Capítulo 4
Ao conferir o endereço com o papel fornecido por Gumshoe, mesmo sabendo que aquela era uma área famosa pelos prédios altos, ele só poderia dizer que estava surpreso. Em sua mente, a casa de Franziska Von Karma seria uma mansão europeia com um longo jardim e vários cavalos pastando atrás. Claro, com estábulos para eles. E empregados, muitos empregados sendo açoitados noite e dia. Contudo, não passava de outro prédio. Nem o mais bonito que Phoenix via na vizinhança.
Ele entrou seguindo uma senhora, a quem ajudara com as compras pesadas. Talvez, seu instinto de autopreservação estivesse dando um último sinal de vida, adiando ao máximo possível o terrível encontro. Após levar a mesma senhora ao seu andar e recusar um lanche de agradecimento, Phoenix rumou ao apartamento da promotora. Ao menos, que fosse uma cobertura... Mas nem isso. Havia ainda mais uns três andares acima do dela. Aquele apartamento era apenas mais um entre tantos em um edifício qualquer do bairro. Sem cavalos.
Ele considerou sair correndo. Enquanto sua mão já apertava a campainha, seus olhos checavam a saída de emergência mais próxima.
- O que está fazendo aqui, Phoenix Wright? – Von Karma abriu a porta com tanta força, que Phoenix só podia agradecer a algum acaso haver evitado uma pancada na testa.
- Eu...
*WHIP!* *WHIP!*
- Diga logo.
- Eu... – Ele levou as mãos à testa, que ao menos a dor fosse espalhada pelo corpo em vez de concentrada em sua cabeça. Sua cabeça tentava se lembrar do discurso que Maya lhe fizera gravar não muito tempo antes. O mesmo que ele podia recitar ao contrário sem se esquecer de uma só palavra, mas nenhuma palavra lhe vinha.
*WHIP!*
- Você pretende ficar quanto tempo aí parado sem dizer nada? Não tenho a vida toda para você, Phoenix Wright.
*WHIP!* *WHIP!* *WHIP!*
Ele fechou os olhos. Mais chicotadas não poderiam ser piores, já que seu corpo começava a ficar dormente nos pontos preferidos dela.
- Eu vim me desculpar pelas tolices que eu tolamente disse sobre o tolo do seu pai! – Certo, já havia dito o bastante. Para assinar seu atestado de óbito. Ele fechou a boca com as duas mãos trêmulas. – Eu não... – Aquele definitivamente não era o discurso de Maya... – Eu só queria me desculpar! Pelas tolices! Não pra chamar de tolo o tolo do seu— Ele fechou os olhos.
Mas não houve chicote desta vez. Von Karma apenas ficou a encará-lo por um tempo. Então, deu um passo atrás e continuou a olhá-lo.
- Por quanto tempo mais vai ficar aí fazendo show pros vizinhos, Phoenix Wright? – Ela entrou para seu apartamento, deixando a porta aberta atrás de si.
Seguindo-a até o interior, Phoenix continuava a se recriminar por não conseguir dizer nem a versão simples do que queria.
Agora conseguia ver a casa. E ela era normal. Não havia um só empregado por ali, nem mesmo um mordomo de confiança de aspecto dúbio. E sim dois sofás, um tapete felpudo e um televisor exageradamente grande. Ao centro da sala, uma pequena mesa. Perto da entrada havia uma cozinha que era separada do outro cômodo apenas por um balcão. Era um apartamento funcional, simplesmente.
Phoenix ficou de pé ali, olhando a mesa cheia de papéis espalhados que chegavam a cair no chão.
- Se ia trabalhar, não era mais cômodo na procuradoria?
- Este trabalho não tem nada a ver com aquele, - respondeu a jovem, com uma bandeja em mãos levando duas xícaras das quais saía fumaça.
Franziska caminhou até a mesa e pareceu observá-la por um instante. Com um suspiro resignado, ela pôs a bandeja em cima da confusão de papelada que havia deixado lá e sentou-se no sofá.
- E o que você quer aqui? – perguntou ela, mergulhando o sachê na água fervendo.
- Eu já disse, eu vim me desculpar.
- É, isso você já disse, Phoenix Wright. Aliás, se seu chá esfriar, eu que não vou requentá-lo. Tome-o logo.
Ele olhou para a bandeja e a xícara solitária acima. Certo, era óbvio que o chá era para ele, mas Von Karma nunca ouvira falar em oferecer? É o mínimo! Você faz chá, você oferece! Visita nenhuma irá simplesmente pegar o que não lhe foi permitido. Aliás, aquela mulher também não sabia que, quando alguém fazia um pedido de desculpas, a outra pessoa precisava responder! Mesmo que negativamente. Além do mais, fora ela mesma quem o chamara para entrar e agora perguntava o que ele fazia ali dentro?
Como ele queria dizer tudo aquilo, mas apenas se curvou para pegar o chá. O líquido de tom vermelho-amarronzado exalava um aroma familiar...
- Sente-se logo. Se uma gota do seu maldito chá cair nas minhas folhas, você estará acabado, Phoenix Wright.
Ele suspirou e tomou um lugar no outro sofá. Instantaneamente, sua frustração se evaporou. Phoenix estava tenso desde o dia anterior quando notara o quão rude fora com a moça, agora suas costas estavam encostadas simplesmente no melhor lugar do mundo. Aquele sofá era divinal!
E aquele chá!
- É de rosas? – perguntou, após o primeiro gole que lhe queimou os beiços.
- Sim, trouxe da Alemanha. Os chás dos Estados Unidos são um fracasso, sinceramente. Este país todo só sabe tolamente produzir tolices de chá!
Após um momento de silêncio, Phoenix inspirou fundo:
- Eu vim me desculpar por ontem. – Precisava manter a cabeça fria. E aquele sofá estava definitivamente ajudando, mas seus olhos se fixavam mais no chicote, repousando ao lado da anfitriã. Ademais, Phoenix esperava sair voando dali antes que ela lhe abrisse a porta. Por isso, não podia deixar de ficar nervoso com a situação toda. – Eu fui um tolo.
- Que bom que sabe, Phoenix Wright. – Mas ela ainda parecia tranquila com seu chá.
Ele suspirou aliviado antes de prosseguir:
- Ninguém tem o direito de dizer coisas daquela forma sobre alguém querido. E eu só o fiz para te machucar. Sinto muito.
- Do que está falando, Phoenix Wright? E a cena que você me fez passar? Isto não tem a ver com meu papa, sabia?
- Quê?
*WHIP!*- Como já era de se esperar o chicote não perdoava tolices. E a expressão surpresa de Phoenix devia estar quase pedindo por um golpe.
- Não acredito que seu pedido de desculpas não inclua o principal! Todo aquele teatro, todas as vezes em que tive que me segurar para não arrancar sua pele com o chicote! Você faz ideia do que foi comer naquele restaurante imundo enquanto sorria?
- Espera aí. Quem resolveu que queria ser a rainha da sociabilidade ou o que fosse foi você! Eu não tive nada com isso!
*WHIP!*
- Você me desafiou! E aí deu chilique e me deixou lá!
*WHIP!* *WHIP!* *WHIP!*
- Sem *WHIP!* meu *WHIP!* chicote.
*WHIP!* *WHIP!*
- E aí você vem até minha casa e nem se DESCULPA!?
*WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!* *WHIP!*
*WHIP!*
Phoenix acordou sentindo um frio no peito. Era ainda início de primavera, mas não era para ainda estar fazendo tanto frio assim dentro de casa. Então, abriu os olhos para notar que não estava em sua casa. Sala... Sofá confortável... Rosas... Ele pulou. Estava sem blusa! E na casa de Franziska Von Karma. O que havia acontecido?
Sua cabeça latejava... Seu peito ardia... Um ladrão! Alguém que os atacara!? E o que havia acontecido à Von Karma?
Seguiu até um local de onde parecia vir luz. Para seu alívio, Phoenix encontrou a moça de pé na pequena sala, ao lado de uma máquina de lavar roupas. Ela estava apenas lendo alguma coisa.
- O que aconteceu? – perguntou ele, quase sem fôlego. Não queria racionalizar todas as cenas que lhe passaram pela cabeça momentos antes. Agora que lembrava melhor... ele havia levado várias chicotadas. Sim, mais uma vez, aquela mulher o havia deixado inconsciente.
Antes de mais, sentiu uma pilha de roupas ser arremessada na direção de seu rosto. Essa pilha foi logo seguida por um livro.
- Já que está de pé, faça você mesmo!
Phoenix olhou para suas roupas, parte havia caído no chão durante o trajeto, sobrando apenas a blusa branca em sua mão, logo abaixo de um pequeno livro... Um manual? Ao compreender o que se sucedia, Phoenix não conseguiu segurar o riso. Então, notou algo viscoso em seu peito, acima de uma enorme mancha vermelha de queimado.
- Foi você quem passou a pomada? – perguntou, olhando para a queimadura no peito.
- Eu não estou a fim de um processo se o meu chá te deixasse alguma cicatriz, Phoenix Wright.
Estranho isso vir de alguém que não hesitava em chicotear qualquer criatura viva à sua frente. Phoenix deixou escapar um riso:
- E ia lavar minha roupa?
- Já que você estava dando uma de bela adormecida... Não queria qualquer desculpa que o detivesse mais tempo que o necessário na minha casa.
- Mas estava lendo... – Ergueu o livro, deixando a outra pálida. – O manual de instruções da sua máquina de lavar?
- Não é como se eu não tivesse que lavar algo para mim! – Ela cruzou os braços, olhando para outro lado. – Agora faça logo isso e pare de perder meu tempo!
Ele deu de ombros.
De volta à sala, Phoenix sentou-se de novo no sofá feito no paraíso e suspirou. O cansaço de tantas emoções o havia tomado. Por outro lado, sua mente parecia mais ativa que quando pensara haver sido atacado por algum bandido. Seu peito, em vez de melhor com a pomada, sentia-se cada vez mais quente com as imagens mentais de Von Karma lhe tirando a blusa e lhe passando o remédio. Era assustadoramente excitante.
A ponto de ficar difícil permanecer na mesma sala que ela.
- Você demorou muito. – Ela estava de volta ao seu lugar também, tomando o restante de seu chá, provavelmente já gelado.
- Bem, a máquina não é minha. Aliás, se não a usa, para que algo tão cheio de botões?
- Não é da sua conta. E não quer dizer que ninguém a use...
- Ao menos, você observou atentamente como se faz né? Seus olhos em cima de mim é que não me ajudaram a desvendar o segredo dos mil botões.
*WHIP!*
- Ei! - reclamou Phoenix, - Já não bastou o nocaute de antes?
- Em que você quase manchou não só meu sofá quanto meu trabalho todo?
- Claro. E esta queimadura é muito melhor, né? – Ele apontou para a enorme marca no próprio peito.
E se arrependeu. Os olhos de Von Karma seguiram seu dedo e ele podia jurar que via corarem as bochechas brancas da promotora. Na verdade, era óbvio demais. A cada momento, elas ficavam em um tom mais rubro.
- Imaginando algo pervertido? – perguntou ele. Humor. Ele tinha que usar qualquer coisa para suavizar aquele constrangimento de ambos.
- Nunca! Só estava calculando a mancha que ia ficar no meu... – Seus olhos pareceram desfocados por um momento enquanto ela parecia haver se esquecido de que estava falando. Então, enfim completou com um grito raivoso: - ...sofá!
Phoenix suspirou.
- Ficar sem blusa não era para ser tão desconcertante... – disse ele, encostando-se no sofá. Aquela tensão... Nem o sofá abençoado parecia capaz de dissolvê-la. Era como se houvessem agulhas em suas costas.
- Gumshoe me contou. Sobre como você foi feito de idiota por aquela garota.
Von Karma conseguira. Qualquer tensão sexual convertera-se na questão mal resolvida entre ambos.
- Não ouse difamar a Mia. – A raiva em seu tom assustava mesmo o próprio Phoenix.
- Não. Ele me contou como realmente ocorreu depois. Quando voltamos pro meu gabinete. Bem, até onde se possa confiar no Esmolambado, claro. Aquele caso no início do ano... foi causado por ela, né? Pela tal Dahlia.
Phoenix esperou um discurso sobre pessoas tolas sempre fazerem tolices tolamente tolas, ou algo nessa linha. Todavia, os olhos de Von Karma apenas o observavam. Era algum teste, e ele não sabia para o quê.
- Ela é passado.
- E ele me contou sobre... – Von Karma olhou para baixo antes de completar: - Mia Fey. Esta não parece tão passado assim.
- Bem, ela é a minha mentora. Minha "chefe".
- Eu sinto muito, Phoenix Wright.
- Ela morreu já há muitos anos, senhorita Von Karma. E, definitivamente, você não teve nada a ver com isso.
- Eu quis dizer desculpas sobre ontem. – Seus olhos enfim se levantaram novamente, indo de encontro aos de Phoenix. – Mesmo eu sei quando passei dos limites. Mas aproveite este momento, que não é sempre que eu erro, Phoenix Wright. Afinal, meu lema é buscar a perfeição, e a perfeição sempre! Um dia, você reconhecerá que, mesmo como pessoa sociável, eu sou perfeita.
Phoenix sorriu lentamente. Estava perdido naqueles olhos. Metade de seu corpo achava ainda se lembrar de quando ela tocara sua pele nua. A outra não se importava com o possível passado, só queria pôr em prática o agora.
Droga... isso iria lhe custar a vida.
Mesmo assim, ele a beijou. Sentiu os longos dedos de Von Karma passar por sua nuca, seus cabelos... Um calafrio lhe subiu pela espinha. Ela estava... ela estava beijando de volta! Mas era óbvio, né? Toda aquela tensão e a forma como ela olhara para seu peito. Ele nem malhava, nem nada! Não havia o que admirar ali. Só do que se envergonhar, na verdade. Sim, vergonha alheia, até. Ainda assim... lá estava ela, envolta em seus braços.
- Por que ela ainda está tão molhada!? – Franziska estava com sua blusa em mãos. Ela esticava o pano todo amarrotado, recém-saído da máquina, onde ficara esperando algum tempo até que eles estivessem livres para buscá-la.
- E por que sua secadora tem ainda mais botões!? – Phoenix coçou a cabeça, lendo cada uma das opções e sentindo falta da sua. Bastava uma moeda para cada meia hora e ela funcionava.
*WHIP!*
- Dá pra me responder!? – perguntou a moça, usando a blusa de chicote improvisado.
- Olha, quando disse que até passei a gostar desse chicote, era só naquela situação, tá? Naquela hora e posição específicas. O resto está proibido.
Franziska sorriu:
- Como se eu fosse dar ouvidos, Phoenix Wright.
- E isso de nome completo! Não é nada educado chamar as pessoas assim, Franziska!
*WHIP!*
- E nem ficar sem responder minhas perguntas, Phoenix Wright.
*WHIP!* *WHIP!* *WHIP!*
- Está tentando me nocautear de novo!?
- Da última vez, foi bastante proveitoso... – Ela se aproximou, alisando seu substituto provisório do chicote.
- Isso... é estupro sabia! Fazer isso quando a vítima não tem sequer chances de se defender...
- Vítima? Phoenix Wright, você não se encaixa na definição de vítima. – Ela passou por seu pescoço o pano sendo usando de arma, e o puxou para mais perto.
Com aqueles atrasos todos, ainda demorou muito para Phoenix poder ter sua roupa de volta. Ainda mais depois que a camisa branca foi jogada molhada no chão e teve que ser lava mais uma vez.
Ou quando ele "sem querer" pisara nela. Ou mesmo quando ela a usara de pano de prato, enquanto Phoenix preparava a janta. Um jantar a luz de velas, claro. Afinal, este era o primeiro encontro dos dois. Não podiam continuar na mentira, e a senhora Black sabia muito bem que o primeiro encontro deles havia acontecido a luz de velas.
- Você devia ser mais sincera e me pedir para passar a noite aqui logo... Sabe, tudo teria sido ainda mais simples se você tivesse pulado todo o desafio de miss simpatia de ontem, - disse Phoenix, servindo-se de seu suco de uva favorito.
- Mais simples, mas não perfeito, Phoenix Wright. Não se esqueça de que os Von Karma sempre almejam a perfeição. – Então, sem querer, Franziska derrubou a taça na blusa de Edgeworth que Phoenix acabara de encontrar em algum canto do armário. – Oh, vamos ter que lavar esta também...
E ela o ajudou a despir-se uma vez mais.
Fim!
Anita, 26/07/2011
Notas da Autora:
Faz tanto tempo que fiz esta fic e agora que peguei para revisá-la. Uma felicidade de fazer coisas assim é reler como se eu não tivesse escrito e poder me divertir novamente com esta ou aquela cena. Realmente, eu gosto muito desse casal e é uma pena que eu raramente trabalhe com ele. Espero que também tenham gostado!
Não se esqueçam de deixar seus comentários ou sugestões, tudo será muito bem-vindo! E para mais histórias minhas, algumas inclusive de Phoenix Wright, confiram meu site, o Olho Azul!
E até a próxima!
