Capítulo 4: O cerco de Dassama
Naquela noite o comandante do exército de Rycus, reino vizinho e inimigo de Dassama, estava reunido com seu rei para decidir sobre o futuro ataque a seus vizinhos. Conan ainda estava trabalhando condicionamento físico, enquanto Siobhan estava ensinando manejo de lanças. Declan sempre aproveitava para surrar um ou outro miliciano em suas demonstrações de combate corpo a corpo.
Sprague tinha algumas idéias do que ensinar sobre estratégias de combate. Deu uma vistoria nas muralhas que protegiam Dassama, e na posição que os sentinelas ocupavam. Chegou à conclusão que o rei tinha razão em querer formar uma milícia, pois sua defesa era deficiente. Sprague suspeitava que mesmo que toda a população de Dassama fosse composta de soldados, ainda assim seria difícil resistir a um cerco feito por um exército poderoso. A cidade iria cair com certeza. Não havia como prevenir isso, a não ser rezar que esse dia estivesse bem distante.
_Conan, eu analisei a defesa militar de Dassama. Ela não presta.
_Seja mais claro.
_Quando houver um ataque à cidade, ela irá cair.
_Muito bem, o que pode ser feito?
_Nada. Talvez ajoelhar-se e pedir clemência.
_Bem e o que podemos fazer para retardar a queda de Dassama?
_Se fortificarem as muralhas e colocarem mais arqueiros, retardarão a invasão da cidade.
_Certo. Sprague, nós fomos contratados para treinar uma milícia e não para lutarmos numa guerra por esse reino, contudo falarei ao rei sobre suas impressões.
Conan procurou o rei Alibasson, que estava se divertindo com suas concubinas e ficou muito chateado por ter que interromper seu lazer, para falar com aquele bárbaro.
_O que deseja Conan?
_Um de meus amigos, Sprague esteve vistoriando a defesa militar de Dassama. Ele não gostou do que viu. Suas mulharas são ineficientes. Seria melhor fortificá-las e dispor mais arqueiros nas balaustradas. E mesmo isso talvez não possa evitar a invasão de Dassama, majestade.
_Meu caro Conan, temos que ser pragmáticos. Como eu posso fortificar as muralhas, se meus construtores estão na milícia? Agradeço a preocupação e interesse, mas eu tenho conselheiros e comandantes militares para me advertir. Que tal ocupar-se daquilo para o qual foi contratado?
_Um rei sábio não dispensa um conselho sensato, principalmente quando diz respeito à defesa de seu reino. Com licença majestade.
Conan retirou-se achando que o rei Alibasson era um idiota. O rei ficou achando que Conan era um cretino impertinente. Conan procurou Sprague para contar-lhe do resultado de sua audiência com o rei.
_Como foi Conan?
_O homem apesar de rei tem minhocas na cabeça. Ele não fará nada.
_Conan, se Dassama for atacada enquanto estivermos aqui, seremos mortos.
_Talvez morramos, mas jamais fugiremos como um cão covarde com o rabo entre as pernas.
_Temos que tomar uma providência então.
_Acha que pode iniciar sua parte do treinamento da milícia amanhã?
_Claro.
_Então treine-os em estratégia de resistência a um cerco. É o melhor que podemos fazer.
_Estive observando a amazona Theresa, ela daria uma excelente comandante.
_Concordo. Ela acha que não será aceita pelos homens, mas teremos que passar por cima dessas besteiras.
_Devíamos inteirar Declan e Siobhan sobre tudo isso.
_Vamos lá.
Conan contou tudo a Declan e Siobhan, que se prontificaram a ajudar de alguma forma. Conan nomeou Theresa comandante da milícia, perante todos os homens. Eles ficaram tão surpresos com a decisão de Conan, que não reagiram à notícia de que iriam reportar-se a uma mulher daquele momento em diante.
Sprague iniciou sua parte no treinamento: Estratégia na resistência ao cerco. Siobhan passou a treinar os homens no manejo em arco e flecha. Declan passou a ensinar golpes mortais. Conan diminuiu a quantidade de trabalhos braçais, para disponibilizar mais homens para os outros treinamentos. Parecia que ele adivinhava que uma guerra se aproximava. Alguns homens ficavam confusos com a quantidade de informações que recebiam. Theresa pareceu perceber que algo muito importante estava para acontecer.
_Conan, eu tenho notado toda essa movimentação e o senso de urgência de seus amigos. Diga-me se estou enganada, nós seremos atacados?
_Theresa, não sabemos de nada ainda. Digamos apenas que nossos ossos chacoalham com a vibração de guerra no chão. Talvez estejamos enganados, mas é melhor estarmos prevenidos.
_O que você espera que aconteça Conan?
_Um cerco, por um exército poderoso. Não há como resistir ou sobreviver. Apenas faremos nosso melhor, e se tivermos que morrer lutando, é o que faremos.
_Terei orgulho em lutar ao seu lado, Conan da Ciméria.
_Obrigado.
Os dias se passavam e a milícia ia ficando melhor preparada. O rei ouviu boatos de que Conan e seus amigos estavam treinando a milícia para resistirem a um cerco. Ficou possesso. Ele não dera nenhuma ordem nesse sentido, se havia alguém em Dassama que tinha autoridade para declarar estado de alerta máximo, era ele e não um bárbaro mercenário. Mandou chamar Conan para uma audiência.
_O que você acha que está fazendo? O rei aqui sou eu.
_O rei é você majestade, mas não está agindo com um homem sensato. Tudo o que estamos fazendo é o melhor para Dassama, e mesmo assim talvez seja inútil.
_O que? Ainda essa história de que nossas muralhas não resistem a um cerco? Você é um jumento de incompetência, Bárbaro. Você não sabe nada sobre nossa história. Sempre sobrevivemos a cercos.
_Falou bem majestade. Sua história passada. Só que estamos no tempo presente. Os exércitos são mais estruturados e equipados. Sua muralha não é inexpugnável. A dúvida não é se ela vai cair, a dúvida é quando ela vai cair.
_Seu... Idiota! Não o quero mais em meu reino. Ponha-se daqui para fora, você e seus amigos. Tem o direito a receber pelo trabalho realizado, mas não tolero mais sua presença aqui. Partam imediatamente.
Teria sido muito fácil para Conan sacar sua espada e destronar aquele rei decapitando-o, mas Conan agora guiava-se por códigos e normas. Uma delas era não gastar seu tempo com pessoas tolas e imbecis. Se o rei queria aprender pelo modo mais doloroso, que assim fosse. Ele iria chamar seus companheiros e se retiraria. Assim foi.
Despediram-se da milícia e deram adeus a Dassama. Um pobre homem que estava apanhando frutas em uma árvore, do lado de fora do reino, ficou muito eufórico com esta novidade. Ele rapidamente retirou-se daquela paragem e procurou o comandante do exército de Rycus para contar-lhe as novidades.
Dois dias depois o reino acordou com os sentinelas alvoroçados, tocando cornetas e correndo atordoados para avisar ao rei do rápido avanço de um exército, em direção às muralhas de Dassama. Eram cerca de 1000 homens. Alguns choravam antevendo a morte certa. Theresa ouviu o murmurinho e rapidamente convocou a milícia. Eles avançaram para as muralhas, armados de arco e flecha e lanças.
Theresa vestiu-se rapidamente com os paramentos de comandante, e surgiu altiva para liderar aqueles homens. O rei limitou-se a balbuciar "não é possível, isso não está acontecendo". Seu exército preparou-se para a contenda e alinharam-se do lado de fora das muralhas, para retardarem o avanço do inimigo. O comandante de seu exército, preparou seu espírito para a morte garantida.
Os conselheiros do rei avisaram-no que deveria abandonar a cidade, disfarçado de mendigo, pois caso o rei inimigo o encontrasse, iria colocar sua cabeça em um cepo, para vangloriar-se da vitória sobre Dassama e sobre o rei Alibasson. Assim fez o rei. Um terço do exército inimigo alinhou-se ao redor das muralhas. O exército de Dassama lutou bravamente. Eles caíram lutando e levaram muitos guerreiros inimigos com eles, mas não resistiram ao segundo levante de ataque.
O cerco iniciou-se e só não acabou rapidamente porque a milícia resistiu bravamente. Os milicianos usaram arco e flechas, lanças, cataputas com pedras e petróleo. Theresa organizou a resistência inteligentemente, mesmo sem nunca ter atuado em uma guerra. Então quando o terceiro levante de ataque parecia que iria passar como um carro de guerra sobre as muralhas de Dassama, surgiram quatro guerreiros, paramentados para a guerra, armados de arco e flecha e espadas.
Eles sozinhos enfrentaram e derrubaram uma centena de guerreiros inimigos. Um deles, de cabelos e barba prateadas, caiu vencido, com uma lança atravessada no seu pescoço. Os outros conseguiram recuar até as muralhas. Não conseguiram evitar que um enorme aríete fosse usado sobre os portais de Dassama, ou que os guerreiros inimigos conseguissem escalar as muralhas. Eles então iniciaram uma luta encarniçada, corpo-a-corpo com os guerreiros inimigos, ultilizando todo material e arma disponível, de clavas, a archotes, escudos e elmos.
Os milicianos abandonaram as balaustradas e entranharam-se no combate corpo-a-corpo. Theresa resistia bem, mas ao ver um arqueiro inimigo mirar em Conan, desviou sua atenção da sua própria luta para atingir o arqueiro com uma lança. Theresa foi decapitada pela espada de um capitão de exército. A maior parte da milícia foi dizimada. Apenas três guerreiros titânicos e um punhado de milicianos continuavam combatendo.
O castelo já havia sido saqueado, a corte do rei Alibasson jazia morta. As velhas e crianças ainda corriam gritando pelas vielas e catacumbas, tentando fugir dos agressores. Dassama ardia em fogo. O mais alto dos guerreiros daquela milícia resolveu abrir uma rota de fuga. Levou seus guerreiros até uns cavalos que estavam escondidos em um ponto obscuro, e resolveu colocar alguns guerreiros na garupa.
_Não, Conan da Ciméria. Não iremos com você.
_Deixem de ser estúpidos está tudo perdido.
_Por isso mesmo. Nossas famílias, nossos amigos, nossa cidade... Perdemos tudo. Não fugiremos ao nosso destino.
_Muito bem, aquele dentre vocês que ainda tiver amor a vida, pode vir comigo e com meus amigos.
Todos ficaram calados.
_Seus deuses terão orgulho de vocês. Adeus.
Conan, Sprague e Declan passaram galopando velozmente pelo exército inimigo. Um pouco antes dos portais destruídos estava preparada uma armadilha. Haviam fincado lanças no chão. Elas matariam os cavalos que passassem por elas. Conan viu isso e pegou um mastro que apanhou pelo caminho, atirou-o contra as lanças que estavam diante de si, destruindo-as, com isso passou facilmente.
Um dos cavaleiros, com longos cabelos e cavanhaque negro, não teve tanta sorte, seu cavalo foi transpassado e caiu, atirando-o de encontro aos guerreiro inimigos que o apararam na ponta de suas espadas. O outro cavaleiro deu um salto olímpico com seu cavalo sobre as lanças fincadas no chão. Os seteiros ainda tentaram acertá-lo, mas se poderia dizer que ele tinha a proteção de um anjo ou de um demônio, nenhuma flecha o acertou.
Declan e Conan continuaram cavalgando por muitas horas ainda, até seus cavalos desabarem de puro cansaço. Então eles procuraram esconder os cavalos e a si mesmos, pois suspeitavam que o exército inimigo viesse em seu encalço.
Fim do Capítulo
