Eu achei que a Leah ia estragar tudo. Que ia dedar a gente pra minha mãe e pro pai do Jake, mas aí eu percebi que ela não sabia de nada. Por que, sério, o que ela viu? Porra nenhuma.

Talvez tenha me visto pulando da árvore, mas até aí, já fiz uma coisa bem mais idiota por bem menos e ela estava levando minha moto embora, então nesse caso, eu tinha mais contra ela do que ela contra mim. O que era ótimo, já que ela tinha despertado um sentimento de vingança em mim por causa dessa coisa da moto.

Talvez também a ver com o fato de que ela encheu minha boca de terra quando a gente se engalfinhou, mas a moto é uma justificativa muito melhor. E pra piorar, ela me chamou de retardado e largou a gente falando sozinho.

Foi embora no meio da conversa, simples assim.

O Jake me disse que ela era desse jeito porque tomou um pé na bunda de um cara da reserva, Sam qualquer coisa. É horrível, eu sei, também tive o coração pisoteado e tudo mais, sei exatamente o que ela tá sentindo e por isso posso dizer de todo coração que ela é uma puta de uma idiota.

É sério, vai se ferrar! Não fiquei cuzão desse jeito, meus crimes não tem vítimas, mas ela? Me deixou com o estômago queimando. E é por isso que agora eu to aqui. De noite, no meio do mato espiando a casa dela.

"O que você vai fazer?" Jacob me perguntou e eu dei um pulo porque quase tinha esquecido que ele também estava ali.

"Sei lá."

"Deixa isso pra lá..." ele parecia nervoso, e eu só conseguia pensar em como ele era bundão.

"Bundão."

"Acho que você não tem noção do que tá fazendo, você acha mesmo que vai parar por aqui? Ela vai querer revidar."

"Pode deixar a Pocahontas cair dentro, to nem aí."

"Você sabe que tem uma fixação estranha com filmes da Disney, né?"

"Cala a boca, Mogli."

Ficamos em silêncio por alguns instantes, meus joelhos estavam começando a doer.

"Mas o que você vai fazer?"

Me ergui o bastante para andar, mas não tanto que desse pra me ver da casa.

"Vou pensar em alguma coisa." Resmunguei já me afastando.

"Ok. Vai lá, campeão!" ele cochichou daquele jeito meio ridículo, super alto.

Parei na hora "Você não vem?!" respondi no mesmo tom dele, porque falar normal parecia errado, se eu cochichasse mesmo, ele não me ouviria.

"Mas nem por todo o ouro de Noé."

"Noé não tinha ouro."

"Claro que tinha!"

"Não, ele tinha uma arca."

"Você quer mesmo discutir isso comigo de quatro na terra só esperando a Leah sair de casa pra te chutar a bunda?"

Ele tem toda razão.

"Eu não to de quatro."

"Vai fundo, vingador!" ele me mandou um sorriso exageradamente falso e um sinal de joia.

"Odeio você."

Fechei a distância até a casa penosamente, andando todo curvado, e espiei pela primeira janela, era uma sala pequena que dividia um balcão com a cozinha, onde tinha uma mulher de costas pra mim fazendo chá e cantarolando baixinho. Não era bem o que eu estava esperando, mas tudo bem.

Na segunda janela, tinha um menino magrelo jogando vídeo game de um jeito tão animado que parecia que ele estava dentro do jogo. Achei melhor continuar andando antes que eu acabasse me empolgando e pedisse pra jogar também.

A Leah estava na terceira janela. Eu já estava ensaiando um sorriso diabólico quando percebi que ela estava chorando.

Era difícil de olhar, mas parecia sacanagem deixar ela ali daquele jeito. Ela parecia com raiva, enterrando as unhas nas palmas das mãos, o rosto todo franzido, como se estivesse quisesse gritar de ódio, mas sem fazer nenhum barulho. Ela socou o colchão com as duas mãos e eu levantei e saí dali.

"E aí?" Jacob perguntou quando me viu, mas eu não consegui olhar na cara dele.

"Vamo embora."

Eu não queria sentir compaixão pela Leah, eu queria fazer ela sofrer, mas é aí que a coisa toda ia pelo cano.

Porque ela já estava sofrendo.

E agora eu não conseguia parar de pensar se ela também estava tentando fugir de todo mundo porque sabia que nada que qualquer um dissesse mudaria alguma coisa, porque ninguém era capaz de entender.

O problema é que eu quero que continue assim. Não quero entender o porque de ela ser uma cuzona, não quero me identificar com a merda do coração partido dela. Eu não quero nem olhar pra ela nunca mais.

"Ei, Edward!" Mike me cutucando com o cotovelo interrompeu a viagem mental.

Eu tinha esquecido completamente que estava numa mesa de lanchonete, almoçando com outras pessoas. E agora que eu to pensando bem... Quem deixou o Tyler vir?

"Que foi?" perguntei olhando meio torto pro Tyler pra ele lembrar que apesar de ter se infiltrado, ainda não era bem vindo.

"Você tá legal?" Lauren me perguntou e eu realmente olhei pra ela pela primeira vez em muito tempo. O cabelo loiro comprido brilhante preso de lado e caindo por cima do ombro, os olhos cinzas preocupados focados só em mim.

Eu gosto dela. Ela é minha amiga chara, aquela pessoa que eu deveria detestar, mas que tolero todo dia porque uma partezinha – às vezes bem pequenininha – gostava de certas coisas do jeito dela. Lauren era Los Angeles; o sol, as praias quentes e meninas mimadas.

Por um segundo imaginei como seria ser normal, realmente normal e namorar com ela, dando uns malhos embaixo da arquibancada, brigar pelo ciúme besta dela e a minha falta de comprometimento. Ser o casal mais popular da escola até não suportarmos mais olhar na cara um do outro.

"To bem" respondi e todos trocaram olhares.

Lauren cobriu minha mão em cima da mesa de um jeito mais constrangedor que reconfortante, o que me fez sorrir automaticamente, mesmo que só de leve.

"A Bella é uma vaca" o Ben disse de repente com tanta certeza que fez todo mundo calar a boca por um instante antes da Angela socar o braço dele.

"Ben!" ela quase guinchou, inconformada.

"O que? Ela é mesmo." Ele reafirmou super sério e o Mike se remexeu do meu lado, obviamente sem saber o que fazer.

Eu sabia o que fazer.

Eu ri.

Eu ri tanto que minha barriga doeu, tanto que me deu vontade de chorar, tanto mesmo que todo mundo começou a riri comigo.

"Ela é!" concordei segurando a barriga no meio da gargalhada "Uma vaca completa!"

"Eu nunca gostei dela!" Lauren acrescentou.

"A família dela me dava arrepios!" Angela comentou, meio envergonhada por admitir.

"Mas a irmã dela era uma puta duma gostosa" Mike disse de um jeito solene que não combinava em nada com o resto da conversa.

"Qual?" Jessica perguntou.

"Rosalie" Mike, Tyler, Ben e eu dissemos ao mesmo tempo fazendo todos gargalharem de novo.

Talvez ser normal não fosse tão difícil assim.

"Quem é aquela?" Angela, a primeira a se recuperar do ataque de riso perguntou, esticando o pescoço para espiar pelo vidro da lanchonete além da minha cabeça.

"Quem?" virei para encontrar a Leah de braços cruzados me fuzilando no estacionamento.

Ops.

"Ela tá olhando pra cá?" Jessica estreitou os olhos, tentando enxergar melhor "Acho que ela tá olhando pra cá."

Quando percebeu que eu estava olhando para ela, Leah sorriu de um jeito bem maligno e fez um sinal com a mão para eu ir até lá.

E, bom... haha. Não. Sem a mínima chance.

"É com você, Edward?" Tyler tinha que abrir a boca e eu senti os olhos de todos queimando minha pele. Por que esse imbecil tá aqui mesmo?

Peguei meu hambúrguer, meu milk-shake e saí sem falar nada. Sem pagar também.

Fui até lá muito mais ocupado em mastigar e engolir do que em olhar para ela. Sentei na mureta que cercava o canteiro de flores que decorava o estacionamento, com as pernas esticadas na minha frente e senti a bunda gelar. Droga de garoa infinita.

"Você não vai falar nada?" ela perguntou naquele tom esnobe da primeira vez que eu a vi.

Dei outra mordida, mastiguei lentamente, engoli, tomei um gole de milk-shake "Não. Você que é a tarada que me seguiu até aqui e ficou me chamando." E voltei a comer.

"Por que você foi na minha casa ontem à noite?"

Engasguei com tanta força que quase saiu alface pelo meu nariz;

"Eu" tossi "não fui na sua cansa, nem sei" tossi de novo "onde você mora."

"Para de putaria, meu irmão te viu."

"Teu irmão fumou um."

"'O Jacob e o amigo dele de cabelo engraçado' essas foram as exatas palavras dele. Mesmo que a coisa do 'cabelo engraçado' não te entregasse completamente, o Jacob não tem outros amigos."

"Você sempre fala só a coisa mais desagradável possível?"

"Só pra você. O tarado que foi espiar minha janela ontem à noite."

"Meu cabelo não é engraçado." concluí e enchi a boca de milk-shake como forma de protesto. Meus dentes doeram.

Leah empurrou meu ombro pra trás com força "O que você tava fazendo na minha casa?"

"Só porque você tomou um fora não tem que agir como uma vaca!"

Assim que as palavras escaparam da minha boca, eu me arrependi, mas não ia pedir desculpas.

Leah mordeu os lábios com tanta força que ficaram brancos, então me deu um tapa na cara.

"Idiota." murmurou e deu meia volta.

Eu não vou pedir desculpas. Não vou.

Minhas pernas idiotas não receberam o memorando anti-desculpas e começaram a segui-la, o lanche completamente esquecido. Mas antes que eu pudesse alcança-la, ela passou pela minha moto e a chutou com toda a força.

Enquanto minha pobre menina – que não tinha nada a ver com aquilo – caía, eu berrei "Vai se foder, Leah!" ela parou mas não se virou "Você acha que é a única aqui que já se machucou? Seu namoradinho da reserva te deu um chute? E daí? Eu tinha para sempre! E acabou! Acho que nunca nem existiu. Então desce do seu pedestal, enfia ele na bunda e me deixa em paz!"

Voltei para a lanchonete pisando duro, só então pensando que talvez todo mundo lá dentro tenha me ouvido mandar a Leah enfiar o pedestal metafórico na bunda literal, mas eu estava com raiva demais pra me importar.

"Lauren" chamei assim que abri a porta e ela deu um pulo e susto "Quer sair comigo hoje?"

O jeito que os olhos dela se acenderam antes de dizer sim me embrulhou o estômago, mas ignorei a sensação.

Eu preciso ser normal.


N/A.: Não era pra ser tão triste esse final, não sei oq aconteceu.

E desculpa por ser curtinho, mas ou era meio curto ou comprido demais, não ia ter meio termo, então achei melhor dividir!

Podem ficar tranquilas que a partir do próximo fica engraçadalho de novo, ok?

Desculpa a demora, pra variar, e valeu por todas as reviews!