O estudante de cinema imediatamente abriu os olhos e olhou para as teclas, reconhecendo a mão de dedos longilíneos que com graça e habilidade tocava o instrumento exatamente como ele fazia quando era ele quem estava ali, de pé no canto do piano. Então seu coração voltou a bater forte, e na mesma hora o peso em seu corpo desaparecera por completo.
Sentindo a garganta pulsar e o peito arder em euforia, Mu levantou o olhar e eis que lá estava ele, o pianista, sorrindo enquanto dedilhava as teclas.
Estranhou o fato de ele estar usando óculos escuros dentro da estação, mas pouco importava esse detalhe. Ele estava lá! Sob as luzes douradas da estação. E como o Sol que surge após as nuvens da tempestade se dissiparem ele chegava para acalentar seu coração desassossegado.
— Me perdoe pelo atraso. Eu tive um imprevisto. — disse Shaka, que fazia um esforço tremendo para não gaguejar ou deixar explícito em demasia seu nervosismo — Espero que não o atrapalhe, mas se preferir podemos marcar outro dia. — congelou os dedos nas teclas parando de tocar — Essa música é linda, mas é de um filme muito triste. Não combina com alguém que cheira à lavanda e tem uma voz tão doce... A imagem que tenho dos campos de lavanda em minha lembrança combina mais com algo do tipo...
Após uma breve pausa o pianista voltou a tocar, e sua escolha arrancou um sorrido de admiração do estudante de cinema.
— Primavera... Vivaldi. — disse Mu, que como se tivesse cativo de algum tipo de encantamento não conseguia tirar os olhos do rosto do outro.
Ao ouvir a voz do rapaz sentado na banqueta o pianista sorriu e encerrou a canção recolhendo a mão para guardá-la no bolso da jaqueta de couro preto. Agora tinha ambas as mãos nos bolsos.
— O meu nome é Shaka.
Falou em tom baixo, porém firme, mantendo o rosto voltado para a direção de onde viera a voz de Mu. Sentia a garganta tão seca que imaginou não ser capaz de dizer mais nada além do nome, mesmo porque já se considerava vitorioso por ter conseguido chegar até ali depois de quase surtar em casa. Trouxera consigo a insegurança e o medo irracional que o acompanharam do portão de casa até a Estação do Bronx e depois até ali, e lutava agora para manter a ambos controlados. O tempo todo pensava se estava o mínimo apresentável, já que arrumara-se sozinho e correndo contra o tempo, uma vez que se deixasse passar o rompante de coragem que inundara seu ser quando o dispositivo sonoro do relógio o avisou que eram quatro da tarde talvez ele desistisse de fato de ir ao encontro. Não que já não estivesse mais que habituado a se vestir sem o auxílio do pai ou do irmão mais velho, porém eles eram seus olhos, e caso cometesse algum deslize considerável, como vestir a camisa do avesso ou trocar os pares das meias, sempre o avisavam. Dessa forma, para não correr o risco de estar com as roupas muito amarrotadas, a camisa abotoada errado ou os cabelos despenteados, escolheu as peças mais simples que encontrou. Camiseta branca, jeans e tênis. Prendeu os cabelos com um coque e pensando em evitar ter escolhido uma camiseta manchada aproveitou que o clima estava ligeiramente frio e meteu um cachecol laranja de lã em torno do pescoço deixando as pontas caídas na frente do peito. Ao sair vestiu a jaqueta e cobriu os olhos com os óculos escuros. Era desesperador não saber que aparência tinha, por mais que o pai e o irmão lhe dissessem que era muito bonito, e a simples ideia de ser rejeitado pelo rapaz da voz doce e perfume suave de lavanda lhe deixava em agonia.
Estava aterrorizado, era bem verdade, mas pensar que se não fosse ao encontro talvez nunca mais tivesse outra oportunidade como aquela, ou a chance de ao menos saber o nome dele para ter com o que sonhar depois, lhe aterrorizava ainda mais.
Mu por sua vez, ainda olhava para o pianista como que hipnotizado, até que tentando conter a euforia para não parecer um bobo apaixonado e por fim assustá-lo, respirou fundo e sorriu com ainda mais veemência.
— Está perdoado pelo atraso, Shaka. — disse o estudante de cinema, que por segundos se pegou pensando que poderia estar vivendo uma história de cinema, já que alguém tão bonito e diferente como ele só poderia mesmo ter um nome pouco comum, ou nada comum, como aquele — O que importa é que veio. — continuou, sem mais pausas para divagações — O meu nome é Mu.
Entusiasmado e com um sorriso vibrante no rosto, Mu levantou-se da banqueta e um pouco sem jeito estendeu a mão a Shaka visando um cumprimento, que não aconteceu, pois o pianista ao perceber que o outro se levantara, dado o ruído da banqueta a arrastar no chão encerado e também o farfalhar das roupas do estudante, se pôs aflito retirando ambas as mãos do bolso na mesma hora. No entanto, não sabia o que fazer com elas. Ficou parado sentindo seu corpo todo tremer de apreensão.
Certamente Mu percebeu o embaraço do pianista, mas um detalhe o fez desviar a atenção daquele gesto confuso e ignorar completamente a falta do cumprimento.
— Sua mão! — disse o estudante de cinema ao ver que uma das mãos de Shaka estava enrolada em um lenço branco e este sujo de sangue. Num impulso esticou o braço e tocou na mão dele, preocupado, mas apesar da gentileza com que executara o gesto o pianista, assustado com o toque repentino, recuou um passo ainda mais alarmado. Mu então ergueu o olhar e voltou a encarar seu rosto, agora curioso e confuso — Tem sangue na sua mão.
— Eu... sei... eu... me cortei pouco antes de sair de casa. — disse Shaka enfim.
— Deixe-me ver. — Mu respondeu, agora deveras intrigado com o comportamento estranho do outro — Talvez precise de um curativo... Há uma farmácia aqui perto. Antes de irmos ao café podemos passar lá e dar um jeito nisso, digo... o café... Ainda vamos ao café, certo?
— Claro... Vamos sim... ao café. — Shaka disse inseguro, mas não havia mais como fugir de sua realidade, apenas estava prolongando o inevitável e criando uma situação pior ainda. Sendo assim levou a mão livre do lenço ao bolso interno da jaqueta e de lá retirou a bengala retrátil. Seu coração batia tão forte dentro do peito que jurava que Mu podia ouvi-lo — Mas, não se preocupe comigo. Estou bem, e eu estou acostumado... Pequenos acidentes são comuns quando se vive no escuro total. — sorriu sem graça e com as mãos trêmulas desdobrou a bengala lançando a ponta para o chão — Não precisamos perder tempo na farmácia. Podemos ir direto ao café... Quero dizer... Se ainda quiser ir, Mu.
Mu emudeceu de repente.
Estava surpreso demais para dizer qualquer coisa.
Acabara de desvendar o mistério do olhar profundo e enigmático do pianista.
Shaka era cego!
Por isso ele tocava de olhos fechados.
E por isso não olhava para si, mesmo estando sentado ao lado, na banqueta.
Por isso também ele nunca lhe acenava de volta quando se despedia.
Agora, de frente para o pianista, com os olhos cravados naquela bengala de alumínio que ele segurava com mãos visivelmente aflitas, Mu sentiu-se um tolo completo.
Como não havia notado algo tão obvio?
Diante do silêncio de Mu, com a garganta a lhe sufocar e os dedos a apertarem com demasiada força a ponta da bengala a ponto do lenço branco em sua mão sujar-se ainda mais de sangue, Shaka inspirou o ar profundamente e suspendendo a respiração disse algo que ensaiara dizer desde que saíra de casa:
— Eu... compreendo se não quiser mais ir.
Foi então que Mu se deu conta do que estava acontecendo ali.
Shaka estava claramente angustiado devido seu reinante silêncio, inclusive parecia já prever uma possível rejeição vinda de si, por isso deu logo um jeito de acabar com o desconforto do pianista e também o seu.
— E por qual motivo eu não iria querer? — disse com voz exultante voltando a botar um sorriso no rosto.
Ao ouvir aquilo o pianista sentiu a face arder e seu peito imediatamente encheu-se de nova esperança.
— Mas, não abro mão de passarmos antes em uma farmácia. Sua mão está sangrando. Não levará mais que alguns minutos. E eu não tenho pressa alguma, afinal o esperei até agora, não foi? — disse Mu
Quando enfim conseguiu soltar o ar preso nos pulmões, o qual segurava involuntariamente num claro sinal de inquietação, com um suspiro fraco Shaka baixou ligeiramente a cabeça e sorriu tímido.
— Foi. — disse com voz baixa, que nada condizia com o furor que tomava seu interior naquele momento. O alívio pouco a pouco sobressaindo-se ao medo terrível de ser rejeitado de pronto.
— E eu já posso dizer que valeu a pena esperar! — disse o estudante, que apesar de surpreso e ainda um tanto alarmado não escondia a alegria que abraçava sua alma, e tal enlevo transbordava em sua voz jovial de modo tão claro que era percebido pelo pianista.
O rosto belo de Shaka iluminou-se.
Costumeiramente, quando se davam conta de sua deficiência as pessoas mudavam o tom e suas vozes ganhavam notas de piedade e pesar, mas com Mu isso não aconteceu. Podia sentir impressa em sua voz a mesma euforia do momento em que chegara ali e tocara algumas notas no piano. Por isso, um pouco mais confiante e plenamente empolgado ergueu a cabeça a sorriu, dessa vez um sorriso amplo e satisfeito.
— Então não vamos perder mais tempo. — disse já sem medo de gaguejar, em seguida tateou o chão com a ponta da bengala até tocar no pé do piano, então soube a direção para a qual deveria se virar para seguir andando até a saída do Terminal.
Nessa hora Mu, completamente atrapalhado, rapidamente colocou-se ao lado dele e um pouco sem jeito lhe tocou o braço, e apesar da sutileza do toque novamente o pianista se assustou e recuou um passo para o lado.
— Oh, me... desculpe!
— Perdão!
Disseram ambos em uníssono, e depois de uma breve pausa riram-se de si mesmos, juntos.
— Eu ia... bem... ia pegar no seu braço para... — Mu dizia atarantado, então relaxou os ombros percebendo que os trazia tensos já há alguns minutos e deixou escapar um longo suspiro — Na verdade eu não sei o que ia fazer, ou... o que devo fazer. — confessou.
Shaka girou ligeiramente o rosto para a direção da voz do estudante.
— Tudo bem, não se preocupe. É que... toques repentinos sem aviso prévio, e também movimentos bruscos, nos assustam, mas você não tinha como saber. Não é preciso que faça nada, eu ando bem sozinho. Não quero dar trabalho. — disse o loiro com um sorriso para não parecer arrogante, mas a verdade era que não queria que Mu o visse como todos o viam, como um incapaz. Não ele.
O estudante de cinema olhava para ele como quem olha para uma obra de arte aclamada e valiosa. Admirado, curioso.
— Eu imagino que lide bem com isso, mas saiba que não me é incomodo nenhum ajuda-lo. Estamos entrando no horário de rush, a estação está lotada e eu posso ser o seu guia sem problema. — disse, e o entusiasmo em sua voz era tão notório que Shaka sentiu a alma em júbilo.
— Está bem. — disse o pianista, depois ergueu ligeiramente a mão para pegar no braço do estudante — Só me avise acerca dos obstáculos... as pessoas muitas vezes esquecem e acabo dando umas topadas com lixeiras, postes, cadeiras, cachorros...
Mu prontamente pegou a mão que lhe foi oferecida a conduzindo até seu braço enquanto se colocava ao lado do pianista, quase corpo a corpo, e essa proximidade lhe causou certo frenesi. A verdade era que a deficiência de Shaka, apesar de ainda ser um choque, em nada o incomodou e em nada fez diminuir seu interesse e entusiasmo. Pelo contrário, sua admiração por ele tornou-se ainda mais sólida, pois dela, talvez, viesse toda aquela sensibilidade para música e todo aquele talento, ambos perdidos no meio de uma estação de metrô.
— Eu avisarei. — disse Mu aos risos enquanto encantado delineava o rosto do outro com os olhos atentos — Especialmente sobre os cachorros.
— Certo! — respondeu Shaka — Podemos ir ao Applebee´s. Fica na esquina saindo pela esquerda do Terminal. Do lado tem uma farmácia.
— Ótimo! — disse Mu antes de seguirem andando em direção à saída, mas em dado momento sua voz ganhou um to0m mais sério — Quero pedir perdão por minha indelicadeza... Eu... eu não havia notado que você é, bem... por isso depois que tocávamos juntos eu levantava e me despedia com um aceno somente. Deve ter me achado um mal educado.
— Não, de jeito nenhum! Eu imaginei. Só não dava para acenar para você de volta porque poderia estar acenando para o relógio da estação, ou para algum estranho, ou um dos latões de lixo... — disse rindo.
Assim seguiram lado a lado, entre conversas e risos divertidos e sinceros. Mu dedicando-se ao máximo em conduzir o pianista com sua devida aprovação, mesmo que este mostrasse de fato não ser preciso, afinal já eram quatorze anos em que a bengala de alumínio eram seus olhos e se virava muito bem com ela, embora não pudesse negar ser muito melhor ser conduzido pelo rapaz que fazia seu coração bater mais forte.
Com toques muito sutis Shaka experimentava entusiasmado a textura suave do algodão da camisa que Mu vestia e por debaixo do tecido fino o calor gostoso da pele. Podia imagina-la macia e perfumada. Deslizava os dedos pelo tecido sentindo um mormaço repentino lhe subir pelas pernas e acumular-se no peito. Nessas horas respirava fundo e procurava se concentrar nos sons à sua volta ou qualquer outra coisa que não denunciasse seu estado de graça.
De repente, quando iam atravessar a avenida estava tão distraído, cativo das sensações que experimentava tocando apenas naquele pequeno pedaço de braço, que não se ateve ao som dos carros ainda em plena circulação na via e avançou para atravessa-la. Felizmente Mu o puxou de volta o segurando com firmeza.
— Espera! O semáforo ainda está aberto. — disse o estudante calmamente.
Uma situação corriqueira para Shaka, mas que naquele momento abalou as estruturas do castelo que erguia a duras penas desde que saíra de sua casa naquela tarde. Por isso, logo em seguida à voz de Mu ouviu a voz de Asmita e do pai lhe gritarem à consciência o lembrando que era incapaz, deficiente, inválido... Que as pessoas o ajudavam por ser digno de pena, pois assim elas alimentavam o falso altruísmo que nutria seus egos frágeis.
Seu rosto então endureceu, e no momento em que pensou em soltar o braço do estudante de cinema este delicadamente o puxou para que atravessassem a rua, pois o sinal havia acabado de fechar.
Já do outro lado Shaka sucumbiu mais uma vez à miséria de sua realidade.
— Obrigado, mas eu sigo sozinho daqui. Não se preocupe. — disse atribulado, já soltado o braço do outro.
— Já disse que não estou preocupado, ao contrário, está sendo um prazer... E, para ser bem sincero, embora possa até parecer um tanto invasivo, eu estava adorando andar de braço dado com você. — Mu deixou escapar as palavras de propósito. Queria ver a reação do pianista.
Esta veio na forma de um rubor intenso que tomou as maçãs de seu rosto o deixando um pouco constrangido, mas tremendamente empolgado, e novamente combatendo o fantasma da insegurança sorriu modesto e ergueu de novo a mão a oferecendo ao outro.
— Está certo. Eu... eu também estava gostando. — disse, sem saber como havia conseguido tal proeza.
Era tudo que Mu esperava ouvir.
Tomado por uma alegria que mal lhe cabia o estudante de cinema dessa vez segurou na mão de Shaka, logo sentindo os dedos longos e delicados dele apertarem os seus em resposta, então exultante lhe fez um afago singelo no peito da mão com o polegar e seguiram andando até a farmácia.
No caminho, em meio às vias lotadas de gente de todos os tipos, somado à toda a sorte de poluição sonora e visual que faziam da Times Square o coração pulsante de Nova York, Mu o tempo todo olhava minuciosamente para o rosto jovem e belíssimo de Shaka, e não pôde evitar ter seu espírito livre e aventureiro preenchido por uma amarga melancolia. A pele alva do pianista refletia todos as cores oriundas das centenas de anúncios luminosos que faziam daquele lugar uns dos cartões postais mais bonitos da cidade, inclusive um dos preferidos do estudante de cinema, não à toa quis trabalhar bem ali. O mundo todo vinha de longe à Times Square para se encantar com aquele espetáculo de luzes e formas que anunciavam sonhos, peças de teatro, os blockbusters do cinema... e Shaka, que estava ali quase todos os dias, não podia ver nada daquilo.
Contudo, Mu não queria se entristecer, tampouco sentir pena do pianista. Não era justo consigo e ainda menos com ele. Seria um tolo se deixasse sua melancolia tomar o lugar da euforia daquele momento pelo qual ansiara tanto. Estava com o rapaz que cativara seu coração, estava apaixonado, e não iria se deixar abater. Tudo que queria era aproveitar ao máximo a companhia dele.
Quando chegaram à farmácia Mu comprou gaze, antisséptico, esparadrapo e fez ele mesmo um curativo no dedo cortado de Shaka. Apesar de bem feio o corte não necessitava sutura, bastava uns dias de cuidados e logo estaria perfeito.
Saindo seguiram até a lanchonete sugerida pelo pianista, que era um local bem agradável, com algumas mesas postas em uma área externa onde pessoas já se reuniam para o happy hour após o trabalho. E foi justamente pensando em ficar longe daquela chusma falante e risonha para poder aproveitar ao máximo a companhia de Shaka que Mu escolheu uma mesa na parte interna do recinto, em um dos setores menos ocupados onde não haviam cadeiras, mas longos bancos acolchoados que pareciam bem confortáveis e eram servidos por pequenas mesas. A luz ambiente era amena e tinha um tom rosado, quase coral, que vinha de pequenos lampiões que desciam do forro de madeira envernizada. Jazz era o som ambiente tocado em volume bastante oportuno, e no ar um aroma agradável de baunilha e toques de alecrim abriam o apetite. Seguiram até o local indicado por Mu e sentaram-se lado a lado, o estudante auxiliando o pianista a se acomodar enquanto mantinha os olhos cravados em seu rosto, atento a cada gesto, cada expressão que se desenhava naquela face sublime. Não era capaz de quebrar o contato com ele nem se quisesse, e sentia tanta vontade de toca-lo que travava uma verdadeira luta consigo mesmo para ater-se somente ao leve encostar de ombros.
— Tinha razão. Gostei daqui. É um lugar muito agradável. — disse Mu animado.
— Eu sabia que ia gostar. — disse Shaka enquanto retirava os óculos escuros e os guardava no bolso externo da jaqueta — Não sei dizer o motivo, já que sei tão pouco ou quase nada sobre você. — sorriu sem graça mantendo a mirada baixa. Aos poucos ia conseguindo administrar seu nervosismo, porém agora este ganhava nova forma, já que aquela proximidade toda com o outro lhe dava ganas em toca-lo também, sentir a pele, os cabelos, principalmente o rosto para poder enfim ver, através de seus dedos, que aparência ele tinha. Não que isso importasse, já que se apaixonara por ele sem nem ao menos saber se era homem ou mulher.
— Mas estamos aqui justamente para resolver isso, não é mesmo? — brincou Mu, mais uma vez maravilhado com os olhos do pianista, porém agora os divisava se questionando como poderiam não enxergar e mesmo assim possuírem viço e uma beleza única — Eu o convidei, então a conta é minha. Pode pedir o que você quiser. Quer beber algo? Comer? Não sei se eles possuem cardápio em braile, mas eu posso perguntar, assim pode escolher melhor, ou posso ler ele para você.
O estudante de cinema estava completamente atrapalhado.
Não sabia muito bem como proceder, apenas queria deixar o pianista o mais à vontade possível.
— Não se preocupe, não é preciso cardápio para mim. Na verdade, venho muito aqui e alguns garçons já me conhecem. — disse Shaka percebendo o afobamento do outro — Costumo pedir sempre o mesmo. Um chá gelado com cranberrys e chantilly, e uma torta de maçã... E eu faço questão de dividir a conta, afinal só não te convidei antes porque...
O pianista se deteve no meio da frase engolindo as palavras que desceram por sua garganta com demasiada dificuldade.
De repente achou que tinha falado demais. Era bem verdade que não o tinha convidado antes porque nem coragem de lhe perguntar o nome tivera por medo de sua cegueira ser descoberta. Inseguro baixou a cabeça e lamentou a hora em que decidira prender o cabelo, pois sentia seu rosto quente, provavelmente estaria corado e pagando um mico enorme, e o cabelo nessas horas ajudaria a disfarçar, mas era tarde.
— Digo... — continuou, com a fala e a voz mais brandas — Me desculpe, Mu. Não sou bom com palavras. Me expresso melhor no piano. Mas... experimente os chás gelados daqui. Tem vários sabores e combinações e são muito bons.
Sua insegurança o deixava em alerta o tempo todo. Afinal, Mu poderia ter marcado o encontro por algum motivo profissional. Talvez fosse algum olheiro, ou produtor musical, ou até mesmo um agente do metrô que estava ali para lhe dizer que não poderia mais tocar no Terminal. O que diabos o levou a crer que estavam ali por um encontro romântico? Nunca nem tivera um encontro romântico de fato para saber se aquele era um. Embora o modo como Mu colocou a mão sobre a sua fosse um forte indício de que aquele era sim um encontro romântico, o fato de não poder olhar em seus olhos e constatar tal fato dificultava muito as coisas.
Mu por sua vez, sentia-se cada vez mais encantado, preso a cada gesto do pianista, cativo de cada detalhe o qual estudava com admiração e verdadeira devoção. Percebeu sim que ele havia ficado encabulado com o que dissera, e mesmo exultante optou por disfarçar para não constrange-lo ainda mais.
— Está bem. Vou aceitar sua sugestão e dividimos a conta. — disse fazendo sinal para o garçom que já aguardava ser chamado — Por favor, dois chás gelados com cranberrys e chantilly, e duas tortas de maçãs. — fez o pedido e assim que o garçom se afastou da mesa voltou toda sua atenção ao pianista — Disse que vem bastante aqui. Faz tempo que toca piano na estação?
— Alguns meses. E uma vez por semana pelo menos venho aqui para tomar um chá gelado. — Shaka respondeu tentando conter a ansiedade.
— Eu é que sou novidade por aqui, então. — disse Mu sorrindo.
— E o que você faz?
— Faço faculdade de cinema e estou estagiando aqui perto em uma produtora de TV.
— Puxa! Que legal! Deve ser fantástico estudar cinema. — disse, genuinamente impressionado.
Cinema era uma das coisas que, depois da música, mais cativam seu imaginário. Nunca havia ido em um, de fato. Nem imaginava como seria uma sala de cinema, mas, curioso por arte como era estava por dentro dos principais acontecimentos e seus ícones atemporais, como as superproduções hollywoodianas, tanto clássicas quanto contemporâneos, e sua gama de astros e estrelas que eram o coração da sétima arte. Tinha até os seus preferidos, era fã ardoroso da roufenha e ímpar voz de Jack Nicholson, e suas produções preferidas, além dos blockbusters de super-heróis que agradavam a todo tipo de adolescente, eram dois clássicos que tinham a música como pano de fundo: A lenda do pianista do mar e Minha amada imortal. Assistia aos filmes sempre em casa, na televisão ou no computador junto de Asmita ou do pai que lhe narravam as cenas, isso quando não dormiam na metade da história.
— É sim... não me imagino fazendo outra coisa. — disse Mu.
— Há quanto tempo está na produtora? — Shaka perguntou.
— Comecei essa semana, no mesmo dia em que tocamos juntos na estação pela primeira vez... — Mu fez uma pausa, pois nessa hora a lembrança do dia em questão acendeu em sua mente fazendo seu peito arder em alegria — Aquele é o horário que eu saio do trabalho... Eu... fiquei completamente maravilhado quando o vi tocando o piano no Terminal... De início, digo, no primeiro dia, estava apenas te assistindo, mas quando me dei conta já estava tocando junto com você... Confesso que foi a melhor parte do meu dia.
Houve um momento de silêncio após aquela confissão. Mu esperava qualquer reação de Shaka e olhava ansioso para ele, mas o pianista, embora fascinado com cada coisa que ia descobrindo acerca do futuro cineasta, só conseguia pensar que, dado tudo que dissera, ele poderia sim estar interessado apenas em seu talento para o piano. Poderia mesmo ser um agente, ou olheiro, ou apenas alguém que gostaria de contrata-lo para uma possível trilha sonora de algum curta metragem, e estava fantasiando um encontro romântico. Não que isso fosse de todo ruim, pois precisava muito de um emprego já que há meses estava sem sua ocupação.
Felizmente dentro daquela lacuna que se formou entre eles o garçom chegava com os pedidos, então após servi-los e retirar-se eles puderem retomar a conversa mudando o foco.
— Nossa tinha razão, isso tem uma cara boa! Parece uma delícia. — disse Mu, que logo em seguida percebeu que poderia ter sido um tanto inconveniente, já que Shaka certamente não sabia que aparecia aqueles alimentos tinham, mas o riso do outro e sua expressão calorosa logo amenizaram sua aflição.
— Te garanto que não apenas a aparência é boa. Experimente. — disse o pianista enquanto sob os olhares atentos e curiosos de Mu tateava a mesa até encontrar a colher ao lado do prato com a torta de maçã, em seguida com a outra mão que já havia encontrado o copo com o chá usou a colher para apanhar um tanto de chantilly e levar à boca — Hummm... o chantilly deles é uma delícia. Prove e me diga se estou exagerando.
Mu não respondeu, e Shaka imaginou que fosse porque estivesse provando o doce, mas na verdade era porque estava distraído demais devido um pequeno acúmulo do famigerado chantilly que ficara no cantinho da boca do pianista.
Com os olhos fixos naquele minúsculo borrão sua mente fantasiava uma cena onde ele se inclinava para frente e usando a própria língua o limpava, então teria provado a ambos como queria, o chantilly e os lábios de Shaka, e tinha a certeza de que aprovaria tanto um quanto o outro.
— Mu? — chamou o loiro.
— Sim? — Mu respondeu ainda um tanto avoado. Agora pensava que se ousasse beija-lo assim, de supetão, certamente o assustaria e de quebra ganharia um belo de um tapa — Ah! Sim eu... vou provar... é que... — disse piscando os olhos e apertando a fronte com os dedos para afastar aqueles pensamentos — A sua boca.
Imediatamente Shaka endireitou a postura e se colocou alerta, então Mu continuou:
— Tem chantilly na sua boca. Posso limpar? — disse em voz baixa e em tom sussurrado.
O pianista na mesma hora, e com um gesto visivelmente nervoso, levou a mão à boca procurando onde estava sujo.
Seu tormento enfim começava.
Sua realidade voltava a castiga-lo, pois era óbvio que por mais que tentasse agir e parecer uma pessoa normal jamais conseguiria tal feito, e tinha que entender e aceitar isso de uma vez por todas.
— Me... desculpe. — disse baixinho já baixando a cabeça enquanto tateava a mesa à procura do recipiente com os guardanapos de papel. Mantinha os olhos fechados enquanto o fazia para que não ficasse tão escancarado neles o medo terrificante de parecer idiota diante do outro. Havia desejado tanto que nada desse errado... "Por que raios fui inventar de pedir chantilly? Merda!", pensou.
— Ei, não se desculpe por isso. — disse Mu com um sorriso gentil, e então com delicadeza e uma lentidão segura tocou na mão de Shaka sobre a mesa, que mesmo assustando-se a princípio não recuou — Eu limpo para você. Você me permite?
Shaka engoliu em seco.
Não queria parecer um inválido ou incapaz que não conseguia nem ao menos pegar um guardanapo para se limpar, mas diante da gentileza com que Mu o tratou não pode negar. Fez um gesto afirmativo com a cabeça sentindo o coração disparado num misto de emoções que se digladiavam dentro de si. E enquanto isso, com cautela Mu apanhava o guardanapo.
— Eu vou tocar o seu rosto, tudo bem? — disse voltando-se para ele, que novamente respondera apenas com um gesto de cabeça.
Com ambas as mãos Mu tocou suavemente o rosto de Shaka para que ele pudesse saber a distância em que estavam, mas o furor que queimava dentro de si o fez ir além da barreira do altruísmo. Estava apaixonado, e estar tão próximo do pianista mexia consigo de uma forma tão intensa que fora simplesmente incapaz de conter o ímpeto em fazer uma carícia delicada em seu rosto. Por isso, com os olhos parados, a respiração acelerada e os lábios entreabertos, antes de limpar a cobertura doce Mu tocou nas bochechas coradas de Shaka fazendo um afago sutil, só depois encostou o guardanapo no canto da boca do outro limpando o chantilly.
Um gesto simples, mas o suficiente para fazer tremer o corpo todo do pianista.
O toque de Mu era suave, e suas mãos tão macias e perfumadas que Shaka fazia um esforço tremendo para não captura-las com as suas a fim de poder senti-las melhor, saber que tamanho tinham, o que elas lhe diriam... Aquilo tudo estava sendo muito novo, já que o costume era ser dispensado assim que sua deficiência era descoberta, portanto não sabia exatamente como agir, porém pela primeira vez desde que saíra da estação de metrô acompanhado por Mu admitiu para si mesmo que talvez ele poderia estar ali por sua causa, e não pelo piano.
Ah se ele pudesse saber o que se passava na cabeça do estudante de cinema!
Mesmo após concluída a tarefa Mu não conseguiu afastar-se do pianista. Corria os olhos por cada detalhe de sua face, hipnotizado com tamanha beleza, atraído até à alma por sua sensibilidade e timidez. O desejo em beija-lo lhe queimava por dentro e não fosse por sua deficiência já o teria feito com furor até, mas se conteve. Shaka era diferente. Sabia que com ele deveria ser cauteloso, delicado, cuidadoso, afinal ele não era mais um cara como os tantos outros que conhecera em alguma balada ou aplicativo de celular. Por isso, em vez de ataca-lo como queria, respirou fundo e usou um tom mais brando para falar bem perto de seu ouvido.
— Me acharia louco ou... atrevido, se eu te dissesse que não consigo te tirar da minha cabeça, Shaka?
Estava feito.
Aquelas palavras confessas com eloquência e impavidez eram tudo que o pianista precisava ouvir para varrer de vez a insegurança que açoitava sem nenhuma compaixão sua vontade.
Tomado por um furor repentino Shaka abriu os olhos, e por uma fração de segundos a euforia o fez desejar que o fantástico acontecesse e um milagre lhe permitisse ver o rosto do rapaz à sua frente, mas o véu cor de chumbo estava lá, entre ele e sua paixão que estudava cinema e tinha mãos macias.
Shaka não enxergava, mas seus olhos azuis incríveis pareciam encarar os verdes de Mu, e tão fixos ele os tinha nesses que o divisavam em enlevo.
— Eu sei que posso estar parecendo... precipitado. — continuou Mu, novamente arrebatado por aquele olhar — Mas desde que tocamos juntos no Terminal os meus dias se resumiram a esperar pela hora de voltar para lá, no final da tarde, e torcer para que estivesse ao piano... Eu... nuca senti isso, e de repente a ideia de perder contato com você me causou um pavor profundo, por isso o convidei para esse encontro... Agora sei o seu nome, Shaka. E sei que adora chá gelado com chantilly e torta de maça. — sorriu emocionado — Mas, eu quero saber muito mais. Quero saber tudo sobre você, por favor me conte! Me conte da sua vida, do que você gosta, quantos anos você tem. Você estuda? Trabalha? — empolgado Mu de repente se deu conta da besteira que estava fazendo. Falava próximo demais ao pianista, e também rápido demais — Oh, me desculpe... Eu devo estar assustando você... É que... Eu sei que pode parecer piegas, mas isso é novo para mim.
Com a respiração acelerada e o coração a bater tresloucado feito motor de locomotiva, o loiro meio sem jeito devolveu à mesa a colher que ainda segurava na mão e deitou o olhar. Sorriu tímido.
— Está tudo bem, Mu. — disse por fim tentando se acalmar como conseguia, já que o outro parecia de fato não se importar nem um pouco com sua deficiência, nem mesmo parecia lhe achar um inválido ou incapaz, do contrário não lhe teria perguntado se trabalhava ou estudava, o que lhe permitiu sentir-se elevado — Não está me assustando, muito pelo contrário... Eu... Eu devo dizer que... sinto o mesmo, então penso que estamos os dois loucos e bem atrevidos, porque eu também não consigo tirar você da minha cabeça. — ficou extremamente corado ao dizer isso. Sentia seus lábios tremerem e ficou com vergonha do outro perceber o quão nervoso estava, por isso buscou a solução procurando o prato com a torta sobre a mesa e quando o encontrou tateou em busca do garfo e meteu um bom pedaço de torta na boca, pelo menos assim a maldita não tremia — Hum... Estudei até o ensino médio em uma escola para pessoas com deficiência mantida no meu bairro por uma Ong, já que a única escola que oferece ensino público em braile fica muito longe da minha casa e meu pai não podia pagar pelo transporte... — disse rapidamente cobrindo a boca com uma das mãos — Também estudei piano com uma professora particular que me ofereceu aulas gratuitas, a senhora Johnson... Ela era voluntária nessa mesma Ong, mas tinha também uma escola particular. Infelizmente ela faleceu há alguns meses, já tinha idade bem avançada. Eu dava aulas de piano para crianças na escola dela, mas com sua morte a escola foi fechada... — assumiu um semblante triste quando lembrou-se da professora — Um dia um amigo meu, Shijima, passando pelo Terminal viu o piano e me contou sobre ele... Desde então tenho vindo tocar aqui em Times Square... Até encontrar outro lugar que aceitem um professor de piano cego virei tocar aqui para não perder a prática.
— Prática? — Mu arregalou os olhos, admirado — Acho impossível você perder a prática, porque no seu caso o que faz de você um pianista como poucos que vi até hoje não é prática, mas um talento nato! E olha que conheço muita gente nessa vida envolvida com música e artes. Eu inclusive. No meu caso sim, é prática. — sorriu.
O pianista sorriu acanhado. Já ouvira de algumas pessoas, inclusive de sua professora, que de fato tinha um talento nato para o piano, e que este era potencializado por sua audição aguçada, consequência da falta da visão, e incrível sensibilidade. Tinha tudo para ser um músico de sucesso, mas o fardo da cegueira, a falta de recursos e a proteção exagerada da família minavam qualquer avanço que tentasse fazer em sua possível e tão sonhada carreira de pianista profissional.
— Obrigado. — disse para o estudante de cinema — Mas você também toca muito bem.
— É, tem um piano na casa dos meus pais. Sempre que vou lá toco alguma coisa.
— Você não mora com seus pais? Quantos anos você tem? — Shaka perguntou surpreso.
— Tenho vinte anos. — Mu riu animado — Achou que eu era um velho carente e solitário, né? — brincou — Eu moro sozinho já há alguns anos, desde que comecei a estudar cinema em Columbia... Mas na minha família é costume sairmos cedo da casa dos pais. Meu irmão saiu com dezesseis anos para morar no alojamento da Universidade com dois amigos. Eu sai com dezoito... Isso porque meu pai já andava reclamando... Na cabeça dele é preciso saber se virar sozinho já na tenra idade para se tornar um homem! — suspirou rapidamente com um leve menear de cabeça.
Shaka percebeu que a entonação na voz de Mu mudou ao mencionar o pai, mas também percebeu que ele não estava confortável em falar dele, por isso achou de bom tom não interroga-lo, afinal estavam se conhecendo e nem sabia se ele desejava prolongar ou aprofundar o assunto, por isso continuou a conversa sem questiona-lo.
— Eu sabia que não é velho. Sua voz é jovem. — disse com um sorriso — Eu tenho dezenove. Também tenho um irmão mais velho, Asmita, e ele às vezes é um saco... — bufou enfastiado — Fica regulando tudo que faço, mas eu não o culpo, no fundo é um cara legal... Meu pai, diferente do seu, acho que se eu disser que vou sair de casa capaz de ele ter um enfarto. Não sei como consegui convence-los a me deixarem vir sozinho ao Terminal tocar o piano... Foi uma luta!
— Bem, toda luta implica em uma conquista, né? — disse Mu.
— Ou em uma grande perda. — concluiu Shaka recordando-se da luta que travara quando criança contra o tempo e o terrível diagnóstico que o condenava à perda total da visão. Luta essa que ele perdeu aos cinco anos de idade quando sua cegueira se tornou irreversível.
Os olhos verde esmeralda de Mu passearam pela face do pianista ao perceberem que esta ganhara um ar melancólico, mas, assim como ele fizera há pouco quando decidiu não prolongar um assunto que trazia desconforto a si, também achou que não era hora de questioná-lo. Algo lhe dizia que teriam muito tempo para todo tipo de assunto. Assim, apanhou o copo com chá sobre a mesa e sorveu um gole generoso procurando mudar o rumo da conversa.
— Sim, tem toda razão. — disse o estudante de cinema — Tanto quanto às implicações e consequências de uma luta como quanto a esse chá gelado de cranbarryes. Divino!
O pianista sorriu varrendo para longe as lembranças funestas.
Estava em um encontro romântico e não ia deixar de aproveitar a companhia de Mu entregando-se a melancolias. Por isso, tateou a mesa e também apanhou seu copo com chá para acompanhar o outro.
