Uma criança a menos no povoado.
A mulher brigava com o marido enquanto este simplesmente tremia e olhava para os lados procurando algum sinal de sua garotinha.
A noite já havia caído, a temperatura também. O frio tomava conta do lugar e nem as grossas blusas que o casal usava poderiam protegê-los. Ambos estavam parados em frente à floresta que delimitava o pequeno povoado, já estavam cansados de procurar a pequena. Ela havia desaparecido enquanto o pai cortava lenha para colocar na lareira naquela noite, entretanto várias horas se passaram e a criança ainda não tinha aparecido.
A floresta era um lugar perigoso, todos sabiam disso. Apesar de ninguém passear muito por lá, além de crianças curiosas, a existência de animais selvagens era real, e o medo de algo desconhecido também.
- O que quer que eu faça?
Enfim o velho perdera a paciência com sua mulher. Uma criança a menos na família e ele continuava impotente. Não podia fazer nada, como da primeira vez, e isso o fazia sentir-se inútil, não podia proteger sua própria família.
A palavra família já não fazia sentido há um bom tempo.
Dois anos atrás exatamente.
Ele trabalhava vigiando a entrada do País do Ferro quando conheceu a tímida Tsurama, ela havia acabado de alugar um quarto na pensão de Teuchi-san e logo foi à biblioteca da cidade procurar um emprego. Ele a viu conversando com o – velho e quase cego – Mifune-san e explicara que trabalhar com livros era a única coisa que sabia fazer. Apesar de seus esforços, ela não conseguiu e o – não tão jovem – Danzõ propôs que a moça trabalhasse cuidando de seu pai doente. Ela era um desastre, mas, com paciência e um desejo incontrolável de torna-la a mulher perfeita para si, o herdeiro a ensinou e logo fez com que a – agora não tão imprestável – Senju aceitasse seu pedido de casamento. Semanas após o pedido, o velho Shimura falecera e a mulher insistiu que se casassem o mais rápido possível.
- Aonde você vai? – indagou Tsurama ao ver seu marido andar em direção contrária à da floresta.
O povoado era um lugar tranquilo e esquecido por Deus. Idosos, em sua maioria, viviam lá, muitos à base de aposentadoria ou faziam pequenos serviços em troca de algum dinheiro para sustentar a casa. Com o homem não fora diferente, assim que casou-se decidiu deixar a pensão e voltar para sua "querida" casa, então se prontificou a tornar-se o "cortador de lenha oficial" da vila, não ganhava tanto, mas como o custo de vida era quase nulo foi o suficiente. Após isso, incapaz de se controlar, engravidou a moça antes mesmo de se casarem, logo, a ideia de um vestido longo e branco logo fora descartada. Apesar de sua mulher ter defendido a história de que era um lugar seguro, assim que se mudaram um enterro havia acabado de acontecer, um jovem casal e uma criança haviam morrido, porém ninguém nunca se interessou em saber o que causara a morte precoce que deixara dois jovens sozinhos no mundo.
- Volte para casa – resmungou ele e parado em frente a grande porta de madeira a esmurrou e esperou que o dono da casa a abrisse.
A gravidez da Senju fora maravilhosa, o jovem casal esperava ansioso para o nascimento de sua primeira filha. E, finalmente, o homem aprendera a sentir algo mais do que desejo por sua esposa; acreditou que amava-a tanto que era incapaz de olhar ou tocar em alguma outra mulher.
Enganou-se.
Não contava que seu desejo despertaria ao conhecer um homem.
A ilusão vivida por eles durou anos. O nascimento de sua primogênita, Shizuka; em seguida, o nascimento da cópia do pai, Tenma; e, enfim, o nascimento da pequena Shibuki. Três lindas e amadas crianças que cresceram em um lar cheio de amor e carinho por longos quinze anos.
- O que houve? – perguntou o dono da casa, deixando uma expressão confusa tomar conta de suas feições.
O velho Shimura puxou o homem pela gola da camisa e o empurrou contra a porta.
- O que você fez com ela? – gritou.
- Com quem?
- Shibuki!
Ainda confuso, o outro analisou o casal com a clara expressão de cansaço que os dominava.
- O que houve? – repetiu ele.
Largando-o, mas mantendo a voz grosseira e exalando raiva por todos os poros, continuou:
- Vocês levaram Shibuki!
Analisando-os mais uma vez o Uchiha entendeu o que havia acontecido, entretanto não sentiu remorso algum, pois se pudesse retiraria até a alma do demônio que via a sua frente.
- O que quer com isso?
A Senju pela primeira vez se manifestara e, ainda sem encarar mais novo, enxugou a lágrima solitária que escorreu por seu rosto.
- Acho que sabe o que quero – respondeu, fazendo todo esforço possível para se controlar e não rasgar a garganta de um deles.
- É assim então? – perguntou Danzõ. – Então durma de olhos abertos, porque se algo mais acontecer com minha família, cortarei sua cabeça.
O homem foi de encontro a ele e sorrindo sarcasticamente, disse:
- Tente, duvido que seja corajoso o suficiente para enfrentar alguém do seu tamanho, mas tente! – E virando se e preparando para fechar a porta de sua casa, continuou – só tome cuidado para seu machado não decepar a sua cabeça.
O casal continuou estático por um tempo, olhando para a porta que acabara de se fechar. Ainda tomado por lembranças, e atordoado pelas palavras que acabara de ouvir, não pôde deixar de constatar que a culpa de tudo era sua.
A chegada do casal ao povoado foi sinônimo de festa para a família. As crianças se animaram perante aos tios que conheciam o mundo e tinham várias histórias para contar. Para Tsurama, inicialmente um choque, uma centelha de esperança se espalhou pelos olhos da mulher ao saber que seu irmãozinho poderia ajuda-la e a seus filhos. Para o Shimura, uma interessante conquista seria posta em prática ao perceber que não tinha olhos apenas para mulheres.
O desejo, tão incontrolável quanto o de um animal, tomou conta dele novamente, entretanto ainda havia o marido. O bonito, rico e inteligente marido que atrapalharia sua vida. O homem que ele nunca seria. O espetacular Senju que tirara seu sono e sua paz, fora a razão de sua desgraça, e pior ainda fora o momento quando tentou agarrá-lo e o infeliz conseguiu se soltar e fugiu, mas não antes de deixar hematomas que Danzõ ainda possuía. Naquela noite, seu objeto de desejo ficara tão descontrolado que fora preciso o próprio Uchiha segurá-lo para parar o espancamento. Dois dias depois, a jovem Shizuka fora envenenada após tomar um chá preparado por seu tio. Dois anos depois, Uchiha Madara voltou para o povoado e, duas semanas após isso, a doce Shibuki desapareceu na floresta. O rastro de matança do casal iria continuar até estarem todos mortos.
Lá dentro, o dono da casa logo tratou de pegar um casaco mais grosso e, terminando de beber o ultimo gole de whisky que tinha em seu copo, saiu em direção a floresta.
Seu desejo de tomar um chocolate quente poderia ser realizado em breve.
