Capítulo 4 – Londres, conhecendo os amigos de Mr. Darcy
Mr. Darcy não costumava fazer amigos com facilidade. Mas durante a escola e a faculdade formou um grupo com poucos e fiéis amigos, que se reuniam duas terças-feiras por mês no White para jantar, quando alguns deles estavam na cidade.
Na terça-feira após o teatro, Darcy e Bingley encontraram alguns desses amigos para jantar. O mais importante deles era Lord Christopher Rivenhall, Marquês de Graham, que era também o mais jovem, com 21 anos.1 Também estavam lá o recém casado Lord Marcus Wright, Conde de Britwood,2 Lord Edward Thorne, um barão,3 Mr. John Knightley4 e Mr. Sidney Parker.5
Quando Darcy anunciou que estava cortejando uma jovem e pretendia se casar, a primeira reação de seus amigos foi incredulidade. A segunda foi tentar arrancar dele toda a informação que pudessem obter sobre a moça que conseguiu realizar tal feito.
- Minha imaginação não é suficiente para que eu tenha a mais pálida idéia do tipo de mulher capaz de conquistar sua atenção, Darcy, quanto mais seu coração. – começou Mr. Knightley.
- Deve ser uma moça muito séria e muito rica, como o próprio Darcy. Sempre pensei que ele se apaixonaria pela versão masculina dele. – brincou Mr. Parker.
- Como ela é Darcy? Meu cunhado disse que havia uma moça muito bonita, de azul claro, no seu grupo no teatro. Ele me atormentou para saber quem era, mas você sabe que nunca damos muita atenção a ele. – disse Lord Wright.
- Não, a moça de azul é Miss Jane Bennet. Ela é um anjo. – respondeu Bingley.
- Bingley, você sempre está apaixonado. Pode falar sobre seu novo anjo depois. Queremos saber sobre a mulher que conseguiu um feito tido por muitos como impossível: conquistar nosso amigo Darcy.
- O nome dela é Elizabeth Bennet. Ela é linda, bondosa e doce. Tem um humor mais afiado que o seu, Parker, o de Tilney e o do meu primo Richard juntos, mas é tão doce que nunca ofende – uma Beatrice melhorada. Ela canta como uma sereia e toca piano muito bem. É filha de um cavalheiro, mas não tem fortuna ou posição social e isso não me importa. É modesta e se importa mais com o caráter das pessoas do que com seus bens. Oberon, Zeus, Hermes, Puck e Freya a adoram.
- E é irmã de meu anjo! – completou um contente Bingley.
- E quando conheceremos tal paradigma de perfeição, que já conquistou até seus cães e seu cavalo? – questionou Mr. Knightley, ignorando Bingley.
- Não quero apresentá-la a todos vocês de uma vez para não assustá-la e fazê-la esnobar-me por ter amigos tão inferiores a ela. Se bem que ela conhece Bingley e parece aprová-lo para a irmã.
- Meu Deus! O fim dos tempos está chegando! Darcy fez uma piada! – zombou Mr. Parker.
- Que nada, ele está com medo da concorrência e tentando disfarçar. – esse comentário rendeu a Lord Thorne um dos famosos olhares reprovadores do amigo, que foi recebido com perfeita indiferença.
- Nós já tínhamos combinado de jantar em casa na quinta, Wright. E eu já convidei Miss Elizabeth e os Gardiners, tios dela. Mr. Gardiner é um comerciante muito próspero, respeitável e amável.
- Então serei o primeiro a conhecê-la de nosso grupo, fora Bingley.
- Na verdade já a apresentei aos irmãos Oakwood, que estavam no teatro. E meu primo Richard a conheceu quando visitávamos minha tia em Kent.
- Bom, pelo menos minha esposa será a primeira de nosso grupo a conhecê-la. – disse com um olhar zombeteiro para Mr. Knightley, o único outro homem casado presente.
- Isabella não se importará, a condessa deve ter a preferência.
- Mas espero que vocês possam se juntar a nós em um piquenique no sábado. Os Gardiners têm filhos mais ou menos da mesma idade que os seus e eles gostarão de brincar juntos.
- Darcy em um piquenique! Voluntariamente! – zombou Mr. Parker.
- Na verdade, o piquenique foi idéia dele. – respondeu Bingley, sorrindo largamente.
- Pena que eu viajarei para a Irlanda amanhã e não poderei ver tais miraculosos acontecimentos. Mas nos dê detalhes, Darcy. Loura, morena, alta, baixa...
- Miss Elizabeth tem cabelos castanhos escuros, com um brilho dourado sob o sol ou à luz de velas. Belos e brilhantes olhos castanhos, com pontos coloridos que mudam de acordo com o humor dela. Ela mal chega ao meu ombro e tem uma figura leve e agradável. O nariz não é clássico, mas um pouco arrebitado, combinando com a personalidade atrevida dela. Ela tem vários sorrisos diferentes, todos deslumbrantes, mas o meu favorito é o mais aberto e sincero, quando ela está feliz. Em segundo lugar está o sorriso que ela dá quando está pensando em fazer alguma travessura.
- Poético. E ela é prendada? Isabella certamente me perguntará isso.
- Ela toca piano e canta. Embora possa haver falhas em sua técnica, ela é muito expressiva e suas maneiras sem afetação. Poucas coisas me dão mais prazer que ouvi-la tocar e cantar. Não desenha nem pinta, mas borda muito bem. Sabe francês, italiano e um pouco de alemão. Ler é um de seus passatempos favoritos, junto com longas caminhadas.
- E onde você a conheceu? – questionou Lord Graham.
- A propriedade do pai dela fica perto de Netherfield, a propriedade que Bingley alugou. Vimos-nos pela primeira vez num baile público em Meryton.
- Você dançou com ela? – espantou-se o jovem marquês.
- Não, eu não a conhecia. Mas dancei com ela no baile que Bingley deu, meses depois, e realmente apreciei nossa dança. Fui embora no dia seguinte e poucas semanas depois comecei a pensar em como voltar para Hertfordshire novamente e pedi-la em casamento. Como sabem, Bingley não voltou para lá. – nisso o amigo ganhou um olhar levemente reprovador. - Pretendia simplesmente me hospedar na pousada local e visitar os Bennets após a minha visita anual a minha tia, mas Miss Elizabeth estava em Hunsford, visitando a irmã, que casou-se com o pároco de minha tia no começo do ano. Qualquer dúvida que eu tivesse teria acabado ao vê-la interagindo com tia Catherine. Ela não deixou-se intimidar e sempre era firme, embora respeitosa.
- Estou satisfeito, por enquanto. – disse Lord Thorne - Agora Bingley, pode falar de seu anjo.
- Miss Bennet é um verdadeiro anjo! A mulher mais linda que já vi na minha vida, tão boa, gentil e modesta. Me apaixonei por ela à primeira vista... Ela tem uma beleza clássica, parece ter sido esculpida por... Qual é mesmo o nome daquele escultor grego?
- Praxíteles? – sugeriu Lord Graham.
- Fídias? – questionou Mr. Parker, ao mesmo tempo.
- Esse mesmo! Ela é linda como um anjo!
- Detalhes, meu velho, detalhes. – disse Lord Thorne indulgentemente, sem se preocupar em descobrir qual dos escultores Bingley tinha escolhido.
- Ela é loira, com cabelos um pouco mais escuros que os meus, olhos azuis, é um pouco mais baixa que minha irmã Caroline e tem uma figura muito feminina.
- E quais são as prendas dela? Certamente Mrs. Knightley irá brigar com o marido se ele não lhe fornecer esses detalhes. – zombou Mr. Parker.
- Ela... Não tenho a menor idéia. Darcy?
- Nenhuma das irmãs Bennet aprendeu a desenhar. Só vi Mrs. Collins se apresentando ao piano, mas sei que Miss Catherine também toca. Miss Elizabeth comentou que a irmã mais velha não é musical.
- E ela borda?
- Bingley! Eu não tenho que saber tudo sobre seu anjo!
- Mas você sabe um monte de coisas sobre ela!
- Coisas que Miss Elizabeth comentou em nossas conversas. E sobre o que vocês conversavam?
- Ah, não sei, sobre um monte de coisas.
- Bingley, qual é a fruta favorita de seu anjo? – questionou Lord Britwood.
- Eu não sei.
- E a de Miss Elizabeth? – perguntou voltando-se para Darcy.
- Cerejas e maçãs. Ela costuma comer uma maçã toda a manhã nos passeios que faz antes do café da manhã.
- O que Miss Bennet achou da peça que vocês foram assistir? – insistiu.
- Acho que ela gostou. Que peça era mesmo, Darcy?
- Hã? – Darcy tinha começado a sonhar acordado com os encontros "por acaso" com Miss Elizabeth, nas manhãs de primavera em Kent. – Sonhos de Uma Noite de Verão. É a favorita minha e de Miss Elizabeth.
- Bingley, acho melhor você conhecer um pouco melhor seu anjo antes de propor casamento. – disse o conde, com ar de quem tem mais experiência no assunto que um casamento de menos de um ano. – Tente ouvir o que ela tem a dizer ao invés de ficar apenas admirando a beleza dela.
- Isso é difícil, pois ela é tão linda! Parece até um anjo...
Os atuais condes de Britwood tinham uma longa história com Darcy e Bingley. O conde, Marcus Wright foi colega deles na faculdade e na época não era nem mesmo herdeiro do conde. Após terminar seus estudos, ele tornou-se advogado e recebeu grande ajuda de Mr. Darcy, que o apresentou e indicou a vários conhecidos da área, o que o ajudou a prosperar relativamente rápido. Embora próspero, ele não era considerado um pretendente apropriado pelo pai de sua amada, Miss Eleanor Tilney, que conhecera através de outro dos seus amigos de faculdade, Henry Tilney. Seu consolo era que a moça correspondia seus sentimentos, suportando com graça, serenidade e firmeza as tentativas do pai em fazê-la casar com alguém mais apropriado, que para ele significava rico. Mr. Bingley se apaixonou por ela assim que a conheceu, como era seu costume, e chegou a propor casamento para ela, menos de um mês após conhecê-la e ficou um tanto invejoso do amigo que repentinamente herdou o título e a fortuna de um tio-avô e casou-se com a moça assim que terminou o período de luto.
A amizade entre os quatro suportou bem tais desafios e mudanças de fortuna e de status, especialmente depois que Bingley foi informado do longo noivado secreto do jovem casal. Já as irmãs Bingley nunca foram realmente aceitas pelos outros, ao contrário da então Miss Tilney, Miss Darcy e Miss Morland,6 a amada de Mr. Tilney. Elizabeth Bennet e os Gardiners foram rapidamente aceitos por eles.
O jantar foi um sucesso. A comida estava ótima e a conversa animada. Os Condes de Selby já estavam se afeiçoando a Elizabeth e os condes de Britwood estavam agradavelmente surpresos com ela. Mal estavam na carruagem, o jovem casal começou a trocar suas impressões sobre a noite e em especial sobre a mulher que havia conquistado o coração de Mr. Darcy.
- Miss Bennet é muito diferente do que eu imaginava.
- Muito diferente do que eu imaginava a mulher que conquistaria meu amigo, apesar de se encaixar perfeitamente na descrição que ele nos fez. Mas como você a imaginava?
- Mais bonita, mais rica, com parentes mais importantes e muito menos agradável. Alguém como Lady Roxborgh.7
- Eu imaginava que a mulher que conquistasse Darcy fosse agradável, mas mais reservada. Sei que ele tem horror a mulheres como a esposa do primo. Miss Bennet é calorosa e amigável sem ser intrometida, respeitosa sem ser subserviente e conseguiu trazer animação para a vida da família toda. Miss Darcy claramente a adora e parece mais confortável na presença da futura cunhada que com qualquer outra pessoa.
- Mal posso esperar para apresentá-la a meu irmão. As conversas entre os dois serão tão divertidas que deveríamos cobrar ingresso.
- Seu outro irmão ficou impressionado com a irmã mais velha de Miss Bennet, que é o novo anjo de Bingley.
- Miss Bennet é só elogios a irmã mais velha, que considera um modelo de perfeição. Ela está visitando a terceira irmã, que já é casada, em Kent.
- Aparentemente essa irmã e o marido não são grandes favoritos de nenhum deles.
- Gostaria de revê-la. O que acha de convidarmos os Darcy e os Gardiners para jantar na próxima terça?
- Excelente idéia. E estou certo que Mrs. Knightley irá visitá-la amanhã e você conseguirá ser convidada para o piquenique.
- Creio que seria invasivo demais aceitar tal convite.
- Por favor. Eu quero ver Darcy em um piquenique. Isso é algo que minha imaginação é pobre demais para me mostrar. – implorou o conde.
- Você pode ser muito tolo às vezes, meu marido. – riu-se Eleanor. – Mas como boa esposa que sou, farei sua vontade.
Mrs. Knightley8 não desapontou o conde. No primeiro momento que seria apropriado fazer uma visita ela já estava na porta dos Wright. Ela foi recebida amavelmente pela condessa, que logo comunicou-lhe a impressão favorável que tivera de Elizabeth Bennet e conseguiu ser convidada para o piquenique sem esforço algum.
Lord Britwood realmente não podia ter a mais pálida idéia do que estava por vir. Miss Bennet não se intimidou com a ilustre presença de quatro membros da Nobreza - pois os Condes de Selby também haviam sido convidados – e brincou com as crianças como se fosse uma delas: empinou pipa, jogou boliche, empurrou as crianças no balanço, foi a pirata mais temida dos sete mares, a princesa guardada pelo dragão... Isso não foi o que o impressionou, mas o normalmente sério demais, reservado demais Fitzwilliam Darcy se juntar a eles em todas as brincadeiras. Ele até mesmo foi o dragão que guardava a princesa! Miss Darcy, mais tímida e menos ativa, ajudou com o balanço e brincou de boneca com as meninas.
Tamanho desembaraço desconcertou um pouco Mrs. Knightley, mas o carinho com as crianças definitivamente conquistou a jovem senhora. Naquele mesmo dia foram marcados vários compromissos para a semana seguinte: jantar na casa dos condes de Britwood na terça, arco e flecha – com a participação dos meninos Knightley – na quarta, ópera na quinta, jantar com os Selby na sexta...
- O sorvete não fará mal para o dragão? Como ele cuspirá fogo se estiver com a garganta gelada? – provocou Miss Elizabeth, falando baixinho com Darcy, quando ele cumpriu a promessa e, para surpresa de todos, apresentou o sorvete no final do piquenique.
- Eu tenho outras maneiras de guardar a princesa. Se eu olhar feio para qualquer um desses pequenos cavalheiros tenho certeza de que eles sairão correndo.
- Mas se a princesa quisesse fugir da guarda do dragão tenho certeza de que ela conseguiria.
- Não tenho dúvidas, pois a princesa é muito inteligente. Mas a habilidade do dragão em cuspir fogo é indiferente nesse caso, pois ele jamais se arriscaria a ferir a princesa.
- Esse dragão é muito gentil. Talvez ele seja um príncipe amaldiçoado por uma bruxa. Afinal se uma bruxa pode transformar um príncipe em sapo, por que não transformá-lo em um dragão?
- E talvez ele possa voltar a ser príncipe da mesma maneira?
- Miss Bennet, sua irmã já lhe escreveu de Kent? – interrompeu Bingley sem saber. Mas o jovem casal ficou aliviado, pois a conversa tinha tomado um rumo um tanto quanto inapropriado.
- Sim, Jane chegou bem e disse que todos estão muito bem em Hunsford.
- E quanto tempo ela irá ficar lá?
- Pouco menos de quatro semanas. Ela deverá voltar dia vinte e três.
- É uma pena que ela tenha tido que ir e esteja perdendo a diversão aqui.
- Concordo, Mr. Bingley. Mas Jane nunca volta atrás na palavra dada e ela já tinha dito a Mary que iria visitá-la e quanto tempo iria durar sua estadia. – essa pequena lembrança do comportamento dele no último outono não passou despercebida e o desanimou visivelmente. Sentindo remorso, a moça emendou. – Direi para ela em sua próxima carta que o senhor perguntou dela.
No jantar oferecido pelos Britwood, Elizabeth e os Gardiners conheceram mais um amigo de Mr. Darcy, Lord Graham e seus pais o Duque e a Duquesa de Greenville.9 Sem esnobismos de uma parte ou pretensão da outra, o encontro ocorreu tranquilamente.
Lord Benedict Rivenhall, o Duque de Greenville, havia sido amigo íntimo do pai de Mr. Darcy, assim como sua esposa, Lady Marianne Rivenhall, de Lady Anne Fitzwilliam, antes dela se casar com Mr. Darcy. Foi através do casal Darcy que eles se conheceram e a felicidade dos dois mais velhos serviu de exemplo e inspiração para o outro. Mas a amizade entre eles não produziu apenas uniões felizes. Lady Roxbourgh, em solteira, Lady Flavia Kestrel era sobrinha de Lady Greenville.
Os Rivenhall ficaram bastante impressionados com Miss Bennet de uma forma indireta. A alegria de Mr. Darcy e a diminuição da timidez de Miss Darcy, que conseguiu cumprimentá-los olhando nos olhos e até fala algumas palavras sem gaguejar, apenas corando um pouco, eram claramente devidas à influência da moça.
Lord Graham animou-se com a idéia de passar a tarde atirando com arco e flecha e fez com que Mr. Darcy o convidasse para a tarde seguinte. Seu argumento era que com a presença de mais um cavalheiro para ajudar, Darcy teria mais tempo para dedicar a Miss Elizabeth. Mas a verdade é que a idéia de voltar um pouco à infância durante uma tarde era o que o animava.
Difícil dizer quem se divertiu mais com a brincadeira de arco e flecha. Miss Darcy fez chapéus para todos, no estilo de Robin Hood, verde e com penas marrons. A falta de prática de uns e a novidade da brincadeira para outros, fez com que fosse difícil acertar o alvo e cada ponto era intensamente comemorado.
Mr. Darcy, além da diversão comum a todos, teve a oportunidade de ficar fisicamente mais próximo de sua amada, enquanto a ensinava a atirar. Tudo dentro dos limites da propriedade, claro, acompanhados atentamente por Mrs. Gardiner e sem dar mau exemplo para Miss Darcy.
- Isso é muito mais divertido que andar a cavalo! Deveríamos fazer isso mais vezes.
- Estou a sua disposição, Miss Elizabeth. Quando quiser atirar é só me comunicar que marcaremos novamente. Talvez até possamos promover um torneio anual em Pemberley, no verão.
- Mr. Darcy, o senhor sabe realmente como cortejar uma mulher! – riu-se a moça, feliz e corada.
- Na verdade, meu maior acerto foi ao escolher a mulher certa para cortejar. Duvido que algum homem tenha se divertido mais que eu durante uma corte. Na verdade, creio que meus amigos estão se divertindo mais durante nossa corte do que na deles. – disse, apontando para a entusiasmada Lady Britwood, que quase acertara no centro do alvo.
- Gosto disso. Gosto que nossa felicidade faça outros felizes também.
- Então você está feliz?
- Não basta você olhar nos meus olhos para saber?
- Sim. Mas eu também gostaria de ouvi-la dizer.
- Estou muito feliz. Esses dias têm sido maravilhosos e aprecio imensamente sua companhia. O senhor definitivamente está no caminho certo.
- Obrigado, minha bela Rosalinda. Por falar nisso, já lhe disse como a senhorita está linda hoje?
- Logo que cheguei, Mr. Darcy.
- Certamente não foi suficiente, pois agora a senhorita está ainda mais bonita do que quando chegou.
Elizabeth foi salva de ter que responder a tão galante elogio pelo seu primo mais novo, que veio lhe exigir os parabéns por ter acertado a beirada do alvo: foi o seu primeiro tiro a conseguir alcançá-lo.
Totalmente diferente, mas também grandemente apreciada, foi a ida à ópera no dia seguinte. Muitas das mulheres estavam cobertas de jóias, mas para Mr. Darcy jóia nenhuma brilhava tanto como os olhos de Elizabeth. Isso não o impediu de imaginar como ela ficaria usando as que lhe daria quando se casassem. "Rubis. Rubis espalhados por seu belo cabelo escuro, adornando as orelhas delicadas, um pingente com um colar de pérolas no pescoço elegante, uma pulseira da mesma forma no pulso delicado... Acho que entre as jóias de minha família não há nenhuma da forma como estou pensando. Mas as esmeraldas também ficarão magníficas. E os diamantes, tanto o colar maior quanto o menor. Mas o maior exigirá uma roupa mais decotada. Pare de pensar nisso e preste atenção à ópera! Quando ela perguntar suas opiniões sobre o espetáculo o que você vai dizer?".
Nesse dia mais um amigo de Darcy teve o privilégio de conhecer a mulher que o conquistara. Lord Gabriel Thorne, avisado por Mr. Bingley, comparecera à ópera. Aos vinte e três anos, ele era o segundo mais novo do grupo. Tendo perdido os pais ainda cedo, fora criado pelo tio materno e a esposa. Lord Gabriel Arnheim, conde de Bellsfall,10 e sua esposa Mary, proporcionaram ao sobrinho uma infância feliz, com a mesma atenção e afeto dispensados aos filhos. O jovem baronete era bonito, inteligente, rico e tinha mania de se apaixonar por todas as moças bonitas que conhecia, assim como o amigo Bingley, mas era normalmente mais responsável. No último outono estava a ponto de pedir uma jovem viúva, Mrs. Alicia Johnson,11 em casamento. A falta de caráter dela fez com que Mr. Darcy e Mr. de Courcy,12 outro rapaz do grupo de amigos, interferissem e salvassem o amigo. Mrs. Johnson casou-se duas semanas depois com o velho Lord Mathias Redmond,13 também baronete, alcançando assim seus objetivos, dinheiro e título. Era sobre isso que Darcy se referia quando contou ao primo que salvara um amigo de um casamento dos mais imprudentes. Para a sorte de Mr. Redmond, um excelente rapaz de quinze anos, a propriedade de seu pai estava destinada a ele e não poderia ser vendida ou hipotecada.
- Achei Miss Bennet agradável, mas certamente não a chamaria de linda. – comentou Lord Thorne com Lord Graham.
- É melhor mesmo, ou Darcy o desafiará a um duelo. – riu-se. – Miss Bennet tem o tipo de beleza que não chama tanto a atenção à primeira vista, mas a considero muito bonita. E a aparência não é o mais importante e sim a maneira como ela espalha alegria ao seu redor. Ontem passamos a tarde atirando com arco e flecha na casa de Darcy e foi muito divertido. Não imagino nenhuma mulher da sociedade empolgada com tal passatempo. Até conheço algumas que sabem atirar, mas usam a habilidade apenas para exibir suas figuras.
- Parece um tanto infantil.
- Talvez. As crianças Knightley e as Gardiner certamente se divertiram muito. Mas meus pais, os Wrights, Mrs. Gardiner e até Mrs. Knightley também. Mas não fique triste por ter ficado de fora, Miss Elizabeth divertiu-se tanto que Darcy já marcou outra data para praticarmos arco e flecha novamente e talvez o convide.
Apenas a ferrenha vontade de Lord Thorpe em parecer maduro, que o fizera falar com desprezo do divertimento da tarde anterior, o impediu de mostrar a língua ao amigo.
A visita que Miss Bingley planejou fazer no dia seguinte ao teatro, provou-se infrutífera, pois nem seu irmão nem os Darcys estavam em casa, embora por diversas vezes ela pudesse jurar ter ouvido vozes de pessoas bem nascidas na casa. Somente mais de uma semana depois ela conseguiu encontrar Mr. Darcy em casa.
- Mr. Darcy, nós somos amigos íntimos, por isso sinto-me livre para alertá-lo do perigo que suas atenções para Miss Eliza representam...
- Miss Bingley, certamente nós não estamos em termos tais que tornem esse assunto passível de ser discutido. A senhorita é apenas uma conhecida, irmã de um amigo. Não admitirei qualquer palavra contra Miss Elizabeth perto de mim.
- Mas, Mr. Darcy...
- Mrs. Hurst, esse assunto está encerrado. E espero que me desculpem, mas tenho alguns assuntos a tratar antes do meu compromisso essa noite.
- Oh! O senhor irá a um baile hoje! Será o dos Dashwoods? Acho sua prima Fanny adorável. Ou o dos Rushworth?14
- Nenhum desses. Será um pequeno jantar com os meus tios. – Darcy não achou necessário mencionar que Miss Elizabeth e os Gardiners estariam presentes.
O jantar de sexta foi menos agradável que os outros divertimentos da semana. Lady Roxbourgh convidara a irmãs solteiras, Lady Cornélia e Lady Pompéia,15 que lhe eram muito semelhantes em todos os aspectos, embora a irmã mais velha fosse ligeiramente mais bonita. Cornélia era a mais velha, de dezoito anos e Pompéia, de dezesseis, aguardava ansiosamente que a irmã se casasse para poder ser apresentada à corte e freqüentar a sociedade. As duas jovens foram convidadas pela irmã para mostrar a Mr. Darcy que ele poderia engajar suas atenções em moças mais dignas. Apesar da falta de título, esse cavalheiro tinha fortuna e importância social suficientes para fazê-lo um ótimo partido mesmo para as filhas de um duque. Lady Roxbourgh chegou a cogitar Mr. Darcy como marido, embora ele não tenha demonstrado interesse algum nela. Além disso, havia a presença de Lord Graham, seu belo, titulado e rico primo, um excelente partido também.
As três irmãs Kestrel foram particularmente desagradáveis, criticando constantemente Miss Elizabeth para exibir a própria superioridade. Mas não conseguiram nada com isso além da má vontade dos outros convidados e uma severa repreensão da tia e de Lady Selby mais tarde. Elizabeth Bennet não era mulher de ser intimidada e replicou cada insulto com charme, doçura e bom-humor.
- Miss Bennet, quem foi seu professor de pintura?
- Ninguém, Lady Roxbourgh. Nunca me interessei em aprender desenho e pintura.
- Chocante! Nenhuma mulher pode ser considerada realmente prendada se não dominar as artes pictóricas. – esnobou Lady Krestel.
- Eu não me considero prendada por tais padrões. Creio que Miss Bingley mencionou sua irmã como uma das mulheres realmente prendadas que ela conhece, assim como Mrs. Dashwood.
- Quem é Miss Bingley? – questionou Lady Roxbourgh, contente por saber que alguém reconhecia seu esforço para alcançar a perfeição, mas não muito satisfeita por ter Mrs. Dashwood no mesmo patamar.
- Irmã de um amigo de Darcy. Eles não são do nosso nível social, mas Mr. Bingley é um rapaz simpático, cujo conhecimento não é um demérito. Já a irmã não é tão agradável, uma mulherzinha pretensiosa e que gosta de usar laranja. – respondeu Lord Roxbourgh. Por sorte Mr. Bingley não estava no jantar.
- Creio que me lembro. – respondeu Lady Roxbourgh. – Algum dinheiro, mas vindo do comércio. Mesmo alguém de origem tão inferior como ela é capaz de reconhecer minhas qualidades. Assim como creio que mesmo Miss Bennet seja capaz de apreciar uma obra de arte. Embora em ambos os casos, devam ser incapazes de diferenciá-los de algo inferior.
- Seria recomendável, Miss Bennet, que aproveitasse seu tempo na cidade para aprimorar-se. Mesmo que aulas com um mestre como o nosso, Mr. Shee,16 que faz parte a Royal Academy, estejam além dos seus parcos recursos, talvez seja possível conseguir um barato. – aconselhou Lady Pompéia.
- Obrigada pelo conselho. Mas creio que seria um desperdício de dinheiro. Duvido que eu tenha algum talento. Além disso, tenho me divertido tanto em minha estadia por aqui, que provavelmente seria um desperdício de tempo também.
- Apenas diversão, Miss Bennet, não é recomendável para a construção do caráter de uma jovem dama.
- Certamente, Lady Krestel. Tenho usado meu tempo também para auxiliar algumas obras de caridade, seguindo o exemplo de minha tia. Todos os dias eu costuro roupas para o orfanato ou para o hospital e semanalmente faço uma visita às crianças, para entregar os presentes, ler histórias e brincar com elas. Mr. e Miss Darcy já nos acompanharam em duas visitas.
- E eu estou também fazendo algumas roupas e bonecas de panos para as crianças. A situação delas é tão triste.
- Qual orfanato a senhora ajuda, Mrs. Gardiner? – perguntou Lady Greenville.
- O Orfanato Santa Tereza para meninas órfãs.17
- Eu o conheço. Não o visito tão frequentemente, mas sempre o ajudo.
- É certamente uma maneira muito útil de passar seu tempo, Miss Bennet. Quando a senhorita está na propriedade de seus pais ajuda a cuidar dos colonos?
- Certamente, Lord Roxbourgh, como é meu dever.
- Já que a senhorita parece gostar tanto de costura, imagino que seu vestido é uma criação pessoal. – Lady Roxbourgh e o marido tiveram várias brigas sobre o pouco caso dela com os colonos de suas propriedades e não costumava praticar caridade, exceto se estivesse muito na moda e não a desviasse de seus esforços para tornar-se cada vez mais prendada.
- Não, o comprei em Meryton.
- Já que tem tanta prática em costura, talvez devesse costurar seus vestidos. Não acredito que o resultado fosse inferior.
- Miss Elizabeth, a senhorita já terminou de ler A Balada do Último Menestrel?18
- Infelizmente não, Mr. Darcy. Estou lendo em voz alta para um senhor em Moorfields.19 Terminamos o quarto canto na terça.
- Isso parece ser muito... aborrecido. – esnobou Lady Krestel. E batendo os cílios, em tom doce, continuou, dirigindo-se ao marquês. – Tenho certeza que posso pensar em maneiras mais interessantes e edificantes de passar o tempo. Não concorda, meu caro primo?
- Mais interessantes, talvez. Mais edificantes acho difícil. Miss Bennet conseguiu ao mesmo tempo fazer caridade e aprimorar sua mente com a leitura de um bom livro. Creio que ambos são mais importantes para que uma mulher seja completa do que arte pictórica, música e línguas estrangeiras.
- Concordo plenamente, meu filho. Essas habilidades, tão na moda hoje em dia, são apenas adornos. Miss Bennet parece preferir cultivar a essência de seu ser, o que é um grande e incomum mérito.
- Muito obrigada, Lord Greenville. Mas garanto-lhe que posso ser tão fútil quanto qualquer outra moça no que concerne a sedas, rendas, bailes e coisas do gênero. – brincou Lizzy, ligeiramente embaraçado pelos elogios.
- Equilíbrio é uma característica louvável em qualquer pessoa, Miss Bennet. – replicou Lady Greenville, que estava começando a gostar da moça.
- Falando em sedas, achei magnífico seu vestido, minha irmã. É novo? – Lady Roxbourgh e as irmãs não iriam enfrentar os tios diretamente e resolveram começar a conversar entre si.
Quando Mr. Darcy acompanhou a amada até a carruagem, eles tiveram uma pequena conversa sussurada.
- Peço-lhe desculpas, Miss Bennet, pelo comportamento de minha prima e suas irmãs.
- Porque você pediria desculpas? Não fez nada de errado.
- Poderia ter evitado que a senhorita fosse exposta a tamanha rudeza e maus modos.
- De certa forma é um conforto saber que mesmo as filhas de um duque são humanas e tem defeitos. Mas você tem certeza de que elas não são filhas de Lady de Bourgh? Lady Krestel até me aconselhou a praticar mais tocar piano!
- Sei que elas são incapazes de intimidar a senhorita, - disse após rir da brincadeira da moça. – mas não quero que tenha a impressão errada. Aliás, acho que ainda não disse como o amarelo fica bem na senhorita. Ao olhá-la tenho a impressão de um raio de sol em um dia cinzento.
- Obrigada, Mr. Darcy. Mas agora creio que as nuvens cobriram o sol. – brincou ao vestir seu casaco cinzento.
- De modo algum, Miss Bennet. – disse olhando intensamente nos olhos da moça, que corou e sentiu um arrepio devido a um sentimento que ainda era incapaz de nomear, mas lhe agradava muito.
- Até amanhã, Mr. Darcy.
1. Personagem que eu inventei.
2. Personagem parcialmente inventado. Em Northanger Abbey, Miss Eleanor Tilney casa-se com um visconde, que é "o homem mais charmoso do mundo". Mantive o básico da história, só subi o título para conde e inventei o nome e o título;
3. Invenção minha, primo distante de Mr. Darcy
4. Personagem de Emma.
5. Personagem de Sandition, possivelmente destinado a ser o herói da história, embora seja apenas mencionado. Sandition era o livro em que Jane Austen estava trabalhando antes de falecer e tem apenas doze capítulos.
6. Personagem principal de Northanger Abbey.
7. A mesma Lady Flavia Fitzwilliam, Viscondessa de Roxbourgh.
8. Isabella, irmã de Emma.
9 e 10 - Personagens inventados.
11. Personagem de Lady Susan. Acho que esse livro não foi traduzido para o português, mas pode ser lido em inglês aqui: .
12. Personagem de Lady Susan. Não vou dar informações detalhadas para não estragar a história para quem quiser lê-la, embora no capítulo 13 a personalidade de algumas personagens desse livro irão fazer parte da história.
13. Personagem inventado.
14. Personagens de Mansfield Park.
15. Personagens inventados. Todas as irmãs Krestel tem nomes de nobres romanas.
16. Artista da época. Sir Martin Archer Shee (23/12/1769 – 13/08/1850) foi um pintor de retratos britânicos e presidente da Royal Academy. Ele recebeu o título pouco depois de ser eleito presidente da RA, em 1830. Portanto na época da história ele ainda é um simples Mister, mas já era famoso e parte da RA.
17. Invenção minha, não consegui achar um orfanato adequado na época.
18. "The Lay of The Last Minstrel", poema narrative de Sir Walter Scott, publicado em 1805.
19. Hospital para cegos, fundado em 1805.
