Título: A Máscara
Dourada
Autora: Kwannom
Censura: M
Gênero:
Ação/Aventura/Romance
Betas: Winsome Elf
(capítulos 1 - 6), Rainien (capítulos 7 - 15 - ?) e
Wenont (capítulo 16 - ?)
AVISOS: Violência e
sexo explícitos
Disclaimer: Eu não sou
proprietária de nada do Senhor dos Anéis. Todos os
personagens e nomes de lugares mencionados pertencem a JRR Tolkien.
Eu não pretendo, nem estou tendo qualquer ganho financeiro com
a criação dessa história. Apesar disso, os
personagens originais - Haleth, Siward, Wilrog, Seyton e outros - são
meus e ninguém tasca :D
Linha temporal: Ano 3429 da
Segunda era, um ano antes da Última Aliança. Universo
Alternativo. Seguindo, principalmente, o livro, mas tem um pouco de
filme também.
Sumário: Sauron está em
posse do Um Anel e a Terra Média está em guerra. Elfos
e Homens decidem formar uma aliança contra o Senhor do Escuro
e estão procurando por grandes guerreiros provindos das duas
raças para liderar seus exércitos. Estes guerreiros são
Os Escolhidos. Haldir é então enviado para vigiar um
guerreiro humano chamado Máscara Dourada e provar que o Homem
pode ser um desses líderes. Nesse meio tempo, Haldir tem que
se preparar para a batalha de sua vida e lidar com a descoberta de
algo que vai mudar o futuro.
UMA DIFÍCIL DECISÃO
Quando entraram na casa de Varin, Haleth e Siward encontraram mulheres da aldeia já trabalhando lá dentro. Elas haviam preparado os remédios que ajudariam a curar a Comandante. Logo depois de lhes mostrarem o aposento aonde Siward poderia tratar a companheira sem ser incomodado, as mulheres os deixaram a sós, pois teriam que sair para preparar mais remédios para os soldados feridos. Todas elas sabiam que Haleth não permitia que ninguém além de Siward tratasse de seus ferimentos.
Haleth estava esgotada física e emocionalmente. Ela deixou-se cair sentada numa cadeira, desfazendo a máscara de determinação que tinha usado para não chorar diante de todos. A visão de Wilrog naquele estado, completamente controlado por Sauron, tinha sido demais para ela. Ah, Valar, eu ainda amo você Wilrog... Encarar aqueles olhos verdes a lembrou mais uma vez disso. Apesar de menos intenso do que antes, o amor que ainda sentia e a ânsia por seu toque ainda estavam presentes dentro de Haleth.
Depois de tudo o que você fez... Eu quase morri de desgosto por sua causa, Wil! Haleth estava confusa. Quando ele a havia deixado, ela havia se transformado em nada, em um recipiente vazio. Wilrog tinha transformado todos os seus sonhos em pó. Sonhos de ter uma família só dela, com o Homem que amava ao seu lado. Haleth nunca desistiria do exército, mas aqueles eram seus sonhos. E ele tinha destruído todos eles. Parte dela o odiava por fazer isso, mas agora ela só conseguia pensar em segurá-lo em seus braços novamente, beijar aqueles lábios macios e deixar que os dedos longos e as belas mãos de Wilrog tocassem o seu corpo.
Apesar disso, em uma reação surpreendente, sua pele se ruborizou diante da lembrança do toque do Elfo. O que há de errado comigo, pelo amor dos Valar?
Mate Wilrog, falou a voz da razão. Mate-o e livre-se desse sofrimento.
Haleth considerou aquela opção por alguns momentos. Seria tão mais fácil para todos eles se Wilrog morresse, mas ela não tinha coragem suficiente para fazer aquilo. Não enquanto ainda o desejava de maneira tão forte. Talvez se não tivesse restado nada do verdadeiro Wilrog dentro daquele rapaz, ela teria sentido de outra forma.
Como poderia decidir sobre o destino do garoto? Todas as opções que lhe tinham sido oferecidas pareciam ser igualmente desoladoras. De qualquer forma, ela o perderia para sempre. Isto era o que queria? Haleth não sabia. Ser uma Comandante é realmente... difícil.
"Oi, Hal, você está aí, ou é impressão minha? Estou pedindo para você esticar a perna."
Haleth foi trazida de volta de seus devaneios pela voz impaciente de Siward. Ele já devia tê-la chamado algumas vezes.
O Homem notou a mudança no semblante da mulher, mas controlou a vontade de dizer alguma coisa e permaneceu em silêncio. Ela nem mesmo está olhando pra mim! pensou ele. Siward olhou de relance para a bela face de Haleth com um ar de desaprovação. Os olhos negros dela pareciam estar mais uma vez perdidos em algum lugar distante dali, apesar de ela lhe responder alguns momentos depois.
"Me desculpe, Siward."
Haleth estendeu sua perna tentando esvaziar a mente e não pensar em mais nada. Observar a movimentação de Siward pareceu ser capaz de distraí-la mesmo que por pouco tempo. Ele começou por sua bota e a removeu. Com a ajuda de uma faca, rasgou a perna da calça que estava ensopada de sangue e deu uma boa olhada no ferimento. A pele estava inchada e arroxeada em volta do corte feito pela lâmina da espada do Orc. Siward lavou as mãos e tocou no local intumescido para ver a extensão do dano interno. Quando começou a lavar o corte, Haleth estremeceu de dor.
Pelas correntes de Melkor, como isso dói! Agindo por reflexo, ela tentou tirar a perna das mãos de Siward que a impediu delicadamente de se soltar, continuando a sua tarefa. Dando mais uma olhada no ferimento agora lavado, Siward, que estava agachado até então, puxou uma cadeira e sentou na frente dela. Seu rosto estava sério quando falou.
"Sinto dizer que você tem um pedaço de lâmina bem grande alojado na perna, mas o ferimento não está envenenado. Acho que há alguma espécie rara de imunidade contra veneno de Orc no seu sangue."
O silêncio que recaiu sobre a sua geralmente falante amiga perturbou Siward. Não importava o quanto ela tentava esconder sua tristeza, ele sempre sabia o que estava se passando dentro da mente de Haleth. Se Wilrog a tinha afetado tão profundamente, com certeza ela não seria capaz de fazer o que deveria ser feito. Nem com suas próprias mãos, nem através das mãos de outros.
Haleth balançou a cabeça e fechou os olhos, triste e exausta. O jeito como Siward a estava encarando fazia com que se sentisse desconfortável. Haleth já deveria saber que não conseguia esconder nada dele. Não depois de tantos anos juntos. Uma vez Siward a amou, como um Homem ama uma mulher, mas ela só tinha olhos para Wilrog. Agora Siward estava casado com sua irmã Raihza; eles tinham um lindo filho de quatro anos. E eu estou sozinha.
"Odeio Orcs..." Haleth disse com uma voz cansada, forçando-se a dar um sorriso irônico.
Siward sorriu, mas seu rosto não demonstrou nenhum sinal de alegria. Ele então voltou seu olhar para a perna que estava estendida à sua frente e continuou o trabalho, retirando aos poucos o fragmento da lâmina negra de dentro do ferimento. Mas que diabos! Ele está tentando tirar uma espada inteira da minha perna?
De vez em quando Siward sentia o corpo de Haleth estremecer, mas ela não fez nenhum som. Quando finalmente retirou todo o fragmento de lâmina e começou a cobrir o local com uma bandagem, Siward não se conteve mais e lhe fez a pergunta que o incomodava há algum tempo.
"O que você pretende fazer com Wilrog?"
Depois de um longo momento em silêncio, Haleth aproximou seu rosto de Siward, olhando diretamente para os olhos cinzentos do amigo, e retrucou.
"O que você acha?" ela disse arqueando a sobrancelha elegantemente.
Aquela pergunta o pegou de surpresa. Apesar do que realmente sentia, Siward não teria coragem de dizer abertamente o que achava. Pensou um pouco antes de responder, tentando não desviar o olhar daqueles perturbadores olhos negros.
"Eles o querem morto e você ouviu o que o Elfo disse." Siward fez uma pausa, ponderando o que ia dizer para não magoar ainda mais a mulher. "Haleth, você já sabia que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde no dia em que Wilrog te abandonou." Siward respirou profundamente. Não acredito que eu disso isso! Ela vai me matar! Agora a única coisa que ele poderia fazer era esperar pela explosão de raiva que com certeza aconteceria.
Haleth estremeceu de ódio, quase sem conseguir se controlar. Siward poderia ser seu amigo, mas ele não tinha o direito de falar com ela daquela maneira. Eu direi a ele o que realmente penso de uma vez por todas!
"Wilrog não me abandonou. Ele apenas fez o que achou que estava certo naquela cabeça desvairada dele." Siward fez menção de falar alguma coisa, mas Haleth o interrompeu. "E além do mais, Siward, uma coisa é você imaginar que algo vai acontecer. Vê-la acontecendo diante dos seus olhos é completamente diferente. Eu nunca pensei que fosse ser tão difícil. Nunca passou pela minha mente que se eu tivesse que matar Wilrog, eu não o faria. Nunca. Mas quando vi o rosto dele, Siward, o rosto do Homem que me amou tanto e que eu amo tanto, tudo que eu havia planejado se transformou em pó. Não vou negar que ainda tenho esperanças de recuperá-lo. Se ele estivesse totalmente dominado pelos poderes malignos de Sauron, eu não teria sobrevivido ao seu ataque."
O Homem terminou de cobrir o ferimento de Haleth e se recostou na cadeira, encarando-a. Como ela pode ser tão ingênua? Não foi à toa que Wilrog, um pirralho muito mais novo do que ela, conseguiu seduzi-la. Sem querer, as palavras que eram para terem sido apenas pensamentos saíram de sua boca. Siward obteve como resposta para o seu lapso um tapa no rosto que o deixou com o lado esquerdo da face vermelho e ardendo.
Depois de alguns momentos lutando contra o desejo de bater nele mais uma vez, Haleth se acalmou, pois precisava saber o que Siward queria desesperadamente. Ela colocou delicadamente sua mão na face machucada de Siward, uma carícia que fez com que o corpo do Homem estremecesse. Os olhos dela pediam por seu perdão, mas a pergunta que saiu de sua boca foi seca e sem traços de qualquer sentimento. Ela era a Comandante mais uma vez.
"Você quer que eu o mate, Siward?"
Relutantemente, Siward afastou a mão que lhe tocava gentilmente o rosto, tentando clarear os pensamentos que pareciam ter ficado sem foco.
"Sim, eu quero que ele morra. É o que um traidor como ele merece. Não me interessa o que aconteceu entre vocês dois. O que realmente importa é que há muitos corpos de amigos meus lá fora por causa dele e você, como nossa Comandante, deveria respeitar a lei e puni-lo de acordo."
Siward se levantou abruptamente, antes que dissesse mais alguma coisa da qual pudesse se arrepender depois, mas Haleth o conteve pelo braço antes que o Homem cruzasse a porta.
"Se ele morrer, eu vou precisar de outra pessoa para ser meu segundo em comando, meu capitão. Quem você acha que deveria ser essa pessoa?"
Siward demorou menos tempo do que Haleth imaginava para responder a sua pergunta. Ele apenas lhe lançou um olhar vazio e falou friamente.
"Eu não sei. Só espero que você escolha melhor dessa vez," e saiu, deixando Haleth sozinha.
H&H&H&H
Fora da casa de Varin, Haldir se encontrava sentado perto do fogo com sua aljava de um lado e sua espada de outro. Ele observava a vila em silêncio, seus profundos olhos azuis procurando por qualquer sinal de perigo. Haldir tinha enviado Saeros junto com alguns soldados élficos para fazer a ronda noturna e depois que tinha acabado de realizar suas obrigações, ele se sentou ali, observando e pensando nos acontecimentos do dia.
Haldir tinha muito sobre o que ponderar. Enquanto a vitória tinha sido conseguida a um preço muito alto, Homens haviam sido salvos e a chegada dos Elfos tinha provado ter sido decisiva. Não havia mais nenhuma razão para que o seu exército permanecesse na vila, por isso Haldir havia enviado uma águia para Lothlórien informando ao Senhor e à Senhora sobre a situação e pedindo instruções. O fato de que o pedido de ajuda tinha partido de Gil-galad e não do próprio Elendil ainda estava presente em seus pensamentos.
Algo de realmente sério estava para acontecer. Ele concluiu que, finalmente, o rei dos Homens e o rei dos Elfos tinham percebido que somente juntando suas forças mais uma vez poderiam impedir que Sauron escravizasse toda a Terra Média. Talvez as velhas alianças entre Homens e Elfos devessem ser restauradas. Talvez nós devêssemos nos juntar mais uma vez para lutar contra nosso inimigo comum, pensou Haldir, apesar de seu preconceito contra os humanos. E então, quase contra a vontade, ele reconheceu: Ainda há valor e honra para serem encontrados entre os Homens. Ou mulheres, pois ele estava pensando em Haleth...
Haldir se levantou e começou a caminhar pela vila. O rosto da mulher estava dançando em sua mente e ele sentiu uma necessidade desesperada de vê-la mais uma vez. Haldir ainda não admitiria para si mesmo que a bela Comandante tanto o havia cativado, como intrigado. Uma mulher capaz de exercer liderança não era estranho, a própria Senhora era uma delas. Mas a força que Haleth possuía não tinha nada de comum. Ele não estava falando de força física, mas de algo mais profundo. Quando Haldir havia se aproximado dela pela primeira vez, ele pôde sentir o poder extraordinário emanando dela, algo que estava conectado com a própria energia da terra e que percorreu sua espinha quando ele a tocou. Os olhos de Haleth refletiam a mudança do mundo e brilhavam com as suas lágrimas não derramadas.
Enquanto caminhava, Haldir pôde perceber os olhares curiosos dos mortais recaírem sobre ele. Aquilo o fez lembrar da primeira vez que o rei Élfico Finrod encontrou Homens quando saíra para caçar em Ossiriand, bem no início das Eras. Mortais e Elfos tinham pouco em comum e Haldir pensou como uma raça tão fraca tinha conseguido sobreviver por tanto tempo. Aos seus olhos, os Homens eram como crianças perdidas no mundo. Facilmente corrompíveis, rudes e ignorantes. Entretanto, o próprio Haldir havia conhecido alguns humanos que ele poderia ter chamado de amigos.
Haldir sabia que teria que se envolver com aquela raça menor mais uma vez, mesmo que a idéia não o agradasse. Ele teria que fazê-lo, se uma aliança entre Elfos e Homens contra Sauron fosse realmente formada. Talvez tudo isso fosse uma oportunidade para compreender aquelas crianças, para compreendê-la, ou mostrar a elas o poder superior dos Elfos.
Quando a lua já estava alta no céu, o descanso chegou para Elfos e Homens. Haldir se encontrava mais uma vez sentado, sua cabeça recostada sobre um muro que havia sido parcialmente destruído. Os olhos azuis bem abertos enganavam os Homens que pensavam que ele estava acordado. Aquela era a maneira dos Elfos dormirem – fechar seus olhos lhes dava a mesma sensação de morrer. O último pensamento de Haldir, antes que ele fosse envolvido pelo sono élfico, foi o belo rosto de Haleth olhando diretamente para ele com aquela força estranha que ela possuía.
Horas depois, Haldir escutou algo.
Um barulho suave feito por alguém que estava mancando. Seus olhos entraram em foco novamente e seu corpo ficou completamente alerta.
Aquele andar poderia pertencer a qualquer um dos Homens feridos, mas Haldir tinha certeza de que pertencia a Haleth. Ele fingiu estar dormindo e a observou com atenção. A mulher passou por ele, o cabelo selvagem e cacheado estava solto, dançando nas costas dela com o toque do vento, e o perfume de flores que os fios exalavam quase fez Haldir perder a respiração. Ele foi assolado por um desejo repentino de enterrar seus dedos naqueles cachos e testar sua maciez, mas uma outra parte dele o lembrou de que qualquer elleth era mais bela do que aquela mulher. Haleth não estava à sua altura. Afinal de contas, ele era o grande Capitão dos Galadhrim da Floresta Dourada.
Os pensamentos de Haldir foram interrompidos quando Haleth parou de súbito a apenas alguns passos de distância de onde se encontrava e voltou o olhar negro sobre ele. Haldir não se moveu e continuou sentado – os olhos fingindo estarem desfocados. A voz macia de Haleth chegou aos seus ouvidos e ele quase estremeceu.
"Eu sei que você está acordado. Não interfira."
A veia de Haldir pulsou em sua testa. Como ela sabia?
Então Haleth voltou a andar. Alguns segundos depois, os olhos de Haldir piscaram e ele virou sua cabeça para onde Haleth estava indo. Que tipo de insanidade você planeja fazer, mulher? pensou ele. Haleth foi até onde Wilrog estava sendo aprisionado. Depois de uma ordem, a sentinela se foi, deixando a mulher livre para entrar no aposento. Ela trancou a porta atrás de si e Haldir não pôde mais ver o que estava fazendo.
Queria tanto segui-la, sua mente gritando para que fizesse exatamente isso, sentindo que algo ruim estava para acontecer, mas Haldir decidiu que não. Ele manteria sua distância, confiando que seus ouvidos sensíveis iriam captar qualquer barulho estranho vindo de dentro da casa. Ele se levantou e procurou sua aljava e seu arco; se Haleth fizesse algo estúpido, todos poderiam ser mortos antes que o sol se levantasse mais uma vez no céu. Pensando assim, ele se preparou.
Haldir não interferiria naquele momento, mas se o garoto tocasse nela... Eu o mato.
H&H&H&H
Dentro da casa, Haleth encostou sua testa contra a porta e respirou profundamente. Eu posso fazer isso, ela disse para si mesma, sem convicção. Naquela noite, havia tentado dormir em vão. Sua mente estava cheia de pensamentos e sentimentos confusos e em certo ponto ela havia decidido ir ver Wilrog. Haleth queria olhar para os olhos dele e ter certeza de que o garoto estava totalmente perdido antes que fizesse o que tinha de ser feito. E o Elfo... Ela não entendia porque ele a afetava tanto. Era algo estranho, inesperado… Haleth se recompôs e entrou no quarto escuro.
Tudo estava estranhamente silencioso. Onde está o guarda que deveria ficar aqui dentro? ela se perguntou. Os pêlos de trás de sua nuca se eriçaram, pressentindo o perigo. Haleth vasculhou o aposento com o olhar antes de caminhar lentamente até o local onde a sentinela deveria estar. Seu coração estava acelerado dentro do peito e seu corpo se estremeceu diante da visão de uma massa contorcida a um canto da parede de pedra nua. Lembrava vagamente um dos guardas que vigiavam Wilrog. O Homem havia sido estrangulado. Haleth moveu a mão para o cabo de sua espada, mas um sussurro maligno a fez mudar de idéia. Balançando a cabeça, ela tentou se concentrar, mas a tarefa havia se tornado difícil demais.
Um frio de medo percorreu sua espinha ao notar agora que as correntes que deveriam estar segurando os braços do prisioneiro jaziam vazias no chão. Antes que pudesse quebrar o feitiço e pegar sua espada, uma mão forte saiu das sombras e agarrou firmemente seus cabelos enquanto a lâmina fria de um punhal entrou em contato com o seu pescoço. A carícia maligna da pequena arma cortou a carne tenra e fez descer um filete de sangue quente pelo seu colo, que escorreu por sobre suas roupas. Haleth sentiu a respiração pesada de seu agressor queimar-lhe o pescoço enquanto sua cabeça doía, tal era a força com que os dedos de Wilrog puxavam os fios de seu cabelo.
"Jogue sua espada o mais longe possível sobre o feno, mulher, não quero surpresas," disse Wilrog em um sussurro quase inaudível. Ele não queria que nenhum daqueles Elfos desgraçados aparecesse para impedir sua fuga. Já bastava a mulher para ele se preocupar, mas Haleth era só uma mulher. Eu poderia acabar com a vida dela facilmente... Talvez até pudesse me divertir um pouco.
Se Haleth o tivesse encarado, teria visto o sorriso malicioso em seu rosto jovem, um sorriso cheio de uma maldade inigualável.
Haleth hesitou por alguns momentos, mas a pressão mais forte da lâmina contra o seu pescoço a fez obedecer. Que droga! Ela jogou sua espada contra um canto distante do aposento, sobre um monte de feno que havia servido de cama para Wilrog e que abafou o som do metal encontrando o chão. Poderia tê-lo matado naquele ínfimo segundo em que tivera sua espada nas mãos, mas não o fez. O forte feitiço de Wilrog ainda estava trabalhando nela. Haleth se amaldiçoou por ter desperdiçado a oportunidade e mais ainda por ter sido pega despreparada. Eu não deveria ter vacilado! Agora Wilrog a tinha sob seu total controle, sem chances para que ela pudesse escapar.
Com suas mãos firmes ainda enroscadas nos longos cabelos negros da mulher, Wilrog virou-a para que ela pudesse encará-lo. Seus grandes olhos verdes estavam cheios de lascívia e fitavam ferozmente os olhos negros que o encaravam desafiadoramente. O punho que mantinha a arma ameaçadoramente sob a pele da mulher começou a descer sinuosamente pelo corpo de Haleth, rompendo alguns dos botões que fechavam a parte de cima de sua blusa masculina e deixando à vista o vale entre os seios. O punhal de Wilrog continuou a afastar o tecido até que os seios femininos ficassem também à mostra. Não, por favor, não... A fúria impotente que estava presente nos olhos dela tinha o efeito de excitá-lo ainda mais e o sorriso maldoso voltou novamente ao seu rosto. Linda...
"Agora vejo porque o pirralho gostou de você, mulher," Wilrog falou, seus dedos passeando por sobre o estômago e os seios de Haleth. Wilrog os apertou com tanta força que o rosto dela se contorceu de dor. As mãos dele a abandonaram, mas ela permaneceu imóvel, como uma estátua, sentindo o ar noturno tocar a sua pele nua. Eu tenho que enfrentá-lo!Agora!
"Se eu gritar ou falar mais alto," disse Haleth em um sussurro, "Eu acordarei todos os Elfos e Homens dessa vila e você vai morrer por isso."
Que tola. Wilrog teve que se conter para não rir alto, o punhal voltando a ficar perigosamente próximo do pescoço de Haleth.
"Você nunca faria isso, mulher, não... Nunca ousaria machucar o pirralho. E se você gritar, vai estar morta antes que os Elfos cheguem aqui e sua morte será em vão, pois eu já estaria muito longe das garras desses desgraçados."
A cabeça de Haleth latejava pela pressão das mãos de Wilrog em seus cabelos. Ainda se encontrava imobilizada, mas ele estava certo. Se ela quisesse mesmo matá-lo, já deveria tê-lo feito. Juntando todas as forças que tinha, Haleth tentou gritar, mas Wilrog percebeu seu intento e colou sua boca na da mulher, que agora era sufocada pelo beijo maligno. Já chega! A sensação da língua dele separando seus lábios e penetrando-a a enojou tão profundamente que quebrou o feitiço mental. Agora eu sei que você não é Wilrog de jeito nenhum! Ela não iria mais se conter. Em apenas um instante, Haleth cerrou seus olhos negros e quando ela os reabriu, eles estavam castanhos de raiva.
Torcendo o braço dele com força, Haleth fez o punhal cair no chão. O som estridente da arma se chocando contra a parede de pedra fria quebrou o silêncio, ficando longe o bastante para não oferecer mais nenhum perigo. Haleth deu um murro no estômago de Wilrog com uma fúria tão grande que o rapaz ficou sem ar e se dobrou de dor. Um chute forte em seu rosto terminou por fazê-lo ir ao chão quase inconsciente. Haleth recuperou sua espada e caminhou até ele. O rosto dela era uma máscara de ódio e horror. Aquela coisa iria pagar pelo que tinha feito.
Quando Haleth chegou até Wilrog, ela sentou sobre as pernas do rapaz, segurando os pulsos dele com força em uma das mãos e mantendo-os acima da cabeça de Wilrog. Os olhos dela brilhavam com um olhar assassino. O corpo do garoto se debateu contra a força com que Haleth prendia seus pulsos e pernas enquanto procurava se libertar mais uma vez. Wilrog olhou para ela com uma ferocidade atroz, se fixando no rosto da mulher por um momento para logo depois recair sobre a espada que Haleth tinha nas mãos e que pairava ameaçadoramente sobre a sua cabeça. O silêncio ao redor da casa começou a ser preenchido pelo barulho de pessoas acordando e falando alto.
Os desgraçados estão vindo!
Wilrog sentiu a presença da energia clara dos Elfos que começavam a correr em direção a sua cela e se debateu ainda mais em sua raiva. Entretanto, ao olhar para o rosto de Haleth mais uma vez, um estranho, quente sentimento de amor o inundou e permaneceu nele. Aquela coisa dentro dele era tão profunda que quase o fez vomitar, mas a presença maligna que também residia em seu corpo era forte demais e alojada muito mais profundamente. O filho da mãe do garoto quer emergir...
"Você é a prova de que Wilrog está morto, então não há nada que possa me impedir de te matar agora!"
A voz ameaçadora de Haleth fez a atenção de Wilrog recair novamente sobre a mulher. Ela segurava a espada acima da cabeça e estava prestes a cortar o seu pescoço! Uma lágrima indesejada ameaçou escorrer pelos olhos de Wilrog. Ele queria que os Elfos chegassem mais rápido para lhe tirar a vida. Garoto idiota! a coisa dentro dele protestou em silêncio. Wilrog fechou os olhos, esperando pelo golpe que nunca veio.
Haleth tinha parado a lâmina de sua espada a alguns centímetros de distância do pescoço do garoto quando percebeu a súbita mudança no olhar do jovem. Tinha sido algo tão rápido, que ela quase não havia percebido. A chama da esperança a consumiu. Ele ainda está aí dentro, em algum lugar... Mas Wilrog não viveria muito tempo para provar isso se os Elfos e os Homens colocassem suas mãos nele pelo que ele quase havia feito com ela.
Os passos lá fora continuavam se aproximando cada vez mais, as vozes se tornando mais altas. Enquanto isso, Haleth se levantou e apontou sua espada para o belíssimo garoto que estava na frente dela. Agora ele parecia apavorado – o rapaz não queria morrer. Ela fez com que se levantasse e ele se ergueu alto e esguio.
Wilrog olhava para ela incrédulo, seus cabelos louros caindo sobre a face e escondendo os olhos verdes. O que, em nome de Mordor, ela está tramando?
"Vá embora e não volte." Haleth falou com firmeza, sua voz fria e dura.
Wilrog encarou-a por alguns segundos, num estado de confusão mental que estava demorando demais para cessar. Uma vontade inacreditável de matá-la se chocava contra uma estranha força que o impedia de fazê-lo, como se seu corpo não quisesse obedecê-lo. Wilrog ainda podia sentir o garoto mais uma vez se manifestar no fundo de seu ser causando-lhe uma pontada estranha no coração. Se ele não falasse qualquer coisa, iria perder o controle e o garoto iria vencer, então falou.
"Mulher estúpida," sua voz tremia e ele se odiava por isso. Eu nunca deveria ter deixado que a força dela se sobrepusesse à minha.
"Não mais estúpida do que você." Haleth examinava a expressão no rosto de Wilrog e podia ver as reações que suas palavras e atos estavam provocando nele. Ele hesitou. Aquilo a deixou aliviada. Agora apenas a presença iminente dos Elfos e Homens a preocupava, porque ela sabia que se Wilrog não saísse dali naquele momento, não teria outra chance. "Você é surdo? Eu disse para ir embora!"
Wilrog quis responder, mas uma flecha Élfica passou assobiando por uma greta da parede e se encravou a alguns centímetros de seu braço. Com um sorriso irônico, ele finalmente obedeceu ao comando da mulher e saiu correndo da casa através de uma porta que dava para os fundos, deixando Haleth em pé sozinha. Segundos depois o barulho de uma porta sendo arrombada encheu o ar e dentro da casa surgiu Siward, seguido de perto por Haldir.
O arco de guerra de Haldir ainda estava em suas mãos e seus olhos azuis brilhavam com a raiva que sentira de Haleth por ela ter deixado a presa deles escapar. Como eu errei o alvo? Como? Ele estava consumido por uma necessidade de saber onde Wilrog estava para que pudesse matá-lo. Cego pela fúria, Haldir passou por Haleth sem sequer lançar um olhar para a mulher.
Siward, por outro lado, viu o estado em que as roupas de sua comandante estavam e seu rosto se escureceu de horror. O Homem se aproximou dela e lhe ofereceu seu casaco de peles, preocupado para que os outros não a vissem daquele jeito.
Haldir, que havia terminado sua busca pelo rapaz, se aproximou de Haleth e falou em Westron. "Onde o garoto está?" Ele estava certo de que ela sabia aonde Wilrog se encontrava. Não posso acreditar que ela tenha realmente feito algo tão estúpido! Mais cedo, quando havia escutado o barulho de luta dentro da casa, sua mente perspicaz já havia descoberto tudo. Agora seus olhos ferozes a encaravam procurando por respostas. A mulher não mentiria diante da presença de seus soldados.
"Eu o deixei ir," Haleth finalmente falou, sua voz tremendo levemente.
Uma onda de murmúrios indignados se seguiu à sua resposta, mas ela não titubeou nem um só instante. Os olhares de todos a encaravam cheios de confusão e incredulidade. Enquanto recolocava sua espada na bainha, Haleth falou mais uma vez. Seu olhar se voltou para Haldir notando toda a arrogância e fúria que emanavam dele. Você não pode me julgar, Elfo.
"Eu estou cansada e ferida, então todas as perguntas serão respondidas amanhã. Por agora saibam apenas de uma coisa," a voz dela era clara e firme, impondo respeito e reverência, "eu jamais desistirei de nenhum de meus soldados se eu perceber que ainda há esperança. E, acreditem ou não, ainda resta esperança para todos nós. Agora se me dão licença, eu irei dormir."
Mantendo a cabeça erguida, Haleth, seguida de perto por Siward, passou por entre os Homens e Elfos que se apinhavam no lugar, deixando-os sozinhos e incrédulos. Haldir a olhava com uma expressão de desapontamento e, ao mesmo tempo, de respeito. O pequeno discurso de Haleth fora de uma força e uma nobreza notáveis, algo que o Elfo jamais tinha visto em um mortal antes. Apesar disso, ele ainda achava que aquela atitude dela tinha sido inconseqüente.
Então você é fraca e digna de minha pena como todos os mortais. Haldir colocou seu arco novamente posicionado em suas costas e saiu à procura de Haleth mesmo assim. Enquanto caminhava, murmurava para si mesmo.
'Mulher estúpida.'
H&H&H&H
Elleth (plural – ellith) elfa em Sindarin
H&H&H&H
REVIEWS SÃO MUITO BEM VINDAS!
