Chapter 04


Em completo silêncio, a morena observava a movimentação do lado de fora da janela e tentava juntar pedaços confusos de memórias no emaranhado que havia se transformado seu cérebro. Ela se lembrava da violência nas palavras, da brusquidão dos movimentos e principalmente da dor nos golpes. Mas ela também se recordava vividamente daqueles olhos azuis, daquela voz gelada e aterrorizante e da dor entranhada em cada um dos gestos daquele homem.

Ela o havia machucado profundamente, e sequer se recordava de tê-lo feito!

Lágrimas silenciosas correram pelo seu rosto, e a morena as enxugou imediatamente com o torso da mão. Shisui estava morto e a culpa era dela, havia um lunático tentando matá-la e ela sequer sabia o motivo para tamanho ódio. Suas mãos trêmulas deslizaram pelo seu rosto, detendo-se no olho ainda inchado e reprimindo a nova onda de lágrimas.

- Hyuuga-sama.

A morena sobressaltou-se ao escutar a voz imponente a chamando, seu coração disparado com o susto e o rosto corado por ter estado tão distraída e consequentemente descuidada. Ao virar-se para o recém-chegado, ela foi incapaz de conter a surpresa ao encontrar o adorado primo de Shisui bem diante de seus olhos.

- É bom saber que se recuperou completamente Hyuuga-sama.

- E-eu b-bom... – A morena deteve-se por um instante, recuperando o fôlego e a coragem. Fazia anos que não gaguejava daquele jeito. – Agradeço por ter salvado a minha vida e do meu filho, Uchiha-sama... Não há palavras pra expressar a minha gratidão.

O moreno a encarou em completo silêncio por segundos que pareceram horas, o semblante inescrutável e um olhar tão penetrante e inquietante que ela não conseguiu retribuir, baixando os olhos e encarando os pés. Ele havia dirigido durante horas para interrogá-la, e agora que finalmente a tinha diante de seus olhos e acordada, as palavras simplesmente se negavam a abandonar seus lábios. Havia algo naquela mulher que o confundia.

- Vocês é a mulher do Shisui e carrega um filho dele... – Sim, ela era a mulher do seu primo e ia ter um filho dele. – Apenas, zelei pelo bem da família!

A morena limitou-se a assentir, ela entendia perfeitamente o sentido de honra e dever que era passado de geração a geração dentro das "famílias". Ela mesma havia sido criada daquela forma. Incentivada a manter suas palavras e promessas e zelar pelo bem dos seus. Um suspiro escapou dos seus lábios e a morena acariciou distraidamente o ventre, uma mania recém-adquirida que a tranquilizava e que trouxe um sorriso miúdo aos seus lábios.

- Eu imagino que tenha perguntas!? O moreno limitou-se a assentir.

- Obtive respostas de alguns dos homens que participaram do ataque, nada conclusivo. – A morena se encolheu, tremendo e nervosa. – Eles disseram que havia um homem obcecado por você... Sabe quem é esse homem?

A morena limitou-se a negar, completando em seguida.

- O rosto e o cabelo estavam cobertos, e eu não pude sequer reconhecer sua voz.

- Danzo-dono fez de você um alvo, preciso encontrá-lo e descobrir por que.

Seu corpo gelou á menção do homem e seus movimentos se detiveram, arrepios se alastrando por seu corpo e uma sensação de pânico a golpeou, em choque a morena o encarou. Danzou estava envolvido naquilo?

- Madara-sama me disse que ele e Otou-san entraram em acordo. Uma trégua? – O moreno assentiu, e apesar do medo e desconfiança Hinata completou. – Há alguns anos, minha Okaa-san e meu Ojii-chan foram assassinados. Colocaram uma bomba no carro e os dois foram pegos na explosão... Danzou-sama foi o principal suspeito do Otou-san e ninguém nunca entendeu por que, já que não havia nenhum indício ou prova que o conectasse ao atentado...

- Imagino que você saiba o motivo.

O moreno encarou a mulher diante de si com atenção, aparentemente, parte da informação que havia conseguido com seus informantes estava correta, restava saber o que motivava Shimura Danzou a buscar vingança.

- O que eu sei são apenas estórias antigas, nada muito esclarecedoras já que naquela época eu era apenas uma criança. – O moreno a encarou assentindo e Hinata suspirou. – Trata-se da "Neve Vermelha"...

- E o que é essa Neve Vermelha?

- É um prenúncio de morte... Até alguns anos atrás, até mesmo os anciões do Clã Hyuuga evitavam falar sobre o assunto.

Itachi aproximou-se da mulher, detendo-se á seu lado e observando o semblante perdido com que ela observava o exterior da janela, caía uma chuva fina e as árvores sopravam um vento gelado de início de inverno. Algo naquela historia parecia perturbá-la profundamente.

- Eles faziam parte de uma ramificação do Clã Hyuuga... Eram treinados desde tenra idade, assassinos silenciosos e habilidosos.

O moreno preocupou-se ao notá-la estremecer, mas ele já havia notado os sinais que ela transmitia e sabia que deveria manter-se a distância. Algo muito ruim tinha acontecido.

- Eu tinha cinco anos quando fui arrancada de minha cama no meio da noite e levada... Eles nunca conseguiram me tirar do complexo Hyuuga, e apanharam meu captor. – Uma lágrima solitária correu pela bochecha da morena e ela a limpou imediatamente. – Ele era um membro da "Neve Vermelha", e todo o Clã foi responsabilizado pelo meu sequestro, eles foram assassinados no que hoje é conhecido em Okinawa como "A Ceifa do Bambuzal".

- Como Danzou está ligado á isso?

Um suspiro escapou dos lábios da morena. Aquele havia sido o primeiro e maior dos erros que Hyuuga Hiashi havia cometido, e o único do qual ele se arrependia e se envergonhava.

- Ele os queria fora do seu caminho... Otou-san se precipitou e acabou fazendo justamente o que Danzo-sama planejava.

- Seu pai é o homem mais justo e imparcial que conheço, deve haver algo mais que você não saiba...

A morena assentiu, mas ela sabia de onde toda aquela cautela e imparcialidade havia surgido. Hiashi ainda carregava a culpa e o arrependimento de ter executado uma família inteira. Sangue inocente manchava suas mãos, e o líder dos Hyuuga jamais havia conseguido se recuperar daquele episódio.

- Ojii-sama tinha acabado de falecer e deixar a liderança da família nas mãos do Otou-san. – A morena fez uma careta, incerta sobre estar fazendo o certo ao revelar aqueles segredos. – Ele disse que era jovem e estúpido e se deixou levar pela raiva que estava sentindo... Todos foram assassinados, inclusive mulheres e crianças... Apenas alguns dias depois ele se inteirou da ligação entre Danzou-sama com meu sequestrador, mas já era tarde demais.

- Danzou deu alguma justificativa para querer eliminar um Clã inteiro?

- Ele disse que o bambuzal estava se tornando muito mais forte e maior do que o Clã Hyuuga poderia suportar.

- Por que seu pai não o matou naquele momento?

A morena se remexeu inquieta; insegura sobre estar revelando demais.

- Como você acha que Danzou-sama ficou desfigurado e quase aleijado?

O moreno deixou que um sorrisinho escapasse de seus lábios ao imaginar Hyuuga Hiashi fora de si. Era cômico demais apenas pensar no homem com um fio de cabelo fora do lugar, que dirá rolando no chão e dando uma surra em alguém.

Seus olhos se afastaram da vista que a janela dava para o jardim do hospital e se detiveram na mulher á seu lado. Ela era uns bons centímetros mais baixa e apesar de estar convalescendo e com um olho inchado, ainda era uma das mulheres mais bonitas que ele já tinha visto. Os longos cabelos estavam atados por uma trança, e uma fragrância floral delicada se desprendia de seu corpo, um corpo repleto de curvas e muito bem distribuído.

O moreno pigarreou e afastou aquele pensamento, aquela era a mulher de seu primo e ele deveria concentrar-se unicamente em juntar as peças em torno daquele atentado e encontrar o assassino.

- Eu acho que vou me deitar um pouco, me sinto um pouco tonta...

Hinata sentiu o ambiente rodando, e o corpo pendendo para frente. A morena segurou-se no batente da janela e foi imediatamente envolvida pelos braços de Itachi. Ao erguer o rosto e encarar o moreno tão perto, suas bochechas se inflamaram e Hinata pôde enxergar nitidamente o cuidado e preocupação tão nítidos nos olhos de obsidiana do moreno.

Itachi cheirava a limões e tempestade, e as mãos grandes em sua cintura eram quentes e firmes. Sem uma única palavra, ele a ergueu nos braços e a colocou delicadamente sobre a cama do hospital, seus olhos nunca desviando dos perolados e uma agitação estranha no coração.

- Você não deveria estar de pé, descanse. – A morena assentiu; incapaz de articular uma sentença coerente. – Vou chamar a doutora Haruno e volto num minuto!

As mãos do moreno fizeram um carinho sutil em sua face, e seus lábios colaram-se em sua fronte num beijo delicado e intimo que a encheu de algo quente e desconhecido. Hinata observou o Uchiha abandonando o quarto que ela ocupava em completo silêncio e sentindo um frêmito desconhecido agitar seu coração.


Horas Depois.

A morena secou o suor na testa com o antebraço e suspirou. O cheiro naquele aposento era insuportável mesmo depois de todas as janelas terem sido abertas e o quarto arejado. Ela fixou o olhar no cadáver, havia somente um corte limpo e profundo na garganta, não havia sinais de luta e somente pelo cheiro e a coloração da pele, ela supunha que o defunto deveria estar ali á pelo menos uns cinco dias. Afastando as mãos do homem, a morena tirou fotos mais precisas do corte, suspirando contrariada e imaginando a quantidade de trabalho que aquele "presunto" daria.

Hiashi não lhe daria sossego até que tivesse um relatório conclusivo da autópsia nas mãos, e tendo notado a contrariedade do homem ao inteirar-se da morte de Shimura Danzo, a morena imaginava que seu final de semana havia ido por água abaixo e ela teria de passar a noite no laboratório.

Levantando o pescoço, TenTen observou os homens da Yakuza que cercavam o lugar misturados á policia, ela apenas imaginava o tamanho da confusão que aquela morte desencadearia. Tóquio era um território neutro, mas nem por isso aquela morte passaria em branco. Danzo era um dos aliados de Hyuuga Hiashi e a família Shimura definitivamente exigiria algum tipo de compensação ou retaliação.

E só havia uma família forte o suficiente para fazer frente aos Hyuuga: Uchiha.

- Mitsashi-san.

A voz de Hyuuga Hiashi chamou sua atenção e a morena ergueu-se imediatamente, curvando-se em uma mesura respeitosa.

- Hyuuga-sama.

- Quais são suas primeiras impressões sobre o que encontrou aqui?

- Não há sinais de luta, e o que causou a morte foi o ferimento na garganta. – Respirando fundo, a morena completou. – Foi um corte limpo e profundo o suficiente para causar uma morte instantânea... Não há respingo de sangue ou qualquer digital que não seja da vítima em todo o quarto. Quem o matou sabia exatamente o que estava fazendo!

- Quanto tempo até que conclua um relatório mais detalhado?

- Devido ao estado avançado de decomposição, eu diria que em um dia ou dois.

- Você tem um dia Mitsashi-san!

A morena limitou-se a assentir, a vontade de acertar o velho com algo bem pesado sendo firmemente reprimida enquanto curvava-se em uma mesura respeitosa e continha a irritação com os punhos cerrados. Porque ela aturava essa situação mesmo? Ah, claro... Por que era uma completa idiota que ainda nutria esperança de que Hyuuga Neji a notasse.

- Hiashi-sama. – TenTen arregalou os olhos ao notar o recém-chegado. – Ojii-sama me enviou... Disse para me colocar á sua disposição.

- Não há com o que se preocupar Itachi-san... Mitsashi-san é uma das minhas funcionárias mais qualificadas e nem mesmo ela foi capaz de encontrar alguma prova substancial. – Hiashi suspirou contrariado, e Itachi assentiu. – Não existem evidências de que outra pessoa esteve no quarto além de Danzo.

Em silêncio, o moreno ajoelhou-se ao lado do corpo. Danzo tinha uma expressão de pavor congelada no rosto e as mãos haviam sido afastadas para mostrar um único corte perfeito e profundo na garganta, possível causa da morte. Não haviam respingos de sangue pelo quarto, exceto a poça abaixo do corpo, o que indicava que o assassino sabia como e onde cortar. Os móveis estavam todos no lugar, e não havia sinais de luta, o que indicava confiança e familiaridade.

Itachi levantou-se, puxando uma respiração profunda e olhando irritado para a cena. Quase um mês já havia se passado e não havia nenhuma pista sequer do assassino de Shisui. A investigação estava estagnada e ele começava a se impacientar.

- Estive com Hinata-sama há algumas horas atrás. - Os olhos de Hiashi imediatamente pousaram no moreno, interessados. – Recebi algumas informações importantes no interrogatório e gostaria de conversar com você, a sós.

- Não ouvi nenhuma pergunta em relação á morte de Danzo... – Itachi limitou-se ao silêncio. - Imagino que já tenha descoberto sobre minhas suspeitas.

- Trata-se de mais do que meras suspeitas, Hyuuga-sama.

- Entendo.

- Se puder me acompanhar até a Mansão Hiashi-sama, posso explicar tudo á você e Ojii-sama.

Taciturno, o Hyuuga assentiu e limitou-se a seguir o moreno. O trajeto do hotel até a mansão Uchiha era curto e foi feito em completo silêncio. Hiashi ansiava por respostas e Itachi parecia ter novas informações.

- oOo -

- O Shimura foi assassinado. – Madara estreitou os olhos, irritado. – O assassino foi meticuloso, um corte limpo na garganta e nenhum sinal de digitais ou qualquer vestígio que nos leve á ele.

- Esse desgraçado está se divertindo ás nossas custas. – Itachi suspirou, seus olhos fixos no tio enquanto ele falava. – Conseguiu alguma coisa em Quioto? Alguma informação relevante?

Itachi endireitou-se na cadeira, um suspiro exasperado escapando de seus lábios e o cansaço cobrando seu preço. Shimura Danzou estava morto e a exasperação do Hyuuga só não era maior do que sua fúria ao inteirar-se de que não poderia vingar-se pelas atrocidades que o homem havia cometido contra sua família. Itachi quase podia sentir a fúria silenciosa que se desprendia do homem, apesar de seu semblante transparecer tranquilidade.

Ele havia saído do hospital algumas horas atrás, deixando uma Hinata sedada aos cuidados de Sasori, e no minuto em que colocou os pés fora do hospital havia recebido um telefonema do tio, enviando-o de encontro ao Hyuuga. Suspirou, detendo a ansiedade em rever a garota e sabendo que deveria colocar seus deveres e obrigações com a família em primeiro lugar, de qualquer forma, não era como se a Hyuuga o conhecesse bem o suficiente para confiar nele, e por algum motivo que ele não estava pronto para analisar naquele momento, aquilo o incomodava.

Os olhos negros de Itachi detiveram-se em Hyuuga Hiashi, como o homem reagiria ao descobrir que sua família havia sido alvo de Danzo por anos? Que sua amada esposa e irmão haviam sido assassinados pelo homem, e que sua filha também era um alvo?

- O alvo deles era Hinata-sama. – A atenção de Hiashi agora estava totalmente voltada ao moreno. – Pelo que me disseram, Danzo estava tentando voltar ás suas graças e pretendia usar sua filha como isca para iniciar uma guerra entre os Clãs... Mas especificamente entre você e Ojii-sama!

Os punhos do Hyuuga apertaram-se até os nós de seus dedos tornarem-se brancos. O conflito em seu semblante era nítido, e o moreno não queria nem imaginar o que provocaria quando terminasse o relato.

- Eles também deixaram escapar algo relacionado á sua esposa... - Os olhos perolados ganharam um brilho estranho, e as veias ao redor pareciam saltar. – Segundo meus informantes, Danzo-sama estava diretamente ligado ao atentado que matou ela e seu irmão... Atacar Hinata-sama foi uma retaliação por tê-lo isolado dos Clãs. Por algum motivo, ele achava que Hinata-sama era seu ponto fraco.

- Não pensei que minhas suspeitas seriam tão facilmente confirmadas... – Itachi encarou o Hyuuga com cenho franzido, então ele já sabia? - Eu teria mencionado o assunto antes se tivesse alguma prova concreta, não gosto de espalhar minhas suspeitas ou tomar decisões baseado em suposições. Prefiro ter plena certeza.

O moreno assentiu em concordância, aquela afirmação confirmava tudo o que Hinata havia dito.

- Há mais por trás desse atentado, Hiashi-sama! – Os olhos perolados estreitaram-se. – Eles mencionaram um homem, alguém que somente Danzo se comunicava. Esse homem foi o assassino da sua esposa e do seu irmão e responsável pelo ataque á Hinata-sama. Eles mencionaram algo como Neve vermelha...

Os olhos perolados do homem se arregalaram minimamente. Fazia anos que não escutava aquele nome, e ele sabia que a Neve Vermelha sempre era prenúncio de morte. Ainda em silêncio, o Hyuuga levantou-se do lugar onde estava sentado e se aproximou da enorme janela do escritório de Madara, seus olhos fixos no jardim e nas folhas das árvores que balançavam suavemente junto á brisa da tarde.

Uma corrente de ar frio o acertou, arrepiando seus pêlos e lembrando-o de anos atrás, do maior erro que havia cometido. Respirando fundo, o líder dos Hyuuga soltou o fôlego aos poucos, controlando a ansiedade e a vontade que teve de vomitar ao recordar-se dos corpos espalhados pelo chão e da quantidade de sangue.

- Em Okinawa é conhecido como "A Ceifa do Bambuzal". – Itachi estreitou os olhos, Hinata havia mencionado o mesmo. – Trata-se de uma das ramificações do Clã Hyuuga, um grupo pequeno de assassinos altamente treinados... Especialistas em assassinatos silenciosos.

- E o que significa essa "Neve Vermelha"?

- Neve vermelha é um termo figurativo para morte... Manchar as mãos ou o solo com sangue. - Com os olhos fechados, o Hyuuga completou. - Macular a pureza da neve com a crueldade do sangue.

- O que aconteceu? A voz de Madara demonstrava curiosidade.

- Eles estavam á serviço dos Hyuuga durante séculos... Até Danzo encontrar uma desculpa para eliminá-los e eu acreditar nele de olhos fechados!

O Hyuuga pressionou a ponte do nariz, seu semblante demonstrava todo o cansaço provocado pelos acontecimentos recentes, e toda a frustração e irritabilidade que sentia em relação ao passado. O arrependimento era nítido e palpável.

- Eles estavam saindo de controle, ou era isso que Danzo queria que acreditássemos. – Um suspiro escapou dos lábios do homem. – Eu havia acabado de receber o controle da família, e não tomei medidas imediatas. Foi o primeiro erro que cometi, e como consequência da minha falta de experiência, todo o Clã foi assassinado... Todos, até mesmo o pequeno.

Os Uchiha se entreolharam, notando o estado em que Hiashi estava e permanecendo em silêncio. Uma vez que as palavras começassem a sair, Hiashi deveria conseguir se libertar do peso de suas escolhas.

Hiashi cerrou as mãos em punhos, jamais havia imaginado que o maior erro de sua vida voltaria para atormentá-lo. Mas ele também sabia que "aquela família" havia sido completamente dizimada, até mesmo o pequenino... Empertigado, o Hyuuga sacudiu-se e tentou espantar a memória da pequena criança banhada com o sangue dos pais e tios, as lágrimas misturadas com o sangue e os olhos azuis brilhando com medo e confusão enquanto o encaravam.

- Hiashi-jii-san, onde estão o papai e a mamãe?

- Pouco antes de completar cinco anos de idade, minha filha foi levada por um dos membros da Neve Vermelha na calada da noite... Eu matei o sequestrador, mas o mal já estava feito e a desconfiança havia sido semeada. – Ao virar-se para os Uchiha, ele pôde notar o interesse. – Tratava-se de uma família pequena em comparação ás outras, e nem mesmo o caçula, um menino de seis anos de idade foi poupado... Somente semanas depois eu descobri a ligação entre Danzo e o homem, um membro que havia sido banido do Clã por diversas transgressões.

- Alguém pode ter escapado Hiashi-sama, você tem absoluta certeza de que todos foram mortos?

- A família estava toda reunida para a comemoração da minha nomeação. – Um sorriso nostálgico desenhou-se nos lábios do Hyuuga. – Ele me pediu Hinata em casamento naquela noite, disse que ela era a garota mais linda que ele já tinha visto... Horas depois todos estavam mortos, inclusive ele!

- O que aconteceu?

- Danzou chamava de Anbu-Ne, uma organização de assassinos que ele próprio treinou. Eles emboscaram todos que estavam na casa e mataram a tiros todos os membros da família. Aquela foi à noite da Ceifa, um dos massacres mais brutais de Okinawa.

Itachi suspirou, todas as informações coincidiam e a sujeira aumentava cada vez mais. Era incrível como o primo tinha vocação para arrumar problemas, e mulheres ainda mais problemáticas.

- O que aconteceu com o menino?

- Um tiro na cabeça. O próprio Danzo disparou, bem diante dos meus olhos...

O silêncio tenso se estendeu por segundos que pareceram horas, e somente pelo som da voz do Hyuuga, o moreno podia imaginar o tamanho do sofrimento e arrependimento que aquela lembrança causava. Hiashi aparentava todo arrependimento e culpa que estava sentindo, e agora o moreno entendia a fama de meticuloso que o homem havia conquistado.

Hyuuga Hiashi temia cometer o mesmo erro.

- O nome dele era Toneri... Ōtsutsuki Toneri. – Um esgar escapou dos lábios do Hyuuga. – Era um garotinho adorável, e apenas alguns anos mais velho que Hinata...


A morena acordou com um toque gentil em seus cabelos, e foi impossível conter o sorriso que se desenhou em seus lábios. Um sorriso que se desfez no minuto em que abriu os olhos e notou o desconhecido diante de si. No entanto, ela recordava vividamente daqueles olhos, tão azuis e tão claros que quase pareciam brancos.

- Finalmente despertou Hime.

Havia um sorriso miúdo nos lábios finos e o toque em seus cabelos transmitia calma e ternura. Mas algo naqueles olhos a paralisou e gelou o sangue em suas veias, por algum motivo aquele homem lhe dava arrepios. E não num bom sentido.

- Q-quem... Quem é você?

- O homem com quem você deveria ter se casado se Danzo não tivesse se interposto entre nós... Ōtsutsuki Toneri.

Os lábios frios depositaram um beijo em sua fronte, e a morena lançou um olhar de esguelha para o ruivo desmaiado na poltrona. Uma agulha enfiada em seu pescoço e a cabeça em um ângulo estranho. Quem era esse desconhecido? O que ele queria? Terminar o serviço?

- V-veio me matar?

- Não querida, eu vim buscá-la... Mas qual não foi a minha surpresa ao descobrir que você ainda carrega o filho daquele miserável. – A morena instintivamente cobriu a barriga com ambas as mãos, e os olhos azuis se estreitaram ao notar. – Não precisa ter medo, o destino me mostrou que eu deveria perdoá-la e que essa criança vai ser útil. Além do mais, eu jamais machucaria alguém que você ama.

- Machucou minha Okaa-san.

Algo como arrependimento cruzou os olhos do homem por um segundo, as mãos grandes apertando as suas e uma careta de dor enfeitando o semblante bonito. Bonito, e frio como a neve.

- Ela me viu, precisava ser silenciada. A sentença saiu quase como uma desculpa.

- Então você simplesmente a matou!?

- Seu pai assassinou todo o meu Clã, e eu só não retribuí o favor em respeito á você... Eu sabia que você ficaria triste se matasse sua família!

- Otou-san jamais...

- "A ceifa"... Você realmente acreditou que aquilo foi uma briga de gangues? Uma disputa por território? – O homem parecia transtornado e o aperto em sua mão aumentou, arrancando um gemido baixo da morena. – Seu pai armou uma armadilha e matou todos os que eu conhecia e amava... TODOS!

- Otou-san... O grisalho a cortou, soando irritado e elevando a voz alguns tons.

- Ele me deu um tiro na cabeça, e meses depois, quando acordei parcialmente desmemoriado em um quarto de hospital, Hiashi-sama me jogou aos cuidados de Shimura Danzo... Aquele homem me torturou, e transformou em realidade cada um dos meus pesadelos. Matar sua mãe foi um pagamento ínfimo em troca de tudo o que sua família me causou!

Furioso, o grisalho a segurou pelo pescoço e enrolou seus cabelos no punho com firmeza, o rosto a milímetros do seu e nos olhos uma selvageria que a apavorou. Seus lábios foram tomados com força e rudeza, Toneri impingia o ritmo e a brutalidade arrancou um gemido de dor de seus lábios. Quando ele finalmente deu-se por satisfeito, a loucura nos olhos azuis parecia ter amainado e as mãos que outrora a machucavam agora deslizavam com delicadeza pelo seu rosto.

O homem era louco!

A morena manteve-se em silêncio quando ele a soltou e pôs-se a caminhar pelo quarto, os cabelos brancos em total desalinho e um casaco completamente negro que o ajudava a se camuflar na noite. Vez ou outra os dedos corriam pelos fios brancos com impaciência, e uma careta aborrecida desenhava-se no semblante. Como um homem tão bonito podia ser tão cruel e louco?

- Você matou Shisui-kun.

O corpo do grisalho deteve-se imediatamente, os olhos fixando-se nos dela e a loucura tão tangível que a morena arfou em desespero. Se ele não a tinha matado antes, com certeza mataria agora. Como um predador, Toneri se aproximou lentamente da maca e depois dela. As respirações mesclando-se, a mão direita segurando seu pescoço sem apertar e um sorrisinho cínico desenhado em seus lábios.

- Ele tocou no que me pertencia, eu o dei apenas o castigo adequado!

- M-meu filho...?

- Eu vou permitir que você tenha a criança. – A morena engoliu em seco, o que aquilo significava? – Quando o bebê nascer você deve entrega-lo aos Uchiha, ou seu pai, pouco me importa... E eu voltarei para buscá-la.

Chocada demais para articular uma sentença, a morena assistiu enquanto o homem abandonava o quarto, caminhando calmamente pelos corredores do hospital. O coração quase saltando para fora do peito, o medo circulando por todo seu corpo e a tensão a deixando em estado de choque. A dor a fez curvar-se e ela sentiu o líquido quente escorrer por entre as pernas.

Sangue empapou os lençóis, e um grito sem som escapou de seus lábios quando tentou pedir ajuda.

Era tarde demais, ela sabia...

- oOo -

O moreno só percebeu o impacto quando seus olhos se encontraram com os azuis do homem em quem ele havia trombado. Itachi se desculpou, recebendo em troca um sorriso miúdo e um aceno de cabeça enquanto o outro se afastava sem parecer estar irritado por sua falta de atenção. O moreno alcançou o aparelho que tocava em seu bolso suspirando cansado ao notar o nome de Izumi brilhando no visor, quando voltou os olhos para trás, o homem havia desparecido, ignorando o toque insistente do celular, Itachi observou os corredores do hospital e sentiu um frio estranho subir por sua espinha.

Algo de muito ruim estava para acontecer!

Apressando os passos até o elevador que o levaria ao andar que Hinata ocupava, o moreno rezava silenciosamente para que aquela sensação ruim fosse apenas sua imaginação.


Me deixe saber o que acharam do capítulo.

O próximo ainda não tem previsão para sair, mais acredito que seja logo...

Bjos & até o próximo!