Obrigada pelas reviews, fiquei muito feliz de saber que gostaram.

Eu sei que está muito triste e esse capitulo também não está dos mais felizes, mas o que posso fazer? Se não for assim não terá uma razão para a história.

Para quem perguntou também, a Kikyou ainda vai aparecer sim, e muito.

Eu queria ter arranjado uma música para ser a que a Kagome canta, mas não consegui nenhuma que tivesse uma letra perto do que eu queria.

Espero que continuem lendo e que mandem reviews.

Beijos,

LittlePrincessRin.


Tenshis

(Anjos)

Capítulo 04: Sofrimento Alheio

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Um mês depois...

-Rin-chan, já está acordada? – Kaede perguntou, observando, da porta, Rin tirar de dentro do armário uma pequena caixinha de madeira. Sorriu. – Vai trocar?

-Sim. – a outra sorriu de volta e, sentando-se na cama, abriu a caixa.

Aproximando-se, a velha senhora pôde ver uma pequena pilha de fotos do pai dela. Sorriu novamente. Reconhecia quase todas.

Sentou-se na cama e observou Rin fazer a troca de fotos do porta-retratos.

-Uma bela escolha. – disse, admirando a imagem em que o amigo se encontrava sentado no jardim, lendo um livro, com Rin ao seu lado, copiando os gestos do pai.

A menina apenas se levantou colocando a foto na mesa e voltou a guardar a caixinha. Retirou o uniforme do armário e disse:

-Já vou descer, Kaede-sama.

Olharam-se por um instante e Kaede pareceu compreender. Levantou-se e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Ficava feliz de Rin estar mais animada. No ultimo mês haviam conversado quase todos os dias sobre o colégio. Divertia-se com o que ela contava sobre os amigos, pareciam todos muito simpáticos. Sorriu com o próprio pensamento. Talvez fosse exatamente esse tipo de pessoas que ela precisasse. Afinal, eles haviam planejado para que tudo aquilo acontecesse e eles sempre sabiam o que estavam fazendo.

Já Rin, apesar de gostar do novo colégio e dos novos amigos, em um mês não conseguira soltar-se completamente. Várias vezes o assunto sobre sua família voltava entre eles. Não com a intenção de atingi-la, eles apenas comentavam e depois se desculpavam ao lembrar que ela não gostava do assunto. E toda vez que eles falavam, ela percebia que, cada vez mais, o pai deixava de estar presente dentro dela. Sentia que se esquecia dele aos poucos. Já não se sentia mais tão incomodada quando falavam sobre isso com ela. Não era mais aquele sentimento de dor e saudade. Antigamente, o simples pensamento lhe fazia voltar ao dia em que tudo acontecera, mas, agora, era como se, finalmente, estivesse se libertando daquela dor. E achava que, com isso, estaria traindo o pai.

Colocou os livros na mochila e foi até a mesinha.

-Tchau, papai. – disse, dando um pequeno sorriso para a foto e passando o dedo no rosto do pai, numa forma de carinho. – Volto mais tarde.

-Rin-chan! Kagome-chan está aqui embaixo!

-Já estou indo, Kaede-sama!

-Está tudo bem, Rin-chan? – Kagome perguntou depois de alguns minutos se passarem sem que elas falassem nada.

-Sim, está sim. – ela respondeu sorrindo. – É que eu não dormi muito bem.

-Por algum motivo em especial?

-Não, não.

-Você é muito cheia de mistérios, sabia?

-Por que diz isso?

Chegaram aos portões do colégio e pararam a conversa ao encontrar Sango junto com Kohaku, brigando. Rin observou curiosa, já que não era a primeira vez que aquilo acontecia. Naquele mês, a primeira vez que encontrara Kohaku, ele estava brigando com a irmã. E foi assim vários dias depois.

-De novo. – Kagome comentou, balançando a cabeça levemente.

Aparentemente, ninguém sabia o que eles tanto tinham para brigar. Sempre que chegavam perto querendo saber o que havia acontecido, eles paravam e diziam estar apenas conversando.

Aproximaram-se dos dois, tentando ouvir a discussão, mas Kohaku percebeu a presença delas e parou de falar, passando a mão nos cabelos e virando de costas. Sango olhou para trás e, por um momento, Rin poderia jurar que ela estava chorando, mas ela logo se virou novamente para o irmão limpando o rosto, não muito disfarçadamente, e voltou a olhá-las em seguida, sem lagrimas nos olhos.

-Bom dia. – disse, forçando sorriso.

-Bom dia, Sango-chan. – Kagome disse, olhando para Rin por um momento, como se perguntasse se ela entendia o que se passava ali.

-Bom dia.

Ninguém tocou no assunto daquela vez.

Adentraram o colégio em silêncio. Kohaku ia logo atrás, parecendo nervoso. Olhando para ele, Rin percebeu os olhos um pouco vermelhos. Deixou que as duas fossem na frente e caminhou ao lado do outro.

-Está tudo bem, Kohaku-kun? – perguntou, estranhando quando ele a olhou de relance e voltou a olhar para os lados. – Kohaku?

Seguiu o olhar dele para todos os lados, tentando entender o que acontecia ali. Talvez ele estivesse fugindo de alguém. Olhou por um momento para Sango e Kagome a sua frente e percebeu que Sango também olhava para o irmão pelo canto dos olhos.

-Vão na frente. – Kohaku falou, de repente. – Eu vou fazer uma coisa e já volto.

As três olharam para ele, que, por um momento, observou a irmã com um olhar de perdão. Correu de volta para os portões do colégio e apenas Rin continuou a seguir com os olhos seu trajeto. Sango pareceu tentar distrair Kagome com uma conversa sem muito sentido. Rin viu-o encontrar com um homem próximo ao colégio, mas os dois caminharam para longe, impossibilitando-a de ver mais coisas.

Sentia que começava a entender o que estava acontecendo ali.


Mais tarde...

No fim, Kohaku acabara não voltando para a aula.

-Não devia ligar para ele, Sango-chan? – Kagome perguntava, preocupada.

-Não. Ele deve ter ido para casa.

-Ligue para confirmar então. – Rin disse, sorrindo.

-Isso, vamos até... que diabo...?

Sango e Rin seguiram o olhar de Kagome até um canto onde InuYasha parecia prestes a atacar Sesshoumaru. Miroku tentava apartar a briga, mas apenas levava empurrões do mais novo.

-Será que todos estão ficando loucos? – Kagome disse, correndo até eles. – Eu volto já.

-InuYasha continua agindo estranho. – Rin comentou.

-Pois é.

-Vamos até o telefone publico. Depois podemos falar com eles.

Sango concordou e caminharam juntas para longe daquela confusão. Olhando de lado para eles, Rin viu Kagome chegando e segurando InuYasha pelo braço, tentando acalma-lo. Miroku estava se levantando após ter sido, mais uma vez, jogado ao chão e limpava as roupas. Olhou finalmente para Sesshoumaru e encontrou-o olhando para ela, visivelmente desinteressado no irmão. Desviou, envergonhada. Alguma coisa nele fazia com que sua mente gritasse para se afastar.

Acompanhou Sango até o telefone e observou-a enquanto ela ligava. Estava visível a preocupação em seus olhos.

-Está desligado. – murmurou.

-Tente sua casa então, você disse que ele devia ter ido para lá.

-É... – ligou novamente e esperou alguns segundos. – Mãe? Kohaku está aí? Ah, não, está tudo bem. Não, não, mãe. Na verdade, eu acabei de vê-lo. Está tudo bem, mamãe, não se preocupe.

Rin ficou olhando para os lados tentando avistar Kohaku em algum lugar.

-Poupe seus esforços, Rin. Ele não está no colégio. – Sango disse, sorrindo fraco.

-Por que mentiu?

A resposta não veio.

Sango baixou a cabeça, colocando um braço em volta da cintura e cobrindo a boca com a outra mão.

-Sango-chan... – aproximou-se, tentando conforta-la. – Não tem ninguém em quem você confie que possa conversar com você?

Sua resposta foi um soluço.

Não iria se meter nos problemas dela. Não sem ter certeza do que se tratava. Não queria piorar as cosias.

Abraçou Sango, que continuava a tentar conter as lágrimas e ficaram ali, até ela se acalmar e terem que voltar para a sala.


No fim do dia...

-Então, nos encontramos amanhã à tarde na casa do InuYasha? – Kagome perguntou e Rin concordou. – Tem certeza de que não quer ir comigo? Você me disse que está preocupada com Kaede-sama dirigindo.

-Acho que vou aceitar, Kagome-chan. – sorriu. Com a velhice, Kaede estava perdendo a atenção e não conseguia coordenar o volante direito. Sentia medo que algo pudesse acontecer e estava tentando evitar ao máximo que ela tivesse de dirigir.

-Ótimo! Então, eu passo na sua casa amanhã depois do almoço.

-O que vocês vão fazer? – Sesshoumaru perguntou, mantendo a atenção na estrada.

-Um trabalho para o colégio. – Kagome respondeu, sorrindo. – Como vocês têm todos aqueles livros, acho que é o melhor lugar para pesquisar, né? Quem sabe depois não saímos para algum lugar, Rin-chan?

-Claro.

Todos ficaram em silêncio novamente. InuYasha parecia que não estava falando com o irmão e ficava olhando pela janela do carro, pensando em alguma coisa. Kagome apenas olhava para ele e baixava a cabeça, sorrindo triste. Sesshoumaru continuava como sempre, não aparentava nenhum tipo de sentimento. E Rin tentava entender o que se passava ali e ao mesmo tempo pensava se Sango estava bem e onde Kohaku havia se metido.


No dia seguinte...

Rin acordou onze horas da manhã e levantou correndo. Tomou banho e colocou a roupa. Trocou a foto do pai e depois deu um beijo, murmurando um bom dia e saindo do quarto às pressas. Meio-dia. Comeu tudo o que viu pela frente, deixando Kaede assustada. Voltou para o quarto pegando a mochila e colocando todos os livros que precisaria ali dentro.

-Seu primeiro fim de semana e não poderá nem ao menos dar um passeio? – Kaede perguntou da porta do quarto, sorrindo ao vê-la pegar a mochila de cabeça para baixo, deixando todo o conteúdo cair no chão novamente. – Por que todo esse nervosismo?

-Eu estou atrasada. – disse, choramingando ao ver tudo no chão. – Kagome-chan logo vai passar aqui e eu não estou pronta. Não ria, Kaede-sama!

A velha senhora entrou no quarto, ajudando Rin a colocar as coisas na mochila.

Uma buzina na frente da casa chamou a atenção das duas. Rin começou a choramingar novamente e Kaede se levantou parando na porta do quarto e olhando para a menina por um momento. Em menos de uma semana já estava mudando. Eles realmente faziam o que prometiam. Sorriu. Talvez valesse a pena no fim.

-Já estou indo, Kagome-chan! – Rin disse, correndo para fora do quarto, quase rolando as escadas ao descê-las. – Volto mais tarde, Kaede-sama.

-Tudo bem, querida.


Na casa de InuYasha e Sesshoumaru...

-Estão atrasadas. – InuYasha disse, abrindo a porta.

-Se tivéssemos chegado cinco minutos mais cedo encontraríamos você dormindo. – Kagome disse, passando por ele.

-Com licença. – Rin disse, adentrando logo atrás da outra.

-Como pode saber?

-Eu liguei para cá. Seu irmão me disse que você estava dormindo. – olhou no relógio. – Se você acordou no exato segundo em que terminei de falar com Sesshoumaru, então... – parou por um momento e olhou intrigada para o namorado. – Como diabo se arrumou em menos de um minuto e meio?

Ele apenas olhou para ela com uma expressão de que não havia sido nada bonito e começou a subir as escadas, sendo seguido pelas duas.

-Quem está aí, InuYasha? – uma voz feminina soou de um dos quartos do corredor e InuYasha pareceu ignorar.

Rin viu quando Kagome fez menção de falar alguma coisa para ele, mas desistiu e baixou a cabeça. Não sabia se falava alguma coisa ou não. A mulher continuava a perguntar e em uma altura que era impossível não estarem ouvindo. Resolveu ficar quieta. Entrou junto a eles em uma pequena sala com vários livros e percebeu quando InuYasha fechou a porta com certa brutalidade.

-Vamos começar? – Kagome perguntou sem encarar nenhum dos dois.

Os três sentaram-se à mesa e Rin começou a tirar o material da mochila.

-Ótimo.

-O que foi?

-Na correria acabei esquecendo um livro. – disse, dando um tapa na própria testa.

Kagome sorriu.

-Não se preocupe. Tenho certeza que deve ter um livro igual aqui.

A porta foi aberta com voracidade e Sesshoumaru apareceu.

-Por que diabos não respondeu a ela?

-Vá embora, Sesshoumaru. – InuYasha respondeu, sem olha-lo.

Sesshoumaru olhou para Kagome e Rin presentes na sala e, sem cumprimentá-las, disse:

-Mamãe quer falar com você, InuYasha...

-Estou ocupa...

-...Agora.

InuYasha rosnou quando a porta fechou e socou a mesa, fazendo as duas tremerem. Saiu da sala sem falar nada, causando absoluto silencio no ambiente. Alguns segundos depois, murmúrios vindos do corredor puderam ser ouvidos. Rin olhou para Kagome, que permanecia sentada na cadeira olhando para algum ponto distante e, tomada por uma súbita curiosidade, caminhou até a porta lentamente e abriu-a, apenas o suficiente para que pudesse enxergar. Viu uma bela mulher em frente à InuYasha e Sesshoumaru se encontrava um pouco atrás, observando.

-Não pode continuar me tratando assim para sempre, InuYasha.

-Vou tratá-la assim o tempo que quiser! – viu-o perdendo o controle. – Se ele fez isso deve ter sido porque você fez por merecer, vagabunda!

As cenas a seguir foram rápidas demais para que conseguisse raciocinar. Izayoi arregalou os olhos, horrorizada com as palavras do filho mais novo e Sesshoumaru, que até agora permanecia quieto, saiu como um raio detrás da mãe e avançou em InuYasha, prensando-o na parede, causando um som alto, que fez Rin tremer.

-Nunca, - ele iniciou, num murmúrio quase inaudível. – Nunca repita o que acabou de dizer.

-Largue ele Sesshoumaru. – a mãe implorou, contendo as lágrimas. – Vai machucá-lo.

-Não, está na hora de ele crescer! – rosnou em um tom mais alto. InuYasha permaneceu impassível, apesar da dor que sentia com o impacto das costas com a parede e de uma das mãos do irmão em seu pescoço. – Você não faz idéia do que foi aquela noite para mim e para ela, InuYasha. Não viu enquanto ela chorava no meu colo ou quando seu querido pai arrumou as malas e foi embora sem nem ao menos se despedir. Acha que foi fácil para ela ficar durante dez anos lhe mandando cartas fingindo que era ele? Cartas essas que ele nem se importou de escrever. Acha que foi fácil ficar durante dez anos mentindo para você e para os outros?

Enquanto falava, cada vez ia deixando InuYasha mais sem ar. Não só pelo aperto no pescoço, mas por todas as verdades sendo jogadas na sua cara. Desde o momento em que sua mãe havia lhe contado tudo, sabia que era como Sesshoumaru estava falando. Mas não era fácil aceitar aquilo. Por que não haviam lhe contado? Por que haviam escondido aquilo dele durante todos aqueles anos? Ele iria entender. Iria apoiar a mãe e ajudar a consolá-la. Pensando agora, não era exatamente isso que estava fazendo naquele momento.

Não era fácil acreditar depois de tanto tempo que tudo aquilo era mentira. A mãe havia lhe contado algum tempo depois de tudo acontecer que os dois haviam se separado e que o pai estava morando em um lugar muito longe, o que não deixava de ser verdade. Mas não era fácil descobrir depois de tudo aquilo o porquê de eles terem se separado e que ela nem ao menos sabia o paradeiro dele. Que ele não havia se importado de, em dez anos, ligar ou visitar os filhos. Sabia que estava fazendo a mãe sofrer tratando-a daquele jeito. Mas, em algum lugar dentro de si, ainda se recusava a acreditar no que ouvia.

-Sesshoumaru! Vai matá-lo!

-Acha que foi fácil para ela ficar com ele durante anos, sabendo que ele a traía com outra? – viu o irmão arregalar os olhos ao ouvir aquilo e continuou. – Ela havia esquecido de contar essa parte? Pois é, irmãozinho, ele a traía desde muito tempo antes deles se separarem. Em casa!

-Já chega... – ele olhou para a mãe, que se apoiava na parede, pondo a mão na cabeça enquanto tentava se manter de pé. – Eu não quero mais ouvir sobre isso, pare, por favor, Sesshoumaru...

Voltou a olhar para o irmão, que tinha o olhar vazio, e disse em seu ouvido:

-Espero que esteja satisfeito.

Soltou-o, deixando que caísse lentamente no chão e foi ajudar a mãe a ir para o quarto.

Rin fechou a porta em silêncio e olhou para Kagome, que permanecia de cabeça baixa. Estava completamente paralisada. Deu alguns passos em direção a amiga, mas parou, sentindo-se tonta. Viu quando a outra se levantou e caminhou até a porta, abrindo-a e indo até InuYasha, que permanecia caído no chão.

-Venha. – ela tentou, mas ele se negou. Agachou-se em sua frente e olhou-o serenamente. – Vamos, InuYasha, não pode ficar aí para sempre. Vou lhe fazer companhia no quarto, está bem?

Ele apenas deixou que ela o ajudasse a se levantar e foi com ele até o quarto, deixando Rin sozinha.

Sentando-se na cadeira, passou a mão pelos cabelos, tentando raciocinar o que acabara de acontecer. Não deveria estar ali. Queria ir para casa. Não queria ter ouvido aquilo. Aquilo era horrível. Como alguém era capaz de fazer aquilo com a própria família? Ficou olhando para os lados, imaginando o que faria. Começou a recolher suas coisas. Teria que ir embora sem ninguém saber.

-Que bom, já está arrumada. – pulou para trás ao ouvir a voz de Sesshoumaru na porta. – Vamos, vou levá-la pra casa.

-Não precisa. Eu posso ir andando. – disse, pegando um ultimo livro e colocando na mochila.

-Sua casa é a mais de vinte quadras daqui, Rin.

-Tudo bem. Eu gosto de andar. – respondeu, sorrindo para ele por um momento e baixando a cabeça para conferir se estava tudo ali.

Caminhou em direção a ele, na esperança de que ele não insistisse. Não estava se sentindo muito bem depois de tudo aquilo e não queria incomodar. Sabia que ele devia estar muito pior do que ela, apesar de a face ter voltado a do usual.

-Eu não estou querendo discutir novamente. – ele começou assim que Rin passou por ele. – Se quer ir a pé eu não vou impedi-la, mas vai chegar em casa apenas à noite... Se chegar.

Ela parou na porta do quarto, a alguns centímetros dele.

-Foi o que pensei. – ouviu-o murmurar, passando por ela.

O caminho de volta para casa foi silencioso. Não que qualquer um dos dois fizesse questão de alguma conversa, mas, diante da situação, o silêncio estava se tornando incômodo.

-Ah... – Rin começou. – Obrigada por me trazer.

Sesshoumaru permaneceu em silêncio, mostrando que não queria conversar.

Baixou a cabeça por um momento. Tentava se livrar de um sentimento terrível que se alojara dentro de si. Viu sua casa se aproximando e ajeitou as coisas para se preparar para sair.

-Rin. – Sesshoumaru começou depois de estacionar. Ela olhou para ele esperando que continuasse. – Não posso evitar que Kagome se meta nos nossos problemas de família, já que ela é namorada de meu irmão. Mas, você é nova aqui e vou lhe dar um conselho. Não se meta nos assuntos de minha família. Esqueça o que viu e ouviu ali. Isso não é da sua conta.

Ele soltou a trava das portas, permitindo que Rin pudesse sair. Esta, por sua vez, permaneceu parada por alguns instantes. Deixou de fita-lo e baixou a cabeça. Abriu a porta do carro e murmurou uma despedida, fechando a porta atrás de si.

Sesshoumaru permaneceu parado com o carro, esperando até que ela entrasse na casa e depois deu a partida.

-Rin? – Kaede parou na porta da cozinha, vendo apenas o vulto de Rin subindo as escadas e depois o barulho da porta do quarto batendo.

Foi atrás da menina, preocupada e encontrou-a sentada no canto do quarto, abraçando a foto do pai e chorando convulsivamente. Aproximou-se devagar e sentou na cama, ao lado de onde ela estava, mantendo-se em silêncio por um instante.

-O que aconteceu, querida?

-Eu não queria me sentir assim, Kaede-sama. Não queria. – ela dizia, soluçando e balançando a cabeça.

-Assim como, Rin? O que aconteceu?

Após insistir muito, Rin finalmente contou o que havia acontecido. Sobre Sango e sobre InuYasha. Kaede ouvira tudo em silêncio, não se surpreendendo com nada.

-Eu entendo que sinta por eles, meu amor, mas não vai ajudá-los se ficar apenas chorando. Você tem que pensar em uma forma de fazê-los se sentir melhor.

-Eu sei, eu sei. Sei de tudo isso. – dizia, com a cabeça escondida entre os joelhos.

-Então, por que ainda chora?

-Pelo que estou sentindo com tudo isso, Kaede-sama.

-E o que está sentindo?

-Alivio! – disse, olhando para a velha. – Estou me sentindo aliviada por ver que eu não sou a única com passado triste ou que sofre. Na nossa antiga cidade todos eram felizes e tudo parecia tão perfeito para todos, menos para mim. Aqui eu vejo que as coisas não são assim. Vejo que as pessoas sofrem tanto quanto eu. E sinto alivio. Não era isso que eu devia sentir. Devia sentir pena deles, assim como os outros sentiam de mim.

-E por que acha isso, Rin-chan? – Kaede disse interrompendo-a. – Quando os outros sentiram pena de você, você ficou revoltada e se afastou de todos eles, lembra? Por que deveria dar aos outros algo que recebeu e não gostou? Pena é o pior sentimento do mundo, Rin. Ninguém quer ser alvo dela. Nunca sinta pena de ninguém. Ajude-as em seus problemas, mas não sinta pena. Isso só atrapalha.

Rin se manteve calada, olhando para algum ponto distante no quarto.

Kaede suspirou e levantou-se. Talvez ela precisasse de um tempo sozinha para pensar e descobrir o porquê destes sentimentos.


Na casa de Sesshoumaru...

Entrou na casa e colocou a chave do carro em cima da mesa. Sentou-se no sofá suspirando. Estava cansado. Aquela semana havia se arrastado tão lentamente. E parecia que daquele dia para frente apenas seria pior ainda.

Passou a mão nos cabelos e a imagem de Rin veio em sua mente por um instante. Talvez tivesse sido duro demais com ela. Afinal, ela não havia nem tocado no assunto. E não achava que ela fosse querer se meter. Ela parecia tão quieta.

-Mas para espionar pela porta ela é bem curiosa. – murmurou.

Levantou-se dando mais um suspiro foi até o quarto da mãe. Tivera que dar um calmante para que ela parasse de chorar. Parou na porta do quarto de InuYasha por um momento e ouviu Kagome cantando alguma musica. Bateu de leve na porta, sabendo que não correria o risco de ser expulso e a garota olhou para ele, sorrindo levemente.

-Ele está dormindo. – ela disse.

-Não acredito que ainda o faz dormir com essas musicas.

-Não faço. – ela sorriu. – Mas acho que o subconsciente dele avisa-o que eu estou cantando e ele não acorda para não ouvir.

Ele apenas sorriu de lado. Observou-a tirando uma mecha de cabelo do rosto do irmão. Kagome sorriu também, parecia uma criança frágil dormindo. O sorriso morreu. InuYasha havia ficado tão debilitado depois daquela discussão. Não falou em momento nenhum com ela, apenas deitou na cama e ficou olhando para o nada.

-Levarei você para casa daqui a pouco. Vou apenas ver como minha mãe está.

-Onde está Rin-chan?

-Eu já a levei.

Kagome concordou e voltou a cantar.

Saindo do quarto, Sesshoumaru ficou parado ali no corredor, com uma velha lembrança na mente.


FalshBack

-Durma, InuYasha. – murmurei, suspirando quando, pela milésima vez, ele girou na cama, fazendo-a ranger.

-Não consigo!

Observei-o levantar-se desajeitadamente e vir até a minha cama.

-Não! Não, InuYasha... – suspirei novamente, enquanto ele me empurrava para o lado, implorando por um espaço ao meu lado. Desisti. Fui mais para trás, cedendo uma pequena parte da cama para ele, que pulou satisfeito, procurando por uma posição confortável, como um filhote de animal. – Você tem que aprender a dormir sozinho.

-Tenho medo.

-Você nunca teve. – disse, revirando os olhos.

-Porque o papai estava perto!

-Ah, papai... – murmurei com desgosto.

Uma semana havia se passado desde o desagradável dia e ele não havia dado nenhum telefonema, nem mesmo aparecido no colégio para nos ver. Claro que eu já imaginava. Devia estar se divertindo com a amante em algum lugar. Talvez já nem morasse mais em Tókio.

Olhei para InuYasha. Mamãe apenas havia lhe contado que eles haviam se separado. Não contara que ele a traía a mais de ano. E ele ainda achava que ele voltaria para visita-lo. Acho que nenhum deles, nem mamãe nem meu irmão, imaginavam que ele fosse sumir assim. Mas eu sabia. Desde o momento em que ele saiu por aquela porta eu sabia que nunca mais o veríamos.

Um enorme desejo de contar toda a verdade para ele se apossou de mim. Queria que InuYasha soubesse de tudo que eu sabia. De tudo que realmente acontecera. Que nosso amado pai na verdade não passava de um idiota que fazia nossa mãe sofrer. Como eu queria que o ódio se apossasse dele como havia se apossado de mim. Que ele parasse de se iludir com o pensamento de que, um dia, ele voltaria. Queria...

-O que foi? – perguntei, ao ouvi-lo soluçar. Ele se virou para mim, e, apesar da falta de claridade no quarto, pude ver o brilho das lágrimas em seus olhos.

-Sinto falta dele... – murmurou. – Desde que ele foi embora todo mundo ta diferente. A mamãe não brinca mais comigo e passa o dia trancada no quarto, você está sempre sério e olhando assim – imitou um olhar de preocupação. – pra ela. E eu não tenho mais ninguém para me proteger dos monstros. O poder já não funciona mais.

-Poder?

-Sim. O poder da família! – disse, abrindo os braços.

Sorri por um momento me lembrando da velha brincadeira de meu pai conosco.

Foi então que vi o quão egoísta eu estava sendo desejando isso para alguém tão pequeno e inocente.

InuYasha chorava juntando toda a dor que devia ter guardado durante aquela semana, molhando meu pijama que agarrara para cobrir o rosto e senti-me culpado por querer arruinar, mais ainda, a vida de meu irmão.

Percebi que, ao ocultar a verdade, estaria privando-o de todo o sofrimento e ódio que eu já estava condenado a viver.

-Eu vou ficar no lugar do papai, está bem?

Senti uma enorme dor no peito quando ele tirou o tecido dos olhos e olhou-me cheio de lágrimas, prontas para rolar novamente.

-Vai me proteger e ficar junto de mim?

Eu assenti, olhando-o sério, enquanto a raiva dentro de mim apenas aumentava. Ele estava causando tanto sofrimento e provavelmente nem estava se preocupando com isso onde quer que estivesse.

-Para sempre, irmão?

-Para sempre...

Fim do FlashBack


Sesshoumaru balançou a cabeça levemente, voltando à realidade. Ficou mais alguns instantes ouvindo Kagome cantar e voltou a caminhar pelo corredor.

-Para sempre, irmão?

-Para sempre...

Continua...