IV

Fuu sorri de orelha a orelha quando Sakura segura, na ponta dos dedos, uma foto específica.A garota de cabelos verdes está sentada de costas na cadeira, abraçada ao encosto, e o sol reflete seus fios artificiais. Ino ainda fazia uma careta sempre que sua raiz estava grande demais, mas, de verdade, a loira gostava do tom vivo de verde.

Eu simplesmente fiquei apaixonada.

Ino, que está apoiada no ombro da Haruno, levanta uma de suas sobrancelhas bem desenhadas.

Fuu, você ama qualquer coisa – diz, com muita certeza. Consegue ouvir o arranhar de garganta da de cabelos rosas, que concorda. – Mas isso é realmente bonito. Deixa eu ver, testuda. – É um lindo conjunto de cachoeiras que faz Ino assoviar. Fuu está de braços abertos, bem na frente de uma delas, com um biquíni azul muito bonito.

A foto para nas mãos de Ino sob os protestos de Sakura, que diz que ainda estava vendo. Quando percebe que não vai conseguir pegar de volta, a rosada escolhe outra foto do envelope de imagens recém-reveladas que Fuu tinha trazido para elas verem. Essa, por sua vez, ainda está rindo.

Eu sei! Mas é difícil não se apaixonar por qualquer coisa quando você está em Kusa. Sério, foi minha melhor viagem.

Foi sua única viagem. – Ino murmura, devolvendo a foto. Fuu faz um pequeno biquinho e enrola uma mecha no cabelo recém tonalizado de verde.

Exatamente. – Ela dá de ombros para a risada da loira. – Tá, enfim, olha essa foto aqui. Adivinha só onde foi? – Fuu tira outra fotografia do envelope e entrega, balançado, para a Yamanaka.

Quando Ino segura, arregala os olhos de inveja.

Você foi para Alto Céu?! – diz, impressionada. – Achei que você só iria ficar no sítio do seu tio.

Eu sei! Não é demais?! – Fuu quase grita, muito empolgada. – Eles decidiram na última semana me levar para o centro, sabe.

Deixa eu ver! – Sakura tira a foto das mãos de Ino, curiosa, e se depara com Fuu posando ao lado de uma roseira na estufa do shopping Alto Céu. Além dele ser o maior centro de compras do país, tinha sido construído ao redor da estufa da cidade, o que lhe conferiu um visual único, moderno e bonito. – Ah, que linda! – Ela solta um gritinho de empolgação, já procurando mais imagens do tipo no envelope. – E ai, o que você achou?

Meninas, lá é simplesmente lindo! Eu ia contar pra vocês pelo 3G, por que quando chegamos no centro eu finalmente tive sinal de celular, mas fiquei muito distraída. – Ela diz, sorrindo como boba ao se lembrar das suas férias de verão. – Nunca vi tantas lojas na vida. E, vocês não vão acreditar... Tantantan... ganhei uma pulseira Hyuuga! – E finalmente Fuu levanta o pulso esquerdo, que nem Ino, nem Sakura tinham visto até agora, para revelar uma pulseira de prata com dois pequenos e brilhantes pingentes quadrados.

Sakura solta as fotos imediatamente e Ino quase engasga com a própria saliva.

Tá brincando?! – A Yamanaka puxa o braço da morena para ver melhor, chocada. – Aff, Fuu, você é muito sortuda.

Nem brinca! Sortuda? Ela é rica. Eu pedi uma dessas pro meu pai e ele disse que eu poderia ganhar quando tivesse um emprego – Sakura revira os olhos, mas a risada das amigas faz com que ela sorria também.

Eu sei! Eu nem acreditei. Mas elas ficam muito mais baratas dependendo dos pingentes, sabe, e esses eram os mais simples – explica, ainda feliz. – Mas foi muita consideração dos meus tios.

Sim, demais. – Ino concorda, balançando a cabeça e organizando as fotos que Sakura bagunçara. – Eu queria muito visitar uma joalheria como a Hyuuga. – Ela murmura, um pouco tristonha.

Sakura balança a cabeça freneticamente.

Sim, é tão injusto que eles estejam em tão poucas cidades! E nem em Konoha, também, considerando que são daqui.

Fuu, com a cabeça encostada nos próprios braços sobre a mesa, arqueia as sobrancelhas.

Eh? A Hyuuga foi criada aqui? – pergunta, confusa. Sakura penteia uma mecha do cabelo longo, decidindo que deve cortá-lo.

Não. Quer dizer, a joalheria não. Mas o clã Hyuuga, que deu origem ao nome, é daqui.

Achei que eles eram de Suna. – Ino diz num tom entediado, entretida em colocar as fotos na ordem correta, antes que a professora delas chegue. Sakura precisa gesticular para responder, já um pouco animada.

Isso é uma mentira que se espalhou por causa do Sexto Acordo, que juntou os Hyuugas e os Sabaku e acabou com muitos indícios que ligavam o Clã Hyuuga à Konoha. Mas, tipo, não dá para apagar a verdade.


Em certos momentos da vida, mesmo com milhares de indicações de não deveria fazê-lo, você prefere fechar os olhos e ter um pouco de fé. As provas materiais se subjugam ao sentimental. Você se torna esperançoso de que, de repente, todas as coisas que mais desejou vão se tornar realidade.

Ino não sabia dizer por que confiou nele e entregou sua mão. No seu caso, ela só desejava voltar ao próprio tempo.

Gaara não a guiou para o futuro, porém. Ele segurou na mão dela, a não machucada, com uma intimidade singular, rodeou sua cintura com os dedos livres e, em silêncio, levou-a para fora do beco do estábulo, de volta ao pátio, onde entrou por uma porta que não era a da frente e que Ino não tinha visto até então. Assim que estavam de volta ao castelo e às mesmas paredes de pedra com tochas penduradas, Ino se lembrou de Ibiki e seu corpo reagiu ao trauma recente com uma ansiedade que ela nunca experimentara antes. O ar sumiu dos seus pulmões e ela se inclinou sobre a própria barriga, sem conseguir respirar.

— Ei, você está bem? – Gaara diz, assustado, tentando segurá-la em pé. Ele olha para o rosto dela com o cenho franzido e os olhos azuis, profundamente assustados, fizeram com que o homem comprimisse seus lábios.

— Eu n-n... – Ino tenta dizer, abrindo a boca e buscando pelo ar perdido em grandes inspirações, como se estivesse se afogando. O ruivo, sério, aperta a mão em sua cintura e sobe a outra para seu rosto, segurando-a com cuidado.

— Ino. Você precisa se acalmar e respirar – murmura, vendo como os olhos dela se fecham com força. – Olhe para mim – pede, segurando-a com mais força quando percebe como o tronco dela deixa de preencher o espaço do vestido, que é pelo menos duas vezes maior que o tamanho dela.

Ela funga, finalmente olhando-o. Sakura também tinha olhos verdes – mas nada comparado com isso, nem em mil anos. Ela pisca e quase pode contar as sardas que preenchem a pele pálida do nariz e das bochechas dele. Uma tristeza profunda a invade e Ino se apoia nele, nesse homem tão perto de si, rondando-a com fragrância masculina.

— I-Ibiki, ele vai...

— Ele não está aqui – interrompe, firme, sentindo como os dedos dela puxam seu casaco, com medo. Isso quase faz com que se sinta nauseado. As palavras dela, minutos atrás, voltam a girar na sua mente. – Somos só nós dois, então eu preciso que fique calma. Consegue fazer isso?

Mas Ino não parece tê-lo ouvido; não totalmente, pelo menos. Ela funga outra vez e seus olhos estão cheios de lágrimas agora; o horror de pensar em ser pega e segurada por Ibiki outra vez, a única coisa que preenche seus pensamentos. Gaara desliza a mão que estava no rosto dela para o outro lado da cintura, mas Ino não move seus dedos nem um pouco quando o aperta mais, ficando tão próxima dele que é capaz de sentir vinho no seu hálito.

— Diga que vai desfazer essa ideia de casamento. Você é o irmão de Kankuro, pode fazer isso, não pode? – implora, seu nariz quase acariciando o dele. Gaara se distrai em seu próprio peso; ela está nas pontas do pé, sustentada por suas mãos na cintura, e o olha de tão perto que a voz, mesmo sendo um múrmuro, parece um grito de agonia. Ele franze o cenho com a facilidade que o nome de seu irmão flutua dos lábios dela, sem um único rastro de intimidação. – Não – sussurra, estreitando os olhos. – Não. Não diga. Prometa. Me prometa.

Gaara a encara por baixo dos cílios longos e escuros. O cabelo dela é de um loiro tão claro e brilhante que tinha chamado atenção de todos quando seu chapéu caíra; mesmo assim, inesperadamente, seus cílios são de um negro profundo que se destaca em suas íris azuis. É preciso conter um suspiro de descrença. É preciso dizer para ela que as coisas não funcionam dessa maneira tão simples. É preciso repetir, mais uma vez, que Ibiki não faria nada das coisas que ela pensa, tão assustada, que sim.

Mesmo que Gaara também duvide.

Ele afrouxa seus dedos e a afasta delicadamente, de repente percebendo como o corpo dela encosta-se ao seu e o vestido se dobra para os lados. Tinha conseguido sentir a curva do quadril dela contra sua coxa; a saia velha, com o tecido mais fino do que deveria, não contribuindo em nada para minimizar o contato.

— Precisamos ir.


Quando Gaara a leva dali, a única coisa que Ino consegue pensar é que ele não prometeu. Nem falou nada sobre o assunto – a conclusão que não consegue chegar, no entanto, é se isso é bom ou ruim.

Eles viram alguns corredores e passam por uma espécie de sala de jantar – nesse momento, vazia. Algo diz para Ino, conforme o número de quadros e tapeçarias nas paredes, além de outras decorações, aumenta, que estão no lado mais residencial do castelo. É tudo muito rápido. Ele anda o mais rápido que ela consegue com a lombar dolorida, sempre apoiando a mão na cintura dela. Ino tem a leve impressão que, se ele não imaginasse que ela iria reclamar, pegaria-a nos braços para que chegassem logo ao destino; seja lá onde esse destino fosse.

Quando uma conversa entre criadas corta o ar e Gaara murmura uma maldição e os leva rapidamente por outro lugar, ela entende que ele não quer ser visto. Dã, é claro. Ela deveria estar com o marido bem longe dali, depois que Ibiki tinha praticamente a arrastado da oitiva, ainda em andamento. Infelizmente, também por causa dessa velocidade, ela não tem tempo de processar tudo o que vê ou o caminho que fizeram; logo estão de frente há uma porta de madeira, depois de subir dois lances de escada – estão no terceiro andar – e dar de cara com um largo e rico corredor, com pelo menos outras quatro portas, até onde o tempo a deixa observar.

Gaara abre a porta num movimento só e a coloca para dentro.

— Preciso que fique aqui um momento. Eu volto logo – diz e desaparece, fechando a porta. Ino pisca, ainda absorvendo as palavras, e então se vira.

É preciso conter um pequeno ataque. Ela está num quarto que deve ser quase do tamanho toda da casa de Ibiki. A maioria dos detalhes são em vermelho e vinho; mesmo a madeira dos móveis é de um marrom tão escuro e profundo que se mistura ao rubro. Há uma cama de casal de ferro, grande o suficiente para 4 pessoas e com estrutura para dossel. Seis travesseiros, três de cada lado, se equilibram sobre o colchão alto com lençóis escuros. De frente para a cama, que também tem dois criados mudos, uma espaçosa lareira está acesa. Há um guarda-roupa de madeira, um biombo do outro lado, um espelho no canto – que, por conta do ângulo, ela não consegue se ver –, uma escrivaninha vazia, mas com uma cadeira e uma tímida estante com livros ao seu lado. A janela só tem uma fresta aberta e as grossas cortinas quase a cobrem totalmente; no chão, um grande tapete persa. Todas as velas estão acesas, o que significa que o quarto já estava posto para ser usado por alguém – ou que era de alguém, o que deixava a coisa toda um pouco constrangedora.

Já que vai ficar aqui esperando, ela chuta os sapatos de tecido dos pés e se senta sobre a cama, quase suspirando de prazer ao sentir como o colchão é extremamente macio. Muitos minutos se passam enquanto espera e admira o cômodo. Depois de muitas noites mal dormidas, Ino tem vontade de deitar-se ali mesmo e dormir, mesmo que o quarto seja de alguém... talvez de Gaara...? O pensamento faz com que ela junte as sobrancelhas. Hm... Se o quarto fosse dele, então o lençol... Ino segura o tecido suave entre os dedos e quase o leva até o nariz, se a porta do quarto não tivesse se aberto de repente. Ino solta o lençol imediatamente, corando e se levantando depressa. Pelo menos não foi a mão ainda cortada, essa está enrolada na saia do vestido, para que não suje nada – apesar de que é tanto vermelho no cômodo, que ela duvidava que alguém veria uma mancha de sangue.

— Gaara, perdoe minha demora, eu... – Uma voz feminina vai dizendo, antes que Ino possa ouvir o clique da porta sendo fechada, com os dois já dentro. Gaara ainda não deixou de segurar a maçaneta quando as duas mulheres se encaram, ambas surpresas.

É a mulher de mais cedo, com cabelos escuros. Exceto que, agora, mais de perto, Ino pode ver como os seus fios se misturam num tom de azul escuro brilhante, como o céu noturno. Está amarrado em uma grossa trança, que circula a cabeça dela como uma coroa, apesar da franja reta caindo até as sobrancelhas e duas mechinhas finas na frente de suas orelhas. Sua pele é de um pálido bonito, as bochechas e a ponta do nariz são vermelhas, e todos os seus traços são suaves – o nariz é fino e arrebitado, os lábios têm formato de coração. Como uma boneca de porcelana, ela também tem grandes e redondos olhos que são de um puro lilás, cristalinos como água. Se ela tinha achado os olhos de Gaara incomuns, agora parecem normais, genéricos e quase sem graça frente aos dela.

Mais baixa que Ino e usando um vestido bonito de cetim, junto de suas luvas que cobrem os cotovelos, a menina – ela não deve ter mais de 19 anos, é impossível – pisca para ela, surpresa e um pouco assustada, e olha para trás, onde Gaara está. Ele parece tenso, cuidadoso.

— Essa não é... – murmura ela, num fio doce e surpreso de voz. Agora que já não está sendo encarada, Ino aproveita para olhar para baixo, para o decoto generoso e pálido da garota em seu espartilho. Ela quase faz uma careta. Argh. Imagina só a dor nas costas dessa infeliz. Não, Ino nunca iria querer um busto tão grande, nem pensar, mesmo que fosse muito bonito e ficassem bem no esparti...

— Sim. – Ele confirma, quando percebe que a menina não vai continuar. – Preciso que cuide dela para mim, sei como é boa com isso. Seria um grande favor, Hinata. – Gaara pede, muito gentil, olhando-a com paciência; faz com que Ino queira ser capaz de ver o rosto da garota agora. Ao mesmo tempo, ela se sente constrangida. Não sabe dizer bem o quê ou o porquê, mas é como se estivesse invadindo um momento privado. Ela franze os lábios, lembrando-se dele beijando a mão de Hinata mais cedo, na audiência. O mesmo sentimento que a incomodou antes volta como um tiro e Ino coloca a mão no diafragma, respirando fundo e contendo qualquer pensamentos inapropriado.

— É claro. Se o agrada, eu fico feliz – A menina responde, o mesmo tom doce, baixo, educado. Ino percebe como ela abaixa a cabeça levemente e seus joelhos se dobram, numa reverência. Não tem como evitar se sentir mal pelo discurso tão... obediente.

— Obrigado – agradece, sem tirar os olhos dela. – Eu prometo não demorar. – E se vira para ir embora.

Ino olha a porta ser fechada em silêncio, um incomodo em sua barriga. Ele nem sequer tinha a olhado; tinha dito todas as coisas como se Ino fosse algo e não alguém. Ela desvia os olhos para o lençol, tentando não parecer irritada. Esse tipo de coisa não deveria incomodá-la, deveria?

Devagar, Hinata se vira para ela mais uma vez, as mãos na frente do corpo. As duas se encaram por um momento. Apesar dos braços magros e da cintura apertada por espartilho, que Ino pode ver desenhado sobre o tecido do lindo, embora simples, vestido, a loira consegue dizer que ela é tão diferente dela quanto todas as outras mulheres que tinha visto mais cedo. Que seu corpo é mais arredondado e menos modelete. E que é nova demais, também.

— Com licença – murmura, enrubescendo enquanto anda até a lareira acesa, de frente para cama. Ela puxa os dedos das luvas e finalmente as tira, deixando-as sobre a lareira e revelando suas mãos femininas. – Você pode se sentar, se desejar – sugere baixinho, apontando para a cama.

Ino franze os lábios, mas aceita. Não pisca nenhuma vez.

— Obrigada.

Hinata sorri e anda até um dos criados mudos onde, além de um castiçal, há uma jarra e uma bacia, ambas de porcelana estampada com pequenas flores. Há um copo, também, do lado, e Hinata enche os dois, a bacia e o copo, com a água da jarra. Procura por algo nas duas gavetas do criado mudo e, finalmente achando lenços brancos, mergulha dois na água e joga os outros no ombro. Num segundo, traz tudo na direção de Ino.

A loira observa em silêncio quando a garota se senta ao seu lado na cama, deixando a bacia atrás delas no colchão. O copo ela entrega para Ino beber, no que a loira, só agora percebendo o quanto estava com sede, quase vira como um shot. Bem que ela queria um shot agora.

— Sinto muito – murmura, torcendo o pano que estava n'água. Ela traz o tecido delicadamente para o rosto da loira. Quando Hinata o afasta para molhar mais uma vez, Ino vê como está vermelho. Como tinha pensado, se sujara com a própria mão.

— Pelo quê? – Ino murmura de volta, confusa. Hinata parece estar avaliando para ver de onde o sangue vem; acaba vendo o ferimento na nuca antes que o da mão.

— Pode se virar de costas para mim, por favor? – Ela pede e Ino logo fica de costas, sentada sobre um dos joelhos. Seu corpo ainda dói como o inferno. Hinata coloca seu cabelo cuidadosamente para frente do ombro, para não atrapalhá-la. Ino pode ouvir um suspiro sonhador, mas prefere não questionar. – Não é tão feio, mas creio que vai arder um pouco. – Ino move a cabeça e logo consegue sentir a água gelada contra a pele da sua nuca, gotinhas frias descendo por suas costas; o vestido é incapaz de contê-las por conta do tamanho. Hinata tem a mão leve e cuidadosa, então não há dor nenhuma, além de uma ardência comum. – Sinto muito por... Por seu casamento. – Hinata explica, segundos depois, e Ino agradece que elas não estejam de frente. A pobre moça teria que ver tanto ódio em seus olhos... – Sinto muito pelo Sr. Morino ter te feito isso. – Ino ergue o queixo quando a menina passa um pano, enrolando em seu pescoço, com cuidado, três camadas. A voz dela é tão triste que Ino consegue dizer que está sendo verdadeira.

Ino junta as sobrancelhas quando o curativo está feito, finalmente podendo ver o rosto de sua enfermeira de novo. A água na bacia está vermelha, assim como a ponta dos dedos dela. E, no entanto, não parece que ela se importa. Ino absorve o cheiro fresco de sabonete, mel, e jasmim dela e sorri, encantada com a beleza da garota e com seus grandes e redondos olhos perolados. É como se ela fosse uma fada. Nunca viu olhos assim.

— Obrigada. Mas... me desculpe. Você me lembra de algo... – sussurra, esperando que isso não a ofenda. Teoricamente, Ino deveria ser capaz de reconhecê-la, se o vestido caro e os trejeitos de princesa querem dizer algo. Perto dela, a loira se sente uma selvagem batendo pedras.

Hinata, no entanto, a encara com carinho, parecendo saber do que ela está falando.

— Não se preocupe. Devem ser meus olhos. – Nesse momento ela olha para o chão, um pouco constrangida, um pouco magoada. – Você deve tê-los visto por ai, embora muitos de nós hoje, infelizmente, prefira não ser chamado de Hyuuga.


— Você quer, o quê?! – Kankuro grita, batendo o punho fechado na mesa de seu escritório. O móvel treme e a tinta cai, se espalhando pelo papel em branco. O irmão mais novo não mexe um músculo sequer, porém, inabalado com a demonstração de força física. Seus olhos só escorregam um momento para a tinta desperdiçada, embora logo depois voltem para o rosto escuro.

— A noiva de Ibiki como criada da Hinata – repete, paciente, sem sequer mexer a sobrancelha. Kankuro o olha exasperado, como se o irmão tivesse, de repente, ficado louco. Talvez tivesse sido possuído por algum tipo de espírito malvado. Sim, o loiro daqueles cabelos era incomum; talvez a moça fosse uma remanescente das bruxas.

E pensar que, poucos minutos atrás, Kankuro estava rindo e bebendo com os amigos, a mulher do seu lado sorrindo silenciosa, nenhum problema vagando entre eles, como já tinha se tornado assustadoramente constante. E, quando pensara que acabaria a noite bem, depois de uma oitiva produtiva, Gaara vinha com uma dessas.

O moreno ri incrédulo, olhando para o rosto firme de Gaara, a cara do pai deles, e procurando por algum indicio de que estava brincando. Ao ver que não, não era nenhum tipo de piada de má fé, o Sabaku se senta na cadeira, massageando o queixo com a mão.

— Tudo isso por que quer fodê-la? Honestamente, eu...

— Eu não quero fodê-la! – Gaara interrompe, dessa vez num tom mais alto do que deveria usar. A boa graça do irmão se perde então e ele franze o cenho sobre o nariz, irritado.

— Então é um tolo! Eu preferia isso a ouvir você dizer que está com dó dela ou que "é só uma pobre moça". – E está em pé outra vez, o dedo indicador quase sobre o nariz do ruivo, se ele não estivesse tão afastado da mesa. – Está agindo como uma mulher chorona e tola. Deve ser Hinata, entupindo sua mente.

O ruivo ignora o último comentário, não se deixando irritar.

— Kankuro. Ela não deseja se casar, você ouviu. – Gaara continua, sério. Kankuro o ouve em silêncio, apesar dos olhos ainda raivosos. – De qualquer forma, Ibiki me contou que ela vem de Alto Céu. Será uma boa criada para Hinata, não tenho duvidas. – É claro, está mentindo outra vez. Ele tinha muitas duvidas, principalmente por causa do comportamento dela naquele dia, mais cedo, quando a encontrara atrás da pobre galinha. A graça e beleza de Hinata pediam alguma mulher mais modesta em seu comportamento, mas o que mais poderia dizer à Kankuro?

O chefe do Clã Sabaku balança a cabeça de um lado para o outro.

— Não. Ibiki não gostará disso. Eu não gosto disso.

— Pelo amor de Deus, a mulher queria ser freira!

— As mulheres não sabem o que querem! – Kankuro grita de volta, indignado. – Uma hora desejam o mundo e, na outra, nada as satisfazem. São seres volúveis, irmão. Garotas de vila desejam se tornar freiras por que parece o único destino seguro. – Enquanto fala, Kankuro rodeia a mesa, gesticulando com fúria. Os olhos de Gaara o seguem atentamente, até mesmo quando ele está há passo de distância e sua mão aponta para seu peito. – E essa também está cega por tal medo. Ibiki não a fará mal; não, de fato, melhorará sua vida.

Gaara ergue o queixo para encarar Kankuro, que é muito mais alto. Tem vontade de falar que, como ele também estivera, o mais velho estava completamente enganado. Ibiki a faria mal. Ela tinha sangue na mão e na cabeça, mesmo em seu pescoço gotas grossas escorriam da nuca. É verdade que, depois de casados, um homem tinha superioridade sobre sua esposa – mas tanto ele, quanto Kankuro, tinham sido criados de forma a respeitar as mulheres, a maioria delas, e nem um dos dois queria fazer mal à qualquer uma, quanto mais Ino, uma forasteira. E Gaara também reconhecia que tinha sido uma difícil decisão para Kankuro; Ibiki tinha alimentado e hospedado a estranha, sem tocá-la ou feri-la durante esses dias – qualquer outra teria ficado satisfeita e aceitaria se casar. A lei era muito clara sobre isso, o Morino tinha total direito de reivindicá-la como esposa.

Ino só tinha tido uma chance de se livrar de tal destino quando apostara, primeiro, em ser freira. Mínima chance, mas era alguma. Era um pedido reconhecido por todos da vila e Kankuro, que tinha visto o terror na garota ao se falar de casamento, poderia ter concordado. A segunda chance viera com o discurso que Ibiki tinha, sim, sido violento. Não era bem visto um homem que tratasse mal uma dama solteira. O grande problema era que a frase dela tinha sido uma mentira. E quando desmentida por Gaara, irmão do chefe, a coisa toda tomava outro rumo. Kankuro não poderia dizer sim a uma mentirosa. Por mais que, no fundo, ao ver o terror dela, talvez quisesse fazê-lo. Gaara tinha declarado a fortuna da garota.

E como se arrependia disso, Deus.

Como o irmão mais velho, também acreditava que Ibiki era um homem descente – e que talvez a pobre moça só estivesse nervosa. Ela era uma forasteira, afinak; era claro em sua voz e em como falara com ele, sem reconhecer seu sangue, quando se viram pela primeira vez. Gaara pensara que talvez ela só estivesse com medo e confusa. Mas a verdade era que o desejo dela de não se casar era verdadeiro, forte e estava apunhalando-a. Gaara fizera uma promessa silenciosa sob as palavras desesperadas da loira, então. Bem, agora que pensava nisso, talvez Ibiki não merecesse uma noiva tão...

Bem.

Era tudo o que queria dizer para Kankuro – explicar detalhe por detalhe, fazê-lo ver a verdade. Porém, seu tom de voz altivo, suas palavras de ordem e ódio, como se a opinião de Gaara em nada importasse para o chefe do clã, fizeram seus lábios franzirem. E, de repente, ele não estava ali só pela moça. Estava por si próprio também, mas com raiva. Tudo isso tinha o lembrado quando eles discutiram sobre outra loira – uma não com cabelos de sol, mas com fios que preenchiam o deserto infinito de Areia Vermelha e com olhos verdes profundos, lembrando a copa das árvores do Bosque da Meia-Noite. Ele semicerra os olhos sérios, erguendo o queixo, e murmura, perigosamente:

— Metade disso é meu, Kankuro. Ela não irá se casar.

A superioridade no olhar e na voz de Gaara fez com que a boca de Kankuro se fechasse numa linha reta. Suas sobrancelhas não se moveram, mas o ódio está lá, em seus olhos. Constantemente ele era lembrado disso, é claro, toda vez que olhava para os cabelos ruivos do irmão mais novo, que amava profundamente. Porém, lembrar-se era diferente de ter o fato esfregado contra sua cara. Sua mão se fecha em punho. Se o pai deles estivesse ali, teria rido do tão respeitado chefe do clã – talvez dissesse, em sua voz sempre fria e distante, que Gaara era uma escolha melhor.

Kankuro espanta esses pensamentos imediatamente. Não, a discussão não valia a pena nesse momento. Era uma noite feliz para eles brigarem por uma moça desconhecida. Gaara teria problemas com isso e, por tudo que Kankuro amava e tinha jurado, o ruivo lidaria com todos eles sozinho. O punho se desfaz.

Um sorriso irônico corta seus lábios, segundos depois deles se encararem, e Kankuro finalmente corta o olhar.

— Ótimo. Você quer tê-la? Tenha – murmura, numa graça fingida. Gaara não move um único músculo e outra risada irônica enche o ar. – No entanto, irmão, terá que lidar com Ibiki e com Neji por si próprio.

Gaara junta as sobrancelhas, virando-se para ver o mais velho com a mão na maçaneta da porta de seu escritório.

— Neji? – repete, sem entender.

— Sabe que é ele quem escolhe as criadas de Hinata – diz, óbvio, e abre a porta ainda rindo. Gaara suspira de insatisfação. Ah, sim. Tinha se esquecido desse detalhe.


— Desculpe – Gaara murmura, ao sair da sala e se chocar com alguém. A mulher, porém, segura em seu antebraço e olha para cima, o rosto sério. É preciso arquear a sobrancelha antes de reconhecê-la, uma vez que uma criada não deveria tocá-lo desse modo; bem, mas ela não era criada alguma.

— Kankuro está irritado – ela murmura, no corredor, sem soltá-lo.

Gaara olha para o lado esquerdo, para onde o salão de festas está, escondido depois de mais alguns corredores.

— Hm. Ele não está bebendo?

— É claro que ele está bebendo. – A mulher revira os olhos, sem evitar um sorriso. Esse, no entanto, logo desaparece em seu rosto pálido. – Contudo, eu posso ver em seus olhos. É como da última vez que...

— Não discutíamos sobre você, Temari – garante, colocando a mão delicadamente em seus ombros excessivamente magros. – Embora eu me pergunte como, exatamente, você soube que era eu quem tinha o chamado.

— Você é o único que teria coragem de estragar o sorriso dele numa noite assim, produtiva – explica, mais divertida do que deveria parecer. – Bom, o único depois de mim. – Os dois trocam sorrisos cúmplices, embora tristes.

Gaara encara a irmã mais nova por um segundo, um tom de brincadeira no olhar.

— Não é presunçoso imaginar que você é o único tema que eu e Kankuro teríamos para debater?

Temari revira os olhos, um gesto muito indecoroso para uma moça num vestido tão bonito.

— Vocês são os melhores amigos de uma vida. Eu sou o único tema sobre o qual vocês brigariam – diz, sem parecer magoada com isso. Há um pedido de desculpas mudo em sua voz, porém. Mas ela já tinha o repetido tantas vezes para Gaara, e ele já dissera outras tantas que não queria ouvir isso que, eventualmente, a loira tinha deixado de falar em voz alta.

Retirando a mão dela de seu antebraço, o ruivo as segura em suas próprias e, juntas, leva até os seus lábios, onde deposita um beijo simples nos nós dos dedos de Temari, olhando-a com carinho.

— Então talvez tenhamos descoberto um novo, irmã.


Ele abre a porta, com cuidado, após duas batidas suaves. É um pouco estranho ter que bater para entrar no próprio quarto, é claro, mas ele o faz mesmo assim. Qualquer alternativa teria sido indecorosa com Hinata. E com a loira, embora, hm, ela fosse indecorosa por si própria.

Quando ele finalmente entra, dois rostos se viram para si. Um é de Hinata, em pé sobre a lareira; é lá que está colocando uma bacia ainda com resquícios de água. Ela já não está usando luvas e é sempre incrível ver como sua pele é tão branca e leitosa. O outro rosto é de Ino, com o cabelo preso num coque desajeitado, a franja ainda trançada. Está sentada na beirada de sua cama. É impossível não demorar um pouco mais nela; talvez pelo estranhamento, afinal o rosto de Hinata já lhe é familiar, ou por que ela é incrivelmente bonita e tão diferente de todas as mulheres que Gaara já tinha encontrado.

Suna não era um lugar de loiras. Sua mãe e Temari, talvez, a pouca exceção – e muitos nem sequer as chamariam de loiras, na verdade, além de Temari odiar o termo. Os traços de Ino, tão marcantes e bronzeados, também lhe eram estranhos. Mesmo os olhos, de um profundo azul, mexeram com seu imaginário masculino. Ela era uma moça alta, corada de sol, que ficava bonita mesmo com os olhos perfurados por raiva ou dor. Considerando que Gaara estava no primor de sua masculinidade, tinha sido impossível não pensar em nada impróprio quando tinha a segurado em seus braços e o corpo dela estava tão próximo e a sua respiração descompassada tinha gosto de hortelã – o resto era um cheiro inebriante e metálico de sangue e suor feminino. Gaara nunca teria pensado que um aroma tão quente e cítrico poderia mexer com seus sentidos.

Ele tosse, desviando os olhos para ver que o pescoço dela está enfaixado, provavelmente por causa do ferimento na nuca, assim como a mão. Ele não tem ideia de como ela, ou Ibiki, fizera um corte tão profundo, mas algo lhe diz que irá descobrir logo, logo. Ibiki tinha desaparecido, mas ele duvidava que ela tivesse o matado – para ser sincero, se o tivesse, seria um problema a menos. Ele franze o cenho ao perceber o que está pensando. Cristo, o homem não merecia morrer. Não até onde ele sabia, pelo menos.

Gaara tosse contra a própria mão e encara Hinata, que lhe saúda docemente ao abaixar a cabeça.

— Preciso falar com você novamente, Hinata – pede, baixinho. Tem sorte de que todos os criados devem estar na cozinha, alguns até mesmo participando da festa, e ninguém passará por ali tão cedo. Bem, mesmo se passarem, ele duvida que tenham coragem de espalhar por ai que estava sozinho num corredor com a menina Hyuuga; ele certamente iria gostar de ver umas cabeças rolando se isso acontecesse. Hinata é cordial ao murmurar "é claro", e vir ao seu encontro no corredor. Ele não tem tempo de olhar mais para Ino, fechando a porta do quarto assim que a garota passa do seu lado.

É impossível não olhar Hinata e pensar que ela é só uma menina. É claro, ela é extremamente bonita e seu corpo revela que não tem idade de menina há muito tempo, mas é tudo o que Gaara pode pensar ao olhá-la. Ela é pequena e frágil, mesmo quando ergue seu rosto oval para encará-lo. Tem os olhos um pouco preocupados e passa-os rapidamente pelo corredor e suas duas saídas.

— Ninguém virá – Gaara garante e ela o olha imediatamente, corando ao perceber que tinha sido pega no flagra. – Pedi que dissessem a Neji que você está em seus aposentos.

Dessa forma Hinata parece mais calma e o agradece com o olhar.

— Obrigada, Gaara.

— Desculpe por tê-la pedido qualquer coisa, Hinata. Eu gostaria de ter chamado um criado, e, no entanto... – Ele suspira, resignado, e encara, sério, o canto do corredor por um segundo. Hinata, que está há dois passos dele, mexe a cabeça de um lado para o outro com muita empolgação.

— Não, não é um problema! Eu entendo perfeitamente – ela murmura, no seu fio de voz. É um progresso e tanto o que eles fizeram: antigamente, a garota ainda corava e balbuciava nada com nada quando os dois estavam juntos, quase sozinhos, só com a dama de companhia dela. Ela parecia sempre chateada, também, embora Gaara a entendesse. Atualmente, na presença dele, parecia um pouco mais leve e um pouco mais feliz. Ela encara o chão, por um momento, analisando a sua próxima fala, e Gaara espera pacientemente. – Sei que não deveria perguntar, mas... Foi o Sr. Morino quem fez aquilo, não foi?

Gaara franze os lábios.

— Isso não deve preocupá-la – diz, com cuidado, sem querer expor nada que Ino não tivesse dito. E também sem querer envolver Hinata nessa bagunça. – Gostou de Ino?

Hinata parece um pouco intrigada com a pergunta, mas sorri, feliz, ao responder.

— Ela é muito agradável. Não parou de repetir que nunca tinha visto olhos como os meus, e que eu estava sendo muito "bacana" ao cuidar dos ferimentos dela. – Ela fica pensativa por um instante. – Embora eu não tenha ideia do que "bacana" é, e de me perder um pouco nas suas palavras.

Gaara fica aliviado. Tinha tido medo que Ino fosse grossa e mal educada com a Hyuuga como tinha sido com ele – saber que Hinata tinha gostado dela, então, facilitava o seu plano de colocá-la como criada. Não sabia muito bem o que faria com a garota se Hinata não a quisesse. O humor de Temari era tão curto quanto o de Ino parecia, Hana já tinha criadas demais e Kankuro não permitiria queIno fosse colocada como criada da casa Sabaku. Na vila sul, a loira teria um grande problema com todos e principalmente com Ibiki. Talvez a norte fosse um lugar melhor, mas então ele não poderia protegê-la de Ibiki para sempre.

Ele ri ao ouvir a última parte e, mesmo sabendo que Hinata também estava na oitiva e ouviu, resolve reforçar:

— Ela não é daqui. Mas consegue entendê-la?

Hinata concorda com um aceno positivo.

— É claro.

Ele sorri satisfeito.

— Pensei sobre o que comentou comigo outro dia. Sobre estar rodeada de criadas velhas, desde que Neji se desentendeu com a sua última dama de companhia, aquela... – Gaara não é capaz de se lembrar do nome, uma vez que, na verdade, estava pensando sobre cavalos e prostitutas, não exatamente nessa ordem, quando Hinata lhe contara o caso. Era além da compreensão dele como mulheres gostavam de discutir sobre criadagem.

Hinata arregala os olhos e fica absurdamente vermelha, fechando as mãos na saia do vestido.

— Eu n-não queria p-perturbá-lo, eu... – ela começa, constrangida. Tinha divagado sobre os próprios problemas da última vez que Gaara e ela estiveram juntos, já que ele estava entretido escrevendo uma carta; Neji já tinha achado aceitável que eles se vissem sozinhos pelo dia, desde que fosse em cômodos abertos. De qualquer forma, não achava que Gaara realmente estava ouvindo-a.

Sabia que não deveria ficar se queixando para os homens, era de extremo mau gosto. Nem Neji, que era o mais paciente que ela conhecia, gostava de ouvi-la sobre seus problemas femininos. Aliás, muito menos sobre suas criadas, já que era ele próprio quem as escolhia e tinha decidido, de uma vez por todas, que nenhuma delas teria a idade de Hinata ou ao menos perto. Isso a deixava extremamente incomodada. Hana e Temari tinham criadas jovens, com quem podiam discutir sobre tudo. Mas se Hinata abria a boca para falar um só A, as senhoras tinham sido instruídas a respondê-la vagamente, com "hm" e "aham" que, de acordo com Neji, não iriam "influenciar a mente instável e jovem demais de minha prima".

Agora, aparentemente, Gaara estava a par de tudo isso. Ele a cala com um sorriso simples.

— Não é um problema, eu não desejo vê-la magoada. Acha que Ino é suficientemente jovem para acompanhá-la?

O rosto da garota se ilumina e suas bochechas ganham um novo tom rosado de felicidade, que também cintila a ponta do seu nariz e a faz sorrir imensamente. Ela tinha ouvido certo?! É inacreditável.

— Sim! – Oh, sim! A loira não deveria ter mais do que três ou quatro anos do que ela, Hinata, que tinha acabado de completar 18 anos há alguns meses. Tinha desejado ser feira, como ela também. E parecia de tanta personalidade, como, como... O sorriso de Hinata quase some ao se lembrar da última criada, Tenten. Bem, como Tenten. Mas se era Gaara quem tinha decidido, então o primo não poderia simplesmente dispensá-la, poderia? Poderia...? – É claro que ela é.

— Ótimo. Está decidido, então. Ela será sua nova criada, é um presente meu.

Uma das mãos de Hinata vai parar sobre o lábio inferior, trêmulo de ansiedade. Gaara quase pode ver o desenho dos dentes sobre os lábios, o brilho úmido de sua saliva.

— Mas meu primo, ele...

Delicadamente, Gaara coloca um dedo sobre os lábios dela, que formam um pequeno bico trêmulo ao olhar para baixo. Ele contém a vontade de franzir o cenho. Sim, olhar Hinata era como olhar para Temari, sua irmã mais nova. Ele sorri de forma contida, balançando a cabeça.

— Vou cuidar disso.

Quando tudo parece decidido e o ruivo quase suspira de alívio, Hinata franze as sobrancelhas.

— Ah! Mas eu não poderia. Ela deseja ser freira, Gaara. Mesmo que sua presença fosse me alegrar imensamente, e iria, de fato, ninguém deve permanecer onde o coração não está.

O ruivo a olha por um momento, a mão já distante dos lábios dela, e se pergunta, lá no fundo, se a pobre moça não está falando de si mesma. Ele tentava o seu melhor para se dar bem com Hinata e, no geral, a intimidade entre eles avançava de uma forma boa. Ela era educada, gentil, tão inteligente quanto poderia ser. E, mesmo assim, ela sempre parecia um passo atrás dele – mas não de uma forma feminina, como deveria ser, mas de uma forma pessoal.

— Ela me pediu pessoalmente por um lugar onde ficar, Hinata. – Era mentira, mas estava fazendo o melhor que podia pela consciência da menina e pelo bem de Ino. – Quero que fique apenas satisfeita, está bem?

E Gaara reprime um sorriso gentil, ao ver que a Hyuuga está reprimindo seus pulinhos e palmas de alegria.


A garota Hyuuga era, pessoalmente, tão bonita quanto Ino poderia ter esperado que ela fosse. É verdade que Sakura era uma grande fã dos Uchihas, mas, no futuro, era o nome Hyuuga que tinha prevalecido forte, vivo e rico – era uma rede famosa de joalheria. Uma da qual Ino só tinha tido a chance de ter um colar e pulseira para chamar de seus aos 19 anos, graças aos super preços. Ver Hinata pessoalmente e pensar que, futuramente, todas as joias seriam baseadas em olhos já inexistentes, mas que ela ainda carregava com gentileza no rosto, era a coisa mais... mais... legal que Ino já tinha tido a chance de experimentar!

Era como conhecer a própria Donatella Versace. Hã... Algo do tipo.

Ino ainda estava tentando processar isso, sentada na cama por causa da dor nas costas. Uma vez tinha pensado que os Hyuugas tiveram origem na Areia Vermelha – ou a atual Suna, para ela. Sakura e seu professor de história, Aoba, tinham deixado bem claro que, apesar de ser um erro comum, não era a verdade. Os Hyuugas eram da Folha, obrigada, e antigos aliados dos Uchihas – nesse caso, a ruptura tinha acontecido recentemente. Ino não poderia ter certeza, mas talvez H. Hyuuga fosse o avô de Hinata? Talvez seu pai. Era 1740. Se fazia algo entre 10 anos que Fugaku e Kagami tinham morrido, tinha sido também por essa época que Madara e H. – cujo nome Ino não era capaz de se lembrar – tinham brigado. O que culminou na tomada das terras dos Hyuugas na Folha e na sua consequente associação com o clã Sabaku, que poderia usar as propriedades Hyuugas em territórios próximos a Folha que ainda não tinham sido tomados – Ino não se lembrava se o fato acontecia ou não. Bem, essa mudança histórica dos Hyuugas para Suna era chamado de Sexto Acordo, até onde ela sabia.

De qualquer forma, ter a chance de ver àqueles olhos perolados tinha sido único. Apesar de ser um fato comum ao clã Hyuuga, até onde Ino recordava, o fim do casamento dentro da família, como os Uchihas também fazia, tinha culminado na extinção dessa cor única, lentamente vencida por tons de castanhos, verde e azul. Era uma pena. Se uma mulher já era tão bonita, Ino mal poderia imaginar como eram os homens.

Ela suspira frente ao silêncio, o fogo seu único amigo. O quarto já está abafado, já que a fresta da janela é a única coisa aberta, porém, mesmo assim, Ino passa as mãos pelo antebraço, tomando cuidado com a única machucada. Ela dá uma olhada na palma, franzindo os lábios. Será que Ibiki já tinha se recuperado de seu golpe? Tinha sido feio. A cabeça dele estava cortada. Ele deveria estar irado, gritando seu nome por ai, fazendo promessas de feri-la. O pensamento faz com que Ino se arrepie o peso do anel em seu sutiã fique maior. O anel, ele...

Ela ergue a cabeça de repente, o barulho da porta sendo aberta. Espera ver os babados do vestido de Hinata, no entanto tudo o que encontra são as botas de montaria e as calças escuras, as coxas se destacando sob o tecido. Ino morde o lábio inferior e sobe o olhar para vê-lo abrir o restante de botões do casaco também vermelho – qual era a da obsessão por essa cor, hein? – e suspirar. Gaara fecha a porta, mas Hinata não entrou com ele. Sem saber bem o porquê, Ino fica de pé imediatamente. Ele a olha de canto, sem expressão nenhuma.

— Hinata me contou que está dolorida. Pode permanecer sentada.

Só por que ele tinha a levado daquele pesadelo, trazido-a para um quarto confortável e tê-la sido cuidada pelas mãos de uma Hyuuga gentil e habilidosa, achava que ela confiava nele? Ino dá uma olhada meio mal criada para Gaara, que é seguido de um levantar de sobrancelhas dele, do tipo "você não pode estar falando sério". Ela olha para a cama confortável e quentinha logo depois e faz um som com a garganta, se sentando. Quase levanta ao ouvir o som da risada dele, mas não estava brincando quando dissera que tudo doía.

— O que é isso? Algum tipo de tratamento pré-nupcial? Eu dispenso – Ino diz logo, irritada. Gaara a encara, movendo-se até a lareira e sendo seguido pelo olhar azul e atrevido. É difícil olhar para os dedos dela, os da mão não enfaixada, e lembrar-se da loira segurando em si, os pés sobre as pontas, o nariz quase contra o seu. O olhar frágil. Não parece em nada com essa loira, outra vez irritada. – Vai me enfiar num ofurô de rosas e depois uma massagem com pedras quentes? Não, espera, vocês não tem isso aqui. É pedirdemais – ela continua, sarcástica.

Gaara franze o cenho, tentando não rir. Já é difícil de entendê-la e ela ainda usa palavras que ele nunca ouviu antes. Ibiki tinha dito que ela vinha de Alto Céu, e ainda assim... A risada some imediatamente, mas ele prefere não processar os pensamentos ao olhar os fios loiros e desalinhados, ainda que bonitos, que ela jogou para as costas ao desmanchar o coque. É melhor não deixar sua mente ser criativa demais.

— Hinata também me contou que você foi agradável com ela. Presumo que a Srta. Hyuuga estivesse delirando.

Ino estreita os para ele.

— Ela é uma boa pessoa que merece todo o carinho do mundo, ao contrário de você.

Gaara cruza os braços sobre o peito, olhando-a. Talvez ele merecesse isso, no fim das contas. Essa raiva dela. Desde que a conhecera pela manhã, caçando uma maldita galinha, a loira já não era a mais dócil das criaturas – depois de quase forçá-la a se casar, quando clamava que queria ser freira, então? Ele pisca por um momento e suspira.

— Você não irá se casar.

As palavras fazem com que Ino se levante automaticamente, quase como se seus músculos já não tivessem dor alguma. De olhos arregalados, ela precisa passar a língua sobre os lábios antes de dizer:

— Como?

O choque dela é evidente. Realmente tinha pensado que ele a trouxera só para amaciar a carne e então entregá-la ao lobo? Não fique com raiva, Gaara precisa pensar. Ela era uma forasteira. Não o conhecia e não entenderia que ele nunca faria tal coisa. Tinha quase a mandado para o casamento, é verdade, mas por que Ibiki era de grande valor para os Sabaku, tomando conta da vila sul sem pedir nada em troca, e por que achara que ela estava simplesmente sendo excessivamente dramática, como a maioria das mulheres era. Também sabia que não tinha sido bom tê-la tirado de Morino, mas resolveria isso mais tarde, se Deus o ajudasse.

— Não irá se casar com o Sr. Morino. A não ser que tenha mudado de ideia...

— Não! – ela solta imediatamente, ainda parecendo em choque, mal o deixando terminar a frase. – Não quero me casar!

Gaara acena positivamente, assistindo-a. Devagar, encarando algum ponto que não deve estar, de fato, vendo, seus joelhos se curvam até que seu traseiro esteja de volta ao colchão. Uma mão passa sobre a outra. É algo como alívio e duvida que transparece em sua face. De repente ela o olha, cheia de esperanças e diz, num fio de voz que não parece pertencer à mesma garota sarcástica de minutos atrás:

— Então eu... Eu estou livre...? – Ela engole ao seco ao terminar de falar.

É preciso que Gaara continue extremamente sério, sem vacilar em sua decisão. Não podia simplesmente deixá-la ir. Para Kankuro ter, realmente, permitido, ele tinha que ter achado um valor qualquer para a moça, também uma desculpa para dar à Ibiki. Se a deixasse ir, os dois estariam furiosos com toda a razão e seria dever dele arranjar uma nova noiva ao camponês. Por mais que se mostrasse orgulhoso sobre sua posição, ainda respeitava completamente a liderança do mais velho. É como as coisas devem ser.

E, também, Gaara não queria que ela fosse. Uma duvida espreitava em seu peito toda vez que encara os grandes olhos azuis e o brilhante cabelo loiro. Uma duvida que não o fazia menos desejoso da beleza dela, mas que alertava seus sentidos de guerreiro e de membro de suma importância do clã Sabaku. Um motivo que, claro, não poderia contá-la.

— E para onde iria? – questiona, cuidadoso. A loira faz uma careta e franze os lábios, sua resposta demorando alguns segundos mais do que deveria.

— Para... Para o Convento de Santa Lid... Lid... hã...– Ino solta uma suspiro de raiva.

— Santa Lidvina – Gaara a ajuda e ela tosse, murmurando um "exatamente". Seu rosto parece estranhamente aliviado. Mesmo assim, ele dá um passo à frente: — E, no entanto, esse convento fica na cidade de Tiwold, próximo ao Castelo de Ferro, residência dos...

— Dos Fuumas. – Ino o interrompe, altiva, um pouco orgulhosa do que está falando. – É claro. Eu sei. Ia trabalhar para a Senhora de lá e viraria freira tão cedo quanto ela permitisse, mas houve alguns... Imprevistos no caminho. Foi como vim parar aqui.

Gaara absorve a história, olhando-a nos olhos. Ela não desvia o olhar ou pisca, mas seus lábios estão trêmulos. De dor, talvez? Ele suspira.

— Sinto muito, você não pode ir. Eu convenci meu irmão a cancelar o casamento, contudo precisei de motivos para tal. Você deve ficar e ser criada de Hinata. – Ino abre a boca para protestar, mas Gaara não a deixa falar: — Ou pode se casar com ele, como preferir. – A loira fecha a boca imediatamente e franze o cenho, um pouco enojada. Gaara fica satisfeito. Aos poucos, porém, a expressão dela passa para uma aceitação sem esperanças, magoada.

Ino tinha se livrado de um casamento, mas agora serviria de criada para alguém – mesmo que esse alguém fosse tão dócil quanto Hinata. Ela não estava livre, que era o que realmente desejava. Não estava livre para voltar para Konoha, colocar o anel sob uma maldita lua cheia e fazer com que ele a retornasse para o futuro, que era onde Ino realmente pertencia: com celulares e banheiras. Com seus pais. Com a sua faculdade. Gaara não pode ler nem metade dessas coisas no rosto dela, mas está decepcionada e é muito claro. Ele suspira.

— Pense nisso como... Como com a Sra. para quem você trabalharia. Areia Vermelha também tem um mosteiro, e tenho certeza que, daqui a algum tempo, você poderá seguir seus... Anseios religiosos – murmura, tentando animá-la um pouco. É impossível evitar uma careta, no entanto, ao imaginá-la como uma noviça. O hábito cobrindo seu longo e espesso cabelo loiro. Ele tenta expulsar os pensamentos ao virar-se para trás e ver as luvas de Hinata, que tinha esquecido ali, em cima da lareira. Têm um cheiro doce de mel e sabonete. Algo como flores, também.

A Yamanaka ergue suas íris, encarando as suas costas largas por baixo dos cílios. "Daqui a algum tempo", ele tinha dito. O gosto de hortelã vai, lentamente, se desfazendo na sua boca. Ela não se desvia dos cabelos ruivos, concordando que sim, daqui a algum tempo ela estaria fora dali. E, no entanto, seria muito menos do que ele poderia dizer.

Muito menos.