouco, desculpe, mas... Você poderia fechar as persianas para mim? Está claro demais. – Fez uma careta que só se suavizou quando o outro obedeceu. – Eu acho que eu te devo desculpas por ontem.

Enjolras tentou fingir indiferença.

- Pelo quê? Você se lembra do que disse?

- Na verdade não, mas pela sua expressão, eu pressinto que não foi nada muito legal. Olhe, eu recebi uma notícia ruim que eu não estava esperando e, posso ter acabado despejando tudo em cima de você, então, desculpe.

Enjolras assentiu com a cabeça, já tinha imaginado que se tratasse de algo assim, e sentou-se na cama com o amigo, a uma distância previamente calculada como segura.

- Tudo bem, mas Grantaire, essas coisas não te fazem bem. Você confiou em mim ontem o bastante para me contar sobre as suas... coisas e na hora eu não reagi de acordo, mas eu quero que você saiba que eu agradeço por ter compartilhado algo tão pessoal, por ter me julgado merecedor de...

- Você é a pessoa mais merecedora que eu conheço. – Grantaire o interrompeu e Enjolras levantou uma das mãos para pedir silêncio e fechou os olhos, respirando fundo.

- O que eu quero dizer é que você sempre pode conversar comigo, ou com um dos outros caras, ao invés de ir se afogar na bebida. Olha, todo temos problemas, eu sei disso e eu sei que é difícil, mas você não precisa enfrentá-los sozinhos.

- Na verdade, eu tenho sim. – Grantaire sorriu para ele. – Ou você iria passar o natal comigo para eu te apresentar aos meus pais como meu namorado e mata-los do coração?

- Você vai para casa nesse recesso. – Enjolras finalmente entendeu.

- Pois é. – Deu de ombros. – E hoje a noite ainda.

- Tem alguma coisa que eu possa fazer por você, além da parada do namorado? – O loiro sorriu para ele e se deu conta que era a segunda vez que o fazia em menos de quinze minutos. Não pensou no que isso significava.

- Na verdade, sim, você pode dizer que vai sentir saudades de mim.

- Sua ausência com certeza será notada, o quarto vai ficar mais limpo também...

- Não perguntei por isso. – Grantaire levantou o indicador, balançando-o negativamente bem no rosto do amigo, até apertar-lhe o nariz.

Enjolras pensou em morder-lhe o dedo em reprimenda, mas então pensou que isso seria algo realmente estúpido a se fazer, depois pensou que pegaria mal e só então pensou por que, por que diabos ele tinha pensado em fazer tal coisa em primeiro lugar. Acabou mordendo o próprio lábio.

- Então?

- Sim, eu vou sentir a sua falta. – Enjolras surpreendeu-se com o quão fácil a confissão lhe saiu, mas nem parou para pensar nisso porque o moreno estava sorrindo e ele teve que focar toda a sua energia em não sorrir de volta, e em simplesmente dar de ombros.

- O que aconteceu com seus óculos? – Grantaire cruzou os braços, parecendo genuinamente curioso.

- Guardei já.

- Mas eu gostava deles. – Chegou a fazer beicinho. – Eu queria brincar com eles.

- Exatamente por isso, agora cale-se porque eu tenho aula. E você também tem, eu vi o seu horário, vamos, vamos, vamos. – Puxou-o para cima, ignorando o gemido que o amigo soltou.

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Enjolras não teve tempo para sentir saudades, pois uma semana depois da despedida, ele o encontrou deitado na cama, uma garrafa de vodka na mão e uma no chão, as malas fechadas jogadas em um canto do dormitório. Grantaire não parecia nem tê-lo notado entrar de tão entorpecido e o loiro se forçou a dar o primeiro passo:

- Você está bem?

Grantaire pulou de susto, mas virou-se imediatamente para encarar o outro, com olhos arregalados e nublados pelo álcool. Parecia confuso, sem conseguir entender se o rapaz a sua frente era uma alucinação, uma miragem ou real, e decidiu que a primeira possibilidade era a mais provável; não seria a primeira vez que sonhava com o loiro, nem seria a última.

- Você voltou mais cedo. – O loiro parecia preocupado.

Era sua imaginação então, Grantaire decidiu e riu consigo mesmo. Quão engraçado era que toda a bebida tenha atingido o seu cérebro antes do fígado? Resolveu saciar a própria loucura e respondeu:

- É, eu só, bom, eu finalmente tomei coragem pra contar pros meus pais do que eu gosto, de quem eu gosto. Eles me mandaram de volta.

Enjolras sentou-se ao seu lado, empurrando as pernas do moreno para fora da cama. O toque despedaçou a certeza do outro de estar alucinando e ele sentiu suas bochechas ferverem, não de vergonha, mas sim de raiva pelo que acabara de confessar.

- Por que você faria isso? – Enjolras perguntou, mesmo já conseguindo formar uma ideia do que acontecera, sabendo que existia uma razão pela qual Grantaire não havia mencionado os pais nem uma vez o ano inteiro.

- Por sua causa. – O moreno respondeu e Enjolras prendeu a respiração. – Acho que me deixei... Contagiar? – Pausou por um momento, pensativo. - Não, não contagiar, con... contaminar, isso! Deixei-me contaminar por suas idéias de um amanhã melhor, sem preconceito ou tirania ou... Eu não sei, eu só pensei, deus, eu sou um idiota. – Levou a garrafa mais uma vez aos lábios sabendo que seria melhor para todo mundo se ele simplesmente parasse de pensar.

- Você não é. – Enjolras respondeu, recebendo aquele riso forçado que ele tanto odiava. – Você não é um idiota. – Repetiu, agora mais alto, para que fosse entendido. - Eles são.

- Bom, sim, todos eles são, o mundo inteiro é repleto de idiotas e não é uma revolta de dez estudantes que vai mudar isso! – Erguendo novamente a garrafa, tomou o maior gole que conseguiu, tomando seu tempo, pois sabia que o loiro já tinha o mesmo velho discurso revolucionário na ponta da língua.

Enjolras apenas cruzou os braços.

- Se nada vai mudar, se nada nunca muda... – Bom, isso era diferente, pelo menos. Parecia que Enjolras também prestava atenção no que ele falava. - O que você gostaria que eu fizesse, então? Você gostaria que eu me conformasse e passasse os restantes dos meus dias tentando esconder minha covardia atrás de garrafas e de cinismo?

– Quando foi a última vez que você se divertiu, Enjolras? Quando foi a última vez que você saiu para beber socialmente com seus amigos, ou fez sexo? Você é virgem? Porque você cora como um! Onde foi a última vez que você apalpou os peitos de uma garota, ou até o pau de um cara... Por baixo da calça, por cima da cueca? - Chegou a grunhir de tanta frustação, adivinhando a resposta. - Eu gostaria que você vivesse, Enjolras, eu gostaria que você vivesse antes de morrer por um sonho que nunca vai se realizar.

- Isso é viver? Isso é parâmetro para felicidade? – Enquanto o tom de Grantaire diminua a cada palavra, até a última não passar de um sussurro, o de Enjolras aumentava, inconformado com a futilidade do que acabara de ouvir. Existiam coisas maiores do que isso, coisas mais importantes, pelas quais valia a pena lutar.

- Talvez não para a felicidade, mas definitivamente para o prazer.

Enjolras teria rido, se não estivesse tão enfurecido. A frase de seu amigo conseguia carregar tudo que ele mais desprezava pela geração atual de jovens; esse imediatismo ridículo que levava as pessoas a tomarem o caminho mais rápido, o mais fácil, buscando uma recompensa efêmera ao invés de procurar construir algo que fosse forte e duradouro, ele odiava também até essa convicção absurda que o amor não importava, ( e Enjolras não se referia apenas ao amor romântico porque ele não era Marius, mas a todo o tipo de amor, amor por um irmão, por um amigo, amor pelo país onde todo os seus irmãos e amigos vivem.)

–Ah, é? Porque eu me lembro bem da última vez que você foi beber socialmentecom os amigos e acabou com a cara na privada, eu sei quando foi a última vez que você fez sexo também e você não parece feliz, seu idiota, você não parece nem satisfeito, você parece horrível e quebrado e... Olhe no espelho! Olhe para você e repita suas palavras, eu lhe desafio, Grantaire, vamos! – Chegou até a gritar, tomando a forma como o amigo recusava a manter o olhar como incentivo. Mas o único barulho que seguiu sua explosão foi o de sua própria respiração ofegante porque o moreno não obedeceu, ele não disse nada, ele não riu.

Grantaire apenas ergueu o rosto, em tom desafiador, para encará-lo de volta, mas não conseguiu manter-se por muito tempo. Sentia os olhos arderem com lágrimas que ele não se permitiria chorar, não naquele momento, não na frente do outro; e virou-se, desviando o olhar, receoso que Enjolras visse a fraqueza brilhando nas suas órbitas azuis.

- Eu... – Mas parecia que tinha sido tarde demais. – Eu sinto muito, eu não quis...

- É, é, tanto faz. – E tanto fazia mesmo. Grantaire também sentia muito, mas de que isso adiantava? De que servia a maldita complacência na voz do outro? Ele se levantou rapidamente, a garrafa de vodka ainda em sua mão. – Vou dar uma volta.

- Você não pode fugir para sempre. – Pelo menos não havia mais pena em sua voz, apenas uma leve irritação.

- Me observe. – Grantaire riu, antes de fechar a porta atrás de si.

Claro que ele riu. Maldito seja. Enjolras chutou a cama.

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O barulho de seu celular vibrando contra a cabeceira foi o suficiente para fazer Enjolras desistir de tentar dormir, não estava conseguindo mesmo; mas não o atendeu de imediato. Podia ser Grantaire, muito provavelmente era Grantaire pois seu colega de quarto era o único idiota que ligaria pra ele as duas e vinte da manhã. Não podia negar que estava preocupado, mas seu orgulho não queria que ele soubesse disso, então forçou-se a deixa-lo tocar mais duas vezes. Na terceira quase voou para cima do celular, sem conter a ansiedade.

- Sim? Éponine? O quê? – Levantou-se ao ouvir a voz da garota. Não costumava a receber ligações dela. – Droga! Estou indo até aí, onde vocês estão? – Pegou a chave do dormitório com uma das mãos e um casaco com a outra. - Aquele idiota!

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- Onde coloco ele? – Enjolras voltou ao dormitório carregando um Grantaire inconsciente nas costas assim que Éponine abriu a porta para eles.

- No banheiro, pressinto que ele vai ter muito que vomitar quando acordar. – A garota acendeu as luzes e seguiu o aceno de cabeça que ganhara como resposta.

Enjolras obedeceu, sabendo que estaria completamente perdido sem as orientações dela. Ajoelhou-se no chão de ladrilhos, fazendo o moreno sentar contra o chuveiro. Escutou a água correndo por um minuto e ergueu o rosto bem a tempo de ver Eponine jogar um copo de água fria no rosto de Grantaire, que chegou a franzir as sobrancelhas e a murmurar algo incoerente, mas sem abrir os olhos.

- Respinguei em você? Desculpe. – Ela pediu, forçando um sorriso.

- Tudo bem.

- Não, sério, desculpe por ter te acordado, é só que todo mundo viajou essas férias e eu não sabia pra quem ligar. – Ela abriu a torneira para preencher o copo uma segunda vez.

- Não, tudo bem. – Enjolras engoliu em seco, imaginando que, se pudesse, Éponine teria ligado para outra pessoa para pedir ajuda e ele nem teria ficado sabendo do estado do amigo. Sentiu o coração apertar.

Ela jogou mais uma vez água na cara dele, que dessa vez tossiu, arregalando os olhos.

- Passou da conta hoje, hein, R? – A morena também ajoelhou-se do lado dele, vendo que finamente acordara.

- Acho... Acho que vou passar mal. – Foi tudo que ele conseguiu responder.

- Sim, vamos lá. – Ela puxou-lhe o braço pra cima, deslizando o outro pela cintura do moreno e guiando-o até o vaso sanitário. – Agora, com calma, não quero que você se afogue no próprio vômito.

- E por que não? É assim que morrem os grandes astros do rock. – Grantaire ainda tentou rir, mas teve que cobrir a boca com a mão, assim que sentiu a bile subir pela garganta.

- Mas só aos vinte e sete anos, você ainda tem algum tempo. – O sorriso desapareceu de seu rosto ao ouví-lo passar mal, mas ela começou a desenhar pequenos círculos nas suas costas para confortá-lo de alguma maneira.

- Você é um idiota! – Enjolras não tinha essa preocupação. – Essa é a sua resposta para tudo? Eu não acredito... – Não conseguiu completar a frase. – Eu não consigo acreditar!

- Vamos pegar alguma coisa pra ele comer depois, certo? Um pouco de glicose vai fazer bem. – Eponine se levantou, quase arrastando o loiro pelo braço para fora do banheiro. – Pelo menos espere até ele ficar sóbrio para dar a bronca. – Sussurrou.

- O que seria nunca. – Enjolras forçou uma risada e a odiou.

- Todos temos dias ruins, você não pode culpa-lo por isso. Agora, o que vocês têm aqui? Algum biscoito?

- Acho que na geladeira deve ter chocolate. – Ele suspirou fundo e deu de ombros, sentando-se na cama. – E sim, todos temos dias ruins, mas eu não saio por aí me embebedando como se não houvesse amanhã.

- Não seja difícil, Enjolras, todos temos nossos vícios.

O loiro começou a balançar a cabeça negativamente, mas teve que se dar por vencido, ao lembrar-se de ter passado duas noites em claro a base de café e redbull discutindo política com Combeferre.

- Sim, acredito que sim. Obrigado por tudo, Éponine, não quero incomodá-la mais ainda.

- Tudo bem, já estou acostumada a lidar com bêbados. – Tinha algo de triste no sorriso dela que impediu Enjolras de retribuir. – Mas seja legal com ele, eu sei o quanto é ruim sofrer de amor não correspondido.

Enjolras começou a concordar com um aceno de cabeça, pensando em Marius, que nunca sequer tinha olhado duas vezes para a amiga, mas que, conforme dizia seu último e-mail, tinha se apaixonado por uma garota que acabara de conhecer durante o recesso. Esse amor traria problemas para ele e para todos, o loiro sabia bem; amor só trazia problemas, aliás. Ele mesmo não precisava de uma distração, não agora quando a data do protesto se aproximava cada vez mais, e Grantaire definitivamente não precisava de outro vício. Imerso nos seus próprios pensamentos, Enjolras ainda demorou um pouco mais para captar o verdadeiro significado das palavras de Eponine. Quando finalmente entendeu, achou que fosse morrer de tão rápido que sentiu o coração disparar.

- O que você quer dizer com a.. amor não... – Gaguejou e forçou uma tosse no final, tentando recuperar a compostura.

- E ele que é o idiota. – Eponine sorriu pra ele e dessa vez seu sorriso era grande e verdadeiro, mas Enjolras tampouco conseguiu retribuir. – Apenas prometa pensar sobre isso, certo?

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- Vamos, para a cama. – Enjolras guiou o amigo até a cama, um braço envolvendo-lhe os ombros e o outro, a cintura, para impedir que ele tropeçasse nos próprios pés, caísse de cara no chão e resolvesse dormir lá mesmo. Mas desde que Eponine saiu, desde que ela pedira pra ele pensar no que dissera, Enjolras não conseguia tirar aquelas palavras da cabeça e tudo isso o deixava mais alerta para o quão perto estava do moreno. Eles estavam muito, muito perto, a respiração pesada e quente de Grantaire incidia contra o seu pescoço, incendiando o sangue que corria por suas veias.

Enjolras praticamente derrubou-o na cama. Grantaire grunhiu alguma coisa incoerente, enquanto agarrava o travesseiro em uma posição que parecia ser desconfortável.

- Grantaire. – O loiro suspirou fundo e empurrou-o de leve de modo que pudesse sentar no colchão. – Ei. –Insistiu até que o outro se sentou para poder encará-lo. - Nós precisamos conversar.

- Agora?

Se conversassem agora, Grantaire provavelmente não se lembraria de nada no dia seguinte. Era um pouco tentador.

- Não, não precisa ser agora. – A própria voz lhe pareceu fraca, derrotada, de um jeito que ele nunca achou que poderia soar, aos ouvidos.

- Okay. – O moreno fez menção a voltar a deitar, mas dessa vez trocou o travesseiro, jogando-o longe, pelo colo de Enjolras, que congelou no ato. – Você cheira bem, Apollo. - Ergueu uma das mãos até alcançar um dos cachos loiros do estudante de história e começar a brincar de enrolá-lo no dedo.

Mas Enjolras não conseguia ouví-lo, não quando tinha as palavras de Eponine gritadas repetidamente em sua cabeça. Ele fechou os olhos e jogou a cabeça pra trás, apoiando-a contra a parede, sentindo-se exasperado com a própria confusão, não tinha forças nem para manda-lo parar, então não o fez.

- Nós realmente temos que conversar amanhã.

- Okay. – Grantaire assentiu e continuou com os dedos.

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Enjolras acordou no dia seguinte com uma dor nas costas por ter dormido sentado, mas imediatamente alertou-se ao não notar nenhum sinal de Grantaire por perto. Soltou a respiração que nem sabia que tinha prendido quando o viu sair do banheiro.

- Bom dia, comprei um café para você. Noite ruim? – Ele sorria tranquilamente, já sem o menor resquício do quão acabado estava.

- Como você pode não estar de ressaca?

- Acho que eu ainda estou um pouco bêbado da noite passada. – Riu. – Bom, acho que vou ter um dia muito interessante hoje, Jean acabou de voltar e pediu para eu ir mostrar para ele meus desenhos. – Pegou sua pasta e acenou com a cabeça sua despedida, a porta já aberta.

- Grantaire... – Enjolras chamou, mas sentiu as palavras morrerem em sua garganta.

- Sim?

- Só... Obrigado pelo café.

- De nada. - O moreno sorriu e Enjolras forçou-se a retribuir.

Eles não conversaram.

Continua...

N/A: Lorena, linda, muito obrigada pela review hihihihi espero ter esclarecido um pouco nesse capítulo.