Capítulo 4
Depois de sair de casa de Luna, Ginny decidiu passar pela toca para ir buscar uns livros que lá tinha deixado. Esperava não encontrar lá, Harry com Ron.
- Ela já não quer saber de mim, Ron. Já nem quer sair comigo, já nem quer saber do nosso casamento daqui a um mês. Nem me fala dele. – Ginny estava à porta e não queria ficar a ouvir, mas não resistiu a ouvir a resposta de Ron.
- Eu disse-te que ela andava estranha. Tu é que me disseste, há muito tempo, que conseguias contornar a situação.
-E pensava que conseguia. Mas ela mudou durante aquela guerra. A nossa relação não voltou a ser a mesma depois da batalha. E o facto é que eu tentei mas não posso fazer mais nada. – Harry parecia derrotado. – Hoje enervei-me com ela. E acho que lhe disse coisas que não devia.
- Pede-lhe desculpas. Ela aceita sempre.
- Ela também me disse isso. – Harry reflectia para o vazio. – Mas eu não sei se quero. Não vejo como as coisas podem melhorar. Talvez esteja na hora de cada um seguir o seu caminho. Não sei nem como conseguimos aguentar tanto tempo juntos. – Depois de alguns minutos em silencio em que Ginny reflectiu se deveria entrar pela porta ou aparatar directamente para o seu antigo quarto, Harry perguntou a Ron. – Achas que ela pode ter outro?
Ron pareceu surpreso com a pergunta.
- Sinceramente não, Harry. Não vás procurar problemas onde não há. Trata da vossa relação e não te preocupes com idiotices. – Agora parecia um pouco aborrecido com a pergunta. – Ela nunca teve mais ninguém para além de ti, Harry. Isso digo-te eu.
- Ok, ok. Acho que preciso ir para casa descansar. Talvez ela aparece por lá para conversarmos.
Ginny decidiu aparatar para o seu antigo quarto, antes que Harry abrisse a porta. Sabia muito bem quando as coisas entre os dois mudaram. Quando conheceu Malfoy, aquele ser que se achava acima de tudo e todos e que teve que se adaptar às adversidades da vida, que era todo ele lindo e sensualmente confiante de si, o seu mundo ficou ao contrário e o que era certo passou a errado e vice-versa. Ginny ainda se perguntava por onde andava ele. Imaginava-o sempre naquele palacete em França, com uma mulher linda e inteligente do lado, rico e arrogante. Ela tinha sido apenas mais uma com quem ele tinha tentado a sorte, numa altura em que a 'caça' era escassa. E isso tinha deixado uma ferida mais profunda do que Ginny previu. Decididamente, aquele não era um bom assunto para o momento.
Ginny sentou-se na cama a pensar no que faria em relação a Harry. Era certo que quando acordava ao lado dele, desejava encontrar outro tipo de cabeleira, e se fosse loira não matava ninguém. Esse pensamento fez Ginny rir. Lá estava ela com aquelas ideias outra vez.
Por um lado adorava e respeitava muito Harry. Tinha carinho por ele e, às vezes, até gostava do sexo entre ambos, que Harry insistia em fazer depois de uma briga. Mas já estava farta daquela relação que não lhe trazia muita felicidade, e viu pelos olhos de Harry, na sala, que também não lhe trazia muito conforto a ele. A separação era o melhor para ambos.
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- Entre, Senhor Malfoy. Avisaram-me que viria aqui. – Um Arthur Weasley, com mais uns cabelos brancos e a quem a calvice atacava em força, estava sentado atrás da secretária, fazendo-lhe menção para que se sentasse na cadeira em frente da mesa.
- Bom dia, Senhor Weasley. – Aquele era o pai dela. Claro que Draco o conhecia, mas reconhecer alguns traços de Ginevra, que não via há mais de dois anos, era desconsolador. – Ainda bem, poupa-me o tempo de lhe explicar tudo. Eu preciso do relatório de todos os movimentos mágicos e feitiços feitos no local em que os trouxas foram encontrados. Só lhe venho pedir isso a si porque tudo aconteceu em território exclusivamente trouxa. – Draco agora reparava nas vestes do senhor na sua frente. Ele parecia estar bem de vida. Já nem o manto em segunda mão trajava.
- Vai ter de aguardar alguns momentos, Senhor Malfoy. – Enquanto dizia isso, levantava-se e tirava um pouco de pó de Flu de dentro de um pote em cima na lareira, para a lareira, chamando por um tal de Scort. – Scort! Acorda! Vai buscar o relatório da rua Winconsin, em Londres! – Um sujeito, que claramente tinha acabado de acordar, apareceu na lareira. – É urgente, por isso despacha-te.
- Sim, chefe! – E desapareceu.
- É só esperar alguns minutos que ele já volta. – O Draco assentiu para ele. Draco lembrou-se da antiga inimizade entre aquele homem e o seu pai. Talvez ele não gostasse mais de que ele próprio daquela situação. Mas Draco estava demasiado curioso em saber por onde andava Ginevra. Já que nem a tinha encontrado ali, coisa que nem tinha razão para acontecer, não fazia mal perguntar.
- Então, Senhor Weasley. Ouvi dizer que a loja de brincadeiras e doces mágicos Weasley e Weasley vai de vento em popa. Já pensei em fazer um investimento do género, mas apresentaram-se outras propostas irrecusáveis. – Draco disse num tom casual, tentando parecer simpático. O Senhor Weasley ergueu uma sobrancelha desconfiado.
- Sim, está tudo a correr bastante bem. – Disse num tom hesitante. – Sabe, Senhor Malfoy, a minha mulher Molly bem tentou impedir, mas não pode fazer mais que um tanto. Eles já são dois homens grandes. – finalizou com certo orgulho. O Senhor Weasly olhava para Draco, curioso, meio a tentar adivinhar o que pretendia dele.
- Pode-me tratar por Draco, Senhor Weasley. – Disse serenamente.
- O Draco também me pode tratar por Arthur, se não se importar. – E sorriu. Não conseguia mais ver nele Lucios Malfoy depois daquela abordagem, por muito parecidos que os dois fossem. Lembrando-se do quanto Molly e Ginny, estranhamente simpatizavam com aquele rapaz, o Senhor Weasley não pode deixar de lhe dar um voto de confiança. – Ouvi dizer que tem tido uma postura exemplar no cargo de subchefe do Departamento de Poções.
- Dizem que sim. Mas eu digo sempre que nasci para isso. – E sorriu confiante. A verdade era para ser dita, certo? O Senhor Weasley pareceu não se importar com a arrogância dele.
- Ginny, a minha filha, que sei que conhece, ela já me falou de si, também está muito bem com o curso de Auror. Dizem que ela é muito boa. Eu digo que ela é excepcional. – E sorriu de novo extremamente orgulhoso. – Vai-se casar com Harry dentro de um mês. Ando preocupado com o facto de andar sempre irritadiça e de mau-humor, ultimamente e Ron…
- Ela falou-lhe de mim? – Draco olhava-o atónito, perdendo toda a pose, enquanto tentava assimilar a informação acabada de receber. Não conseguia imaginar Ginevra a falar com o Senhor Weasley a seu respeito.
- Sim. – Não parecia impressionado com o espanto de Draco. – Ela e Molly concordavam em, pelo menos, uma coisa, Draco. Que o senhor se tinha tornado numa pessoa decente. – Dizia aquilo a sério, sem nota de humor na voz. Draco, se fosse uma pessoa mais descontraída, de certeza que estaria com a boa aberta. Ginevra falava bem dele? Para o pai? O espanto de Draco era cada vez maior. Mas e o perfeito Potter? Não tinha direito a elogios naquela conversa? Por momentos, quando o Senhor Weasley falou do casamento da filha, pensou que este se iria desmanchar em aplausos a Potter e falar do quão orgulhoso estava da filha, por causa disso. Mas ele não parecia ligar a mínima para isso. Em vez disso, ele estava preocupado com o estado estranho da filha… Draco parou para pensar. Não conseguia imaginar Ginny a mudar o seu comportamento por estar prestes a casar, ainda por cima com ele. Ela era mais do que isso. Mesmo estando meses e meses sem sair de casa, apenas saía da soleira da porta e aparatava para a sua casa, ela continuava alegre, não o deixando enlouquecer dentro daquela casa.
- Ginevra é uma pessoa forte. Deve passar-se alguma coisa para ela estar alterada. – Disse Draco. O Senhor Weasley olhou para ele, impressionado. Aquele rapaz tinha, decididamente, mais do que mostrava.
- Eu acharia muito apropriado se o convidasse para um jantar em minha casa, Draco. Como já disse, Ginny anda demasiado amargurada para o meu gosto, mesmo tendo a desculpa de se estar prestes a casar. E o senhor parece conhecê-la bem. - Inspeccionou-o outra vez, à procura de alguma emoção que conseguisse escapar daquela máscara fria, que tinha voltado.
- Chefe! Aqui está o relatório como pediu. – Scort tinha saltado da lareira directamente para o lado da secretária, distraindo o Senhor Weasley.
- Pode ir, Scort.
- Sim, chefe. – O indivíduo moreno virou costas e saiu para o corredor.
O senhor Weasley pegou num pergaminho e numa pena que se encontrava perto de um boião de tinta e debruçou-se sobre o pergaminho.
- Aqui tem a morada, Draco. Apareça. – E sorriu amigavelmente.
- Farei os possíveis… Arthur. – E sorriu de volta. Um sorriso sincero. Já percebia de onde tinha vindo aquela aura acolhedora e convidativa de Ginny. – Até mais.
- Até mais. – Respondeu antes de ver a porta fechar-se novamente.
Do outro lado da porta, Draco suspirava, pensando no que fazer. Será que devia aparecer naquele jantar? E se Ginevra tivesse mudado de opinião em relação a ele e não o quisesse ver nem pintado? E se ela e Potter estivessem bem mesmo? E se a irritação dela tiver origem na união do século? Eram muitos se's a considerar. Só mesmo indo lá saberia.
- Draquinho… Fiquei aqui à tua espera. Disseram-me que estarias por aqui. – Pansy colou-o à parede, interrompendo os seus pensamentos. " Esta mulher é mesmo doida.". Draco sabia que quando ela estava tão perto, não havia nada a fazer. – Amor, há ali uma dispensa, que até é espaçosa. – Ela olhava-o, não nos olhos mas para o peito e boca. – Anda, por favor…
Draco não teve alternativa. Deixou-se arrastar por Pansy e entraram na tal dispensa, só voltando a abrir a porta meia hora depois, com Pansy já mais 'calma'.
- Amor, encontro-te à noite no teu apartamento, ok? – Draco apertava a camisa e olhou para ela. Mais uma vez naquele dia, suspirou. Não é que não 'desse conta do recado', mas já estava farto dela. Desde que tinha reavido os seus bens, em França, e arranjado aquele emprego no Ministério que ela não o largava. Draco só se deixava levar por ela porque ficava muito bem com ela nas festas e eventos sociais em França, onde ninguém o conhecia. Em contrapartida, Pansy tinha um problema de hormonas, no mínimo, fora do normal. No princípio era divertido, fazer sexo de manhã à noite, mas a certa altura ele começou a cansar-se da burrice dela. E estava a chegar a altura de lhe dizer isso.
-Não. Tenho que fazer. Eu depois digo-te alguma coisa Pansy. Até mais. – E deixou-a especada, no meio do corredor, ainda a tentar perceber as palavras dele. Draco precisava de se preparar psicologicamente para o jantar dessa noite.
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- Ginny, já voltaste? Pensava que ias ficar n'A Toca para jantar. – Luna olhava-a da porta da cozinha, enquanto esta posava dois livros enormes na mesinha da sala.
- Bem, o Harry estava lá e não me senti preparada para falar com ele. – Sentou-se no sofá, sendo acompanhada por Luna.
- Decidiste tomar alguma atitude. – Luna olhava-a esperançosa. Cada vez mais perdia aquele olhar de lunática que lhe era tão característica. Influência de Scort.
- Pára de tentar adivinhar o que eu penso! Isso é muito irritante, sabias?! – Ginny irritou-se. Olhou em volta e disse. – Mas Scort nunca está em casa? Onde é que ele anda?
- Alguém chamou por mim? – Scort dava um pulo da lareira ao lado de Ginny, caindo mesmo em frente às duas amigas.
- Amor… - Luna também saltou do sofá para lhe dar um beijo demorado. – Chegaste cedo hoje.
- Pois, o Senhor Weasley dispensou-me mais cedo. – e sorriu. Scort era, na verdade, encantador. Moreno, dentes brancos e cabelo curto, bem arranjado, podia considerar-se lindo. Só tinha o senão de ser quase tão desajeitado como Tonks. – Houve uma confusão no Ministério por causa de uma armadilha a trouxas, em Londres. Parece que foram envenenados por uma poção que fazia a pressão interna do corpo aumentar. Claro que o ministro mandou o Departamento de Poções para tratar disso, que consequentemente, vieram ter connosco. E quem apareceu desta vez para nos pedir o relatório dos movimentos na zona foi o Draco Malfoy, todo emproado e bem vestido. O Senhor Weasley pediu-me para ir buscar o relatório e…
- Quem? – O coração de Ginny estava aos saltos. Julgava que ele estava longe.
- O Senhor Weasley.
- Não é isso. Quem apareceu para dar a cara?
- Draco Malfoy. – Scort olhava-a confuso já que não via nenhum problema com Malfoy.
- Não sabia que Malfoy se encontrava aqui em Londres. – Ginny tentava disfarçar. Mas o facto é que se relembrou de tudo. Os momentos na biblioteca, o beijo, a sua ida inesperada. Aquela ferida ainda lhe doía. E doía-lhe ainda mais agora, sabendo que o 'caso' deles não tinha representado nada para ele, já que se encontrava em Londres aquele tempo todo e nem a tinha procurado. Mas procurá-la-ia para conversarem sobre o quê?
- Ele é subchefe do Departamento. Muito bem sucedido na verdade, e olhem que só cá está há apenas um mês. Realmente, há gente que nasce com o cu virado para a Lua, se me permitem a expressão. Ele e o Senhor Weasley ficaram a conversar depois que eu saí.
- Luna, tenho de ir, sim? Falamos mais tarde. – Ginny não pressentia nada de bom vindo dali. Conseguia imaginar a boa vontade do pai, misturada com as coisas que ela própria lhe tinha contado podia dar.
- Mas o que vais… Ginny! Disse alguma coisa que não devia? – Disse Scort para a mulher, depois de não ter obtido resposta de Ginny, que saiu porta fora.
- Pode dizer-se que atiras-te uma pedra no escuro e que acertas-te bem no ponto, querido. – Disse Luna com um ar sabedor, beijando-o em seguida.
