Hypnosis

IV. Lifeless Body

Uma briga no vestiário, com meia dúzia de estudantes machucados e destruição da propriedade escolar (só um espelho quebrado na verdade). Eu esperava a bronca do século, mas tudo o que Dumbledore fez foi comunicar os pais e colocar os causadores da briga – eu, Potter e Weasley – em detenção.

E a detenção foi perder uma noite de sábado ajudando Hagrid com suas tarefas na Floresta Proibida.

- E você está feliz? – Pansy me perguntou incrédula.

Sinceramente, estou cercado de idiotas.

- Pansy, use seu cérebro. Essa detenção é perfeita para os meus planos. Eu não vou nem precisar ir escondido até a floresta, e ainda vou poder ficar de olho no Potter. – Sorri satisfeito. – Não poderia ter melhor oportunidade.

Ela voltou a andar, resmungando algo como "pirou de vez". Fingi que não ouvi e comecei a andar com ela. Nós estávamos nos afastando da sala do diretor, onde ela tinha ido para saber o que havia acontecido comigo, e fomos entrando em outro corredor, quando eu vi Black e Potter conversando, e segurei Pansy para que ela não nos entregasse.

- Ficou louco, Harry? – Black disse em sussurros. Ele estava irritado, bem irritado. – Está querendo se exibir?

- Sirius...

- Não, você vai ouvir. Nunca mais faça isso. Sua imprudência pode nos custar caro e—

- Sirius! – Potter interrompeu-o quase gritando e depois se virou para nossa direção, e logo depois Black fez o mesmo.

Eu soltei Pansy, vendo que tínhamos sido descobertos, e saí do "esconderijo" andando como se nada tivesse acontecido. Os dois seguiram com os olhos meus movimentos enquanto eu e Parkinson saiamos do campo de vista deles.

Assim que estávamos longe o bastante, olhei para Pansy significantemente.

- Não tinha nada de estranho ali, Draco. Tudo o que vi foi um padrinho dando uma lição de moral em seu sobrinho bagunceiro. – Ela disse segura do que dizia.

- Mas a escolha de palavras dele foi bem suspeita.

Ela apenas suspirou cansada.

-x-

Hagrid preparava algumas lanternas e outros utensílios quando cheguei à sua cabana perto da Floresta Proibida para cumprir detenção. Devia estar atrasado, porque Potter e Weasley já pareciam entediados de tanto esperar.

- Até que enfim. – O ruivo sardento resmungou entre dentes. Potter apenas olhou para mim, e só consegui notar como seus olhos ficavam mais obscuros na luz fraca da cabana.

- Bom, - Hagrid disse, parecendo notar a hostilidade entre nós. – nossa tarefa hoje a noite é apenas verificar os arredores da floresta. Tenho encontrado alguns animais mortos e não é bom deixar os corpos perto dos terrenos da escola, pode atrair os lobos.

Eu arregalei os olhos. – Têm lobos nessa floresta?

- Existem coisas muito piores que lobos aqui, senhor Malfoy. – Ele disse naquele tom de contador de histórias de terror. Ótimo, tinha me esquecido que ele adorava contar essas besteiras para os alunos. Também tinha me esquecido que eu havia passado a acreditar nelas desde o incidente com o vampiro.

- Então que tipo de detenção é essa?Como podem expor alunos a um perigo tão grande? – Eu dramatizei, mas sabia que estava certo. Eles não podiam deixar adolescentes a mercê dos lobos e sei mais o quê que habitava a floresta.

Weasley, que de tão pálido nem parecia mais ter sardas, parecia concordar comigo pela primeira vez na vida.

- Não se preocupem, estarão seguros. Eu irei com você, senhor Weasley, e pode ter certeza que sei como lidar com qualquer coisa dessa floresta. – Hagrid disse, dando tapinhas na costa do ruivo, que pareceu um pouco menos amedrontado. – E você, senhor Malfoy, irá com o senhor Potter.

- E que tipo de segurança isso me dá? – Eu perguntei quase histérico.

Hagrid pareceu sem saber o que dizer, e Potter o interrompeu.

- Nós levaremos o Canino. – Ele disse como se fosse a solução de nossos problemas.

Eu olhei desconfiado para o enorme cão que estava deitado esparramado em cima de um tapete, em frente à lareira, e que em nenhum momento havia tentado defender seu território ou ao menos latir para nós. Grande ajuda, realmente.

- Vamos logo que a noite vai ser longa. – Hagrid disse, abrindo a porta da cabana e saindo carregando um monte de tralhas. Canino trotou preguiçosamente atrás dele, como se estivesse em mais um dia de trabalho forçado.

Eu bufei irritado e comecei a segui-los sem pressa. Estava quase saindo quando pude ouvir a voz preocupada de Weasley.

- Você vai ficar bem, Harry?Posso pedir para trocar de lugar com Malfoy. Você sabe que ele é bem capaz de tentar te matar quando estiverem sozinhos.

Potter riu. – Eu vou ficar bem, Ron. Malfoy é quem devia estar com medo.

Eu senti um calafrio enquanto andava mais depressa para longe deles. Talvez eu devesse mesmo estar com medo, afinal, se Potter era mesmo o vampiro, o que o impediria de me matar enquanto estivéssemos somente nós dois, sem testemunhas por perto? Se bem que isso seria muito arriscado para ele – se eu aparecesse morto, ele seria o culpado. E Pansy e Blaise revelariam para todos que ele era um vampiro.

Ele não faria tamanha burrice, não havia motivos para temer.

Um pouco mais confiante, fiquei ao lado de Hagrid e esperei que os outros dois se juntassem a nós.

Hagrid pigarreou quando Potter e Weasley estavam próximos o bastante.

- Eu e o senhor Weasley vamos por ali. – Disse e apontou para o sul. – Vocês vão para a direção oposta. Não entrem muito fundo na floresta, fiquem onde sabem que conseguirão achar o caminho de volta facilmente. Se acaso se perderem, confiem em Canino, ele sabe o caminho de volta a cabana. E se acharem algum animal morto, apenas guardem a localização que depois eu cuido disso. – Ele parou, pensando se ainda faltava alguma instrução. – Em duas horas nos reencontraremos aqui.

Duas horas. Duas horas andando pela floresta. Procurando por bichos mortos. Com Potter. Era a noite dos meus sonhos.

Hagrid ofereceu-nos os utensílios, e eu peguei a lanterna e o cantil cheio d'água. Potter pegou uma corda – pra que diabos ele precisava de uma? – e outra lanterna. Eu fui à frente, em direção ao norte, com a lanterna acesa, enquanto podia ouvir Potter adulando Canino para que ele viesse conosco. Logo os dois estavam andando ao meu lado.

Depois de cinco minutos de caminhada e absoluto silêncio, Potter riu baixinho. Eu trinquei os dentes.

- O que foi? – Perguntei ríspido, virando meu rosto para olhar para ele, mas sem parar de andar.

Ele ergueu os olhos para o céu, também sem parar de andar. Como ele conseguia fazer aquilo sem tropeçar com tantas raízes no chão era um mistério para mim.

- Você. A semana toda pareceu me seguir por toda parte e agora age como se não quisesse que eu estivesse aqui.

Eu arregalei os olhos. Ele sabia?Sabia da minha investigação?Senti meu rosto queimar de vergonha por ter sido pego. Havia sido tão indiscreto assim?

Potter parou de olhar para cima, e virou seus olhos para mim. De noite, eles não eram do mesmo verde brilhante que eu vira no dia em que ele chegou; eles eram de um verde mais sombrio, mais escuro.

- O que procura, Draco?O que quer descobrir?

Eu parei de andar, e ele fez o mesmo instantaneamente. – Nada.

Ele riu de novo, e quando seus dentes brilharam na luz das nossas lanternas, lembrei-me daquela outra noite na floresta. Meus pêlos do braço já estavam arrepiados. Havia algo no jeito dele que me fazia querer dar um passo para frente, para ficar mais perto, ao mesmo tempo em que eu sabia que aquele desejo não parecia natural, como se não fosse um sentimento meu. Algo em mim me dizia para fugir.

- Vamos, Draco. – Potter voltou a falar, interrompendo meus pensamentos. – Diga, o que está tentando descobrir?

A voz dele era convincente. Parecia um pedido que eu nunca poderia recusar. Ele estava tentando me obrigar a fazer o que ele queria, e eu me sentia extremamente inclinado a fazer exatamente isso. Como alguém podia ter esse tipo de poder?

- Não. – Eu falei, e ele me olhou surpreso. Pelo visto aquilo sempre funcionava com as outras pessoas. Boa sorte da próxima vez, Potter. – Eu tenho minhas suspeitas sobre você e toda essa sua esquisitice. E eu vou descobrir.

Ele voltou a sorrir, mas não estava mais tão à vontade quanto antes, eu pude notar.

- Então eu vou facilitar as coisas para você. Não vou fugir mais. – Ele olhou bem nos meus olhos. – Sempre que me procurar, eu estarei por perto. Mas é isso mesmo que você quer?Não acha que é melhor continuar afastado?Não acha que é mais seguro assim?

E Potter abriu um enorme sorriso, daqueles que dá para ver todos os dentes. Eu engoli seco, mas não recuei, porque eu sabia o que ele estava tentando fazer – estava tentando me deixar com medo.

- Ótimo. Agora eu não vou ter tanto trabalho. – Eu disse, escondendo minha apreensão. – Agora vamos continuar nossa tarefa. Já perdemos muito tempo parados.

Eu voltei a andar, e Canino, que estivera sentado todo o tempo em que eu e Potter estivemos conversando, começou a me seguir. Potter estava logo atrás.

Eu não soube por quanto tempo andamos em silêncio, porque minha cabeça estava muito ocupada com pensamentos sobre a nossa conversa. Cada vez parecia mais provável a minha teoria.

- Droga. – Potter resmungou a alguns passos atrás de mim.

Por um segundo eu pensei que ele estivesse lendo meus pensamentos, mas logo o facho de luz da minha lanterna encontrou alguma coisa no chão. Eu não conseguia ver exatamente o que era, porque estava muito longe, mas a poça de líquido escarlate deixava evidente que, seja lá o que fosse, devia estar morto.

- Achamos um! – Eu falei, e comecei a correr em direção ao animal.

- Não!Draco! – Pude ouvir Potter gritar, mas eu não o escutei, e não parei de correr.

Eu mal cheguei perto quando Potter me alcançou, me pegando pelo braço e me puxando para longe dali. Enquanto ele me arrastava, eu não conseguia dizer nada nem me mexer, tamanho o choque.

O corpo estendido sem vida no chão da Floresta Proibida não era de nenhum animal, mas sim de um homem.

-x-

Quando eu voltei a ter consciência do que ocorria ao meu redor, estava na cabana de Hagrid, sentado numa das poltronas gigantes em volta da lareira, Canino deitado perto dos meus pés.

- Você está bem? – Potter me perguntou, parecendo preocupado, sentado numa poltrona ao lado da minha.

- O que... – Eu comecei a falar, olhando para o fogo crepitando. Não consegui terminar minha pergunta, mas Potter parecia saber o que eu tinha em mente.

- Era um homem, velho demais para ser um estudante de Hogwarts, provavelmente um morador de Hogsmeade. Deve ter sido atacado pelos lobos enquanto andava pela floresta.

Eu olhei para ele e, apesar de sua expressão ser impossível de ser lida, eu tinha certeza que ele estava escondendo coisas de mim.

- O que vamos fazer? – Perguntei num fio de voz.

- Nada. Quando Hagrid voltar com Ron, daqui a uns quinze minutos, falarei para ele o que aconteceu. – Ele suspirou cansado. – Se quiser pode ir para o seu dormitório.

Chacoalhei minha cabeça em negação. Estava com medo, mas eu precisava saber o que acontecera. Havia tantas coisas que não se encaixavam, afinal, o que aquele homem poderia estar fazendo na floresta, tão longe de Hogsmeade?E Potter, como ele havia agido tão friamente diante de tudo aquilo?Não era para ele ter entrado em choque também?

Continuei observando Potter enquanto ele tinha o olhar perdido perto da lareira. Se ele fosse mesmo um vampiro, ele poderia estar mentindo para mim, ele poderia ter matado aquele homem.

Fechei meus olhos, me encolhendo na poltrona. Talvez a investigação não valesse a pena mesmo. Talvez fosse perigoso demais.


N/A: Mais um capítulo de Hypnosis! Dessa vez foi um pouquinho maior que o outro. E, hmm, com um pouco mais de mistério? Pobre Dray não sabe onde 'tá se metendo...

Ah! Próximo capítulo tem aula com o Sirius! *suspira*

p.s.: eu amo reviews!