Esse capítulo é dedicado, de todo o meu coração, a todos os que me deixaram comentários: Ann Black, Ani, Mary, Lily, Eric, Moon, Nina Wesley. Pessoal, vocês são o MÁXIMOOOOO!!!

Samhaim Girl

4º capítulo: tristeza

"Vamos, Harry, não me enrole. Fale de uma vez o que aflige seu pequeno coração já despedaçado" Gina tentava, a todo custo, parecer engraçada. E Harry estava num humor tal, que já teria a mandado calar a boca há algum tempo, não fosse por Dino Thomas estar ao lado dela.

"Nada, Gina, nada. Quantas vezes vou ter de lhe dizer isso? O que me aflige é o de sempre"

"Ah, cale a boca! Se fosse o de sempre, você não estaria pior do que antes!" ela cruzou os braços sobre o peito, e Harry bufou.

"Se você não fosse tão enxerida, eu não estaria com esse humor!"

"Eu não sou enxerida, sou preocupada! E se a minha preocupação não te deixa feliz, então, sabe de uma coisa? Você não a merece! E sabe de outra? Eu quero que você vá se danar com a sua tristeza, Harry! Então, vá se danar!" e balançando os cabelos ruivos imperiosamente, ela se levantou, levando Dino com ela pela mão.

Tudo o que Harry conseguiu fazer foi largar o resto de seu peso no encosto da poltrona, e enfiar o rosto entre as mãos.

Droga, ele estava se comportando assim fazia dois dias. Dois malditos dias. E o que o estava fazendo agir assim? Luna Lovegood. Aliás, não apenas Luna Lovegood, mas sim, Luna Lovegood e sua aparente felicidade.

Tirou o rosto de entre as mãos, o passando pelos cabelos. Talvez, pela primeira vez em toda a sua vida, esse gesto não era feito com o intuito de arrumar as mechas negras, e sim de aliviar a sua dor.

Dor. Droga, ele estava sentindo dor. Pontadas e mais pontadas de dor, sempre que observava a garota corvinal sorrir, ou dar risadas, ou fazer a lição com o pergaminho de lado. Dor, sempre que a via defendendo seu pai das críticas mordazes, ou dor quando a via enrolar uma mecha de seus cabelos enquanto olhava sonhadoramente para os jardins.

E de onde vinha aquela dor?

Não tinha idéia.

Era nessas horas que ele, Harry Potter, desejava ter alguém para lhe ajudar a entender o coração ou a sua alma. Era terrível tentar adivinhar. Podia ser qualquer coisa...

E mais uma vez ele sentiu aquela pontada.

Podia tentar esconder de si mesmo, mas ele sabia o porquê de sentir tanta dor, e de onde ela vinha. Ele sabia, e apenas tinha medo de admitir.

Ele estava apaixonado.

Só que não devia estar. Quer dizer, se fosse pelos motivos idiotas que ele mesmo havia dado para si há dois dias, quando desistira de ir á Floresta, ele poderia estar apaixonado por ela, e há muito tempo. Mas ele sabia - agora, e apenas agora - o motivo de tentar esconder de si mesmo o carinho especial que sentia por Luna; era medo. Um medo terrível... De ter o coração despedaçado mais uma vez.

E ele tinha boas razões para sentir esse medo. Afinal, ele 'doara' seu coração, e ele terminara acabado. Amara Sirius... E agora ele estava morto. Amara Rony e Hermione - e eles corriam o mesmo risco. Todos à quem ele amava corriam esse risco terrível... E ele amava Luna.

Balançou a cabeça. Não podia se permitir pensar nisso. Voldemort ainda podia entrar em seus pensamentos, e podia descobrir qualquer coisa sobre ele. E podia descobrir que ele amava Luna mais do que a qualquer um. E podia lhe fazer mal.

Suspirou fundo, e se levantou resignado.

O que podia fazer sobre aquilo? Podia... Podia... Fazer um feitiço da memória?

Riu do próprio pensamento; era idiota. Absolutamente idiota. Os sentimentos não são todos formados apenas de lembranças...

Foi em direção das escadas que levavam ao seu quarto, mas, antes de conseguir colocar o pé no primeiro degrau, sentiu alguém tocar em seu ombro de leve.

Quando se virou, uma orda de cabelos castanhos amassou sua cara, e ele sentiu baforadas de ar quente contra seu uniforme, e ouviu risadas de encontro ao seu peito.

"Hermione?" ele perguntou, tentando soar espantadamente divertido, e as risadas aumentaram.

"Harry! Harry!"

"O que houve?"

"Você... Você sorriu!"

"Ah, é, sorri..." ele deu de ombros.

"Você faz idéia de quanto tempo faz desde a última vez que eu o vi sorrir?" a garota levantou os olhos para ele, que deu de ombros, a sentindo larga-lo.

"Não. Mas você poderia me dizer"

"Faz mais de seis meses! Seis meses, Harry!" ela o abraçava novamente, e sua voz estava repleta de lágrimas.

"Faz tanto tempo assim...?"ele perguntou num tom divertido Eu podia jurar que havia sorrido há pouco tempo, e..." sua frase foi cortada por mais risadas escandalosas e felizes.

"E você está sendo divertido! Você não é divertido faz quase um ano! Oh, céus, um ano!"

"É, parece bastante tempo... Mas, Mione, eu preciso subir, tem um dever de poções pra fazer..." sua voz estava novamente divertida, e Hermione o soltou, limpando as lágrimas do canto dos olhos com as costas da mão.

"Claro, você pode ir... Mas, antes, me diga, o que te fez sorrir?" ela perguntou, sua voz doce. Harry suspirou.

"Pensei em fazer um feitiço de memória em mim mesmo... Nada de demais..."

"Oh, certo..." mas o olhar de Hermione denunciava que ela não acreditava nele. E tudo ficou mais claro quando ela deu á ele uma piscadela e sorriu confidencialmente "Se você precisar de ajuda, sabe onde me encontrar, não sabe?"

"Ao lado de Ron" e ela riu e sumiu entre as cabecinhas que estavam no salão comunal da grifinória, metade delas viradas para os dois.

Harry suspirou e, balançou a cabeça, começando a subir as escadas para o seu quarto. Quando chegou lá em cima, se deparou com Dino Thomas.

"Olá, Harry..."

"Olá, Dino..."

"Tudo bem?" pergunta estúpida, pensou Harry. Se tudo estivesse bem, ele não teria sido grosso com Gina.

"Vou em frente, e você?"

"Tudo ótimo..."

"Então, o que você quer?"

"Hum... Sabe, a Gina está furiosa com você... Aí eu pensei que, talvez, você pudesse ir conversar com ela, e..." Harry bufou antes de Dino poder completar a frase.

"Sabe, se ela quiser falar comigo sobre a raiva dela, peça pra ela vir aqui; só não lhe garanto que essa raiva vai se aplacar" e deu de ombros, se jogando na sua própria cama.

"Sabe, ela está preocupada com você"

"Eu sei; todos estão"

"Então, por que você se faz de indiferente?"

Para salva-los, Harry tentou dizer, mas não conseguiu; parecia muito idiota, agora que ele pensava. Então, resolveu-se por outras palavras, bem escolhidas.

"Porque eu não mereço essa preocupação" e, antes mesmo que Dino pudesse absorver as palavras dele, Harry Potter saiu pela porta do dormitório, em direção aos jardins da escola.

Por que ela estava ali, mesmo?

Luna suspirou, sorrindo suavemente para os trestálios que estavam á sua volta; eram grandes e pequenos, mais fortes e mais fracos, machos e fêmeas, filhotes e adultos. Moluti veio na sua direção com os passos brandos que sempre usara.

"Olá, Moluti. Como vai?" mas intimamente sabia que ele não estava tão bem; sabia que aqueles animais se preocupavam com ela, e nos últimos dois dias haviam tido muito com o que se preocupar; nunca Luna Lovegood parecera mais triste e vazia como nos últimos tempos.

O animal encostou a cabeça na sua barriga, e ela lhe fez carinho por entre as orelhas. Quando o animal relinchou baixinho, ela sorriu por entre as já costumeiras lágrimas.

"Não se preocupe. Eu vou melhorar logo... É só uma questão de tempo" era uma das mentiras mais deslavadas que ela já contara em toda a sua vida, e seu rosto ficou vermelho ao tomar essa conclusão; ela já sabia que dores como aquela nunca sumiam de verdade. Abrandavam, claro, mas nunca sumiam. Fechou os olhos e suspirou, as lágrimas ainda escorrendo, e sentou-se no gramado.

O animal deitou-se ao seu lado, e a encarou com repreensão.

"Não me olhe, assim, Moluti; estou lhe falando a verdade" e mais um relincho serviu para mostrá-la que ele sabia que ela mentia "Vai passar, eu sei que vai passar, certo?" e então percebeu que o tom que usava com o animal nada tinha de carinhoso; continha tristeza e raiva. Ela nunca havia falando assim com os tão bons trestálios, que sempre haviam estado com ela. Balançou a cabeça e murmurou numa voz tristonha "Me desculpe. Mas... Eu... Perdi o controle"

E quantas vezes mais faria aquilo? Não podia permitir-se ser rude com aqueles animais; eram tão bons para com ela, que não mereciam a mais mínima das repreensão.

E o que a estava fazendo perder o controle? Harry. Como sempre. Por que se permitira apaixonar-se por ele? Ah, certo, não havia como repreender-se nesse ponto; simplesmente, quando acordara certa manhã, percebera isso. E o que ele havia feito para merecer o coração dela? Havia vivido, havia sofrido... Havia parecido necessitar dela. E ela se dera para ele, sem ele nem mesmo perceber; seu primeiro beijo, a primeira fisgada de solidão, a primeira vez que realmente amara um homem... Oh, céus, ele era uma pessoa especial, afinal. Para ela e para o mundo, como muito bem sabia, mas nada podia dizer.

Fungou e enxugou meia dúzia de lágrimas com as costas da mão, tentando se acalmar.

Mas algum dia qualquer coisa surtiria efeito nela, para acalmá-la? Apenas o sono.

Fechou os olhos e se encostou-se em Moluti, como fizera há dois dias atrás, e ficou em silêncio, tentando dormir.

Mas a dor impedia. A dor nunca fora anestésico para ela. Jamais. Então, tudo o que ela conseguiu fazer, encostada no animal negro, foi soluçar. Soluçar e chorar como jamais havia feito antes. Quem sabe, assim, ela não conseguisse tirar Harry de seu coração...?