Capítulo 4

Atravessavam um belo bosque de árvores centenárias e tão frondosas que o sol, já bem alto no céu, mal alcançava a estrada coberta de folhas e musgo. Borboletas voavam por toda parte e o som de um regato correndo preguiçoso preenchia o ar com tranqüilidade e frescor.

Peter soltou um suspiro lamentoso, Sirius que estava num péssimo humor, deu-lhe com a espada embainhada no meio dos cocos, o novo companheiro de viagem sobressaltou-se com o golpe, e lançou um olhar de censura ao cavaleiro, mas este nem reparou, estava novamente perdido em seus pensamentos. Saíram às pressas do Dragão Escarlate, bem antes do desjejum, motivo pelo qual Peter não parava de lamentar. Era realmente muita ousadia! Ainda mais depois de discutir com o seu mestre, pois não queria que o lobisomem viesse em sua garupa. Só se aquietou quando seu mestre disse: "Que seja! Ele fica com seu cavalo e você volta a pé para Londres".

Peter deixou escapar mais um suspiro e instantaneamente, dando se conta do perigo, tapou a boca traidora e protegeu a cabeça, mas o golpe não veio. Sirius apenas olhou pra ele, bancando o durão, como costumava fazer sempre que não conseguia recusar-lhe qualquer coisa que quisesse. Esperou passar alguns segundos e anunciou:

"Vamos parar um pouco."

Peter saltou do cavalo com uma energia que não lhe era comum, a não ser durante as refeições, é claro, e logo já estava se embrenhando no mato a procura de lenha para fazer um chá. Sirius, também não estava em seu estado comum, estava um tanto quanto constrangido em ficar a sós com o prisioneiro, seu orgulho ainda estava abalado pelo deslize que cometera mais cedo. Sem jeito, aproximou-se do garoto e perguntou:

"Precisa de alguma coisa?"

Em resposta recebeu um olhar mais do que admirado. Sirius imaginava bem a que tipo de tratamento estaria acostumado sob a guarda daquele troglodita.

"Água, Sir", respondeu timidamente o prisioneiro.

Sirius tomou as rédeas do cavalo de Peter e guiou-o até o riacho. Ajudou o garoto a descer e afastou-se um pouco, mas sem tirar os olhos dele. Remus mergulhou as mãos na água e bebeu avidamente, depois molhou um pouco o rosto refrescando-se. A poucos passos dali o cavaleiro, repentinamente, tirou o gibão e a camisa, atirando-os displicentemente ao mato, dirigiu-se para o rio onde começou a banhar o tórax forte e bem torneado, examinava um corte não muito grande do lado esquerdo da barriga. De repente pareceu lembrar-se de algo, então foi até o alforje de seu corcel negro, retirou um pacote, dirigiu-se para ele e, sem aviso prévio, tomou-lhe o braço ferido pela maldição.

"Dói muito?" perguntou meio sem jeito.

"Um pouco", respondeu o outro erguendo os ombros, como se aquilo não tivesse importância.

Sirius retirou um pote do pacote e começou a passar algum tipo de pomada sobre a carne lacerada, depois aplicou-lhe uma bandagem e, por fim, enfaixou bem o braço.

"Obrigado", disse agradecido, olhando Sirius nos olhos pela primeira vez.

O cavaleiro fez um gesto dispensando o agradecimento, o garoto olhava-o ainda, como se quisesse dizer mais alguma coisa mas não ousasse. Sirius imaginou que quisesse saber qual seria o seu destino dali em diante. Teria idéia do que o aguardava quando se completasse o próximo ciclo lunar? Ou teria ainda alguma esperança de cura? Quando finalmente tomou coragem para perguntar-lhe, Peter apareceu fazendo sinal, avisando de que o fogo já estava aceso, e apressando-os para o desjejum. Sirius, aliviado, aquiesceu prontamente. E depois de uma refeição mais que silenciosa, caíram na estrada novamente.

Sirius estava inquieto. Era a primeira vez em sua carreira de cavaleiro, que se deparava com aquele tipo de tarefa. Pelas leis da Ordem, a pessoa que fosse mordida por um lobisomem tinha que ser executada, porém somente em sua primeira transformação, quando o lado humano finalmente cedesse lugar ao monstro. Ele sempre achara esta lei estranha, afinal lobisomem era lobisomem, e dar mais um mês de agonia a uma pessoa condenada era uma crueldade maior ainda que uma execução sumária. Mas gora Sirius já começava a aceitar a possibilidade de seus antecessores fossem mais sabidos que ele. Não seria tão simples assim apontar uma espada para alguém inocente como o garoto adormecido na garupa de Peter, ainda que estivesse condenado. Ele sabia muito bem do que lobisomens eram capazes. Ainda se lembrava dos corpos semi-devorados: ossos e tripas expostos, apenas as lágrimas e o desespero de uma mãe, um pai, um irmão, poderiam atestar que um dia houve vida naquelas massas sangrentas estiradas na lama. Fora numa das primeiras aldeias que visitou como cavaleiro, mas essas lembranças ainda insistiam em perturbar seus sonhos. Olhou mais uma vez para o jovem pálido e frágil, mas dessa vez o que lhe veio à mente foi, o rosto intenso e severo de seu mentor, Alastor Moody. Certa vez quando ainda estava em treinamento, Sirius perguntara-lhe se não havia mesmo nenhuma cura para aquela maldição. A resposta veio rápida e cortante:

"Há uma", e sacando a espada de prata colocou-a entre as mãos do pupilo.