O acaso da felicidadeCapit 4O domingo, dia 24 de junho, amanheceu ensolarado. Como de costume Emma acordou cedo e saiu para caminhar. Andou por mais de duas horas, retornou ao hotel, tomou um banho e logo depois o seu café da manhã. Havia dito a si mesma que naquele dia não pensaria em trabalho. Precisava descansar. Por volta de dez horas da manhã resolveu sair novamente, desta vez para passear. A cidade estava em pleno clima de copa do mundo com turistas por todos os lados e Emma resolveu relaxar pela praça do Teatro AmazonasNo final da pracinha avistava se brinquedos para a criançada. Vários bancos de madeira e de pedra circundavam a praça e encontravam-se posicionados estrategicamente sob a sombra das árvores, a fim de proporcionar aos freqüentadores do local uma opção de descanso enquanto observavam a alegre movimentação do local e da rua principal. A praça estava bastante movimentada, muitos ônibus repletos de turistas aportaram na cidade. Emma caminhava vagarosamente quando avistou uma figura conhecida sentada na sombra de uma árvore e lendo um livro distraidamente. Reconheceria aquele perfil onde quer que fosse e sentiu seu coração disparar um pouco. Regina estava absorta em sua leitura e nem percebeu a aproximação de Emma. Somente quando esta última parou à sua frente e lhe cumprimentou é que levantou os olhos.- Bom dia meu anjo da abriu um de seus sorrisos mais cativantes e respondeu:- Ótimo dia agora! É bom revê-la, e tão bem disposta.- Posso sentar?- Claro! – respondeu Regina chegando mais para o canto do banco. – Passeando um pouco?- É. Fiz um propósito de tirar o dia de folga. Folga mesmo! Sem nem sequer lembrar que a loja existe. Aliás, fiquei esperando a sua visita para um cafezinho.- Pois é... não deu ainda. Também ando numa correria ultimamente.- Família?... – bisbilhotou Emma.- É...Neste momento uma vozinha gritou ao longe, e fez com que Regina se virasse para responder:- POSSO TIRAR O TÊNIS?...- NÃO... Emma virou-se também e avistou uma figurinha aparentando 4 ou 5 anos de idade, cabelos castanho claros meio cacheados, que lhe caíam sobre os ombros quase até a cintura, pele clara e olhar maroto. Insatisfeita com a resposta a menina correu até elas e argumentou:- Mas eu tô com calor no pé!- Mas, descalça tu podes machucar os pés. Tem muita pedra em volta, e os cachorros fazem as necessidades no chão. Tu bem sabes...Nesse momento a menina olhou para Emma e sorriu de orelha a orelha:- Ooooi!- Olá! – respondeu Emma observando o quanto era belo o sorriso e o olhar daquela menina. Tinha olhos castanhos, e seus cílios eram escuros, longos e curvos, emoldurando aquelas pequenas janelinhas de ver o tratou de fazer as apresentações:- Emma, esta é a Ju. Ju, Emma, uma... amiga minha.- Muito prazer, Emma, como tu é bonita!Emma não pôde deixar de sorrir da espontaneidade de Ju:- Bondade tua. Você é que é linda. – respondeu colocando o dedo na ponta do nariz suado da criança.- Já que eu não posso tirar o tênis vou voltar para o balanço. – disse Ju já se preparando para sair correndo.- Peraí mocinha... vem cá prender esse ficou de costas para Regina que puxou o cabelo da menina num rabo-de-cavalo, prendendo-o com um elástico colorido que tinha ao redor do pulso.- Pronto, pode disparou igual um raio, subindo no balanço com a rapidez e a agilidade que somente os primeiros anos da infância nos conferem. Fez-se um pequeno silêncio, quebrado por Emma:- É sua filha?- É... não... quero dizer, é sim.- Como assim? – quis saber Emma.- Hoje eu sou a mãe dela. Desde que a mãe biológica dela morreu eu fiquei com ela.- E faz tempo?- Quase dois anos.- Deve ter sido uma barra pesada para ela...- Se foi! Mas ela é uma criança bem resolvida, e feliz.- E... e o pai dela?... quero dizer... o seu... marido?Regina sorriu divertindo-se com o gaguejar de Emma.- Eu não sou casada.- Mas deve ter namorado...- Não tenho não, somos só a Ju e eu mesmo. E a Pipoca.- Pipoca?- É. Nossa cachorrinha, o xodó da Ju.- Ai, desculpe pelo interrogatório, não quis ser invasiva, foi só curiosidade, desculpe.- Tudo bem. Mas e tu?- Bom, eu estou morando no hotel, como você já sabe, e é o melhor para mim, pelo menos por enquanto. E vivo só. - E como vai a tua saúde? Te recuperaste bem mesmo?- Sim. Voltei para uma revisão e fui dada como nova em folha pela Drª Maristela!- Eu fiquei sabendo.- Como? – questionou vez foi Regina quem gaguejou:- É... é que... que me disseram que havias me procurado.- Verdade. Passei no teu setor para te dar um oizinho.- Eu estava de folga.- E hoje, também está?- Estou. Mas não se consegue ficar em casa num domingo ensolarado com uma criança pequena... – respondeu sorrindo.- Olha só... vocês não gostariam de almoçar comigo?- Não quero incomodar...- Mas não é incômodo algum, muito pelo contrário, me daria uma grande satisfaçã baixou os olhos e sorriu timidamente.- Tudo bem. Acho que a Ju vai adorar, ela está sempre pronta para um programa diferente na sua rotina. Até aula de música ela faz!- ah a apresentação de música... – disse Emma pensativa, mais para si mesma do que para sua interlocutora.- Como?...- Nada, nada não. E onde as senhoritas gostariam de almoçar?- Qualquer lugar, tu momento Juliana chega até elas novamente, correndo esbaforida com uma bola de futebol na mão, a qual havia deixado até então ao lado dos balanços.- Devagar, menina, não precisa levantar gargalhou e sentou-se, enfiando-se entre elas, colocando a bola no colo.- Você gostaria de almoçar comigo hoje? – perguntou Emma para a olhinhos de Ju brilharam, porém antes de responder olhou para Regina como que pedindo uma autorização para aceitar o convite. Regina assentiu sorrindo e Ju respondeu:- Adoraria!- Então acho que mereço um beijinho e um abraço, não mereço? – disse Emma.- Emma, essa menina está toda suada, olha só a sujeira da roupa...Antes porém que Emma terminasse a frase Ju havia se jogado nos braços de Emma, envolvendo-a pelo pescoço e sapecando-lhe um beijo estalado na face. Emma colocou a pequena em seu colo e perguntou:- E essa bola aí? É só enfeite ou você sabe jogar alguma coisa.- Eu jogo futebol na escola. Sou centroavante! Mas final de semana não tenho com quem treinar... – respondeu fazendo uma careta de deboche e reprovação para Regina.- Nossa, que problemão! Mas isso a gente resolve fácil. – respondeu Emma colocando Ju no chão e pegando a bola que estava no banco – hoje eu treino contigo, campeã.As duas saíram correndo atrás da bola chutada por Fernanda, ante o olhar perplexo de Regina. Passado o choque inicial Regina não conseguiu deixar de se divertir com a cena. Emma era uma mulher muito alta e Ju um toquinho de gente. Apesar de já contar cinco anos de idade era magra e miudinha. As duas trocavam passes e quando tentavam driblar e tirar a bola uma da outra Emma precisava cuidar para não atropelar Ju, ou pisar nela. Era engraçado ver aquela cena, pensava Regina, afinal Emma era uma mulher de fino trato, uma gerente de loja. E naquele momento parecia que as duas tinham a mesma idade. Reparou que Emma vestia um abrigo em tom azulado com listas laterais coloridas, justo, que deixava transparecer os contornos de suas pernas longas e bem malhadas. Usava uma camiseta branca, também justa e tinha os cabelos presos num coque. Naquela altura, porém, o coque já havia se desfeito e os cabelos pendiam soltos na testa agora molhada de suor. Juliana também estava com os cabelos desgrenhados e suados. Regina havia fechado o livro que estava lendo e o colocou em sua sacola, uma vez que havia perdido totalmente o interesse pela leitura, pelo menos naquela manhã. Quando Emma e Juliana resolveram voltar para junto dela sentaram-se lado a lado, encharcadas de suor e ofegantes devido ao esforço físico.- Preciso beber alguma coisa... – disse Emma com a respiração entrecortada.- Eu também. – disse sorriu e disse:- Descansem um pouco madames, eu vou buscar uma água mineral para as duas. – e levantou-se caminhando em direção ao quiosque central.- Sem gás! – gritou menos de cinco minutos Emma retornou com duas garrafas de água e quatro canudinhos.- Essa perna de pau tem muito o que aprender comigo – provocou Emma em tom de brincadeira.- É, mas eu corro muito mais! – respondeu Ju sorridente – E canso menos!- Tá bom... mas no drible eu sou melhor.- Mas eu aprendo rápido.- É garota, com esse pique teremos uma futura jogadora da seleção feminina de futebol das olimpíadas de 2016. – disse sorriu contente e assentiu com a cabeça. Elas pegaram a água e sorveram avidamente.- Se pretendemos realmente almoçar juntas quem sabe eu levo essa moleca para casa, ela precisa de um banho... – disse Regina.- Eu não sou a única... – respondeu Ju debochadamente.- É verdade! – assentiu Emma – Vamos fazer o seguinte: eu vou para o hotel, me arrumo e pego vocês em casa ao meio dia, pode ser?- Pode! – respondeu Ju.- Ju, eu acho que a pergunta foi pra mim... – disse Regina em tom de reprovação.- Desculpa então.- Tudo bem, senhorita afoita. Pode ser sim, Emma.- Aonde é que vocês moram?- É aqui pertinho, umas seis quadras. Indo aqui pela rua principal, depois do quiosque, é a quarta rua à esquerda. Aquela da sorveteria na esquina.- Sei. – respondeu Emma.- É no número 921. Quer anotar?- Não precisa. Minha memória é muito boa. Bem melhor que a minha capacidade de correr... – disse Emma cutucando Juliana no braço.A menina deu uma gargalhada e abraçou Emma, enlaçando-a pelo pescoço e pendurando-se nela igual um sagüi.- Ju... – disse Regina– tu tá toda suada... não incomoda a Emma.- Deixa ela – respondeu Emma retribuindo o abraço apertado – eu estou mais suada do que ela...Regina sorriu e pegou a menina pela mão. Despediu-se de Emma:- Então, até daqui a pouco.- Até. – respondeu Emma.- Tchau Emma! Eu vou ficar te esperando, tá? – disse Ju efusivamente colocando sua bola em baixo do braço. – Não demora!- Tá. – sorriu Emma – Eu não demoro não, campeã.Emma ainda observou Regina e Ju caminhando de mãos dadas rua abaixo. Juliana ia saltitante e quase na esquina ela se virou, soltou a mão de Regina e acenou para ela, que retribuiu o aceno. Emma levantou-se e caminhou até o Hotel. Estava feliz por haver reencontrado ém havia simpatizado muito com Juliana. Talvez pelo fato da personalidade da menina lembrar a dela própria naquela idade. Tratou de tomar um banho, colocar uma bermuda e uma camiseta, calçar um par de tênis e pegar o carro na garagem do hotel. Pontualmente as doze horas buzinou em frente ao número 921 e viu uma figura diminuta, branca e quadrúpede disparar em sua direção vinda de dentro da casa. Era pipoca que latia dando sinal de que havia gente chegando em casa Emma observou que se tratava de uma construção antiga, uma casa germinada cuja parede da frente se localizava exatamente na divisa entre o terreno e a rua, sem nenhum espaço de pátio frontal. Havia somente duas janelas estreitas com venezianas de madeira que davam para a rua. Ao lado um corredor também estreito levava a uma porta de acesso lateral, que vinha a ser a entrada principal da casa. Por esse corredor era possível ver que nos fundos do terreno havia um pequeno pátio com algumas árvores, e muitas folhagens pendiam naquela restrita viela que levava aos fundos da os latidos de Pipoca anunciando sua chegada de Emma viu o rostinho de Ju espiando na janela da frente e acenando para ela:- A gente já tá indo!Emma acenou de dentro do carro num sinal de que havia entendido e que aguardaria por elas. Em menos de dois minutos a porta lateral se abriu e Ju assoviou para Pipoca, que já havia acabado de latir e àquela altura do campeonato sacudia o rabo efusivamente na direção do carro como que para dar as boas vindas à Emma. A cachorrinha correu na direção de Ju que a colocou para dentro de casa fechando a porta. Após correu na direção do portão. Vestia um macacão curto, estilo jardineira, de jeans alaranjado e um top branco com detalhes em laranja nas mangas por baixo. Calçava um par de tênis brancos, e uma meia soquete cor de laranja. O cabelo fora lavado e estava solto sobre os ombros, ainda molhado. Uma travessa branca com florzinhas amarelas segurava-lhe o cabelo para que não caísse em seus olhos. Estava de fato uma gracinha. Emma saiu do carro, um gol com o logotipo da firma que gerenciava discretamente estampado na lateral do veículo, e abriu os braços para Juliana que pulou em seu colo beijando-lhe as faces.- A Re já vem. Ela demora pra se arrumar... nunca vi tão enrolada! Parece uma dondó não pode deixar de rir.- Mas em compensação a senhorita é rapidinha.- Alguém tem que ser rápida nessa casa, né?- Tá certo! Mas a "dona rapidinha" está muito bonita, huuummm e perfumada.- Eu tomei banho!- Eu também.- Quando é que a gente vai jogar futebol de novo?- Pode ser hoje mesmo, vai pegar a bola pra gente levar deu uma gargalhada de satisfação e saltou do colo de Emma. Regina já vinha saindo e Ju entrou em casa quase que a atropelando.- O que é isso, menina?- Vou pegar a minha bola!- Deixa essa bola em casa.- Mas foi a Emma que disse pra eu pegar – respondeu já dentro de seu passou por Regina como um foguete, com a bola embaixo do braço e enfiou-se para dentro do carro de Emma. Regina fechou a porta da casa e caminhou até o portão.- Pontualidade britânica – disse Regina.- Uma das minhas qualidades. – respondeu Emma sorrindo.- Parece que uma certa caroneira já se instalou. – disse Regina olhando para Ju que a encarava sorridente.- Pois é... – respondeu Emma. – Mas vamos lá então.O local estava bem movimentado devido aos turistas, e tiveram alguma dificuldade para estacionar. Por fim conseguiram uma vaguinha à sombra, quando um carro manobrou para sair do restaurante. Optaram por pedir um filé da casa, cuja porção alimentava com fartura três adultos. De sobremesa Ju quis sorvete de de onde elas estavam havia uma pracinha com alguns brinquedos bem rústicos, construídos com paus de eucalipto e cordas. Juliana pediu para brincar:- Posso ir nos brinquedos?- Pode. Mas te cuida. – respondeu disparou e subiu no escorregador pela escada de cordas. Emma sentou ao lado de Regina.- Essa garota é sempre serelepe assim? – perguntou Emma.- Não. Só quando está riram.- Na verdade ela é um encanto. Apesar de ser muito ativa ela é bastante obediente. Não tenho problemas com ela não.- Ela não tem mais ninguém?- Não. A mãe dela estudou junto comigo. Nos reencontramos há três anos, quando eu voltei para a cidade e fui trabalhar no Hospital. A mãe dela trabalhava na limpeza e Ju tinha dois anos nessa ocasião. O pai dela, segundo a mãe me contou, foi embora antes dela nascer e nunca mais apareceu. Ela tem uma tia paterna que também trabalha no setor de limpeza do hospital, mas nunca sequer pergunta como ela está, acho que é porque ela e a mãe de Ju não se davam. Ju é registrada só no nome da mãe. E essa tia é como se não existisse. Na verdade Ju nem a conhece.- Mas com certeza você consegue suprir a falta que a Ju deve sentir da mãe. Ela aparenta ser uma criança de bem com a vida.- E é. Quando a mãe dela morreu eu nem pensava em ter filhos... foi bem complicado...- Imagino.- Mas aí eu me coloquei no lugar dela... é muito triste crescer sem uma figura materna de referência, e eu falo por experiência própria.- Imagino... A mãe dela morreu de repente?- Sim. Atropelamento. Eu estava de plantão naquele dia. Quando ela deu entrada ainda estava viva e me pediu para cuidar de Ju caso algo lhe acontecesse. E foi a última coisa que disse.- Eu imagino a tua situação.- Não imagina, não. Acho que ninguém consegue imaginar. Eu é que fui busca-la na creche e conversei com ela sobre a morte da mãe. Nunca vou esquecer o olhar daquela criança me perguntando se a mãe voltaria para vê-la um dia, e onde ela iria morar. A fragilidade daquele olhar me fez leva-la para casa. E hoje sou eu que não vivo mais sem ela. Emma olhava para Regina com afeto e admiração.- Regina, você realmente é uma pessoa especial.- Que é isso? Qualquer pessoa na minha situação faria o mesmo.- Não sei...- E além do mais agora eu tenho uma família.- Você não conheceu seus pais?- Lembro vagamente da minha mãe. Meu pai teve um caso extraconjugal e se mudou quando eu tinha dois anos. Nunca mais soube dele. Ficamos minha mãe, eu e minha irmã com cinco anos na época. Emma ficou calada. Não sabia o que dizer naquela situação. Resolveu que o melhor seria só ouvir.- Aí eu cresci, estudei, fui para a capital... – Regina fez uma pausa como que tendo uma recordação ruim – e estou aqui- Porque?- Não sei bem... um pouco de cada coisa... necessidade de voltar às minhas raízes, desilusão amorosa, saída do emprego, lance de grana... de tudo um pouco. Aí estava me organizando por aqui quando adotei a trancar a faculdade e estamos aqui... batalhando.- Qual faculdade?- Odonto. Parei faltando dois semestres.- E porque você não termina?- Tem o lance da grana e o do tempo. Tenho feito muito plantão extra no hospital.- E quem fica com a Ju?- A dona Eda, minha vizinha e dona da casa que eu alugo. Ela e o Seu Arno são um casal de idosos, sem filhos, e adotaram a Ju como neta. Eles me ajudam bastante. Aliás eu nem sei o que faria se não fossem eles. Mas a Juliana tem o seu mérito, ela é uma criança cativante.- É mesmo! – concordou Emma.- Mas desculpe se eu estou falando tanto de mim...- Tudo bem... eu que perguntei.- Mas, e tu Emma? Não sente falta da tua família.- Sim e não. Sim, às vezes sinto bastante... mas sempre fui muito independente. Saí de casa com dezoito anos e desde então eu sou dona do meu nariz. Nunca gostei desse negócio de compromisso. Já vivi com duas pessoas, e acabei voltando para a minha maravilhosa vida de solteira. – sorriu – Minha família toda mora em Belém.E hoje o destino me trouxe até aqui! E eu estou adorando.- A cidade?- E a companhia. – respondeu Emma encarando Regina que baixou os olhos e sorriu timidamente.- Obrigada pela parte que me toca.- De nada. Mas você fez por merecer, afinal cuidou tão bem de mim.- Eu já disse que não fiz mais que a minha obrigação.- E eu já disse que fez. Foi sensível, pacienciosa e amável. Mas não cumpriu uma promessa.- Que promessa? – quis saber Regina, curiosa.- Você me deve uma partida de canastra. Tá com medo de uma derrota vergonhosa?- De forma alguma. Aliás, preciso mesmo de uma parceira para os jogos de canastra com a dona Eda e o Seu Arno.- Aahhh... me quer como aliada e não como adversária?...- E eu sou boba? Com essa tua lábia é capaz de me fazer perder as calç tiveram que sorrir.- E quando vai ser esse confronto? E valendo o quê? – quis saber Emma.- Costumamos jogar um carteadinho nas sextas-feiras, quando eu não estou de plantão. Vale desde balas de goma até bolachinhas recheadas. Mas é Ju quem acaba comendo todo o lucro da noite, qualquer que seja o riu muito:- Muito promissor esse joguinho, ein? Sou capaz até de ficar viciada.- É um risco...- Mas eu topo ser a tua parceira nessa jogatina só se você passar na loja durante a semana para saldar a tua outra dívida.- O cafezinho...- Pois é. E então?- Tudo bem. Eu passo sim, antes de sexta-feira.- Combinado entã momento Ju veio correndo até elas, o cabelo esvoaçante e a testa suada.- Tô com sede!- Vai até aquela barraquinha e compra água mineral pra gente – disse Reginaa estendendo uma nota de dez reais para a menina. - Quer que eu te ajude? – perguntou Emma.- Não precisa, não. Pode ficar aí que eu trago a água pra gente. – e saiu correndo de novo.- Devagar! – gritou se virou e perguntou bem alto:- Copinho ou canudo?- Pra mim copo! – Respondeu Regina.- Dois! – emendou se dirigiu saltitante até a barraquinha de bebidas.- Eu fico impressionada com a desenvoltura dessa garota. – disse Emma.- Tu não viu nada ainda.- Ela é muito decidida, parece ter mais maturidade do que a idade cronológica.- Dizem que a dor ensina a gemer... Ju precisou aprender a se virar sozinha desde pequena, eu passo muito tempo no hospital. A mãe dela também trabalhava muito.- Mas isso com certeza é da personalidade dela.- É, pode voltou até elas com uma sacolinha plástica contendo três garrafas de água mineral, dois copos de plástico e dois canudinhos. Tratou de distribuir as garrafas e os copos. Ficou com os canudos.- Íííí... eu esqueci de perguntar se vocês queriam a água com gás, e trouxe todas sem.- Tudo bem, tá ótimo assim. – respondeu Emma – você não quis pegar refrigerante?- A gente tem um combinado... – disse Ju direcionando o olhar para Regina - ...que eu só tomo refri nos domingos, ou em festas, que é pra não cariar os dentes, e nem ter não conseguiu evitar uma gargalhada frente à preocupação de uma criança de cinco anos de idade com celulite.- Mas hoje é domingo! – disse Emma.- Pois é... – respondeu Ju- ...só que ontem eu tomei, e era sábado. Tô compensando hoje. Combinado é combinado!- Gente... essa menina não existe! – riu Emma abraçando e dando um beijo na testa de Ju.- Vamos jogar bola? – perguntou Ju animadamente.- Ju... a Emma quer descansar. – retrucou Regina.- Descanso de noite. Vamos bater uma bolinha sim, quinze minutos, ok?- Ok!- Mãe, joga com a gente?- Só quinze minutinhos? – questionou Regina.- Só...- Tá bom então. – respondeu Regina que na verdade se derretia toda quando Juliana a chamava de mã engraçado, às vezes Juliana a chamava pelo apelido, Re. Outras vezes de mãe. Regina nunca havia dito à menina como ela deveria lhe chamar, um belo dia, porém foi a própria menina que perguntou se poderia chamá-la de mãe. Foi um processo natural, sem cobranças nem imposições. Certamente era por isso que a relação das duas era tão autê quinze minutos de jogo se estenderam por mais de uma hora. Em determinado momento Regina se jogou no gramado e exclamou:- Falta!- Não faz cena, ninguém encostou em ti... – respondeu Emma ofegante.- Falta... de condições de continuar de pé!Emma também se jogou no chão ao lado de Regina, rindo e sentindo suas pernas pesadas de tanto correr, isso que era habituada a fazer exercícios físicos. Jusaltou sobre elas e abraçou o pescoço de Regina, gritando:- Ganhei, ganhei!Emma puxou Ju para seu lado e fez cócegas em sua barriga fazendo a garota gargalhar e se retorcer no chão.- Eu te dou "ganhei"... – disse Emma enquanto fazia cócegas em as três se esticaram lado a lado no chão, no meio do gramado verde bandeira, sentindo os batimentos cardíacos pouco a pouco voltarem ao normal. Recuperadas ainda caminharam pelas trilhas, encheram a barriga com sorvetes, doces e kikão, andaram de pedalinho no lago, brincaram de esconde-esconde. A tarde passou sem que elas percebessem o correr das horas. Quando o sol se pôs no horizonte perceberam que já estava ficando tarde. O horário atrasava em uma hora o poente, aumentando o dia e diminuindo a noite, porém a lembrança da segunda-feira fez com que Regina sugerisse retornarem para casa. Já anoitecia quando Emma estacionou o carro em frente a casa de Regina e Juliana. Desembarcaram, e a menina deu um abraço apertado e um beijo em Emma e disse:- Obrigada pelo passeio, eu adorei. Agora vou soltar a Pipoca, senão ela faz xixi dentro de casa e sou eu quem tenho que limpar!- Nada mais justo, a cadela é tua. – respondeu deu mais um beijinho em Emma e entrou correndo em casa. Antes de entrar Regina sorriu para Emma:- Obrigada pela companhia, foi uma tarde maravilhosa.- Eu digo o mesmo. Vou te esperar para um cafezinho na loja, ein? Antes de sexta-feira.- Tá. Eu passo lá sim. Talvez na quarta ou na quinta-feira.- Vou esperar. – respondeu Emma entrando no carro e girando a chave na igniçã esperou no portão até que o carro dobrasse a esquina. Pelo retrovisor Emma pode ver a silhueta pequena a observa-la partir. Sorriu consigo mesma pensando em quanto fora divertido seu domingo. Ao chegar no Hotel foi direto para o banho. Enquanto deixava a água morna escorrer-lhe pelas costas pensava: "Tipo interessante essa Regina, aliás, muito interessante. Mas não posso investir numa relação dessas... como poderia me prender com uma pessoa que já tem uma filha?... E que por certo nem cogitaria olhar para mim com esses olhos... Não, isso não é pra mim... não nasci pra viver em família... mas a Ju é um encanto. Encanto mesmo é a mãe dela. Que olhos lindos, mel e expressivos... Que é isso, Emma? Tá ficando doida?... E os teus princípios de liberdade acima de tudo... Bom, mas nada me impede de ter uma grande amiga, não é mesmo? Claro que não... Vai ser bom... é, acho que vai...". Emma mal se deitou e ferrou no sono, tamanho era o seu cansaço. Dormiu como um anjo. Regina e Juliana também se recolheram logo após o banho. Ju estava tão cansada e havia comido tanto que nem quis jantar antes de se deitar. Enquanto colocava seu pijama disse para Regina:- Mãe, aonde tu conheceu a Emma?- No hospital. Ela esteve baixada por uns dias.- Ahãã... sabe, eu adorei ela. Eu posso convidar ela para a minha próxima apresentação de canto?- Claro que pode. – respondeu Regina – Eu só não sei se ela poderá ir... é que ela é muito ocupada, tem muito trabalho...- Mas as apresentações são de noitezinha, hora em que as pessoas voltam para casa...- Eu sei, meu amor... faz assim: convida, e deixa que ela vai se puder, certo?- fez uma trança no cabelo de Ju, para evitar nós nas pontas e choradeira para pentear as madeixas no outro dia pela manhã. Havia escovado cuidadosamente o cabelo antes de trança-lo.- Mãnhe... - O que?- Eu queria muito que ela fosse na minha apresentação. É que os meus colegas levam um monte de gente e eu só tenho a Dona Eda, o Seu Arno e tu.- O que importa não é a quantidade de gente, Nina e sim o quanto as pessoas que vão te ver gostam de ti.- Tu acha que eu canto mal?Regina sorriu e abraçou Ju:- Não, minha querida. Tu cantas maravilhosamente retribuiu o abraço e continuou:- Depois tem a minha formatura do pré... eu vou convidar a Emma também.- Mas isso é só daqui ha dois meses... depois a gente pensa nisso, tá?- Mas se eu convidar logo ela não marca nenhuma outra coisa para aquele dia.- Meu amor... a gente nem sabe o dia certo...- Pode deixar que eu me informo amanhã!- Tá bom. Vamos dormir então?- Vamos. Regina arrumou a cama do único quarto da casa e ajeitou Ju entre as cobertas na cama .Deu-lhe um beijo de boa noite e apagou a luz. Somente com a luz da cabeceira acesa tentou ler um pouco, mas sentiu que seria vencida pelo sono. Antes de adormecer pensou em Emma, no quanto simpatizava com ela, até demais... tratou de afastar sentimentos perturbadores de seu pensamento. Não queria correr o risco de se magoar novamente. Apagou a luz e adormeceu profundamente, num sono sem dois dias que se seguiram Emma passou praticamente dentro da loja. O movimento da copa fazia com que tivesse que aumentar os pedidos. Por vezes pensava na tarde do domingo anterior e sorria consigo mesma, lembrando do quanto tinha se divertido. Na quarta-feira Emma percebeu-se várias vezes olhando na direção da porta da loja. Deu-se conta que estava na expectativa da visita de Regina. A tarde passou, no entanto, sem nem sinal dos olhos mel de seu anjo da guarda. Quando já era hora de fechar a loja Emma ainda foi até a rua e espiou para ambos os lados na esperança de divisar uma silhueta conhecida. Porém não avistou ninguém e retornou para o dia seguinte, quinta-feira, o movimento na loja foi intenso. Emma estava satisfeita com as após as 19 horas Regina caminhou na direção do Magazine Libanês. Havia saído do plantão e resolvera saldar a sua dívida. No dia anterior estava muito cansada e não teve ânimo de passar na loja. Havia trocado de blusa, vestia uma de crepe amarelo queimado, porém sua calça e sapatos brancos não deixavam dúvidas acerca de sua área de atuação. Parou em frente a loja e observou a ampla vitrine que denotava a elegância e a sofisticação daquela casa comercial. Pensou em quanto deveria ser complicado gerenciar aquele empreendimento. Empurrou a porta envidraçada e foi envolvida pelo frescor do ar condicionado e pelo agradável perfume de madeira dos móveis em exposição. Olhou ao redor encantada com a beleza destes. Instintivamente procurou por Emma, mas não conseguiu encontra-la até onde seu campo de visão alcançava. Logo em seguida uma funcionária vestindo um uniforme verde oliva impecável aproximou-se:- Boa tarde, posso ajuda-la?- Obrigada. Eu gostaria de falar com a Emma,, ela trabalha aqui, não é mesmo?A funcionária esboçou um sorriso discreto, como que não compreendendo bem a pergunta, e respondeu:- Sim... Dona Emma encontra-se no escritório. A quem devo anunciar?- Regina.- Um momento, por favor. – respondeu a mulher dirigindo-se para os fundos da aproveitou para observar um pouco mais os produtos em exposição. Eram móveis em estilo colonial e utilidades para o lar, tudo o que se podia imaginar, distribuídos em dois salões amplos, interligados por um pórtico arredondado. Em menos de dois minutos Emma veio recepciona-la sorridente:- Ora, ora... se não é a pagadora de promessas!Regina sorriu e respondeu:- Antes tarde que nunca!- De fato. Mas vamos até o escritório. – disse Emma conduzindo Regina pelo num ambiente bastante acolhedor, uma sala grande e clara, com janelas amplas que deixavam entrar a claridade natural, embora o sol já estivesse escondendo-se por trás das copas das árvores. No entanto a claridade da rua ainda se fazia presente, auxiliando a luminosidade branca e artificial das lâmpadas fluorescentes. Emma apontou uma cadeira estilo Luís XV, muito confortável e dirigiu-se à mulher que as havia seguido:- Por favor, Lourdes, dois cafés.- Sim senhora, dona observou nos trajes e na pose de Emma. Nem parecia a mesma pessoa do domingo anterior, que havia passado a tarde rolando na grama e brincando com sua filha. - E então, - quis saber Emma – o que achou da loja?- Linda, muito linda mesmo.- Que bom que gostou. Eu dedico quase que todo o meu precioso tempo para deixa-la à altura dos clientes.- É uma loja para a elite.- Nem tanto. Temos produtos muito bons com preços não tão salgados assim. E trabalhamos muito a questão dos prazos, o que facilita e pesa bastante na hora de fazer uma compra. Regina não pôde deixar de rir:- Tu é mesmo uma comerciante em potencial. Conseguiu me convencer!- Ossos do ofício – respondeu Emma feita ouviu-se uma batidinha discreta na porta, que logo em seguida entreabriu-se para a passagem da funcionária com uma bandeja. A mulher depositou-a na mesa de Emma:- Obrigada, Lourdes, pode deixar que eu mesma sirvo.- Com licença. – respondeu e retirou-se.- Açúcar ou adoçante?- Açúcar, uma colherinha só.Emma serviu os cafés e continuaram a conversa.- Onde tu trabalhavas antes de vir para esta cidade? – perguntou Regina curiosa.- Sempre trabalhei no comércio. Na verdade sempre nesta mesma empresa.- Coisa difícil de se ver.- Não quando se nasce praticamente dentro dela.- Como assim?- O Magazine Libanês foi fundado por meu avô materno.- Mas então... tu não és funcionária daqui, tu és a dona?Emma riu:- Mais ou menos, digamos que acionista. E gerente começou a reparar naquele escritório, tinha realmente a cara de Emma. Ficou analisando a figura imponente à sua frente que sorvia o seu café com a classe de uma dama da nobreza britânica.- Pensando no quê? – questionou Emma frente a expressão meditativa de Regina.- Nada... só que, sei lá. Tava pensando porque é que tu trabalha tanto, afinal poderias pagar alguém para fazer o teu trabalho.- Ledo engano, senhorita. Primeira lição do vovô Salim: "é o olhar do dono que engorda o gado"! Em investimentos desse porte, envolvendo abertura de filiais, principalmente em outro Estado, não dá para deixar por conta de outros, não. E eu gosto do que faço. Mas com certeza daqui há, mais ou menos, um ano já vai dar para ficar mais relaxada. É só uma questão de estabilizar a nova filial e estava prestando bastante atenção nas palavras de Emma e impressionou-se com a segurança com que sustentava suas posições. Era, de fato, uma mulher de negócios.- Mas vale a pena ficar sozinha neste quase fim de mundo?- Tudo vale a pena. Gosto de novas experiências.- Mesmo que estejas sozinha?Emma calou-se por um momento. De fato, por vezes sentia falta, não só da família, mas de uma companheira. Sentia falta do toque macio da pele de uma mulher, do cheiro doce e das carícias íntimas, do ficar junto, ir ao cinema, jogar cartas... Olhou para Regina e desconversou:- E a nossa partidinha de canastra? Está de pé para amanhã?- Está. Já comentei com a Dona Eda e com o Seu Arno e eles estão ansiosos pelo grande confronto!Emma gargalhou.- E qual vai ser o horário do embate?- Lá pelas 21 horas, para dar tempo de eu sair do plantão com calma, tomar um banho, dar janta para Ju, supervisionar as tarefas da escola...- Eu passo lá então nesse horário. Olha só, eu até já comprei as balas e as bolachas recheadas. Ambas tiveram que rir.- E a ju, como vai?- Ótima. Tem perguntado por ti.- Porque você não a trouxe junto?- É que eu vim direto do hospital, se passo em casa acabo me enrolando e não saio mais.- Sei como é isso.- Bom, eu não quero mais roubar o teu tempo, já vou indo. Muito obrigada pelo café.- De nada. Mas você não me rouba tempo nenhum, muito pelo contrário, é um prazer encontra-la. Eu não tenho muitos amigos por aqui...- Coincidência. Conheço um lote de gente, mas amigos mesmo... acho que só a Dona Eda e o Seu Arno.- E agora eu.- É. E agora tu. Mas então, eu já vou indo – disse Regina também se levantou, abrindo a porta do escritório para ela e acompanhando-a até a saída da loja. Na porta principal curvou-se dando um abraço em Reginae dois beijinhos nas faces:- Obrigada novamente pela visita. Beijinhos na ju.- Vou dar sim, pode deixar. Até amanhã.-Até.Emma ficou observando enquanto Regina seguia a pé para casa. Seu caminhar era compassado e a calça justa deixava ver a silhueta de seu corpo pequeno e com curvas sedutoras. Emma sentiu um calor lhe subindo pelo corpo. Conhecia bem aquele sentimento, e sabia o que significava. Ficou preocupada. Foi trazida de volta à realidade pela voz de Lourdes:- Podemos fechar as portas, dona Emma?- Sim, sim, podem. Eu também já vou indo. Enviado do Samsung Mobile da Claro
