Invocavi Maledictus Ventis (I Invoke Cursed Winds) IV

-Se eu ver este canalha novamente na presença do Aiolos, eu juro – juro – que vou matá-lo, mesmo sendo a última coisa que eu faça! – Aiolia proferia as palavras com desprezo, ódio, muito ressentimento. Gesticulava tão nervoso quanto as suas palavras.

-Calma, Leão. – Milo chegou por trás e colocou as mãos em seus ombros e apertou em uma leve massagem. -É difícil, mas estourar não adianta agora. Saga está em um polo e o Aiolos em outro. Ambos estão seguros.

-Que ódio. – O leonino passou as mãos no rosto, ainda esquentado.

-Milo tem razão. – Dizia um Camus controlado externamente, mas preocupado em seu interior. Retirou o seu elmo, colocando à mesa de centro do Templo do mais novo, então, caminhou até ele. -Não estou dizendo que é fácil, você encontrou Aiolos em uma situação extremamente delicada. Mas ao mesmo tempo, temos que averiguar o como, porquê e quando do momento.

Ainda em sua expressão séria, Aiolia balançou a cabeça e o olhou, não compreendendo o sentido das palavras dele naquele instante. -Como? – Com uma das mãos, sobrepôs seus dedos por sobre uma das mãos de Milo.

-Aiolos está repousando. Ele precisa relatar o ocorrido. – Resumiu. Em seguida, tocou no rosto do mais novo. -Por agora, porque não vai se sentar? Sagitário está medicado e cuidado. – Camus deu um breve sorriso, em conforto.

Milo se afastou e deixou o seu elmo junto do amado, em cima à mesinha. -Farei um chá. – Sua expressão era de preocupação, mesmo depois de ir até a cozinha, não dando tempo de ouvir Aiolia a discordar ou concordar.

Olhou para o escorpiano, vendo-o sumir de vista, assim, seguindo o conselho do aquariano, buscou a poltrona mais próxima e se permitiu cair a ela. De fato, era um conforto necessário. -Camus, senta. – Pediu e logo o outro também se sentou.

Aiolia buscou o seu celular ali em cima, para se distrair momentaneamente, enquanto a mão livre passava pela boca e queixo. Suspirou. Mas, segundos depois, não conseguia se concentrar no celular, ao sentir um cosmo e passos se aproximarem.

-Aiolos! – Olhou em ansiedade para as poltronas, achando que Camus era Aiolos.

-O. Que. Você. Quer? – Vociferava palavra por palavra, ao ouvir e reconhecer uma das vozes que mais odiava no Santuário e em sua vida.

-Notícias... O que aconteceu? – Shura retirou o elmo, mas ainda o segurava. Olhava o leonino, igualmente ansioso.

Aiolia se levantou e jogou o celular na mesa, novamente. -Suma do Templo de Leão. AGORA! – O leonino já estava enfurecido pela situação, e a presença de Shura piorava os seus sentimentos. -VÁ! Não quero ver a sua cara! É outro que vai ser proibido de chegar perto dele! Senão –

-Shura. – Interrompeu, Camus. -Aiolos está bem melhor, mas agora está a repousar. Houve um breve confronto entre ele e Saga, ambos estão descansando, nem nós sabemos algo concreto, ainda. – Cruzou as pernas, enquanto o olhava.

Capricórnio não deixou de demonstrar ansiedade e preocupação com Aiolos. Não gostava do tom de Aiolia consigo, mas tinha a plena consciência que argumentar ou contestar, não só não era o momento, como sabia que ele o detestava. Então, balançou a cabeça à Camus, demonstrando-se agradecido pela resposta. Olhou para Aiolia, antes de mencionar sair. -Leão, melhoras para o seu irmão. – Saiu, enquanto o mais novo resmungava alguma coisa que nem Camus entendeu.

-O que eu perdi? Ouvi você gritando, Aiolia. – Milo veio da cozinha, com uma bandeja. Trazia três xícaras e o chá de ervas calmantes que aprendeu a fazer. Serviu e deixou ante a todos ali, para sentar-se.

-O idiota do Shura veio atrás de fofoca para a panelinha dele. – Camus riu ao ouvir aquilo.

-Então temos certeza que em... Dez minutos o Santuário inteiro vai saber que Saga tentou matar o Aiolos. – Milo fez graça, mesmo cruel, e Aiolia deu um breve riso, concordando.

-Afrodite não só conta, como aumenta. Capaz de dizer que há uma nova guerra santa. – Complementou.

-Ele deveria ser apresentador de jornal sensacionalista, não Cavaleiro de Ouro. – Aiolia sorriu com um toque de maldade.

Serviu seu copo com água da jarra, tremia ao fazê-lo, sabia que algo estava errado com o amado, com o gêmeo. Algo sério e ruim, sentia o que era, e isso, estava acabando consigo a cada instante. Por fim, conseguiu se servir e tomou um gole da bebida.

Quando lhe ocorreu que ali, poderia ser o momento: partiria para o Santuário, iria averiguar o que sentiu, já que era algo seu e do gêmeo, e nem Poseidon sentiria o que tinha em seu coração agora.

Rapidamente vestiu-se com roupa de treino, não havia necessidade ir de Escama, poderia levantar suspeitas. Logo depois, saiu do dormitório. Como ordenado por seu superior, teria então liberdade de ir e vir em ambos os Reinos, e foi o que fez.

Sua trajetória não foi tranquila. A todo momento, mentalizava Saga, a todo momento, tentava se comunicar com ele com o seu cosmo, com o coração. Mas nada como resposta. Apenas, durante à noite, ouviu o mais velho lhe pedir por socorro, mas algo tão breve, que acreditou ser efeito da briga e despedida de ambos.

Mas agora sabia, que era um aviso. Que aquele socorro, era real.

Mesmo com a sua roupa de treino, bem reconhecível no Santuário, ajeitou um sobretudo em suas costas, assim que entrou no Reino de Athena. Misto de sensações lhe vinham ao peito, mas naquele momento, deixava isso e o passado de lado, pois notava uma comoção estranha, por quem passava. Não era por conta de sua presença, sequer lhe notavam mais, pois ia e vinha dentro do Santuário há tantos anos, que agora, já não era uma sombra de Saga, ou um desconhecido.

Foi parado por um guarda aos pés da escadaria, mas ao olhar diretamente para ele, e o subordinado notar a sua semelhança com o irmão, engoliu seco e saiu de sua frente. Então, subiu os degraus, Áries, quieto, vazio. Estranhou que sequer Kiki estava ali na ausência de Mu.

O mesmo, ocorreu em Touro. E estando ali, parecia sentir o seu coração ser retorcido por uma mão invisível em seu peito, uma vez que se aproximava de seu Templo, também. A mesma quietude na Segunda Casa.

Mas, diferentemente das anteriores, Gêmeos estava bastante movimentado: servas entrando em saindo, nunca de mãos vazias e guardas, alguns diante as entradas.

Saga odiava isso. Como então permitia aquele povoado na Casa? Como antes, entrou mesmo diante do aviso dos guardas, afinal, era seu Templo, também.

Juntou as sobrancelhas ao ver que mesmo com a arrumação das servas, a casa ainda estava bagunçada. Uma delas limpava vidros e espelhos ao chão.

Kanon se aproximou do espelho dilacerado. E sentindo ainda mais o seu coração apertar, leu de imediato que aquilo indicava apenas uma coisa: Ares. Ao mesmo tempo, se recordou de uma das versões do querido livro do irmão: o quadro de Dorian era a ruína dele próprio.

O espelho era a ruína de Saga.

O mais novo passou o dedo por uma das lascas, com cuidado para não se cortar. E seus olhos passeavam pelo objeto. Via a si, deformado pelo vidro quebrado, até que olhou para baixo, notando ao pé do espelho, rastros de sangue ainda não limpos. -Que droga... – Resmungou, quando se distraiu com um som vindo do quarto. -Saga!

Adentrou rapidamente, para se deparar com uma serva saindo com a roupa de cama. -Senhor? – Indagou a garota, sem jeito. -O senhor de Gêmeos não está aqui, está sob os cuidados da nossa amada Deusa. Sinto muito.

-Sente? – Fez uma pausa, a pensar. -O quê... Aconteceu?

-Não sabemos muito. Apenas ouvi que o senhor de Sagitário tentou mata-lo e eles entraram em guerra.

Kanon não quis ouvir mais nada. Saiu disparado, sentindo o cosmo de Aiolos fraco, mas bem próximo. E ao contrário de Áries e Touro, Câncer estava com o trio usual – Máscara da Morte, Afrodite e Shura – aparentemente tranquilos.

-Kanon, que surpresa – Foi tudo o que conseguiu ouvir do suposto cumprimento, pois avançava apressado para Leão.

-É verdade... Milo às vezes é prendado, Camus. – Debochou ao conversar com o aquariano, quando de rompante, percebe que Kanon adentrava a sua Casa em tal velocidade que quando olhou, estava sendo pego pelo pescoço.

-Kanon! – Camus avançou junto com Milo, a segurá-lo e afastá-lo do leonino, que não por menos, atingiu aos três com um Relâmpago de Plasma. Os amigos caíram ao chão, mas Kanon, se manteve com um dos joelhos ao chão, não pego de surpresa. Nisso, sorria, em maldade.

-Irmão de traidor, pupilo é, não é mesmo?

Aiolia fulminava o geminiano com o seu olhar. -Talvez eu não seja misericordioso.

-Não se preocupe, não quero você. – Falou enquanto se erguia e se dirigia ao aposento de Leão. Invadiu, abriu a porta, notando um Aiolos sentar com dificuldade na cama. O viu ferido. -ASSASSINO!

Avançou com tal fúria para cima que fez o sagitariano voltar a deitar e gemer de dor, principalmente com as mãos em seu pescoço e o cosmo contra si.

A segui-lo, Aiolia adentrou o quarto, puxando Kanon para longe, sem sucesso. Mas, para alívio, Camus e Milo vieram ajudar e conseguiram tirar o geminiano de cima do outro, enquanto ele se debatia com os dois a lhe segurar. -ASSASSINO! – Repetiu, vendo Aiolia calmamente sentar junto com o irmão.

-Mas…? – Dizia Sagitário, atônito.

O cosmo de Aiolia demonstrava não apenas a fúria, mas estava pronto para uma luta, enquanto segurava o irmão com força.

-Acalmem-se, por favor! – Pediu o aquariano, enquanto Kanon ainda não cedia. -Mas porquê assassino?

-Acabei de saber! Você tentou matar o meu irmão! E eu vou matar você! – Fechava um dos seus punhos, já demonstrando um de seus golpes.

-Kanon, por favor. Nos ouça antes, isso é bem mais sério...

-Você vive com Poseidon, não sabe o que acontece aqui e vem derrubando tudo! – Reclamou o leonino.

-CALADO!

Milo bufou, notando que ele não se acalmaria. Nisso, soltou o geminiano e ficou à sua frente. Desferiu um forte tapa em seu rosto. -Respira e escuta, caramba.

-Não vou ouvir mentiras de um traidor.

-Kanon... – Começou Aiolos, mesmo sabendo que não seria compreendido. -Vocês dois brigaram, não foi?

-Cale-se!

-Kanon…. – Continuou. – Me escute. Desde que você foi embora... Saga ficou estranho. Mas nós sabemos como ele é reservado, e é óbvio que não iríamos incomodá-lo. Mas eu estava descendo para as minhas tarefas ontem.

-Não vou ouvir.

-Quer saber, mas não quer ouvir! Nem nós sabemos o que aconteceu de verdade. – Interrompeu Milo. Só sabemos que Saga estava desacordado e o Aiolos estava prestes a desmaiar.

Sagitário olhou para cada um ali e continuou. -Passei então por Gêmeos e senti algo estranho. A sua Casa estava escura, bagunçada e abandonada. E me deparei com o Saga no chão, todo machucado...

Foi quando Kanon se deu conta do sangue e dos estilhaços.

-Tentei ajuda-lo... Ele não quis a minha presença. – Desviou o olhar. -Ares interrompia a nossa conversa a todo momento. Eu ignorei, ou melhor, tentei fazer com que o seu irmão me ouvisse e ignorasse aquele homem.

-É mentira! Ares não voltaria!

Mais uma vez, foi ignorado. -Foi quando o Saga me pediu para atirar a flecha nele. Kanon... Saga tentou tirar a própria vida com a adaga dourada. Depois tentou tirar a minha, mas o convencia a não fazer. Chegou em um ponto que tive que ceder e no mesmo instante, Ares surgiu com a Explosão Galáctica do seu irmão. É dura, mas este é o relato do acontecido. E Saga... Não vai me desmentir.

-Kanon... Você estava presente quando Saori e Shion nos comunicaram de uma ameaça iminente. Saga e Ares fazem parte disso. E o meu irmão tentou nos proteger, mais uma vez, das merdas que o Saga faz! – Aiolia estava racional ao começo das suas palavras, mas ao seguir, até a última, ergueu o seu tom de voz.

-Fedelho! – Dragão Marinho se debateu nos braços de Camus mais uma vez. Kanon ficou mais irritado naquele instante, porque sabia que parte das palavras de Aiolia não eram nada mais que fatos.

Respirou fundo e se desvencilhou de Aquário. Agora tornava ao porte sério e bravo. -Onde o meu irmão está?

-No Templo de Athena. – Respondeu Escorpião.

-Não matei o Saga. Fiz com que a flecha adormecesse, ao máximo, Ares. – Revelou. -Eu não podia mata-lo. Não o fiz, por você, Kanon. – Aiolia o olhou um tanto incrédulo.

-E eu deveria me jogar aos seus pés como agradecimento? – Perguntou, sarcástico.

-Não. Mas sim aos pés de Saga, por ainda estar vivo e esperando por você. – Rebateu.

-Você... – Passou uma das mãos nos longos cabelos loiros. -Se voltar a se aproximar dele, ou olhar para ele, ou estar no mesmo espaço que ele, Aiolos, vou empalar você com a sua própria flecha, está entendendo?

-Kanon de Dragão Marinho, o que diz não me ameaça. Não devo nada a você, à Saga ou à Athena. Cumpri a minha tarefa como Cavaleiro de Ouro ao mesmo tempo que não agi sem descumprir ordens de meus superiores. É tolice vir guerrear comigo tomado apenas de ciúme. Recorde-se que foi o seu irmão que atentou contra a minha existência, não o contrário. – Aiolos naquele momento ainda estava calmo, mas ao mesmo tempo, bravo. Simplesmente por ele não compreender o momento e nem a suas palavras.

E em resposta, Kanon cerrou os olhos e saiu esbarrando Milo e Camus. E eventualmente Dohko que surgiu no corredor.

O geminiano mais novo segurou algumas lágrimas durante o caminho. Subiu, agora não tão apressado, mas pensativo sobre o que ouviu dos colegas. Sobre o que ouviu de Aiolos. O odiava, mas ao mesmo tempo, sabia que ele não era um homem e cavaleiro mentiroso. Odiava Sagitário ainda mais por saber que ele estava certo e que concordava com ele.

Alcançou pouco depois o Templo do Grande Mestre. Alcançar Athena não seria uma tarefa fácil, sentia que ela rezava e meditava com Saga. E enquanto não podia ver o amado, lhe acalentava que ele estava sob proteção, literal, dela.

Ainda que, precisava vê-lo. Talvez, pudesse remediar a situação, se ele permitisse a sua volta.