Disclaimer: os personagens de Naruto não me pertencem e eu não tenho nenhuma intenção de lucro ao escrever e postar esta história.
A casamenteira
Nada se colocava no caminho de Ino quando ela encontrava um projeto. Ainda mais quando ele tinha tudo para dar certo!
Rating - T
Observação - Ino centric, mas ShikaTema
Ino Yamanaka era uma pessoa atenciosa e minuciosa, e sempre se orgulhara de seu apuradíssimo faro para detalhes: coisas imperceptíveis e ocultas até para quem as possuía; coisas discretas, praticamente invisíveis aos olhos dos outros. Era como se pudesse sentir o potencial delas, ali, apenas esperando a oportunidade perfeita para desabrochar e talvez, quem sabe, mudar uma vida ou duas.
Existiam muitas pessoas com muitos potenciais inexplorados, e ela se irritava com todas elas, pois queria as coisas feitas do jeito certo – o jeito dela. Queria um mundo de pessoas realizadas e felizes, um mundo mais bonito e porque não, agradecido a ela!
Havia, por exemplo, a retraída Hinata, que tinha em si a fibra necessária para ser uma líder competente. Apenas se a Hyuuga pudesse parar de gaguejar e acreditasse mais em si mesma...Mas não importavam quantas horas Ino gastasse tentando incutir alguma autoestima na garota, todo seu esforço se mostrava ser vão com um simples cumprimento despretensioso do Naruto quando passava por elas e zás, Hinata perdia até o rumo de casa.
Absolutamente enervante!
E Ino era boa naquilo, era uma incentivadora competente e sabia explorar habilmente os potenciais das pessoas, e a prova viva e ambulante de seu talento era Sakura, embora a testa de marquise tenha teimado em tentar lhe roubar Sasuke e irritá-la de qualquer forma. E também apesar de tudo o que havia feito por aquela garotinha patética que ela costumava ser. Se a rosada tivesse mais consciência, agradeceria a ela de joelhos todos os dias – mas tudo bem, havia resolvido se contentar com as vezes em que Sakura admitia os benefícios de sua milagrosa intervenção, e aquilo bastava por hora.
Tudo isso, claro, para não mencionar seus projetos mais frustrantes, que atendiam pelos nomes de Chouji e Shikamaru.
Mas ela não desistiria. Yamanaka Ino era como a fada madrinha que as pessoas teimavam em não enxergar. Mas ela faria o que tivesse que fazer para que todos se tornassem fantásticos e também tivessem relacionamentos incríveis! E qualquer hora dessas, finalmente o mundo reconheceria o quanto ela era maravilhosa.
E por falar em relacionamentos, o potencial destes também era de sua particular obsessão. Ainda não era muito boa neste departamento, visto que Sakura e Rock Lee AINDA não eram um casal feliz e apaixonado, mas sabia que também daria uma ótima alcoviteira e se dedicaria com afinco na primeira oportunidade que avistasse.
Passar seu tempo livre numa floricultura certamente lhe dava certa visão diferenciada acerca das pretensões românticas alheias, e seu conhecimento de flores (para não mencionar sua habilidade para entrar na mente dos outros) seria um trunfo em suas mãos ansiosas por ocupação.
Durante meses listou prováveis casais em seu caderninho com capa de vinil rosa-choque - organização era apenas uma da suas muitas qualidades. Por vezes eles gostavam daquela mesma coisa tão peculiar, em outra suas alturas eram compatíveis, ou até mesmo haveria a apreciação de um pelas sardas notáveis no outro. Ela conhecia muita gente, era um quebra-cabeça complicado, destinado apenas aos sentidos aguçados de uma expert com ela.
Depois de algum tempo, entretanto, acabava cancelando seus projetos por notar, após atenta observação, a falta de química entre seus alvos. Em um dos casos houve uma certa diferença de idade que ela achou irrelevante, mas suas cobaias notaram e rechaçaram o encontro. Houve até quem decidiu nem querer ser apresentado pelo simples fato de a outra pessoa gostar de determinado tipo de música, o que era, segundo a primeira pessoa, inaceitável. Algumas experiências práticas produziram resultados bizarros–com direito a uma briga com arranhões e cusparadas. Sua autoestima ficou terrivelmente abalada.
Passou um longo tempo frustrada até perceber que seu projeto ideal estava bem ali, na frente de seus olhos. Era a chance perfeita para recuperar seu orgulho (ainda que o arranhão houvesse sido um conceito muito particular e pouco divulgado) e solidificar seu talento! Algo tão fantástico e notório que seria simplesmente impossível ignorar o quão boa ela era naquilo!
Era de se esperar que ela notasse qualquer diferença no comportamento do senhor Shikamaru Nara, especialmente quando ela conhecia o cidadão em questão desde o berço que admitir que no começo, bem no começo, ela preferia deixar tais questionamentos de lado para atender suas próprias ânsias adolescentes, mas percebeu as sutis, oh tão sutis mudanças em seu companheiro de time antes mesmo de Chouji, pode apostar.
Primeiramente, Shikamaru ficava estranhamente evasivo quando qualquer pessoa mencionava aquela garota. Claro que ele usava a fachada de desinteresse habitual sempre que lhe era conveniente, mas, quando o assunto era ela, ele parecia se esforçar para não dar bola. Ino certamente achava estranho que ele não houvesse se apaixonado loucamente por ela própria em primeiro lugar, mas era tão típico do Nara optar pelo não convencional, que era óbvio que seu interesse recairia em moça tão... diferente.
A embaixadora de Suna não era a garota mais feminina e delicada que Ino conhecia, mas admitia que tinha lá suas qualidades visuais (pois colocar defeito em todas as mulheres por aí era recalque e disso ela certamente não padecia). A embaixadora tinha belas pernas bem torneadas, e estava sempre estrategicamente de saia. Não tinha biótipo de modelo de passarela, mas sim curvas mais pronunciadas, digamos, com quadris redondos, cinturinha irritante, peitos grandes. Ela sabia que o Nara era um pervertido fã de peitos grandes!
O rosto tinha traços fortes, mas os olhos eram grandes e de uma cor exótica. Claro que aquela kunoichi nunca seria tão linda quanto a própria senhorita Yamanaka (afinal, ninguém jamais seria), mas trabalharia com aquele material de que dispunha, e ah, o resultado seria fantástico!
Primeiro, ela teve que se esforçar um pouquinho para se aproximar de Temari. Sempre sorria loucamente (quando estava sozinha, logicamente, não queria passar por louca) quando se dava conta de que o único amigo da loira em Konoha era o Nara, mas era fácil inserir-se no dia a dia de Shikamaru de vez em quando, apenas para der um oi pra representante de Suna, assegurar que se ela precisasse de qualquer coisa poderia procurá-la. Simples e efetivo, apesar de ter que lidar com algumas caretas contrariadas no início. Mas absolutamente nada que lhe desviasse de seu objetivo ou causasse suspeitas (ela era uma pessoa simpática, afinal de contas).
Era também muito fácil observar os dois, principalmente porque ninguém se interessava pela vida do Shikamaru (era chata, ela reconhecia) e a embaixadora da Areia era reservada e assustadora o suficiente para que as pessoas quisessem ficar bem longe dela. Logo, eles não esperavam que alguém prestasse atenção neles. Claro, para não mencionar o fato de que ela conseguia ocupar a mente de pequenos pássaros e xeretar o que quisesse, mas isso era mero detalhe.
Shikamaru e Temari compartilhavam uma amizade baseada em provocações. Interessantíssimo. A maioria delas partia da kunoichi, era verdade, e tinham certo tom ofensivo, mas o shinobi não parecia ofendido. Até ria. ELE RIA. Ino JAMAIS achou que o preguiçoso do Nara fosse ficar tão à vontade assim a ponto de rir com alguém que conhecia há tão pouco tempo em comparação com seus amigos mais próximos. Achava que tinha visto o amigo rir pela primeira vez quando eles já tinham uns 11 anos! Sabia que era um grande avanço ele ter ficado amigo de uma mulher que não fosse ela, e que inicialmente pertencia a uma Vila Oculta inimiga de Konoha. Esses detalhes haviam sido politicamente resolvidos e Temari havia salvo Shikamaru de uma figura grotesca da Vila do Som que estava prestes a acabar com ele, como lhe contaram depois. À partir daí o relacionamento entre os dois apenas cresceu e se solidificou.
Sabia que a aproximação definitiva deles havia acontecido naquela famigerada missão, e também alguma coisa importante havia acontecido depois. Havia dado uma bisbilhotadinha na mente do Nara enquanto ele dormia, mas só sabia de um sorriso da kunoichi de Suna (assustador, por sinal), e que ela estava no hospital com ele quando retornaram, o que ela achou particularmente interessante, já que ela não precisava ter ficado com ele lá. Shikamaru havia dado um jeito de deixar suas memórias confusas, era como se ele soubesse que ela gostava ou pelo menos poderia dar uma olhada de vez em quando.
Ok, ele muito provavelmente sabia que essa idéia poderia passar pela cabeça loura dela.
De qualquer forma, a solidariedade da loira de Suna naquela ocasião fora um pouco fora do normal, e ela achou o fato suspeito, visto que os ninjas de Suna não são exatamente conhecidos por sua benevolência. Mas nada poderia ter dado mais alegria à Ino do que assistir à despedida dos irmãos de Suna nos portões da Vila, naquela mesma ocasião (ela não se lembra se estava fisicamente presente ou usando alguém emprestado, digamos, um dos pequenos alunos de Shikamaru, tão inofensivos contra genjutsus mentais...). Observar o sorriso da kunoichi de Suna, e a resposta do Nara... "Ah Shikamaru, você tem hormônios!" ela pensou consigo mesma quase emocionada.
E notou algo importante, e que jamais pensou ver em qualquer dupla que tivesse Shikamaru Nara como um dos componentes: ela viu uma faísca entre os dois. Química. O algo a mais. A porta de entrada para um relacionamento amoroso sólido e durável, que, considerando os personagens envolvidos, seria mentalmente extenuante e provavelmente um pouco violento (de maneira consentida, claro!).
Era um significativo avanço, mas não se contentaria com uma mera e simples faísca. Ela queria uma fogueira tão grande que pudesse ser vista da próxima Vila oculta. Queria que eles se enfiassem no fogo e não conseguissem sair sem uma boa queimadura incômoda e dolorosa.
Iria jogar gasolina naquela faisquinha.
Riu maleficamente nesse ponto. O plano era bom demais, ela era boa demais.
Iniciou os trabalhos com Shikamaru, que estava fisicamente mais perto e era território seguro. Inserir ideias na cabeça privilegiada do amigo não seria tarefa exatamente simples, então decidiu ir devagar, incentivando pensamentos que ela tinha certeza que o herdeiro do Clã mais inteligente de Konoha já tinha.
Um mero empurrãozinho inocente.
Levá-lo às compras com ela foi uma de suas primeiras providências. Shikamaru reclamava muito de ter que acompanhar sua colega de time, mas ia de qualquer forma, sabia o quanto ela falaria na cabeça dele caso ele não ajudasse. Ino não desperdiçou a oportunidade assim que se viu em frente a uma loja de roupas ocidentais.
Passou uns bons minutos observando um vestido purpúreo curto e justo que estava na vitrine. O Nara se entediou, como ela esperava.
- Vai entrar e experimentar esse também? – ele perguntou com óbvio mal humor.
- Não... – Ela respondeu com ar pensativo milimetricamente estudado. Hollywood estava perdendo um talento enorme. - Acho que esse vestido ficaria melhor em uma garota mais curvilínea, com pernas grossas e busto farto... Ah, sabe em quem esse vestido ficaria perfeito? Temari-san!
Ela observou pelo canto dos olhos a forma com que ele observou o vestido e desviou o rosto rapidamente. Teve que suprimir o riso e manter o ar inocente. Sim, fazer com que ele próprio imaginasse a kunoichi de Sunanaquele pedaço de pano pecaminoso? Sucesso!
Agora era simples questão de calibrar artilharia.
Na próxima, pegou mais leve. Estavam em missão e passaram por uma loja de produtos de beleza. Ino arrastou seu time para dentro e começou a cheirar todos os tipos de cremes que a vendedora lhe ofereceu (até porque efetivamente queria um creme novo, odiava sentir-se ressecada). Encontrou um servia bem para um pequeno lembrete e não perdeu tempo.
- Esse tem base de óleo e um cheiro exótico, não acha, Shikamaru? – tagarelou enquanto enfiava o pote no nariz dele, que revirou os olhos enquanto cheirava obedientemente. – Acho que tem uma nota de flor do deserto, sabe? Algo como a rosa do deserto... – ela completou e notou que ele fixou o olhar em um ponto à frente, e segurou a respiração. – Ei, não lembra o perfume da Temari-san? – ela deu o golpe de misericórdia e o Nara deu um pulo para trás, apesar de já ter pensado na kunoichi de Suna na primeira referência estrategicamente dita por sua colega de time.
- Nossa Shikamaru, o perfume dela é tão ruim assim? – Ino lutou para controlar o sorriso triunfante que estava louco para apoderar-se de seus belos lábios, tentando aparentar inocente surpresa.
O Nara esfregou os olhos, cansado.
- Porque não continua com seu perfume de sempre, Ino? Isso é tão cansativo... – ele resmungou enquanto saía da loja.
Chouji continuava alheio a tudo, e ela, bem, comprou um novo creme e sua pele continuou hidratada e radiante como sempre.
A reação do manipulador de sombras foi ainda mais contundente quando alguns dias mais tarde ela o forçou a acompanha-la para buscar uma encomenda – numa loja de lingerie. Assegurou a Shikamaru que seu negócio por lá era absolutamente inocente, e ele ficou branco que nem papel quando ela estendeu uma diminuta camisola de tecido diáfano para ele (com bojo generoso, saliente-se) e perguntou se ele achava que ia servir em Temari, pois ela queria dar um presente à kunoichi e ouviu dizer que o tecido era inteligente e perfeito para as altas temperaturas do deserto. Shikamaru passou de pálido a intensamente vermelho e esbravejou o quanto aquilo era inadequado e que ela não precisava da opinião dele para aquele assunto. Ela argumentou que ele era a pessoa mais próxima de Temari em toda a Konoha e ela tinha particularidades nesta compra.
- Ela tem peitos grandes e preciso saber se acertei no tamanho! Você nunca reparou nisso? Estranho, considerando que às vezes ela usa decotes generosos. – ela se fez de desentendida.
Ele olhou para baixo, apertou a mandíbula e fechou os olhos por um breve segundo. Quando olhou para ela novamente, ela sabia que havia vencido.
- Tenho que cuidar dos cervos. Você não precisa da minha ajuda para fazer compras, Ino, isso é ridículo. – E saiu da loja apressado, deixando uma Ino bastante sorridente para trás.
Ela estava gostando do progresso até aquele momento. Shikamaru podia não contar nada a ela, o ingrato (ela era sua melhor amiga, ele podia desabafar!), mas ele se interessava pela kunoichi de Suna muito mais do que queria de admitir, e fazia o que podia para disfarçar. Ino nem precisava de muito para que ele pensasse na jounin. E aquilo podia significar duas coisas: que Shikamaru finalmente havia se interessado por garotas e aquela fazia seu tipo, logo seus hormônios levavam a melhor sobre ele quando provocados; ou que ele simplesmente estava apaixonado por Temari e a alternativa anterior também se aplicava, mas de forma muito mais interessante e promissora.
Ino conhecia seu eleitorado e um tinha bom palpite sobre qual era a alternativa correta, mas precisava de mais tempo para ter absoluta certeza, apesar de duvidar que se enganasse naquele departamento. O comportamento dele mudava, ele estava se entregando.
Resolveu assediar sua fonte mais segura de informações e de quem ela, curiosamente, sabia tirar informações como ninguém.
Chouji.
Convidou-o para almoçar em sua churrascaria favorita quando o Nara estava em missão, e esperou pacientemente que o Akimichi comesse até bombardeá-lo com perguntas.
- Chouji, você sabe se o Shikamaru está gostando de alguém? – o tom era falsamente despretensioso, ela sabia que ali estavam suas melhores chances de alguma confirmação.
Ele franziu o cenho, estranhando o teor da pergunta.
- Shikamaru? Por que quer saber?
- Bem, você sabe que ele não é a pessoa mais expansiva do mudo, e tenho medo que ele fique sozinho e morra solteiro, solitário e abandonado. Isso pra não mencionar que vamos ter que cuidar dele, já que somos seus amigos mais próximos. Já pensou se formos a última geração do Ino-Shika-Cho porque o Shika não pôde ter um herdeiro?– deixou que seus olhos se enchessem de lágrimas. Kami-sama, deveria cobrar ingresso quando desse uma performance daquelas! – Eu quero ajudá-lo, Chouji. Quero que ele seja feliz e quero que nossos filhos possam crescer juntos. Ele merece ter uma companheira, não acha? E ele não me diz nada, talvez a felicidade dele esteja nas suas mãos nesse momento.
Chouji se remexeu na cadeira, desconfortável, evitando o olhar de corça ferida que a loira lhe dirigia. Eu sou tão boa atriz, por que virei kunoichi?
- Eu não posso te contar, Ino. Shikamaru me mataria.
Bingo!
- Então ele gosta. Quem é? Você tem que me contar! – ela já sabia. Ah, sabia.
- Eu... é ... não, Ino, não posso te contar.
- É alguém que eu conheço? – ela se aproximou dele, pressionando.
Chouji desviou o olhar do dela, torcendo as mãos gorduchas uma na outra. Ele parecia estar sentindo dor. Aquilo não podia ficar mais óbvio!
- Ino, não posso, não insista por favor!– Chouji exclamou e fugiu do restaurante, e dela.
A médica-nin não se incomodou, sorriu e pediu a conta. Estava satisfeitíssima e teve razão o tempo todo (nota mental: nunca mais duvidar de si mesma). Imprimiria fotos do casamento deles, colocaria num portfólio e abriria uma agência. Ia precisar de gerentes para administrar tantos talentos. Talvez contratasse a testudinha.
No encontro semanal dos três, no restaurante em que Asuma-sensei costumava levá-los e onde eles mantinham a tradição, resolveu falar de outros aspectos da kunoichi de Suna que não se relacionassem àquele par de peitos avantajados e que também apelasse ao coraçãozinho vulnerável do Nara.
Empurrou uma mensagem decodificada na direção do amigo.
- Olha o que eu decodifique-ei! Pode me colocar no departamento de decodificação com você, gênio!
Shikamaru ergueu uma sobrancelha enquanto passava os olhos pela mensagem, que havia chego ao grupo de médicos-nin na semana anterior. O código era complicadíssimo, e o Nara obviamente sabia.
- Sem querer ofender, Ino, mas quem te ajudou? Essa mensagem é altamente complexa e precisaria de mais tempo para alguém sem muita experiência decodificá-la.
Ino sorriu. Claro que precisaria.
- Temari-san me ajudou. – Teve que refrear o impulso de gargalhar quando a expressão curiosa dele passou para absolutamente desinteressada. Forçosamente nula. - Ela é tão insanamente inteligente que foi quase difícil acompanhar... Quase como se eu estivesse trabalhando com você, na verdade.
Ino colocou a mão no queixo, dando a impressão de que havia concluído aquilo naquele momento. Shikamaru cerrou a mandíbula e ela refreou a gargalhada novamente. Kami-sama, será que ele não percebia como era transparente? Continuou tagarelando, como era esperado dela.
- Deve ser por isso que vocês trabalhem tão bem juntos, não é Shika? Os Kages são espertos, o nosso e o que você é bastante inigualável, mas pelo que pude ver, ela é a única pessoa que eu conheço que consegue acompanhar o seu cérebro.
Ok, não faria tantos elogios se não fosse estratégico e necessário, mas a Sabaku realmente a tinha surpreendido. Primeiro, por ter ajudado quando ela pediu, com a desculpa de que Shikamaru estava muito ocupado com outra mensagem e ela tinha urgência, e depois por ser realmente muito inteligente. Ela entendia melhor a sincronia entre os dois objetos de suas manobras, agora. Aliás, entendia tão bem que estava quase eufórica.
Aqueles dois estavam destinados um ao outro, e um namoro estava escrito nas estrelas. Não queria mais um simples relacionamento entre eles, queria um casamento, e sobrinhos!
Shikamaru ergueu as sobrancelhas, expressão ainda neutra e um pouco incrédula.
- Temari te ajudou?
- Sim. – Ino sorriu novamente, o mais inocente que pôde. E não ignorou a falta de um sufixo de tratamento. – Mas enquanto você é um santo, ela não tem muita paciência, tenho que dizer.
Para delírio (interno e controlado) da Yamanaka, Shikamaru deu um meio sorriso quando concordou com a falta de paciência da Sabaku, mas mudou rápido de assunto, perguntando alguma bobagem a Chouji. Ino não se importou, e debaixo da mesa começou a mexer os pés numa dança da vitória.
Ela tinha uma causa ganha.
Mas enquanto o progresso com o Nara acontecia exatamente como ela esperava (será que a mente privilegiada do Nara ficava tão travada quando o assunto era a kunoichi de Suna que ele nem percebia o que ela estava fazendo?), com o outro polo da relação a coisa andava mais devagar. Bem mais.
Após inúmeros "ois" e conversas estranhas puxadas sempre que ela via a oportunidade, mas sem muito sucesso prático, Ino finalmente achou que Temari tinha familiaridade suficiente com ela para que pudesse convidá-la para tomar um chá e ela não desconfiasse do convite inocente (A experiência anterior com a decodificação da infernal mensagem lhe ajudava).
Aproveitando a ausência de Shikamaru, chamado às pressas para decodificar uma mensagem e provavelmente ocupado o dia todo, fez exatamente isso. Para sua surpresa (e porque não tinha escapatória, seria diplomaticamente complicado refutar o convite e ela não tinha outro compromisso), a jounin aceitou.
A casa de chá estava confortavelmente vazia, e Ino, confiante. Depois de se acomodarem junto à janela, a florista mais talentosa do País do Fogo (quiçá do mundo!) deu andamento a seu plano assim que o garçom as serviu.
- Preciso agradecê-la novamente por me ajudar a decodificar aquela mensagem, Temari-san, você me poupou de um longo tempo com ela. Talvez não soubesse o que diz até hoje.
- Não por isso. – Temari deu de ombros, bebericando chá.
- Quando mostrei a mensagem para o Shikamaru, ele soube na hora que alguém me ajudou, acredita? Que amigo tenho eu.
Ao contrário do que Ino imaginava, a expressão de Temari tornou-se divertida, como se a reação de Shikamaru fosse exatamente a mesma que qualquer pessoa teria ao ver uma mensagem decodificada por Ino Yamanaka. Resolveu não ficar ofendida e continuou.
- Logo vi porque vocês se tornaram amigos, vocês é tão inteligente quanto ele.
- Agradeço a comparação, mas não exagere. Ninguém se equipara a um Nara em termos de inteligência. – Temari retrucou, bebendo mais chá e encerrando o assunto.
Os dangos chegaram e Ino estudou a kunoichi à sua frente, loucamente feliz pelo comentário dela. Claro que o que Temari disse era verdade, mas sentia como se ela houvesse feito uma concessão, que acontecia raramente e apenas com pessoas selecionadas. Especiais.
E de quebra, admitido que Shikamaru era mais inteligente que ela com uma certa ponta de admiração na voz. Oh sim, ela tinha ouvido.
O silêncio se prolongou por mais alguns minutos enquanto as duas comiam, e Ino procurava desesperadamente um tópico de conversa que não fosse muito direto, mas que lhe desse possibilidades. Lembrou-se providencialmente da falta de paciência da Kunoichi de Suna, e resolveu apelar para ela.
- Aliás, muitas garotas te odeiam e querem a sua cabeça aqui em Konoha, sabia? – ela disse em tom de brincadeira enquanto bebericava seu chá.
Não soube dizer se Temari captou o tom, porque ela terminou de mastigar o dango muito lentamente antes de responder em tom bastante sério.
- Minha cabeça?
- Por ser amiga do Shika, passar bastante tempo com ele quando vem para cá e ser tão inteligente a ponto de vocês se entenderem. – Ino explicou despreocupadamente, com um sorriso no rosto. Deveria ter escolhido outras palavras, assim não estaria temendo por sua vida agora. – Depois que Sasuke-kun foi embora, Shikamaru se tornou o maior arrasador de corações da Vila!
Temari franziu o cenho e retorceu a boca num sorriso meio incrédulo.
- Mesmo? O Nara?
Ino suspirou aliviada, já que não teriam que tirar seu corpo sem vida de cima do Kioday Sensu da embaixadora da areia. (Tinha ficado extremamente impressionada com os relatos da famosa luta da loira com Tenten.)
- Pois é, acredita? Ele tem uma legião de fãs inacreditável, com direito a muitas civis. Você nunca notou a movimentação das fãs quando você sai com ele?
Ainda com o cenho franzido, Temari remexeu a comida e pareceu pensar.
- Bem, talvez eu tenha percebido alguma coisa fora do normal, como grupos de garotas nos seguindo, mas quando elas percebem que eu as notei, elas se dispersam e somem.
- É por isso que elas te odeiam, elas querem chegar perto dele, mas têm medo de você. – Ino sorriu docemente.
A kunoichi de Suna riu de maneira incrédula.
- Isso é ridículo!
- Sim, é. – Ino concordou, notando que o franzir de cenho continuava lá. – Mas fica pior, você não faz ideia. Uma vez algumas garotas tentaram me subornar para que eu desse objetos pessoais do Shika para elas. Qualquer coisa, sabe? Mas queriam mesmo era uma cueca. Mas isso é fichinha perto daquela garota do laboratório de decodificação...
- Garota do laboratório? – Temari repetiu rapidamente.
Ino teve que refrear um sorriso e manter a expressão neutra. A outra kunoichi certamente não percebeu a rispidez com que formulou a pergunta ou o fato que Ino tinha usado justamente o local onde o Nara passava tanto tempo.
- Aquela loira com óculos fundo de garrafa, Shiho. Ela é a presidente do fã-clube do Shika. Ela o persegue com certa frequência e é obviamente muito apaixonada por ele. Quando ele quebrou a perna naquele probleminha com o Pain, ela me ajudou a socorrê-lo e ficou com ele até conseguirmos colocar as coisas em ordem. Ele ficou muito agradecido desde então e eles trabalham juntos em casos de decodificação. – ela disse e se inclinou para a garota mais velha, em tom de confidência. – Acho até que ela se encaixa na descrição do tipo de garota com quem ele quer se casar, sabe? Se ela persistir, acho que tem boas chances de conseguir alguma coisa.
- Mesmo. – Temari comentou com desdém permeando sua voz, sobrancelhas erguidas. – Sei quem é essa garota. Que bom pro Nara, as coisas não serão tão problemáticas quanto ele diz.
A Yamanaka captou o fundo de irritação na voz da kunoichi de Suna e ficou satisfeita. Deixou o silêncio se prolongar enquanto via a outra soltando fumaça pensando no assunto. Obviamente, aquele lado da equação também não era tão imune assim e o orgulho feminino se ressentia do ninja das sombras ter supostamente escolhido outra garota. Uma bem, bem menos atraente.
Como é que ainda não tinham se dado conta?
- E em Suna, Temari-san? Como são os casamentos nos Clãs principais?
- Arranjados, graças a Kami. – ela cuspiu as palavras e fez uma careta que pretendia demonstrar alívio, mas transparecia apenas irritação.
- Sério? E você aceitaria um casamento assim? – Ino perguntou, genuinamente surpresa.
- Eu posso apresentar um noivo que eu tenha escolhido e submeter o candidato ao escrutínio dos anciãos, ou aceitar algum pretendente escolhido pelo Conselho caso eles pensem ser de interesse maior da Vila. Mas eu tenho escolha, não sou obrigada a me casar caso não queira. E por enquanto estou livre disso.
Ino concordou e guardou a informação. Pouco depois disso elas terminaram o chá e Ino a acompanhou até o apartamento em que ela se hospedava, já maquinando como usaria o que tinha ouvido a seu favor, do jeito mais gloriosamente funcional e perverso que podia.
E a ocasião não demorou a se apresentar.
Tendo descoberto que Temari ia embora no dia seguinte, Ino deu um jeito de conseguir que Shikamaru almoçasse com ela – o que implicava dizer que ela o perseguiu, chantageou e fez com que ele a acompanhasse. Após terminarem as vasilhas de ramen, ela começou a tagarelar sobre amenidades até desferir seu golpe mais ambicioso.
- Ah Shikamaru, você sabia que a Temari-san vai ter que se casar com quem o Conselho escolher? Ela me disse que em Suna os casamentos são arranjados e ela vai conhecer o noivo assim que voltar para casa, amanhã.
Ela cruzou os dedos debaixo do balcão, torcendo para o interesse dele na kunoichi de Suna o impedisse de ir atrás da história até o melhor momento. Claro que se fosse confrontada poderia alegar que tinha entendido que ela estava comprometida, e certamente não haveria dificuldades para que acreditassem nela.
A expressão do Nara pareceu congelar-se na expressão de desinteresse mais forçada que Ino havia visto na vida e ele encarou a companheira de time sem piscar. As palavras saíram cuidadosamente neutras quando ele finalmente falou.
- Temari está noiva?
- Ainda não, mas vai ficar assim que voltar. Não é um lance de idade média que um conselho de anciãos escolha maridos e esposas para os irmãos da Areia? Achei uma loucura! Mas ainda assim fiquei animadíssima com a possibilidade de ser convidada para um evento dessa magnitude, ela é a única menina entre eles e eles são, tipo, a realeza do país do Vento. Você vai comigo, né Shika?
Ele piscou e olhou para a vasilha vazia à sua frente, parecendo um pouco perdido. A loira sorriu e se fez de desentendida.
- Ah, o que foi Shika? Ela não te contou que ia se casar? Compreensível né, você não é a pessoa mais indicada para se conversar sobre casamentos!
- Acho que não. – ele apertava os lábios e Ino viu os olhos escuros brilhando de confusão e outras coisas. Tantas outras coisas.
Quase se sentiu culpada ao ver que ele tinha realmente ficado afetado. E triste. Mas também teve vontade de bater palmas e dizer que não era tão cabecinha de vento quanto ele pensava, mas se controlou e continuou.
- Ainda bem que não temos que passar por isso, não acha? É tão medieval! Eu ja-mais aceitaria me casar com alguém que nunca vi na vida só porque um monte de gente velha quer! Ela é muito corajosa, deve ser muito difícil ser obrigada a viver com um estranho para o resto da sua vida!
- É. Ino, eu tenho que voltar para a minha aula. Falo com você depois.
- Claro, Shikamaru. Boa aula! – ela cantarolou enquanto o assistia sair do Ichiraku.
Esperou cinco minutos – o tempo para que ele voltasse para a Academia, se levantou e estralou os dedos das mãos sonoramente, sorrindo satisfeita. Saiu e foi para a floricultura aguardar até às 15 horas, que era quando as aulas dele terminavam.
Ela tinha um trabalho de espiã para executar.
Shikamaru era um bom ninja, mas parecia um pouco alheio ao fato de que estava sendo seguido. Claro que ela era excelente espiã e nem um pouco fácil de se detectar, obrigada, mas sabia que não deveria ser tão simples com o amigo. Ele parecia preocupado, e é claro que estava.
Ele foi para sua colina favorita e passou horas longas e arrastadas olhando para o céu. Não dormiu em nenhum momento e quase a matou de tédio e de frio, visto que estavam no meio do outono e o vento imperdoavelmente gelado e cortante. Quando ele finalmente se levantou foi direto para casa, resmungou alguma coisa que a mãe perguntou e foi tomar banho. Foi a deixa que Ino precisava para ir embora, primeiro porque sabia que ele não iria a mais nenhum lugar, e segundo porque dali duas horas eles deveriam se encontrar com todos os amigos deles no restaurante de churrasco para a despedida da Temari.
No horário estipulado, Ino apresentou-se linda, perfumada e maquiada à perfeição, apesar de todo o trabalho extra que estava tendo. Claro que facilitava o fato de já começar com um trabalho quase perfeito – ela mesma, no caso, mas é claro que ainda assim seu tempo pessoal estava muito reduzido graças a seu novo projeto.
Que estava tendo uma interação bem estranha naquele jantar.
De onde estava sentada, entre a testa de marquise e o Kiba (que naquele momento cheirava muito bem para uma pessoa que morava com cachorros), ela podia ver seus alvos perfeitamente. Temari estava sentada entre Chouji e Hinata, e Shikamaru entre Shino e Naruto, em ângulos tais na mesa em estavam de frente um para o outro. O Nara estava definitivamente taciturno, não tirava os olhos da kunoichi da areia e Temari estava estranhando o silêncio e o olhar de seu guia costumeiro. Ela dirigia olhares discretamente interrogativos ao ninja das sombras, que não respondia nada e encarava a comida. Era óbvio que eles achavam que ninguém estava prestando atenção neles, mas é claro que Ino tinha o talento de participar ativamente da conversa na mesa e perceber o que estava acontecendo sem que Sakura sequer desconfiasse.
Ela era boa assim.
Depois que as quase duas horas de alegre jantar acabaram e todos estavam indo embora, Ino ficou discretamente para trás, o suficiente para ver e ouvir Shikamaru se aproximar de Temari, abaixar a cabeça e sussurrar "eu preciso falar com você".
Ela teve um mini ataque cardíaco de tanta empolgação.
Então ela saiu correndo, se enrolou em seu casaco azul-turquesa e estudou rapidamente a localização do restaurante. Havia uma alameda de árvores do lado esquerdo e uma delas parecia oferecer o abrigo que ela precisava. Conhecendo Shikamaru e sabendo toda a aflição pela qual ele tinha passado (cortesia da princesa Yamanaka), ela sabia que o amigo ia resolver assim que os outros fossem embora e ele pudesse ter alguma privacidade. Então ela subiu na árvore, se ocultou o melhor que podia e esperou.
Eles não demoraram muito a sair.
Shikamaru continuava agitado, enfiado dentro de um casaco preto. Temari estava usando um casaco bege, com as mãos nos bolsos e uma expressão entre o desconfiada e o curiosa. O shinobi a guiou para a lateral do restaurante, bem-na-frente de onde Ino se escondia.
Sorrindo loucamente, a loira se abaixou e concentrou chakra nos ouvidos, tentando ouvir melhor.
Temari encostou-se à parede com as mãos casualmente enfiadas no bolso enquanto o Nara passava a mão pelo cabelo, antes de começar a falar rápido e muito baixo. O tom de voz estava grave e ela não estava conseguindo ouvir nada, apenas captando alguns fragmentos de frases e vendo a fumacinha sair da boca do amigo. Captou "voltando amanhã", "eu não vou conseguir", "me afeta". Ela ficou muito irritada com o detalhe não calculado de não conseguir ouvir e pensou em gritar pra que ele falasse mais alto, mas se controlou e tentou prestar mais atenção.
Shikamaru parecia ter ao mesmo tempo planejado e não planejado o que estava fazendo. A inquietação estava levando a melhor sobre ele e Temari estava meio boquiaberta e o encarava surpresa. Menos de um minuto de monólogo atrapalhado e Shikamaru Nara fez o impensável: se adiantou e beijou Temari na boca, antes de se afastar, colocando a mão no rosto como se tivesse cometido um grave erro e pedia desculpas sem parar.
Ino colocou a mão enluvada na boca para se impedir de gritar. Oh meu Deus! Ela estava certa! Ele gostava dela! Tinha dado certo! Ela era um gênio! Continuou tapando seu sorriso maníaco de 1 milhão de megawatts que certamente iluminaria o local e denunciaria sua posição, enquanto o ninja das sombras ainda se desculpava e Temari parecia atônita demais para reagir. A Yamanaka não tinha deixado de notar que ela tinha se mantido imóvel e com os olhos abertos durante o beijo, mas a coisa toda tinha sido rápida demais para que ela reagisse, e ela certamente foi pega de surpresa e não havia ainda conseguido reagir.
Antes que ela pensasse mais no caso, Shikamaru, ainda se desculpando, (se ele não parasse até ela ia se sentir arrependida, quanto mais Temari), disse que ia embora e chegou a se virar para sair, mas a kunoichi de Suna o segurou pela manga do casaco escuro. Ino abriu a boca em um perfeito "O" rosado, e Shikamaru ergueu as sobrancelhas com uma expressão entre o aliviado a o assustado enquanto a loira dizia alguma coisa baixo demais para a Yamanaka ouvir (mas parte do motivo poderia ser porque os ouvidos dela estavam zunindo e ela havia dispersado o chakra), mas sorrindo se colocou na ponta dos pés, abraçou o Nara pelo pescoço e sem mais delongas, beijou-o.
Ino quase caiu da árvore de empolgação! Mordeu o punho enluvado para não gritar, e estapeou o tronco da árvore. Então era aquela a maravilhosa sensação de estar absolutamente certa? Ah, ela podia muito bem se acostumar com aquilo! Queria gritar, merecia uma massagem, uma caixa gigante de chocolates, uma medalha e um troféu! Olhou novamente para o par, agora se beijando de verdade e totalmente à vontade nos braços um do outro. Ela sorriu e apoiou o queixo nas mãos, pensando "meus bebês!" quando Shikamaru prensou Temari na parede e ela pode jurar que viu vapor subindo deles. A pegação estava um pouco intensa e íntima demais para que Ino se sentisse confortável obsservando, e franzindo o cenho – Kami, parecia que eles estavam tentando se sugar um para dentro do outro - ela desceu da árvore e saltitou feliz para casa.
Ela queria esfregar o que tinha feito na cara de todo mundo!
Como se fosse apenas para contrariá-la, Shikamaru não disse nada no dia seguinte, nem quando ela apontou a mancha roxa em seu pescoço e perguntou com quem ele estava (mas ah ela sabia). Pelo contrário, ele teve a ousadia de não responder, saindo para suas amadas aulas na academia. Mas havia um ar de contentamento nele que não estava lá antes, que nunca esteve lá antes, e quando ela direcionou o olhar para Chouji, ele tratou de sair correndo. Céus, quem eles pensavam que enganavam?
A próxima coisa que ela percebeu foi um aumento no número de cartas que ele recebia, que não eram muitas. Ele agora andava sempre com um envelope enfiado no bolso do colete, e ela reconhecia o papel cor de areia e o selo do Palácio do Kazekage. Sentindo-se por fora da relação que ela tinha se esforçado tanto para acontecer, aproveitou um dia em que ele estava em missão – Suna, que coincidência! – para xeretar o quarto dele. Após muito procurar, acabou encontrando um maço considerável de cartas dela.
Empolgada, abriu a primeira. Não dizia nada comprometedor. Passou para a segunda, depois a terceira e a quarta – e nada! O blablabla era sobre exames chuunin, burocracia, às vezes informações que não faziam muito sentido, como comentários sobre o tempo, e nada comprometedor! Passou os olhos correndo pelas palavras, tinha certeza de que alguma coisa estava escondida naquelas palavras aparentemente inocentes, mas quando ia se sentar para tentar decifrar o código, ouviu tia Yoshino subindo as escadas, e teve de abandonar os preciosos papéis e sair de lá o mais rápido que podia.
Descobriu mais tarde, para sua intensa irritação, que eles resolveram esconder o namoro. Eles estavam juntos sim, ela não era idiota, mas ninguém sabia. Comportavam-se como bons camaradas e só isso para todo mundo que os conhecesse. Nunca se tocavam em público e ficaram muito, mas muito mais cautelosos quando estavam sós. Viviam se encontrando em missões externas, que ela nunca conseguira rastrear, interceptava cartas tão criptografadas que não diziam nada, e ela se odiou por ter ajudado a juntar dois ninjas extremamente competentes e inteligentes, que dificultavam sua vida.
Claro que todo mundo sabia que havia alguma coisa, mas ninguém tinha provas. Ino nunca mais os viu juntos – a culpa era de Temari, tinha certeza. Vaca sorrateira! – e à medida em que os meses (anos!) passavam, chegou seriamente a pensar que tinha se enganado e imaginado tudo aquilo numa ilusão louca que ficava lá pairando sobre sua cabeça e nunca se confirmava.
Isso até receber o convite.
Agora estava sentada na primeira fileira de bancos na cerimônia organizada no salão mas luxuoso de Konoha, olhando para o kimono de seda mais lindo que já havia visto na vida, usado pela noiva mais glamurosamente produzida em que já havia colocado os olhos, no maior casamento a que havia comparecido. E enquanto o Kazekage e o Hokage abençoavam o casamento de Sabaku no Temari com Nara Shikamaru – um dos melhores e mais antigos amigos dela e que não havia lhe dito absolutamente nada em momento nenhum, e evitado-a cuidadosamente desde que ela havia recebido o irritante convite – num salão abarrotado de autoridades, ela cruzava e descruzava as pernas, envoltas em seu mais sensacional vestido rosa-choque novinho (e à altura do evento), e se condenava por ter duvidado de si mesma todo esse tempo. Pior ainda, se sentia traída pelos noivos, que só Kami sabia onde estariam se não fosse o empurrãozinho dela! Shikamaru certamente na lista dos virgens da Ilha Oculta da Folha e Temari casada com algum obeso de meia idade com algum título que valesse o sacrifício na visão do Conselho dela.
Era tão, tão injusto!
Mais tarde, estava isolada numa mesa, remexendo o champagne em sua taça de cristal enquanto a festa acontecia, e seria a mais luxuosa e fina a que teria comparecido, e ela teria aproveitado horrores se não estivesse tão mal humorada. Ela queria sangue, queria apontar o dedo na cara de Temari, socar o rostinho sonolento de Shikamaru e anunciar para todos os malditos figurões que se não fosse por causa dela, ninguém estaria na boca livre da maior aliança diplomática já acordada entre duas Vilas Ocultas. Então eles podiam se ajoelhar e beijar os pés dela (que calçavam sandálias altíssimas decoradas cm cristais, e eram lindíssimas) o mais rápido possível.
Perdida em pensamentos, foi só na segunda vez que ouviu seu nome que virou-se e se deparou com os noivos, aqueles mal agradecidos, parados bem atrás dela de mãozinhas dadas. Antes que dissesse qualquer coisa, Temari sorriu e Shikamaru segurou sua mão direita.
- Viemos te agradecer.
- O que? – ela arregalou os olhos.
- Nós sabemos o que você fez. – Temari disse com certo riso na voz. – Dizer a ele que eu estava de casamento marcado certamente foi um movimento bem esperto que fez as coisas finalmente acontecerem. Obrigada, Yamanaka.
- Vocês sabiam? – Ino estava genuinamente surpresa, mas sorriu ao ter uma parte de seu plano exposta daquela forma. Claro que eles descobririam, nenhum deles tinha QI baixo.
– Porque você não me disse nada? – ela se dirigiu a Shikamaru, dando-lhe um soco não muito afetuoso no braço. – Fiquei pensando que você era um ingrato por anos! Vocês se esconderam durante todo esse tempo!
- Tsc... se eu contasse a você, todo mundo ia ficar sabendo. – Antes que ela protestasse, porque escuta aqui, eu não sou fofoqueira seu preguiçoso maldito!, Shikamaru se curvou e lhe deu um beijo terno na testa. - Arigato, Ino. Se não fosse por você, não estaríamos aqui. E eu sei disso.
A Yamanaka se calou, os olhos se enchendo de lágrimas, e sorriu ao se levantar e abraçar os dois ao mesmo tempo, tentando não fungar e arruinar sua maquiagem.
- Vou ser madrinha do primeiro filho, e não abro mão disso! Estão avisados os dois!
Shikamaru revirou os olhos, mas Temari riu. Feito, aquela criança era dela e ela teria um principezinho estrangeiro como o afilhado ou afilhada e ela pensou em como compraria roupas de bebês fabulosas enquanto eles se afastavam.
Com ânimo recobrado, ela serpenteou até a mesa em que seus amigos estavam, e sentou-se ao lado de Sakura.
- Está gostando da festa?
- Claro Ino, você já foi a uma festa assim na sua vida?
- Pois então pode me agradecer, testudinha. Eu sou o motivo pelo qual essa festa está acontecendo.
- O que?
- Ah, você não sabe o que eu fiz... mas vou te contar.
Escrevi essa história há bastante tempo, e ela é dedicada à Tamy, que é uma casamenteira de mão quase cheia, haha. E gosto da Ino, acho que não conseguiria escrever desta forma com nenhum outro personagem.
Sei que agora eles são canon (ah-eu-já-sabia feat. ah-eu-sempre-soube) e vou chegar ao Shikadai, eventualmente, um dia.
