DISCLAIMER: "Saint Seiya" não me pertence, é de propriedade de Masami Kurumada e Cia... mas estou juntando algumas moedinhas e talvez isso mude. Esta fanfiction não tem fins lucrativos.
SINOPSE: Porque cartas carregam a voz, o perfume e o coração de quem está longe. Yaoi, Aldebaran x Mu.
Bom, gente, esta carta, acredito eu, marca o ponto em que as coisas começam a ficar mais interessantes. Assim espero, né? n.n'' [apanha] O que Mu descobriu na visita que pretendia fazer? Veremos agora.
Jamir, 01 de maio de 1985.
Aldebaran,
Gostaria de começar esta carta dizendo que sinto muito! Soube por Kiki que você esteve aqui enquanto eu estava em viagem, infelizmente acabamos nos desencontrando. Realmente lamento muito por fazê-lo vir tão longe em vão, ainda mais porque sei que você ultimamente está cheio de trabalho e raramente tem uma folga. E você ainda dispensa esses raros momentos intentando fazer-me companhia...
Kiki me passou seu recado, sim. Infelizmente o abraço terá de ficar para depois, mas saiba que recebi seu presente. Não sei se já lhe disse antes, mas você tem um gosto raro para perfumes. Sabe que não costumo ser muito vaidoso... no entanto, a fragrância é tão suave que realmente me encantei. Muito obrigado, Aldebaran!
Por falar em presentes de aniversário, Kiki está às voltas com a bola que você deu. Mas devo agradecê-lo, na verdade: graças a ela, ele treina com mais afinco a Muralha de Cristal. Isso foi porque disse a ele que se houvesse qualquer objeto quebrado na torre, eu confiscaria a bola e só devolveria quando ele assumisse a armadura de Áries. Sabe que não sou de dar castigos tão "terríveis", mas ao menos surtiu um efeito positivo.
E você diz que não tem jeito com as palavras! Quem não o conhece que o compre, Aldebaran de Touro! As palavras no cartão eram singelas, mas adoráveis. Guardá-lo-ei com carinho. Muito obrigado, meu caro amigo!
Pois bem, apesar de perder sua visita, acredito que minha viagem não tenha sido vã. Fui a Rozan visitar Mestre Dohko de Libra e tivemos uma conversa bastante esclarecedora. O discípulo (que por sinal ainda não tive a oportunidade de conhecer) estava treinando em uma mata de bambus um pouco afastada, então pudemos travar um diálogo longo e sem interrupções.
Optei por não perder tempo divagando sobre as teorias que expus a você na minha última carta. Perguntei a ele diretamente o que meu mestre pensava sobre relacionamentos envolvendo cavaleiros de Atena. Ele hesitou, mas acabou me revelando algo que eu sinceramente nunca tinha imaginado.
Aldebaran, eis aqui a resposta: meu mestre não achava errado. Ele mesmo já havia se apaixonado e mantido um longo relacionamento. E justamente – creio que uma introdução importantíssima ao questionamento de sua última correspondência – por outro homem, outro cavaleiro.
Meu mestre tinha um relacionamento amoroso com mestre Dohko!
Neste ponto, permito-me uma pausa no relato para dizer o seguinte: fui criado apenas por mestre Shion, de forma que não conheci nenhum possível tabu lemuriano para o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. Meu próprio mestre jamais incutiu tal preconceito em minha formação, por motivos agora óbvios. Para ser franco, como nunca havia realmente parado para pensar nesta questão.
Tendo o relacionamento de meu mestre com Dohko e sua última carta como plano de fundo, pudemos trocar ideias mais elaboradas a esse respeito. Afinal, como o próprio Dohko já havia amado, creio que ninguém melhor do que ele para me esclarecer o dilema que discutíamos. Contei a ele de nossas recentes correspondências e, com base no que ele me disse, acho que suas ideias sobre o amor estão mais próximas da realidade do que minhas teorias.
Ele me disse que mestre Shion revelava uma faceta mais gentil e doce quando estavam sós. Para um cavaleiro de Atena, um observador desatento classificaria isso como uma fraqueza. Entretanto, Dohko me disse que um ajudava o outro a superar os horrores da Guerra Santa. Estar ao lado de quem você ama acende a vontade de lutar pelo que é certo. É como se, além de Atena, houvesse mais alguém por quem lutar, alguém por quem viver. Dohko acredita que a esperança de encontrar mestre Shion vivo o ajudou, ele mesmo, a sobreviver.
Dohko inclusive me contou uma história que eu não conhecia a fundo. Havia na Grécia um exército formado por amantes, dito "Batalhão Sagrado de Tebas". Dizia-se dele que era o mais poderoso que poderia haver, pois um amante jamais agiria de forma covarde diante do objeto de sua afeição; os instintos de proteção e cooperação mútua seriam mais poderosos. Dohko me disse que se sentia parte de um batalhão, pois ao lutar ao lado de mestre Shion pôde conhecer essa força que o amor confere.
E para ele, o amor verdadeiro fortalece as boas convicções. Diz ele que o desejo carnal, embora presente (confesso que por um momento me veio à mente a visão dos dois dividindo o mesmo leito... foi tão estranha!), não era preponderante. O amor verdadeiro é aquele em que ocorre comunhão de almas, harmonização de cosmos que se buscam incansavelmente. O verdadeiro amor pode inclusive florescer em corações imperfeitos, embora sua manifestação física possa estar invariavelmente à mercê das limitações daquela alma e talvez seja menos nobre.
Veja, Aldebaran, que estamos falando em corações, almas, cosmos. Parece que o amor independe da função reprodutiva que o sexo possui. Segundo Dohko, durante o sexo os cosmos podem se mesclar propiciando uma sensação única a quem tem a sensibilidade de perceber. É por isso que os humanos (ou pelo menos a maioria deles) não buscam o sexo de forma meramente fisiológica, como o fazem os outros animais. Buscam uma empatia com seu parceiro que vai além de feromônios ou período fértil.
E se é assim... então o amor não é restrito aos gêneros. Pode ocorrer de tal comunhão ocorrer entre um homem e uma mulher, mas também entre dois homens ou duas mulheres, pois a alma está livre dessa identidade biológica. Nesse ponto, não posso considerar o amor entre dois homens algo errado, pois, como já dito, o amor é uma força incontrolável. Não podemos direcioná-lo ao gênero que desejamos amar.
Diz ele que a paixão e o amor podem coexistir, mas também podem existir independentemente em nossos corações. Por exemplo, temos amor à Deusa, mas não temos paixão. De forma correlata, paixões violentas e físicas podem surgir por pessoas belas ou sensuais, mas sem a consonância espiritual que o amor propicia. Vi os olhos de Dohko marejarem quando ele disse, suave, que tinha sido agraciado com a oportunidade de viver ambos com meu mestre.
Confesso que também estava emocionado neste ponto da conversa. Que coisa bela e pura é o amor, Aldebaran! Senti que meu mestre havia sido feliz com esse amor, e isso também me deixou feliz.
Dohko também me contou sobre o longo período de separação após a Guerra Santa. Apesar de belo, o amor também pode ser doloroso, Aldebaran. Ele me descreveu uma sensação pungente de ausência do amado, uma sensação de falta que era parcialmente amenizada pela lembrança dos bons momentos que viveram juntos e pela esperança de um dia se reunirem. Lembrei-me de uma palavra que você me disse certa vez. "Saudade", não era isso? Enfim, disse a ele que você conhecia um nome para aquela sensação dúbia... um sentimento ruim, mas com certa doçura. Ele gostou da palavra. Disse que soava de forma bela e dolorida, como só a saudade poderia ser.
Disse, também, que a "saudade" era amenizada por cartas. Dohko me confidenciou que possui um baú de madeira em seu pequeno quarto, a quem ninguém tem acesso. É lá que guarda as cartas que recebeu de mestre Shion por tantos anos, tentando preservá-las na medida do possível. Quando falava das cartas, tinha um tom extremamente terno. Não faço ideia das palavras que meu mestre direcionava a ele, mas aparentemente tinham o dom de reconfortar seu coração solitário.
Acho que as cartas têm esse poder. Não concorda, Alde?
Em suma, pela conversa que tive com Dohko, acredito que o amor entre dois cavaleiros de Atena não é errado. Mestre Shion certamente pensaria o mesmo. Mas acredito que a força advinda do amor dependeu também da força de caráter de ambos. Afinal, por mais que desejassem estar juntos, foram obedientes à missão que tinham, ainda que isso significasse a separação durante mais de dois séculos.
Em outras palavras, se realmente há dois cavaleiros de ouro apaixonados, eles não estão errados. Se o amor verdadeiro não escolhe gênero ou aparência, mas sim depende das almas envolvidas, o fato de ambas coexistirem no Santuário de Atena não imputa nada de negativo no sentimento. Se eles mantiverem suas responsabilidades e o amor for puro e sincero, poderão extrair dele a força para enfrentarem as adversidades juntos, como Dohko e mestre Shion fizeram. Um sentimento puro como esse é abençoado pela própria Atena.
Creio que me estendi demais. Tentei sintetizar o que discutimos em Rozan... também tive acesso a outras histórias de meu mestre. Gostaria de dividi-las com você, mas acho que ficará para sua próxima visita.
Você vem por estes dias? Queria muito vê-lo em seu aniversário. Não creio ter muito a oferecer, mas gostaria de retribuir ao menos um pouco do carinho que você tem devotado a mim e a Kiki. Você me é um amigo muito querido.
(Quem diria que eu o estaria exortando a vir, não é? Pelo menos é primavera agora...)
Esperando vê-lo em breve,
Mu.
Temo que as cartas do Mu sejam mais enroladas e talvez confusas do que as do Aldebaran, mas espero que esteja razoável x.x
Aah, mudou um pouquinho, não mudou? XD [apanha] A visita a Dohko mexeu em algumas coisas dentro do nosso carneirinho. Mas os desdobramentos virão depois...
Eu tinha planejado que esta fosse a metade da fic, mas estou achando que TALVEZ haja dois capítulos a mais do que o previsto. Não tenho certeza ainda. Creio que não serão necessários, mas veremos. Será que esta fic irá até 2013? XD
Ah, o Batalhão Sagrado de Tebas. Eu TINHA de mencioná-lo para falar da força dada pelo amor, não é mesmo? :P
Espero que continuem gostando. Se tudo der certo, até amanhã!
Kissus!
