4. Conexão

Procurei por Richard no desembarque, mas não o encontrei. Parecia que ele havia desaparecido no ar.

Eu ainda precisava pegar uma conexão para Alvorada, seriam mais duas horas de viagem num avião menor. Infelizmente, por causa do gelo na pista as aterrissagens e decolagens estavam atrasadas, meu vôo iria demorar uma hora, talvez mais.

O aeroporto estava cheio, era quase impossível caminhar. Algo estranho aconteceu. Acidentalmente esbarrei em alguém, nem sequer tive tempo de ver quem era. No mesmo instante minha mão começou a arder. Parecia que eu tinha colocado a mão no fogo. Olhei minha mão, estava um pouco vermelha, mas não tinha sinal de arranhão ou outro machucado. Continuei andando e olhei por sobre o ombro, mas não notei ninguém me seguindo. Pensei que deveria ser algum tipo de alergia.

Entrei numa livraria e percebi um homem que me olhava com o canto dos olhos, escolhendo um livro numa das estantes.

Senti um arrepio de medo, quando percebi o modo estranho como ele me olhava. Não era um desses caras esquisitos, na verdade era um sujeito bem vestido, com menos de trinta anos, cabelos escuros, parecia um galã de cinema. Mesmo assim, meu coração disparou.

Escolhi uma revista qualquer sobre fofocas e saí, sentando numa das poltronas da sala de espera, aguardando a liberação da decolagem. E lá estava o tal homem, me observando a uns quinze metros dali.

Eu fiquei feliz por ter algo para ler, e foi o que tentei fazer durante a longa meia hora que se seguiu. Mas era impossível me concentrar com aquele olhar penetrante sob minha pele. Pensei que se parecesse interessada ele não teria coragem de me importunar.

Não tenho porte de modelo, por isso, não tinha a menor chance de que o cara fosse um "olheiro de agência", já que tenho apenas 1,60. Geralmente, passo despercebida com minha pele dourada pelo sol e cabelos castanho escuros, levemente ondulados e sempre rebeldes.

Percebi que alguém sentou na poltrona ao lado. Continuei de cabeça baixa, tentando parecer interessada na leitura. Era o homem. Tinha uma postura impecável, e pude perceber numa rápida olhada de canto de olho que usava um terno Armani e sapatos caríssimos. Ele me estendeu um cartão de visitas.

- Eu sou Victor Castle, muito prazer.

No mesmo instante em que ele falou um arrepio percorreu meu corpo, como uma intensa descarga elétrica. Sua voz era agradável, confiante, com um leve sotaque estrangeiro e denotava um homem seguro de si. Será que eu deveria conhecê-lo de algum lugar? Ele era alguém famoso?

Todas as recomendações da diretora e do meu pai sobre não falar com estranhos me vieram à mente. Lembrei das histórias terríveis de mulheres que haviam sido dopadas e violentadas.

Eu não sabia o que fazer: e se esse fosse o tipo de cara que fica por aí, perseguindo garotas? Eu não podia ignorar: cada olhar dele me fazia gelar por dentro, embora talvez ainda não tivesse motivo para isso.

Olhei em volta, não havia nem um segurança do aeroporto, parecia que todos haviam evaporado. Ninguém pareceu notar que eu estava em apuros, ou precisando de ajuda. Eu iria adotar minha melhor tática de despistar chatos: responder o mínimo possível, parecendo irritada. Costumava funcionar com garotos, então, por que não tentar com alguém mais velho?

Não respondi, nem aceitei o cartão que ele me estendia. Dei a ele meu melhor olhar zangado.

Ele me fitou por um longo momento, guardou o cartão no bolso e falou novamente. Achei ter visto um reflexo vermelho nos olhos dele, algo assustador. Mas isso só poderia ser imaginação minha afinal, não existem pessoas com olhos vermelhos, existem?

- Seus olhos são muito bonitos. Esse tom de violeta é muito raro, sabia? – Seus olhos felinos se estreitaram, analisando-me. Senti outro arrepio, meu corpo inteiro gritava: perigo, perigo!

- Obrigada. – Lancei-lhe outro olhar congelante.

- Você... Se parece com alguém que eu conheci, há muitos anos atrás...

Baixei a cabeça, querendo parecer obviamente incomodada pela conversa.

Outro longo momento de silêncio se passou, como se ele esperasse de mim alguma resposta específica, que eu não sabia qual era.

- Já esteve na Itália?

Victor continuou me olhando, eu já estava ficando com medo, parecia que ele estava perscrutando a minha alma. Olhei desesperada pela sala, procurando por ajuda.

Então, eu o vi. Richard caminhava gloriosamente em minha direção, com um copo de café expresso em cada mão.

- A fila estava grande, por isso demorei tanto, mas consegui trazer seu cappucinno.- A voz dele era calma e confiante, ele me estendeu um dos copos.

- Esta tudo bem, querida?

- Claro... – Tentei parecer natural.

Ele encarou Victor, os olhos faiscando, uma linha de preocupação se formou em sua testa, desfazendo a harmonia do perfeito rosto angelical.

Uma voz feminina soou pelos alto-falantes do aeroporto, anunciando a partida de um vôo para Roma. Victor se pôs em pé.

- Bem, infelizmente meu vôo vai partir em breve. Foi um prazer vê-la e espero sinceramente reencontrá-la em breve, senhorita.

Fiquei em pé, e meu salvador postou-se ao meu lado, protetor.

- Faça uma boa viagem, senhor.

- Obrigado. – Apesar da aparência calma, Victor mantinha os punhos cerrados obviamente irritado pela interrupção, deu-nos as costas misturando-se à multidão do aeroporto.

Enquanto meu anjo ficava olhando Victor se afastar, fiquei observando-o, de perto era ainda mais perfeito: sua pele era pálida, quase como um mármore delicado mas com a textura de uma pétala de flor. O rosto tinha uma expressão séria, preocupada, mesmo assim, ele parecia mais com o Davi de Michelangelo, em todo seu esplendor. Ele se voltou em minha direção, e eu vislumbrei a incrível simetria de seu rosto, coroada pelos olhos dourados, cobertos de cílios espessos.

Por um momento, ele não falou nada. Foi aí que eu me dei conta que deveria estar parecendo uma idiota.

- Obrigada pela ajuda.

- Você deveria escolher melhor suas companhias.

- Vou me lembrar disso. – Consegui dizer num sussurro, quando senti o hálito inebriante dele, uma essência doce com um fundo amadeirado, masculino.

- Não vi você no desembarque...

- Acho que acabamos nos desencontrando. Eu não quis acordá-la, você parecia tão tranqüila dormindo que não achei justo despertá-la. – Ele sorriu. Incrível o poder que seu sorriso tinha, era devastador, capaz de tirar o planeta Terra do eixo... ou de me deixar tonta.

Ouvi a chamada para o meu vôo, justo agora, que tudo ia tão bem!

- É o meu vôo...

- Tente não se meter em apuros até chegar em casa, ok?

Meu coração acelerou e senti as palavras me faltarem. O que estava havendo comigo?

- Hum, é... Obrigada, Richard.

- Boa viagem, Lara.

Eu nunca seria capaz de esquecer seu timbre... A maneira como ele disse o meu nome... A voz de tenor aveludada ainda soava em meus ouvidos, quando embarquei no avião.