Olá, meninas!
Bem agora sim, estão todas aí!
Queria agradecer muitíssimo pelas reviews e elogios! Estou muito feliz de estarem todas gostando, espero não decepcionar!
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Emoções II
A menina não tinha mais de oito anos, embora não pudesse precisar sua idade, ou em qual época do ano aquilo se passava. Estava em frente à cabana, a madeira morta rangia como um homem velho com dor nas costas. Era fim de tarde, tudo parecia cinzento, nuvens pesadas cobriam o céu, a floresta perdia lentamente sua cor vibrante. Ela estava agachada próxima a um pequeno canteiro de flores e acariciava as pétalas com a mais pura adoração.
- Vocês não morrem... – sussurrou alegremente.
A floresta fez um som diferente quando o vento soprou, pareciam burburinhos alegres, despreocupados e até um pouco maliciosos. Os pés descalços na terra fria, as mãozinhas sujas e gordinhas, o cabelo preto assanhado pedindo por um corte e as roupas brancas, quase amarelas de tão encardidas. O corpo pequeno da criança não fazia volume nenhum no tecido.
- Vocês ficam bem perto de mim.
Murmurava mantendo seu timbre comovido sempre abaixo dos sons da mata. Sorria.
Então houve silêncio, a floresta se calou, havia apenas um leve bater de asas próximo ao ouvido. A japonesinha virou a cabeça levemente, como se temesse causar algum estrago se mexesse mais depressa. A borboleta passou rente ao seu rosto e acompanhando o vôo do inseto cinzento que se afastava seus olhos, arroxeados como os céus ao fim de um crepúsculo, pousaram sobre o jovem monge. Ela não escondeu sua alegria e levantou correndo até ele, mas Gen parecia não se aproximar nunca, mesmo que eles caminhassem um de encontro ao outro. Então ela sentiu as pontas dos dedos nas palmas das mãos fechadas e parando de andar, foi lentamente abrindo-as e o sorriso que brotou ao ver seu amigo morreu de súbito.
- Vocês morreram... – sussurrou em algo entre a decepção e surpresa.
Lágrimas brotaram em seus olhos ao ver as pétalas esmagadas em volta do carpelo, soltando pólen em seus dedos miúdos. Iria começar a chorar quando ouviu novamente o mesmo som de asas, mas dessa vez mais forte, como o ronco de um monstro adormecido, e atrás dele o som de risos, mas não risos alegres como os da floresta, eram diferentes, bêbados, debochados. O som de asas se tornou mais alto, insuportavelmente alto e quando deu meia volta, uma nuvem de borboletas negras passou por ela com a força de um tufão. Black Ageha protegeu os olhos com os braços, e se preparou para o choque dos insetos contra seu corpo, não este não veio. Houve apenas um som alto e grave de asas batendo-se umas contra as outras. Quando o som cessou só restaram risos. O cinza da floresta foi substituído por colunas adornadas com seda, pisos de mármore, vestidos de gala, taças de ouro e um céu azul que parecia topázio de tão brilhante. Ela baixou os braços lentamente tentando reconhecer o ambiente no qual se encontrava. Estava confusa, perdida, buscava por um rosto conhecido, mas nenhuma daquelas faces perfeitamente esculpidas e risonhas parecia reparar nela, até que dando meia volta, ela viu, no lugar onde deveria estar Gen, um homem belíssimo, com seus cabelos brancos impecavelmente derramados em ondas, o rosto másculo e liso, os olhos dourados e firmes nela. A face dele era austera, e sem se dar conta Black Ageha tomou uma postura digna da realeza, seu queixo ergueu-se de forma espontânea e quando olhou para suas mãos sujas de pólen vislumbrou entre os dedos uma maça tão rosada quando as flores que segurava segundos atrás. Então voltou os olhos acusadores para o belo homem que se aproximava com sua túnica de um branco imaculado só quebrado pelos fios de ouro do bordado. Apertou o pomo entre os dedos e falou com uma voz que não era sua.
- Não é o suficiente, papai.
Os dois ficaram encarando-se por um bom tempo, o semblante dele era grave e soberano, faria qualquer mortal cair de joelhos e pedir perdão por um crime que não cometeu. Mas ela parecia ostentar o mesmo olhar afiado, e só o deixou para fitar com desdém a maça, concentrou-se na fruta com certa estranheza e antes que pudesse perceber ouviu o bater de muitas pequenas asas ecoando de todo lugar, mas estava tão concentrada naquela cor rosa e sabia que tinha algo mais a dizer, algo importante, algo que...
- Black Ageha!
Ouviu o chamado e por um instante ficou alheia a ele, como se não fosse com ela, mas de repente lembrou-se de quem era, pretendia voltar o olhar para o homem altivo a sua frente, mas no lugar dele viu o rosto preocupado de Zöe. O bater de asas se tornou baixo, como um sussurro e de trás da outra guerreira surgiram milhares de mariposas e borboletas que voaram furiosamente para fora do quarto pela janela aberta, levando os cabelos negros como um passageiro clandestino na força de seu vôo.
Piscou os olhos algumas poucas vezes. Estava em seu quarto, pareceu confusa por um momento, mas aos poucos reconheceu o ambiente em volta, girando os olhos lentamente pelo papel de parede florido e o vasinho de violetas perto da janela e então pousou os olhos calmos e gentis no rosto de Zöe.
- O que foi? – perguntou em um tom de voz despreocupado, como se nada tivesse ocorrido.
- "O que foi"? – a outra perguntou incrédula – O que você que dizer com "o que foi"? Você estava daquele jeito de novo! Chamei-a várias vezes e você nada!
- Uhum... – ela confirmou desinteressada esfregando lentamente as pontas dos dedos, tentando sentir o toque macio do pólen com certa aflição.
A outra suspirou pesadamente, vendo que havia se preocupado a toa, sentou na cama deixando o corpo simplesmente cair sobre o colchão.
- Estava sonhando com seu pai? – perguntou com a voz mais calma, olhando para a japonesa.
Depois de alguns segundos sem resposta, Black Ageha levantou a cabeça lentamente e a encarou com certa curiosidade. Ela não parava de tocar os dedos, mas Zöe viu que tinha conseguido sua atenção.
- Você falou "papai". – a outra assentiu com um movimento quase imperceptível.
- Sim... – desviou os olhos da guerreira e voltou a fitar suas mãos como se fossem a coisa mais interessante do mundo – Mas aquele pai não era o meu.
Concluiu mais pensando alto do que falando com a outra. Tentava não pensar em suas visões, sabia que no tempo certo a compreenderia. Passados mais alguns segundos ela esboça um sorriso com sua boquinha de boneca e lhe mostra as palmas das mãos abertas.
- Estão limpas, vê?
- É – respondeu com estranheza – Estou vendo.
Arquejou uma sobrancelha e ficou esperando a atitude seguinte. Felizmente Black Ageha voltou ao seu normal e as duas desceram, Zöe fez sala para Athena enquanto Black Ageha ia para o salão onde Ishtar trabalhava, ignorando completamente os visitantes. A finlandesa levantou os olhos agressivos quando a porta dupla se abriu, mas os relaxou quando viu que se tratava da japonesa.
- Posso ficar? – pediu permissão com sua face inexpressiva e delicada, assim como a de uma boneca.
- Desde que mantenha seus amiguinhos fora. – Ishtar se referia aos insetos.
- Certo. – Dito isso Black Ageha avançou no salão e sentou dentro de um dos círculos que já estavam prontos observando a outra – Não posso ajudá-la, posso?
- Não. – respondeu secamente.
- Então apenas ficarei quieta.
Disse e as duas calaram-se. Por mais que Ishtar reclamasse, gostava de ter companhia e quando essa companhia tinha o dom de não irritar-lhe era melhor ainda.
Resgate VI
Mundo Inferior – 1ª PrisãoJá era a terceira ou quarta vez que percorria o banco de réus, não tinha sido notada até então, mas estava se arriscando demais, se fosse alguma outra missão já teria sido abortada, mas ela fazia questão de não falhar nessa. Tentou lembrar-se por que era tão importante, não ligava para aquele cavaleiro de quem apenas tinha ouvido falar, e muito mal inclusive. Parou olhando a extensa fila de pessoas sentadas, esperando por seu julgamento, visualizou um espaço vazio no banco e sentou-se lá pensando em um bom motivo para não ir direto para casa naquele exato instante.
Recostou-se na parede de pedra e se espreguiçou pondo as mãos atrás da cabeça. A verdade é que tinha vindo apenas por curiosidade, mas para sua decepção ficara na primeira prisão, de modo não fazia idéia do inferno que se seguia atrás dos pesados portões de madeira, além da sala de julgamento.
Após a Guerra Santa, quando Hades foi derrotado e morto por Athena o submundo virou o caos. O inferno humano havia se desfeito em pó e as almas dos mortais caíram direto em Tártaros, onde os deuses condenados ficavam presos por toda a eternidade. Não tardou para que as Moiras dessem um jeito na situação. As deusas do destino que tiveram que cortar o fio da vida de Hades em decorrência da batalha. Transaram várias carreiras de fio, antes que pudessem por de volta o fio totalmente negro, o dourado e o prateado de volta no tear. Ao contrário dos mortais, os novelos onde se enrolavam os fios dos deuses não tinham fim, de modo que quando um fio era partido, só era necessária uma chance para que as Moiras pegassem a ponta e os trouxesse de volta a vida. Quando Hades regressou, viu que o mundo inferior tinha sido desfeito, as prisões não mais existiam, tudo era um espaço negro e indistinto, sem ter sequer onde se pisar. Em sete dias recriou seu mundo, demorando-se muito mais no Elísios, Hypnos e Thanatos que regressavam com ele, apressaram-se em retomar suas funções, que haviam sido desempenhadas por oneiros e ceifeiros. O inferno a pouco havia sido restituído e essa era precisamente a razão daquele banco de réus, com mais de um quilometro de comprimento. As almas precisavam ser julgadas novamente, para então voltar ao inferno ao qual pertenciam.
- Ah! Isso.
Exclamou dando um meio sorriso, lembrando-se. Era Zöe, ela havia pedido para trazer seu mestre são e salvo, e ela, de forma arrogante, havia garantido que o traria de volta. Mas como era complicado procurar alguém a quem nunca vira antes. Alto, cabelos dourados, olhos muito azuis, porte atlético, bonito... O problema é que pelo menos vinte homens naquela fila tinham essas características.
Parou um bom tempo apenas observando as portas do tribunal abrirem e fecharem-se, movendo-se de lugar vez ou outra, enquanto a fila andava, e quase sem ter intenção, percebeu algo curioso. O primeiro réu da fila continuava sendo o mesmo homem desde que chegara ali. Levantou-se do lugar com certa curiosidade, e aproximou-se, vendo que o segundo da fila ia em direção ao salão do julgamento, sem respeitar a aparente ordem de entrada. Parou em frente a ele sem preocupar-se em ser vista pelos espectros ou não. Loiro, alto, forte, bonito... Mas ele parecia muito diferente dos outros réus, qualquer médico poderia dizer que estava em algum tipo de coma.
- Aioros.
Ange chamou discretamente e o homem saiu preguicosamente de sua letargia, levantando o rosto e os olhos semicerrados para fitá-la. A ruiva de longos cabelos brilhantes mexeu na franja repicada, incomodada com aquele olhar vazio. Já tinha recebidos vários olhares como aquele vindos de Lady Anubis, mas esse era diferente. Era como se não houvesse nada atrás daqueles olhos, como se fosse apenas uma casca vazia. Os olhos azuis da menina piscaram uma vez ou outra, tentando evitar encarar o homem à frente.
- Serei julgado agora? – perguntou com a voz arrastando-se para fora da garganta.
- Não.
Logo depois de receber a resposta ele baixou a cabeça novamente e voltou a sua inércia, ignorando completamente a presença de Ange.
- Aioros, venha comigo. – chamou, ainda que começasse a achar que teria que carregá-lo.
- Certo.
Ele afirmou e levantou sem modificar a expressão de seu rosto. A ruiva deu de ombros e começou a caminhar com o cavaleiro em seu encalço, saíram do salão de espera sobre a vista de espectros, mas andavam tão tranquilamente que não foram parados em momento algum, nem sequer deram-se conta que eram fugitivos.
Aioros merecia ser chamado de santo de Athena. Ao chegar a hora de sua audiência, não encontraram um só pecado pelo qual merecesse ser condenado, voltaria aos Campos Elísios que era onde estava antes de o inferno se desfazer. Mas em decorrência de sua ajuda para abrir um buraco no muro das lamentações, Minos recusou-se a absolvê-lo. De modo que declarou recesso na audiência, e Aioros voltou à fila e lá esperou pelos últimos meses, sua mente perdendo-se a cada hora que passava, até que ele deixara de sentir-se humano e enfim havia ficado em paz.
O roubo IV
Jardim das Hespérides
O jardim das Hesperides era na verdade uma mata florida e fechada que se abria em sete clareiras, cada uma com uma árvore de pomos sagrados no centro. O problema é que a mata era densa e as poucas trilhas que se formavam pareciam labirintos tortuosos. Flores pequenas se prendiam aos longos fios castanhos de Akuma enquanto ela avançava. Miluen havia lhe entregue o mapa do lugar impresso em rocha e ela tinha tido o cuidado de decorá-lo antes de sair de casa. Os caminhos não eram tão claros quanto nas concavidades da pedra, mas esperava estar seguindo-os como devia. Estava andando numa mesma direção há quase dois minutos, pensava se havia perdido a entrada, parou e virou-se, fez menção de voltar, mas continuou seguindo sentindo o cheio da fruta. Pisou em falso em uma raiz e escorregou por um barranco fazendo um grande barulho ao atingir um monte de folhas secas. Bateu em sua testa repreendendo-se, mas logo sentiu uma brisa leve, sem estar impregnada do cheiro de flores. Levantou-se e tateou uma raiz grande, escondendo-se atrás desta.
Concentrou-se e fazendo o mesmo que fez no vão da caverna observou a clareira que se iniciava mais a frente. A grama reluzia verde, o céu era alaranjado e rosado como o fim de tarde, bem a frente, isolada das outras árvores estava uma árvore majestosa e copa cheia e raízes que se entrelaçavam antes de enfim afundar no solo. E sentava sobre uma destas raízes havia uma mulher. Akuma suspirou quando viu que parecia calma. Os frutos brilhavam roxos, fortes e chamavam mais atenção que qualquer outra coisa ali. A japonesa percebeu vários pontos fracos na segurança do local. É óbvio, as ninfas não esperavam invasores. A japonesa decidiu parar um momento para planejar sua estratégia, o plano não podia conter falhas.
Hespéris era a mais distraída de todas as Hesperides e a mais humilde também. Tinha a aparência de uma mulher de uns vinte e cinco anos. A pele era azulada de maneira que não era comum a humanos, os olhos da cor dos frutos que protegia e os cabelos uma grande cascata negra, preso com dezenas de pequenas flores. Usava um vestido comprido e branco que se estendia por alguns metros depois de seus pés. Tinha em volta de si uma modesta montanha de livros e pergaminhos, em uma das mãos tinha uma de suas maçãs mordidas e na outra uma pena de pavão dourada, presente de Hera, com a qual cumpria sua missão de escrever tudo o que sabia. Esse era seu castigo por ter usado os pomos em seu próprio benefício. Embora fosse uma tarefa árdua, Hespéris não deixara de comer suas maçãs, as devorava dia após dia e escrevia algumas montanhas de livros. E se encontrava tão absorta em sua tarefa que ignorou o farfalhar de folhas atrás de si quando Akuma caiu. Se a guerreira tivesse passado em frente a ela levando as maçãs nas mãos ela nem notaria.
Mas a japonesa era cautelosa, usou suas habilidades ninja, foi até o tronco da árvore sem fazer um único ruído. Jogou uma kunai para cima e dois pomos caíram, ela os segurou em uma mão e a outra esperou pacientemente para pegar a peça de metal. Tão silenciosa quanto veio, Akuma partiu e deixou Hespéris onde estava, comendo uma maçã com deliberada lentidão.
Resgate VII
Mundo Inferior - 7 ª prisão, 2º fossoShamira olhou para baixo com uma expressão de desdém. As paredes do fosso estavam cobertas de homens e mulheres suspensos por ganchos que perfuravam profundamente a pele, segurando-os pela carne, e abaixo havia velas como as de sétimo dia que os queimavam. A cera das velas acima caia em seus corpos nus e quando se desprendia levava junto a derme deixando-os em carne viva.
A maioria deles ainda se contorcia fazendo os ganchos enferrujados rasgarem mais a carne e sempre que um ameaçava cair, vinha um ceifeiro de capuz, voando na brisa quente cheirando a carne queimada e lhe furava mais profundamente com o ganho, balançando o corpo para ter certeza de que estava firme. Alguns deles tinham as costas tão rasgadas que os ganchos foram prendidos em torno da espinha, e o osso aparecia fora da carne Os algozes se faziam presentes também quando uma vela se apagava, ou estava curta demais para queimar.
O cheiro de podre e queimado estava dando um enjôo genuíno em Shamira, mesmo que a garota nunca fosse do tipo que tinha estomago fraco. Pôs uma mão no quadril erguendo uma sobrancelha, não queria ficar ali por muito tempo.
- Esperar por Shadow? Acho que não.
Disse para si mesma abrindo um sorriso sínico. Abaixou-se e observou a sombra que seu corpo fazia na borda do fosso e também a sombra que a luz das velas criava atrás de si. Tocou as duas e mirando de forma determinada, falou com sua voz forte e feminina.
- Achem Kanon de Gêmeos.
Nesse momento as duas sombras que apenas seguiam seus movimentos moveram-se sozinhas, atirando-se para dentro do fosso, esgueirando-se nas paredes e pôs cima dos corpos queimados. As sombras ainda tinham inicio nos pés de Shamira, mas esticavam-se de forma surpreendente para mais fundo no fosso e embora ela não soubesse quem era Kanon, sabia que suas sombras o encontrariam, pois trabalhavam de maneira misteriosa. Os olhos castanho-esverdeados acompanhavam o movimento desordenado nas paredes e evitavam fixar nos rostos sofridos. Permanecia agachada, mas se levantou lentamente quando percebeu que os ceifeiros a ignoravam.
Uma das sombras retornou rapidamente para seu lugar as costas de Shamira, mas a outra permaneceu onde estava, agarrada a um corpo cujo rosto estava perfurado por um gancho. A garota engoliu em seco. Prendeu os cabelos ondulados e castanhos em um coque bem apertado e contornou a borda até ficar exatamente acima de onde o corpo estava.
Começou a descer rápido e sem receios. Segurava nas correntes que prendiam os ganchos e então pulava para baixo tentando na machucar os condenados pendurados na outra extremidade. Era impossível ver o fundo do fosso de forma que ela evitou a todo custo imaginar como seria cair lá embaixo. Chegou enfim até onde estava sua sombra e fez com que ela voltasse ao normal. Segurava em uma das correntes fazendo com que os pés fizessem força na parede. Sentia uma pena profunda daquele homem e agora que estava ali pensou em como faria para libertá-lo sem machucar-lhe muito.
Com uma mão ainda segurando a corrente, segurou o rosto dele com a outra, movendo-o com o intuito de tirar-lhe o gancho. Não foi difícil, o problema é que tão logo havia soltado-o um ceifeiro apareceu segurou o gancho e cravou-lhe no pescoço.
Um sangue negro de coagulado escorreu e ela pôs a mão na boca quando estava prestes a murmurar desculpas. Tinha que ser feito de uma vez concluiu. Subiu para as correntes do condenado acima de Kanon, ainda segurando a corrente cujo gancho estava agora em seu pescoço. Olhou para suas sombras na parede e deu uma única ordem.
- Cortem!
As sombras em um movimento rápido cortaram as correntes que prendiam o cavaleiro da parede, dando a chance para Shamira puxá-lo pela que segurava. A face do ex-marina se contorceu de dor quando ficou pendurado pelo pescoço e foi bruscamente puxado para cima, fazendo uma parábola no ar e caindo nas costas de uma mulher de pele macia e negra. A garota o segurou e subiu dando saltos sem mais se importar em pisar nos outros condenados ou não. Os ceifeiros os seguiram, mas quando atingiram a borda do fosso pararam e voltaram as suas atividades normais.
Shamira estava ofegante, a adrenalina ainda corria em suas veias, mas mesmo assim voltou-se para o cavaleiro e tirou apressadamente os ganchos, a pele envolta das feridas estava verde e cheia de pus, de modo que se tivesse pensado um pouco mais teria ficado com nojo de tocar-lhe. Ele tossiu um coagulo que escapou pelo buraco da garganta. A garota nunca tinha visto nada assim. Não sabia ao certo o que dizer-lhe, seu primeiro impulso seria perguntar-lhe se estava tudo bem, mas a resposta era obvia.
- Acabou. – foi o que disse acariciando-lhe os cabelos chamuscados.
Ele nada disse, apenas cerrou os olhos e sentiu dor toda vez que o ar e a poeira lhe adentrava a garganta.
- É, estou vendo.
Shadow aparecia atrás dela arrumando o cabelo atrás da orelha. Falou em um tom arrogante e irritado. Havia corrido o mais rápido possível para aquele fosso para cumprir sua tarefa, não queria deixar tudo nas mãos da outra. Não é como se não confiasse na capacidade da mulata, é só que Shadow não confiava em ninguém.
- Você demorou. – a outra deu de ombros respondendo.
- Vamos sair daqui, acho que estamos atrasadas.
Shamira pôs de novo o corpo moribundo nas costas e as duas seguiram correndo em direção ao ponto de encontro.
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Até o próximo capítulo, minhas leitoras queridas!
Beijos!
V. Lolita
