Promessas da Paixão pertence a Anna DePalo


CAPÍTULO QUATRO

Lily já havia combinado de se encontrar com Amos para jantar na noite seguinte.

Entrou no The Last Supper Club às 19hl5. Se pudesse fazer as coisas a sua maneira, pensou, este seria o último jantar de Amos.

Usava um vestido negro de Proenza Schouler, sua roupa de despedida, como gostava de pensar nele agora.

Telefonara antes para o restaurante pedindo que avisassem a Amos que ela chegaria um pouco atrasada.

Encontrou Amos exatamente onde esperava que estivesse: já sentado, apreciando uma taça de vinho tinto e estudando o cardápio.

O rosto dele se iluminou quando a viu.

— Lily! Estou contente por você ter chegado.

Não ficaria contente por muito tempo, pensou Lily.

Parou quando chegou à mesa, sem se dar ao trabalho de sentar.

Amos se levantou e Lily observou o gesto com cinismo.

Quando conhecera Amos, ficara encantada com suas maneiras cavalheirescas, mas agora percebia que eram apenas outra peça de artifício em sua fachada cuidadosamente construída.

Correu o olhar sobre ele.

Usava um blazer de linho branco sobre uma camisa azul-claro de colarinho aberto que acentuava a palidez de seus olhos. Seus cabelos louros estavam artisticamente desarrumados.

Sua aparência agora lhe parecia perfeita demais e Lily se chamava de idiota pela milésima vez nas últimas 24 horas.

Pensou na disposição de Amos de ter filhos logo e imaginou se aquele entusiasmo tinha sido falso. Por outro lado, filhos teriam tornado mais sólida sua demanda pelo dinheiro dela.

Mesmo a vontade de Amos de ter uma grande cerimônia de casamento lhe parecia suspeita em retrospecto. Um grande casamento teria sido uma excelente oportunidade de trabalho para ele, já que a alta sociedade de São Francisco estaria toda presente.

Amos puxou a cadeira, mas ela continuou de pé.

Finalmente Amos viu sua expressão e franziu as sobrancelhas.

— Algo errado? — perguntou.

— Diga-me uma coisa — disse ela, abrupta. — É verdade?

— O quê?

— Você está se encontrando com outra mulher? A expressão de Amos registrou momentaneamente choque, depois perplexidade.

Oh, ele é bom, pensou ela.

— Não sei o que isso significa — respondeu com cuidado, e então seu rosto se tornou suave. — Lily, estou comprometido com você.

Estendeu a mão para ela, mas Lily se afastou. Já esperava por desculpas e confusão.

Tirou as fotos de um compartimento externo de sua bolsa e jogou-as sobre a mesa. Observou-o enquanto as olhava.

O rosto de Amos mostrou primeiro confusão, depois choque e finalmente um sutil enrijecer dos músculos.

Quando olhou para ela, porém, compreendeu que ainda não estava disposto a acabar com o jogo. Sua expressão era relaxada e tranquilizadora.

— Lily, posso explicar...

— Há mais — disse ela, cortando-o.

Depois que James deixara seu apartamento no dia anterior, ela pegara de novo as fotos que ele deixara. Espalhou-as sobre a mesa de centro e olhou-as até que sua mente ficasse entorpecida. Eram bastante incriminadoras, mostravam Amos namorando uma morena de busto grande. Perguntou-se o que James não deixara que ela visse. Um videoteipe, talvez?

Agora, fixava o olhar nos olhos de Amos e, depois de alguns segundos, viu seus ombros caírem.

— Quem lhe deu isso? — exigiu saber.

— Tem importância? — respondeu.

Sabia que falava exatamente como James no dia anterior, sem dar importância à origem da fotos, mas não se incomodou.

— Seu pai — adivinhou Amos.

— James Potter — devolveu.

Sentiu um pouco de satisfação em contradizê-lo. Tecnicamente, James lhe entregara as fotos. As sobrancelhas de Amos se juntaram.

— O sujeito que encontrei numa reunião na propriedade de seus pais há alguns meses? O presidente da Evans REH?

Ela confirmou com um aceno.

— Agindo a pedido de seu pai, aposto — adivinhou Amos de novo.

Ela não respondeu, mas suas mãos se fecharam em punhos.

Depois de um momento, os lábios de Amos fizeram um trejeito de divertimento sem humor.

— Seu pai sempre me odiou — disse quase com tristeza. — Desde o começo.

— É isso? É tudo o que tem a dizer?

A expressão de Amos tornou-se fria.

— O que quer que eu diga, Lily?

— Você estava me enganando! Mentiu para mim, me traiu! — A voz ficou mais alta. — Planejava continuar se encontrando com ela durante os preparativos para o casamento, durante a lua-de-mel?

Amos olhou em volta.

— Lily, você está fazendo um escândalo.

— Não me importo!

— Este não é o lugar para ter esta conversa.

— Na verdade, não consigo pensar num melhor — respondeu, antes de chegar ao ponto. — Por que você ia se casar comigo, Amos?

Ele não respondeu por alguns segundos. Depois uma expressão calculista surgiu em seus olhos.

— E que tal seus motivos para se casar comigo? Um bebê.

— Fui franca sobre minhas questões de reprodução, Amos — disse com dureza.

— Não foi traição de confiança.

Pensara querer se casar com Amos por todas as razões certas. Ela não queria só um bebê. Não queria?

— E você me enganou no que se refere a James Potter.

O quê? Amos levantou as sobrancelhas.

— Não me peça para acreditar que não há nada entre você e o Sr. Presidente. Um homem não se dá ao trabalho de conseguir indícios como estes sem uma razão para lá de boa. Vi a maneira como ele observava na festa de seus pais.

Arregalou os olhos.

Inacreditável. Amos estava virando o jogo, fazendo parecer que ela precisava se defender.

— Mesmo que James Potter fosse apenas um contratado — continuou Amos —, ele poderia ter levado os indícios incriminadores para seu pai, ao invés de ir consolar a herdeira arrasada.

O tom de Amos era zombeteiro e as palavras do pai ressoaram em sua mente.

Caçador de herdeiras.

De repente viu que Amos era uma moeda imersa em ácido. Ouro de tolo.

Então fez a única coisa capaz de tirar o brilho de uma moeda.

— Oh, eu não diria que arrasada seja a palavra certa. — Pegou a taça de vinho que já havia sido servida para ela e atirou o conteúdo no rosto de Amos. — Furiosa como o diabo é melhor.

O rosto de Amos ficou vermelho enquanto abaixava o olhar para si mesmo, sua roupa impecável agora manchada de vinho.

— Por que diabos você fez isso?

— Acertando as contas — replicou com alguma satisfação, embora soubesse que estava muito longe do que ele havia feito com ela.

Voltou-se e saiu, ignorando os olhares dos outros clientes e dos funcionários do restaurante.

Praticamente conseguia ouvir seus óvulos nos ovários envelhecendo a cada passo.

Estava errada, compreendeu. O trabalho não era a amante de Amos. Mas outra coisa, mais precisamente outra pessoa era, pensou com amargura.

Por que não conseguira ver Amos como era na verdade? Seu desespero por uma criança a tinha cegado, bloqueado sua intuição?

Como produtora profissional de festas, tinha orgulho de sua capacidade de avaliar pessoas.

Atravessou a calçada em direção ao carro, o cenho franzido desfigurando-lhe as feições.

Traída por Amos, enganada pelo pai e derrubada com o pior golpe por James.

Deveria lavar as mãos da outra metade de espécie humana e entrar para um convento, pensou com desgosto.

E como ousara Amos tentar virar o jogo, sugerindo que havia alguma coisa entre ela e James?

Por vontade própria, sua mente voltou ao surpreendente beijo de James em seu apartamento.

Ficara imobilizada, estupefata pela paixão oculta sob sua fachada impassível. Pela primeira vez, sentiu que havia alguma coisa bem selvagem sobre ele. Como se, escondido sob as gravatas do poder, dos ternos formais e smoking elegantes, houvesse um homem esperando para devorá-la.

E quando ele havia saído de carro no dia anterior ela notara que estava agora dirigindo um Porsche não o carro que esperaria de alguém que considerava tão convencional.

Desde o dia anterior, quando seus pensamento não estavam cheios de raiva contra Amos, perguntara-se sobre por que James a beijara.

Decidira, porque era a única explicação que fazia sentido, que o beijo havia sido apenas parte de sua arrogância. Pusera um fim a seus escárnios e provocações da maneira mais rápida possível.

Não podia ser porque ele estivesse atraído por ela. Eles sempre tinham irritado um ao outro.

E mesmo se, por mais improvável que fosse, James quisesse ter um caso sexual com ela, não haveria ligação alguma com emoções. Seria apenas sexo ou por motivos ulteriores.

E a última coisa de que ela precisava na vida justo agora era outro homem com razões ulteriores.


— Não haverá mais casamento — disse sem emoção. — Queria que vocês soubessem por mim.

Foi uma das mais dolorosas admissões de sua vida. Mas sabia que tinha a obrigação de dar a notícia a seus pais e não deixar que soubessem pelas fofocas sociais.

— Oh, Lily! — disse sua mãe, antes de correr para abraçá-la.

Seu pai pareceu aliviado, mas perguntou rispidamente:

— Você está bem?

Dirigira diretamente para Mill Valley após sair do The Last Supper Club.

Quando chegou, encontrou os pais sentados confortavelmente na sala de estar, para onde tinham ido depois do jantar. Sua mãe, ficou triste ao notar, estivera folheando uma revista sobre casamento. O pai via o noticiário na televisão.

Lily se afastou da mãe e enfrentou o pai.

— Você deve estar feliz. Amos não será mais seu genro.

Feliz não descreve o que estou sentindo agora.

— Eufórico?

— O que aconteceu?

— James não lhe contou? — perguntou, fingindo surpresa. — O capanga contratado não tem que dar as notícias ao chefe primeiro?

Embora James lhe tivesse dito no dia anterior que levara para ela os indícios primeiro, estava surpresa por ele não ter feito logo depois uma visita a Marcus.

Ele saíra antes que pudesse lhe pedir que a deixasse dar ela mesma a notícia a seu pai, presumindo que seu orgulho a deixaria fazer tal pedido.

O pai teve o mérito de parecer um pouco desconfortável.

— Ele não disse nada.

— Surpreendente, já que você lhe ordenou que mandasse investigar Amos — Lily respondeu friamente.

— Em primeiro lugar, ninguém dá ordens a James...

— Marcus, é verdade? — sua mãe interrompeu, parecendo chocada. Ele se voltou para encará-la.

— O que mais eu poderia fazer, Audrey? Ele estava prestes a entrar para a família. E não diga que eu estava errado porque Lily acabou de admitir que eu tinha razão.

— Razão sobre o quê? — perguntou a mãe. Lily suspirou silenciosamente.

— Sobre Amos querer se casar comigo pelo meu dinheiro, mamãe.

— Oh, Lily! Sinto muito!

Seu pai resmungou algumas palavras bem escolhidas. Lily não queria revelar que, além de tudo, Amos a enganara. O silêncio de James dera-lhe uma saída e não teve escrúpulos em usá-la.

— O que você quer que contemos a todos, Lily? — perguntou sua mãe calmamente.

— Diga apenas que Amos e eu decidimos romper. Ponto final.

Pensara sobre a questão a caminho da casa dos pais e concluíra que havia apenas algumas pessoas com quem queria partilhar toda a verdade.

Felizmente, como seu noivado com Amos ainda não havia se tornado oficial, sem aliança, sem festa e sem anúncio público, haveria menos perguntas.

Também sabia que a última coisa que Amos gostaria que fosse conhecido é que seu compromisso com a herdeira da fortuna Evans acabara porque ele a estava enganando com outra mulher.

Então Lily enfrentou seu pai abertamente.

— Eu me livrei de Amos, mas você é meu pai e não posso mudar isso.

O pai ficou muito quieto.

— Assim, vim aqui para dizer — continuou ela — que não interfira na minha vida de novo.

Lily...

— E usar James Potter, entre todas as pessoas!

Seu pai balançou a cabeça.

— Nunca entendi sua aversão por James.

— Sabe, eu mesma nunca entendi. Afinal — disse com sarcasmo —, ele me fez um favor assumindo o papel de herdeiro da Evans, um papel para o qual não me sinto inclinada, ou deveria dizer, não estou qualificada?

— Nunca disse que você é incapaz.

— Não precisava — respondeu.

Seu pai parecia furioso, mas a mãe estava simplesmente angustiada.

— O motivo por que nunca insisti que você fosse para a Evans REH — disse o pai — é que eu queria que você fosse capaz de escolher seu próprio caminho e seguir seus próprios sonhos.

A admissão foi um bálsamo para seus sentimentos feridos. Mesmo assim, não deixaria que ele escapasse de sua ira no que se referia a James.

— Você pode nunca ter exigido que eu me interessasse pela Evans REH, mas quis me empurrar para James — acusou.

— Não por causa de Evans REH — replicou o pai teimosamente —, mas porque ele é um bom homem.

— Parem com isso, vocês dois — disse a mãe, depois virou a cabeça para ela. — Lily, espero que passe a noite aqui. Detesto pensar em você sozinha agora.

Lily ficou grata pelo convite da mãe, mas ainda tinha outra coisa a dizer ao pai.

— Bem, fique sabendo de uma coisa. James Potter é o último homem na Terra com quem eu me casaria.

Achou que fora uma bela fala de saída. Especialmente porque o risco de ter que engolir o que dissera era zero.


Lily não ficou parada e enfrentou Amos. Com direito a vinho na cara!

Agradeço a Deby e a Aninha E. Potter pelos reviews. Espero que tenham gostado.

Até o próximo capítulo.