Capítulo 2: Um Diário Na Vida

•‡•‡•‡•

Gina achou a senha para a sala comunal da Sonserina facilmente. Uma simples poção polissuco a fez se transformar em uma das amigas de Pansy Parkinson e a acompanhou até a torre da Sonserina quando Pansy "esqueceu" seu pergaminho de adivinhação (Gina "pegou emprestado" da grande mochila de livros dela mais cedo). Tendo vestido a horrível pele da garota (ela tinha um nome parecido com Vile ou Vomito, e ela estava irritada por não lembrar o tal do nome) Gina se viu tomando um banho extralongo antes de focar no jantar de Draco.

'Janta' consistia em Gina pegando um pouco de comida dos elfos domésticos na cozinha. Eles estavam felizes em ajudá-la e com sua varinha, ela foi capaz de manter a comida quente enquanto ela tirava a sujeira sonserina de sua pele.

Saindo escondida nos corredores e passando pelas escadas até a masmorra da Sonserina foi mais fácil do que ela pensava. Parecia que ela era muito boa em ir onde não devia. Murmurando a senha o mais silenciosamente possível ("superioridade"), Gina enfiou sua cabeça pelo buraco do retrato, checando cuidadosamente se havia algum estudante que ainda não havia descido. Vendo a sala deserta, Gina correu até uma pequena mesa com cadeiras nas pontas (colocada para jogar xadrez, provavelmente) e começou a arrumar a comida que ela havia trazido em sua mochila.

A incomodava estar no meio de tanto verde da Sonserina. A grifinória dentro dela estava meio assustada. Um grande retrato de Salazar Sonserina estava preso sobre a lareira e hipnotizava o olhar de Gina.

"Algo me diz que você não fez essa janta."

Pulando, Gina apertou o peito com a mão, tentando se acalmar antes de olhar para Malfoy.

"Você precisa reclamar sempre?" Ela perguntou. "Eu não teria problemas em transfigurar a ponta de suas orelhas em sininhos, tá?"

"Sabe, você não age como uma garota que quer me fazer um favor," ele disse secamente.

"Não é como se eu estivesse te pedindo algo," ela protestou.

"Bom, eu não gosto que meus escravos falem tanto," ele disse ao se sentar à mesa, colocando um guardanapo no colo.

"Ótimo," Gina declarou afetada, sentando na outra cadeira. "Você janta enquanto eu falo os termos do acordo."

Gina tirou um pedaço de pergaminho e uma pena de sua mochila.

"Item um," Gina começou, e a pena começou a copiar para o pergaminho. Draco ergueu uma sobrancelha e Gina deu de ombros. "Patente de Rita Skeeter. Estou pensando em ser jornalista faz um tempo e Harry me comprou essa no natal passado."

"'Harry me comprou essa no natal passado'," Draco a imitou enquanto partia uma salsicha e a colocava no meio das batatas. "É doentio o quão boba você é, sabe. A escola inteira ri do ar sonhador que você tem quando segue Potter. Especialmente considerando que ele tem aquele rato Granger na cama."

"Hermione não é um rato," Gina disse nervosa. "E eu não sigo Harry –" Ela apertou os lábios em uma fina linha. "Item um: não insultar os amigos do outro."

"Você pode insultar os meus," Draco disse. "Eu não ligo."

"Item dois," Gina continuou, como se ele não tivesse falado nada, "Nada de sexo."

"Eu lembro desse," falou ele depois de engolir a comida. "Eu andei pensando sobre e acho que não vai dar certo pra mim."

"Bom, meus pêsames, mas você vai ter que fazer dar certo pra você." Declarou Gina.

"Se você quer que tudo isso aconteça," Draco disse numa voz suave, "você quem deve fazer meus desejos darem certo. Esse, afinal, é o principal, não é, Srta. Weasley?"

"É só... Eu não posso fazer isso, ok?" Gina falou, derramando-se na cadeira. "Não posso fazer aquilo."

Draco virou os olhos. "Eu não estou pedindo pra você fazer aquilo. E meu deus, mulher, diga logo -- você não suporta a idéia de fazer sexo comigo."

O olhar de Gina passou na sala freneticamente, como se um grupo de professores estava escondido em todos os cantos esperando para aparecer do nada e gritar: "Sexo! Ele disse sexo! O que você está fazendo nesse lugar, mocinha?"

"Tá," ela sibilou. "Eu não suporto a idéia de fazer sexo contigo."

"Então somos dois, porque eu não suporto a idéia te fazer sexo com você, também." Disse ele, limpando a boca com um guardanapo.

"Então por que estamos tendo essa discussão?"

"Porque eu tenho necessidades." Ele a informou.

Agora foi a vez de Gina virar os olhos. "Essa foi de longe a coisa mais estúpida que você poderia ter dito."

E então algo aconteceu. Qualquer humor que havia nos olhos de Draco sumiu e tudo que sobrou foi um metal frio que fazia os cabelos da nuca dela arrepiarem.

"Ótimo," ele disse finalizando. "Não vou te pedir nada sexual, Srta. Weasley. Mas no fim de tudo isso, você pode ter certeza que vai querer que eu tivesse pedido."

Mais uma vez Gina se viu incomodada em seu assento. Ela começou a morder a ponta de seu dedo. O que ele poderia fazer que seria pior do que fazer -- com ele! Certamente não poderia ser... Mas também, ele era um Malfoy. Havia historias de servos que ficaram loucos trabalhando para Lucio Malfoy. Teria Draco herdado toda a crueldade de seu pai?

"Bom," ela começou hesitante, "talvez... quero dizer, talvez fui um pouco dura."

A pena parou no ar, e começou a apagar o que tinha escrito. Gina queria xingar alto. Se a pena e pergaminho tinham sentido o que ela queria, não tinha jeito de Draco não perceber.

"Foi?" Draco perguntou suavemente.

"Um acordo, então," Gina declarou, tentando recobrar seus sentidos internos. "Nada de sexo convencional, mas, se a necessidade vier," as bochechas dela coraram quando ela percebeu o que tinha dito, mas ela continuou, "favores sexuais podem ser trocados no futuro."

"Excelente." Draco concordou, empurrando o prato.

"Você comeu aquilo muito rápido." Gina disse automaticamente, desaprovando como se ele fosse Harry ou Rony.

"Desculpa, mamãe." Ele zombou.

"Item três," ela disse entre os dentes, "quando--"

"Diga, como conseguiu a senha?" Draco perguntou, não se importando com o que ela ia dizer.

Suspirando, Gina sentou corretamente e cruzou os braços, percebendo que era melhor ela se acostumar com a desconsideração dele por suas opiniões ou sentimentos. Isso era, afinal, o que qualquer bom escravo faria.

"Poção polissuco," admitiu Gina. "Me transformei naquela amiga de Pansy."

Draco se espantou. "Você quer dizer Vilonna?"

"Vilonna!" Gina gritou triunfante. "Sabia que o nome dela era algo com Vomito ou Vile."

Parecia que Draco ia quase rir disso, mas antes de qualquer coisa, eles ouviram vozes vindo pelo retrato.

"Alguém está vindo," ela sibilou, pegando suas coisas e as enfiando na mochila.

"Eu me esconderia atrás das cortinas," Draco disse preguiçosamente, indicando os longos tecidos pendentes perto do buraco do retrato.

Sem vontade de argumentar e não tendo melhor idéia, Gina correu até lá, mal chegando antes da sala comunal se encher com o barulho de vozes altas conversando.

Um grupo do sétimo ano sentou no canto, numa tentativa obvia de estudar para os N.I.E.M.s. Draco continuou no mesmo lugar e Gina ficou pensando por que ele não sentia necessidade de estudar. Ele tirava notas boas na maioria das aulas, tirando herbologia, e as melhores notas em poções. Hermione era a única que se saía melhor que ele.

Ainda assim ele não tinha reputação de nerd, nem de estúpido (tirando para Rony) entre os colegas. Os únicos amigos que ele parecia ter eram Crabbe e Goyle, e eles mal tinham inteligência para se vestir de manhã, imagina ter boas notas. Mas por alguma razão, eles seguiriam Malfoy para o fim do mundo se ele pedisse. A maioria dos outros sonserinos era igual, e Gina não podia acreditar que era pela influência de Lucio Malfoy.

Havia algo em Draco, a arrogância preguiçosa dele que comandava a atenção e fazia difícil acreditar que existia desafio para ele na vida. Da sua visão atrás das cortinas, Gina podia observá-lo e, pela primeira vez, ele não podia. O perfil dele estava ao virado para ela, a luz do fogo dançando atrás dele, fazendo seu cabelo brilhar.

Agora que ela se encontrava fadada a ficar perto dele pelo próximo mês, Gina estava fascinada com o que Draco Malfoy fazia. Normalmente, Draco inspirava nada além de ódio. Mas agora que ela via melhor, ele tinha um ar quase etéreo, fazendo-a pensar que havia talvez algo além da maldade que formava aquele homem.

O horrível menino que ele foi nunca teria aceitado aquela barganha, não importa o quanto ele ganhasse. A idéia da humilhação que seria tê-la perto na frente de toda escola seria muito grande e ele falaria para todos que quisessem ouvir sobre como a pobre, estúpida garotinha Weasley havia implorado para servi-lo.

Nos últimos dois anos, porem, Draco tinha mudado. Não havia coros de anjos o seguindo, nem auréola sobre sua cabeça, quebrada ou não, mas ele certamente não vivia mais para fazer vidas alheias miseráveis. A coisa do Putermione era a primeira que ele soltava em eras, Gina notou. E realmente, não era nem perto do normal. Além do que, a única vez que Rony, Harry e ele queriam brigar era na briga de casas, Grifinória vs Sonserina. Mesmo assim, parecia ter um ar de competição saudável, garotos serão garotos e só. Professora McGonagall tinha até comentado sobre isso, Gina lembrou, durante uma conversa que ela ouviu entre a bruxa mais velha e o Professor Dumbledore depois de terminar uma confusão em que Gina estava no meio.

Como se seu senso tivesse voltado, a cabeça de Draco apareceu e ele encarou as cortinas. Ele não podia vê-la, ela sabia, mas era notável que seu coração tinha acelerado. Ela tinha que sair daquela sala horrível antes que seu coração explodisse, ou que ela gritasse, ou que fizesse algo tão estúpido quanto e chamasse atenção para si.

Draco se levantou do sofá e se moveu até a janela perto do retrato. Seu nariz estava quase tocando o vidro e ela percebeu que ele podia vê-la daquele jeito.

"Alguns deles só vão dormir daqui a horas agora," ele disse em voz baixa. "Blaise e Jasper vão ficar até de madrugada."

"Jasper," ela confirmou.

"Cuidado" ele avisou, e ela quase pode ver um sorriso.

Mordendo o lábio inferior, Gina fechava e abria as mãos compulsivamente. Não havia como ela sair sem ser vista. Ela ia fazer barulho e todos iam até ela e chamariam o Professor Snape dizendo que havia uma espiã grifinória e Gina seria culpada por fazer sua casa perder a Copa das Casas e todos ririam dela até o fim do ano letivo, e no ano que vem, e ela não poderia entrar na Ordem pois não sabia nem fazer o que eles pediam--

"Você me deve uma," Draco disse, a observando com o canto dos olhos. E então mais alto ele falou. "Venham ver isso!"

E então ele se encostou ao lado esquerdo da janela, pressionando onde Gina estava nas cortinas, não dando outro lugar além de sua direita para os outros garotos.

"O que é?" Perguntou Blaise Zabini.

"Não vê aquele troglodita?" Draco disse, Gina estava certa que ele estava se referindo a Hagrid. "Ele está movendo aquelas bestas para o espaço aberto. Ele deve estar tentando treiná-las, ou fazer algum tipo de negociação pra amanha."

Todos os estudantes queriam ver aquilo e começaram a brigar e se empurrar pra ter uma visão melhor da janela. Quando Gina não fez nada para sair, Draco deu um tapa no seu queixo. Gina estava extremamente orgulhosa por não ter gritado. Respirando fundo, Gina saiu de trás das cortinas e passou pelo buraco do retrato. Ela não olhou pra trás, mas já que nenhum sonserino fez nada e nenhum professor veio tirá-la da cama no meio da noite, ela assumiu que sua visita à sala comunal da Sonserina não foi detectada.

Seus sonhos foram cheios de visões de Draco Malfoy em situações confusas, o subconsciente dela pensando nas coisas que teriam feito aquele menino em homem. Deveria haver algo; e ela não precisava daquelas distrações, então ela decidiu não dormir.

Mesmo que ela mal tenha entendido uma palavra das aulas do outro dia, ela sabia que a paz mental valia a pena.

•‡•‡•‡•

Aqui estamos. Primeira vez que escrevo em um diário desde o pacto com O Diabo, vulgo, Draco Malfoy. Nem pisquei nas duas últimas noites e desmaiei hoje. Acordei uma hora atrás cega de pânico, tendo que colocar meu sonho no papel. Desesperada para conversar com alguém que me entenderia, mesmo eu não querendo que você me responda. Por favor, por favor, por favor, não comece a me responder.

Acabei de passar 5 minutos encarando uma página em branco, incapaz de redigir meus pensamentos. Não posso nem mencionar meu sonho em voz alta, imagine escrevê-lo! Vou tentar de novo outra hora. Tenho uma missão de costureira pra peste do Malfoy. Costurar. E ele me proibiu de usar minha varinha! Arrgghh!

•‡•‡•‡•

Faz uma semana desde que fui forçada a servir Draco Malfoy. Estou começando a imaginar se existe um prêmio pra quem escapar desse inferno que minha vida virou. Malfoy está apreciando muito, pro meu desprazer. Qualquer relutância que ele tinha na hora do acordo simplesmente foi pela janela. Aqui está a lista dos meus 'deveres':

-- toda noite, eu devo sentar a mesa da Sonserina perto de Malfoy e cortar a carne pra ele. (A única coisa boa é que Rony, Harry e Hermione fizeram suas refeições na sala comunal da grifinória nas últimas sete noites já que Hermione está privando os meninos de qualquer contato social até passar o teste pré-N.I.E.M. que ela preparou).

-- devo fazer todas as lições de Herbologia dele. (ele diz que minhas aulas são pra fazer com que ele passe com uma nota razoável, então qualquer tarefa é apenas "trabalho a mais praquela estúpida professora. Eu não tenho tempo pra isso; tenho lugares pra estar, sabe." E como escrava eu devo cumprir isso. Já não bastasse minhas provas finais – pra não mencionar aquela coisa da floresta que Rony deixou escapar – pra me preocupar. Deus, ele me deixa doida.)

-- devo fazer nada menos que quatro viagens para Hogsmeade para comprar, entre outras coisas, um barril de cerveja amanteigada, seis ratos para alimentar Hiss, uma cobra boa constrictor de 4 metros e nova mascote do time de quadribol da Sonserina, onze rolos de pergaminho, uma dúzia de penas novas, e várias revistas bruxas de notoriedade questionável. (não posso divulgar nenhum dos outros itens, nem pro diário, já que estou tentando bloqueá-los completamente de minha cabeça).

-- bordar – a. mão. Sem. Nenhuma. Varinha. – o nome de draco bordado em todos os seus casacos. (a mãe dele manda um novo toda semana – alguns muito lindos, de cashmere a linha fina. Eu não ligaria em pegar uns pra mim, porque deus sabe que ele nunca notaria, mas no caso de ele notar, roubar não parece ser um bom jeito de finalizar uma tarefa para seu mestre).

Pequena confissão: eu não exatamente bordei o monograma Malfoy que ele ordenou, e só levei em conta a parte do "tenha certeza que não importa quem veja um deles saiba a quem eles pertençam. E, Srta. Weasley? Sem mágica. Eu quero ver o quão reto você consegue fazer os pontos à mão."

Ah, eu fiz pontos tão retos quanto flechas, tá. Sr. Malfoy deveria aprender a ser mais especifico quando der uma ordem. Quanto aos nomes que eu bordei nos casacos não lembram tecnicamente Draco Malfoy, mas, na minha opinião, todos que virem eles saberão exatamente a quem pertencem. Harry sempre se refere a ele como "O Estúpido" e eu já ouvi Hermione chamá-lo de "Sapo Rosado" meia dúzia de vezes no mínimo; o termo favorito de Rony para ele sempre foi "Cara de Fuinha" por anos; os casacos de Malfoy agora vão comemorar isso para sempre. Vinte e oito casacos e estou quase esgotada de combinações meigas.

Devo dizer, me sinto mais livre escrevendo um diário novamente, mesmo se ele não está escrevendo de volta pra mim (aliás, obrigada), eu ainda sinto... Estranha. Malfoy diria que eu estou sendo uma boba, mas eu não consigo evitar. Tanta gente poderia ter morrido e tudo teria sido minha culpa, por causa daquela paixonite idiota por Harry. Pior ainda, quando eu penso naquele ano, em que Tom Riddle esteve na minha cabeça, não é o que eu sentia quanto a Harry que me vem à mente e sim o quanto eu me senti horrivelmente humilhada quando Malfoy leu meu cartão de dia dos namorados em voz alta.

Recentemente me recordei de quão cruel ele era, do quanto eu absolutamente o odiava com mais certeza que nunca, eu sou forçada a perceber o quanto ele está diferente agora. É algo que eu tenho pensado a um tempo, e estando tão perto dele, eu tenho que admitir que Draco parece ter perdido grande parte de sua maldade pelo bem de ser mal. Mesmo que as tarefas que ele tenha me passado sejam bem maldosas...

Na verdade, a única coisa boa da semana passada é que Draco não pediu nada nem remotamente sexual de mim. Eu não estou realmente certa de como eu vou agir se ele pedir. Por um lado, tendo conhecido ele um pouco, não seria a pior das coisas que eu posso imaginar, mas mesmo que eu não mais o odeie não quer dizer que eu queira fazer sexo com ele. Digo, só porque talvez exista um tipo de atração entre nós, não significa que eu vá.

Ugh. Não posso pensar nisso nem por um segundo, estou atrasada para o jantar.

•‡•‡•‡•

Não deveria ter descido para jantar, só. Deveria ter ficado aqui trancada na torre da Grifinória até morrer porque eu estava desidratada ou em um ataque de pânico que me levaria à morte. Eu deveria ficar para assustar o castelo para sempre, tendo que conhecer a Murta-Que-Geme e Sir Nicholas (está chegando o aniversário de morte dele; fico imaginando se nós poderíamos celebrar juntos?), e até o Barão Sangrento. Certamente evitaria qualquer coisa envolvida com a horrível, podre noite de hoje.

A boa notícia: Harry e Rony completaram o teste de pré-N.I.E.M. da Hermione e estão novamente livres para andar entre as massas.

A má notícia: Harry e Rony completaram o teste de pré-N.I.E.M. da Hermione e estão novamente livres para andar entre as massas.

Eu não acho que já vi a cara de Rony tão roxa antes quanto quando ele entrou no salão principal e me achou sentada à mesa da Sonserina, amassando meticulosamente as batatas de Draco "do jeito que minha mãe faz".

Rony e Harry estavam rindo, cada um com um braço apoiado nos ombros de Hermione. Uma incrivelmente melodramática parte de mim pensou naquele momento como 'O Momento de Riso Parou'. Rony me viu e olhou o prato de purê de batatas de Draco, eu sei, porque no segundo seguinte ele já estava me dando aquele 'o que, em nome de tudo que é sagrado, você está fazendo nessa mesa?' olhar quando voltei a encará-lo.

Eu não devia tentar reconstruir a 'conversa' entre eu e meu irmão que se resultou da minha infeliz (eu estava profundamente traumatizada) noite passada:

"O que, em nome de Godrico Grifinória, deu em você?!" Rony gritou quando pegou meu braço e me puxou do meu assento na mesa. "Céus, Gin, você percebeu onde está sentada?"

"Sim," respondi numa voz perfeitamente calma e racional.

"Você está louca?!"

"Estou perfeitamente sã, obrigada."

Agora, esse foi o ponto onde eu comecei a implorar para Rony com meus olhos, pedindo silenciosamente, por favor, por favor, deixe isso pra lá. Confie em mim pra saber o que raios eu estou fazendo e ir resolver seus problemas. O realmente engraçado foi que, naquela hora, eu até pensei que existia uma possibilidade. Por um momento pareceu que ele tinha genuinamente entendido o que eu tentava dizer e diria "Bom, Gin, desde que você saiba o que está fazendo," e me deixasse.

Naquela hora.

"Vê aqui, Malfoy," meu irmão disse, movendo sua ira para Draco, que até o momento estava inocentemente lambendo as pontas dos dedos e limpando qualquer traço de comida que estávamos comendo, "Se você tiver feito algo pra minha irmã--"

"Eu não fiz nada pra sua irmã," Draco disse em um tom lacônico. "Talvez ela finalmente tenha caído na real e visto em qual a mesa que pessoas com classe sentam."

Foi aí que Crabbe e Goyle começaram a se espancar por causa de uma coxa de galinha. Para crédito de Draco, a imagem não foi tão notada com as suas palavras. Também funcionando a seu favor estava o fato de que Rony estava muito furioso para ver qualquer coisa que Crabbe e Goyle estivessem fazendo na hora.

Olhos crescendo, veias pulsando, eu estava na verdade temendo pela vida de Draco por um segundo ali, porque Rony não pegaria sua varinha por nada. Não, Rony estava pra liberar dezessete anos de síndrome de infância, sete anos de capanga do Garoto Que Sobreviveu, e perdendo a garota pela qual ele teve uma grande paixão quando tinha 14 anos para o mesmo melhor amigo que, até Rony tinha que admitir, teve o coração dela amarrado por um bom tempo.

Felizmente para todos nós (Draco era bem rápido com a varinha e, uma vez que Rony tivesse acertado primeiro, ele mataria meu irmão facilmente), eu sei exatamente quando Rony vai estourar. Eu o agarrei pelo braço e o puxei para fora do salão até o corredor.

"VOCÊ PERDEU TODOS OS SENTIDOS?!"

Acho que foi isso que ele disse. Eu só consigo lembrar do quão alto foi. Eu tenho certeza que todos lá dentro puderam ouvir a parte de Rony na nossa 'conversa' claramente.

"Ele está me ajudando em poções," foi tudo que eu pude dizer numa voz de pânico. Nunca soou tão falso antes.

Parecia por um momento que Rony estava se acalmando com aquelas palavras e eu estava orgulhosa de mim mesma. Talvez não fosse tão falsa assim. Então, ele começou a respirar pesadamente pelo nariz e isso parecia... Sei lá... Eu não posso descrever e eu achei verdadeiramente que meu irmão explodiria bem na minha frente.

"DRACO MALFOY ESTÁ AJUDANDO MINHA IRMÃ? O que ele está fazendo você fazer pra ele?!"

"São só algumas tarefas simples," eu corri para dizer. "Você sabe, cortar a carne, bordar umas coisinhas." Sim, eu vi que era besteira, mas fala sério. Eu estava desesperada. Eu não estou acostumada a falar mentiras pros meus irmãos – bom, isso também não é muito verdadeiro, acho. Eu não sou acostumada a mentir pra Rony. Eu não sei bem se eu já falei muitas verdades pra Percy.

"Gin," Rony falou então, e ele estava claramente tentando se acalmar, "pelo amor de deus, se você precisa de ajuda em poções porque não ME procurou?"

Agora, eu não senti que precisava realmente responder aquilo, então eu só o encarei até que ele suspirou e deu de ombros entendendo.

"Tá, tá" ele disse, "se não eu, que tal Hermione? Ela é brilhante em tudo, menos adivinhação, e acredite, ela tem toda uma teoria em que adivinhação não deveria ser nem considerada uma matéria."

Entendido. Mas notei que eu nunca tinha visto em Rony uma possibilidade de ele pensar melhor sobre o assunto, porque eu estava desesperadamente tentando pensar num motivo plausível do porque eu não pedi pra Hermione. Bom, vê Rony, a sociedade secreta que eu estou tentando entrar quer que eu seja escrava de alguém que eu odeio. Ah, mas eu não o odeio mais. Não somos amigos, claro, mas eu tive um tempo livre para observá-lo essa semana, e mesmo sendo amargamente sarcástico, e mais do que um pouco cruel, ele certamente não é a mesma cria de Satã. Não, ele ainda é a cria de Satã, mas não é culpa dele que Lúcio Malfoy é assim.

Mencionei o sonho que eu tive na outra noite?

"Hermione está mais que cheia com você e Harry," foi o que eu disse em voz alta. "Os N.I.E.M.s são estressantes, Rony, e Hermione tem dedicado todo o seu tempo e energia pra ver vocês dois infelizes atingirem boas notas."

"Não me insulte depois que eu acabei de pegar você brincando de empregada de Draco Malfoy," Rony avisou. "Não cai bem."

Eu sorri pra ele e ele meio que sorriu de volta e foi tipo uma aliança entre nós, os caçulas. Sempre fomos nós contra eles e nós perdemos quando ele veio pra Hogwarts; quando ele me deixou pra trás, com mamãe e papai, desesperadamente querendo estar com ele e Fred e Jorge nesse grande lugar que eu ouvia meus irmãos falarem por anos durante as férias. Eu amo Harry e Hermione bastante, mas naquele momento, eu tinha meu irmão de volta e nada era melhor.

"Tá tudo bem, Rony" eu disse depois de um tempo. "Eu realmente preciso de ajuda em poções. Eu estou indo mal e não é um grande preço a pagar, servir Malfoy por umas semanas. Realmente, é melhor assim. Eu vou adquirir prática em lidar com imbecis na vida real."

Aquilo fez Rony sorrir mais, mas eu queria muito poder retirar o que disse, porque naquele exato momento, Draco Malfoy demonstrou sua vaga noção de tempo. Ele saiu do salão principal -- procurando por mim, provavelmente -- e parecia bem lívido. Eu estava quase com medo por um segundo. Os olhos dele opacos como uma lousa, isso é, se você pusesse fogo numa lousa e assistisse queimar e sair fumaça.

"Desculpa interromper, Weasley," Draco disse pra Rony e ele soava perfeitamente calmo e racional. Como então eu podia dizer que ele estava bem ao contrário? "Estamos atrasados pra uma aula. Eu não tenho todo o tempo do mundo pra servir sua família, tenho?" Então sua mão se fechou no meu braço e ele me puxou. "Diga tchau pra sua irmã."

Eu não suportaria olhar de volta para Rony; eu estava muito agradecida que meu irmão estúpido não fez nada ridículo e corajoso. Tenho certeza que ele só correu de volta para Harry e Hermione e encheu seus ouvidos até o resto da refeição.

Já para Draco e eu, assim que ficamos longe de Rony, ele virou pra mim... Ele estava TÃO FURIOSO!

"Enquanto for minha serva você não falará sobre mim daquele jeito de novo. Você entendeu?"

"Draco, desculpa," eu tentei dizer, mas ele me puxou pra mais perto e eu podia sentir sua respiração contra meu rosto.

"Sr. Malfoy" ele corrigiu. Sua voz falhada fazia parecer que ele estava mais bravo ainda. Ele abriu a boca pra dizer algo mais, mas só virou e foi embora.

Eu queria chamá-lo, tentar me desculpar de novo, mesmo não sabendo o por que. Não é como se eu tivesse dito algo pra Rony que eu não tinha dito pra Draco antes. Eu quis perguntar sobre nossa aula, porque eu não precisava tanto daquela ajuda em poções, mas ele ia sair mal em herbologia sem minha ajuda. E eu vi que não queria que ele fosse mal; eu queria que ele fosse bem, como eu sabia que ele podia.

Oh, merda. Eu encarei o que eu escrevi e eu pareci tão menininha. Se eu não for honesta com meu diário, isso me faz ruim, não é? Ótimo. Então. Algumas noites atrás, eu tive um sonho. Com Draco. Malfoy. Com Draco Malfoy.

Eu estava lá nas masmorras para aula de poções e Snape estava me perguntando todo o tipo de questão e eu não sabia as respostas. Então Draco estava lá, e ele sussurrava as respostas no meu ouvido, mas ele era invisível, porque Snape não podia vê-lo. De repente, eu tinha todas as respostas e Snape ainda tentava me pegar. Finalmente, ele disse que eu tinha passado no teste e nunca precisaria ir de novo na aula e era pra eu levar uma pêra roxa para Dumbledore como prova de que eu havia terminado.

Quando eu estava na metade do corredor, segurando a pêra roxa, e Draco estava comigo, me parabenizando por finalmente ouvi-lo. Ele disse que devíamos comer a pêra, mas eu não queria, pois se comêssemos, isso significava que eu não podia mais levá-la para Professor Dumbledore, e ele precisava mais da pêra do que nós. Então ele sugeriu que comêssemos só metade da pêra, porque Dumbledore não precisava dela inteira.

No sonho, isso fazia perfeito sentido, e eu segurei a fruta na boca dele. Ele a mordeu e o suco escorreu pelo queixo dele, manchando sua blusa na gola.

"Vê o que você fez." Draco disse, e as coisas se transformaram de novo, e nós estávamos num quarto que eu nunca tinha visto, na cama.

Havia luz do sol passando por uma janela aberta e os olhos de Draco estavam mais pratas do que eu jamais havia visto, o cabelo dele meio bagunçado em um jeito que eu nunca imaginaria que ele seria capaz de deixar. Ele não estava vestindo nada, e eu percebi que eu também não, e minha mão estava sobre seu peito e olhei para a mancha da pêra.

"Está começando a enfraquecer," eu disse, passando a ponta de meus dedos sobre ela.

Os olhos dele estavam injetados e eu percebi que era por isso que pareciam tão prata. Ele trouxe sua mão para meu rosto e gentilmente empurrou meu cabelo para trás, traçando as linhas da minha testa com muito cuidado.

"Amor não enfraquece, Gin," ele murmurou, e então me beijou.

E então eu acordei.

Eu devo enlouquecer logo, logo, com Ordem ou sem Ordem.

•‡•‡•‡•