Quando a Tempestade Acabar


.: IV - Adeus Hemeróbios :.

A resposta de Snape não tardou chegar. Harry pode ouvir nitidamente a voz do ex-professor ecoar pelo quarto, caracterizada por seu eterno tom arrastado.

"Não esperava menos de você, Draco. Me envie uma coruja com suas anotações sobre os testes para que eu possa refazê-los em meu laboratório, precisamos checar tudo nos mínimos detalhes. Continue no St. Mungus tabelando os resultados. Devido a alguns eventos relativos a Ordem só poderei fazer uma visita no final da semana, até lá teremos informações suficientes para determinar se é seguro ou não remover os hemeróbios com este método."

Harry teria piscado desorientado com o fim da mensagem porque não era natural terminar as coisas daquela forma, sem nenhum adeus, ou sei lá, um até breve. Ficou alguns bons segundos aguardando a continuação, que Snape acrescentasse algo, mas depois de pelo menos um minuto de silêncio ele teve certeza de que o patrono evanescera no ar. O que só fez com que ele se sentisse bastante idiota.

Malfoy, ao contrário dele, não ficou nenhum pouco impressionado com a atitude do bruxo mais velho e apenas levantou para apanhar alguma coisa sobre a mesa. Harry aguardou e foi recompensado pelo barulho de papel sendo manuseado.

As próximas horas seguiram naquele mesmo ritmo, o som da pena riscando o papel, do tinteiro sendo utilizado e alguns suspiros. Vez ou outra ele podia ouvir o outro bruxo parando o que estava fazendo para se espreguiçar, a cadeira rangendo com o seu peso, mas logo em seguida o loiro parecia continuar com suas anotações, sempre muito dedicado.

Harry só se deu conta de que provavelmente já se passara um dia inteiro quando uma voz alegre reverberou pelas paredes do quarto. Estivera tão hipnotizado pelo som da respiração suave de Malfoy ao escrever, que não ouvira passos e nem seu deu conta de que tinham companhia.

"Oh, Sr. Malfoy, ainda aqui?" E o grifinório imediatamente reconheceu a voz de Madame Faux, uma das medi-bruxas responsáveis por verificar diariamente seu estado comatoso.

O sonserino soltou um grunhido, não se dignificando a responder apropriadamente, parecendo bastante ocupado com o que estava escrevendo. Harry teria revirado os olhos e sorrido se pudesse.

"Como sempre bastante simpático, não é mesmo Sr. Malfoy?" Faux continuou agora ao lado da cama, começando a realizar diversos exames com alguns feitiços.

"Você até pensaria que um bruxo criado na nobre família Malfoy, um herdeiro dos Black, seria mais educado do que isso," a bruxa resmungou enquanto trabalhava quase que automaticamente, "mas não, sempre tão ranzinza e tão fechado."

E era uma pena Harry não poder se mover, porque ele estava morrendo de vontade de rir.

"Quando foi a última vez que você foi gentil com outro ser humano, Sr. Malfoy?" Como esperado o loiro não respondeu, perdido em outro mundo, e a bruxa bufou. "Exatamente!"

Faux, pelos ruídos que fazia, estava rodeando a cama e pela proximidade dos sons Harry só podia supor que ela agora se ocupara em verificar sua cabeça.

"Como você espera arranjar uma boa esposa desse jeito, Sr. Malfoy?" A medi-bruxa insistiu em um tom mais agudo e dessa vez, por algum milagre, o sonserino pareceu finalmente ouvi-la.

"Me desculpe, Madame Faux, a senhora disse alguma coisa?" O bruxo perguntou com um tom claramente irritado por ser ter sido interrompido.

A medi-bruxa suspirou pesarosa antes de responder. "Quando foi a última vez que o senhor comeu, Sr. Malfoy?"

A pergunta pegou tanto Harry quanto o sonserino desprevenidos.

"No que isso poderia ser relevante?" O loiro retrucou impaciente com o rumo da conversa.

"Tanto tempo assim, hum?" Faux observou, parecendo não se abalar com a rispidez do outro.

Harry ficou surpreso com este pedaço de informação. Agora que alguém apontara, Draco realmente parecia passar muito tempo em seu quarto e não havia indícios de que ele comia ou sequer tirava um período para dormir.

"Madame Faux, ficarei grato se a senhora se concentrasse apenas no seu paciente," Malfoy informou de forma categórica, se remexendo na cadeira e voltando a escrever com um barulho mais intenso, como se estivesse colocando mais força do que necessário sobre a pena.

Novamente a medi-bruxa suspirou e Harry reconheceu o feitiço que ela estava conjurando como o último das suas rotineiras visitas médicas.

"Nenhuma mudança, não é mesmo, Sr. Potter?" ela murmurou compadecida e Harry podia até imagina-la dando um breve tapinha em seu ombro.

Para a surpresa dos dois, a voz arrastada do loiro imediatamente preencheu o quarto.

"Potter não está familiarizado com o conceito de resolver seus problemas por conta própria, Madame Faux."

E Harry teria, se fosse possível, erguido uma sobrancelha com irritação velada diante do ataque verbal, mas se contentou apenas em ouvir o comentário interessado que a medi-bruxa fez.

"Mesmo? E suponho que ele sempre precisa de ajuda para encontrar o caminho de volta, não é verdade?"

Malfoy deixou escapar uma lufada de ar que mais parecia com uma risada.

"Eu não chamaria exatamente de ajuda. Está mais para ser arrastado."

"Então não seria nenhum absurdo concluir que a sua desconsideração com sua própria saúde é um resultado direto da sua preocupação com o bem-estar do Sr. Potter, sim?"

A pena do loiro parou bruscamente de se mover e Harry ouviu com nitidez o exato momento em que o sonserino inspirou com força.

"Não, Madame Faux," a voz de Malfoy assumiu um tom glacial, "a senhora está equivocada. Potter poderia morrer a qualquer minuto e eu não me importaria. Que fique claro que eu só desconsidero a minha saúde, como à senhora mesma diz, por dar valor ao meu trabalho."

"Oh, me perdoe então pelo engano," e novamente a medi-bruxa impressionou Harry com seu autocontrole, não era qualquer pessoa que sobrevivia aquele tratamento do sonserino.

"Você não tem outros pacientes para checar não?" Malfoy acrescentou parecendo bastante interessado em expulsá-la do quarto.

"Claro que sim," Faux respondeu com certa leveza, começando a caminhar para fora do recinto, mas não sem antes parar e acrescentar, "Ah, Sr. Malfoy, só um aviso, tente não desmaiar, sim? Porque senão serei obrigada a interna-lo e tenho certeza que o Professor Snape não se incomodaria em assinar os termos requeridos."

E com passos apressados ela continuou andando, deixando para trás um Draco Malfoy bastante irritado.


Harry estava feliz e sua felicidade tinha dois motivos. O primeiro é porque haviam diversas pessoas em seu quarto além de Malfoy, o que contribuía para aplacar o seu tédio, e o segundo era porque hoje eles finalmente tentariam remover o tal do hemeróbio.

Claro que ele não sabia exatamente o que pensar sobre todo o procedimento e até certo ponto sentia-se apavorado, mas não era pavor de morrer, apenas tinha medo de aquilo tudo não dar certo. Nada poderia ser pior do que ficar preso naquela cama, sem poder se mexer ou enxergar, apenas ouvindo, ouvindo sua vida passar sem que pudesse controla-la.

Era por isso que de certa forma agradecia a presença daquele burburinho bastante alto. Coisas pareciam estar sendo arrastadas enquanto medi-bruxos discutiam de forma acalorada formas de prevenir algum acidente durante o evento e, em um canto, alheias a tudo, diversas enfermeiras estavam ocupadas murmurando pesares ou até mesmo fazendo fofocas.

Mesmo estando satisfeito com toda a confusão, Harry se viu surpreso ao notar que sentia falta da voz de Draco e de seu tom mordaz, obviamente estava agradecido pela mudança na rotina acústica do quarto, mas não podia evitar comparar a tranquilidade dos outros dias na companhia do bruxo com aquela confusão.

"Já terminaram de ajustar os feitiços?", a voz de Snape se destacou sobre o barulho, estimulando todos os presentes a fazerem silêncio.

Alguém em um canto pigarreou antes de responder.

"Claro que sim. Só estamos esperando Sr. Smethwyck e o Sr. Malfoy para começarmos."

E para a surpresa de todos uma voz arrastada imediatamente respondeu.

"Eu estou bem aqui," e Draco parecia contrariado por ser ignorado.

A resposta do loiro só serviu para fazer com que Harry se surpreendesse ao notar o quanto o bruxo parecia estar próximo de seu corpo, provavelmente sentado logo ao lado de sua cama. Como é que ele não ouvira nada antes? Com toda aquela confusão acabara pensando que Malfoy havia escapulido para fora do quarto em algum momento, mas pelo jeito o bruxo não saíra do seu lado desde o início do dia. Não que fosse admitir, mas o gesto o reconfortava.

"Bem, então só falta o Smethwyck," alguém esclareceu, murmurando baixinho logo em seguida, "aquele velho irresponsável, sempre atrasado." E Harry teria curvado os lábios em um meio sorriso se pudesse, pois tinha certeza que o comentário provavelmente provocara uma onda de prazer em Malfoy.

"Nós também estamos esperando o guardião do Sr. Potter," Snape informou, fazendo com que várias pessoas do quarto soltassem murmúrios de compreensão, como se aquela atitude fosse bastante sensata.

"Lupin?" Ao seu lado Malfoy imediatamente questionou e Harry sentiu-se feliz com a novidade, a perspectiva de ter Remus acompanhando tudo o que era feito lhe dava uma certa segurança.

"Sim, Draco," Snape se aproximou enquanto respondia e agora os dois bruxos conversavam logo ao lado de sua cama. "Espero que você não planeje nenhuma cena." Acrescentou em seguida, fazendo o loiro bufar.

"Como se você tivesse moral para me dar sermões sobre como tratar um lobisomem." Malfoy respondeu, não parecendo muito disposto a ouvir as ladainhas do padrinho.

"Só não acho que este seja nem o momento, nem o lugar para praticar as rivalidades entre as nossas casas." Snape insistiu, parecendo decidido em oferecer uma opinião paternal sobre como Draco deveria se portar naquele dia.

Obviamente o loiro não deixou barato.

"Professor Snape, com todo o respeito, já tenho idade o suficiente pra ter discernimento sobre os momentos em que posso expor livremente as minhas opiniões e os momentos em que preciso agir como um profissional."

E isso pareceu ser o suficiente para fazer com que o Snape se afastasse e evitasse a companhia do afilhado. Pelo jeito os dois ainda estavam trocando farpas devido a discussão sobre os Macnair. Depois disso Harry ouviu nitidamente o momento em que Draco soltou um suspiro, parecendo exausto e até mesmo um pouco melancólico.

Não demorou muito para que Smethwyck finalmente aparecesse, o que para a infelicidade de Draco (e entretenimento de Harry) resultou no medi-bruxo tomando para si a obrigação de sociabilizar com o jovem apotecário que estava sendo nitidamente ignorado pelo resto do grupo.

"Um belo trabalho, Sr. Malfoy," o bruxo repetia pela vigésima vez e Draco já desistira de ser cordial, agora simplesmente não respondia as perguntas e Smethwyck acabara se envolvendo em um monólogo tedioso e pessoal sobre os avanços mágicos da medicina atual.

Harry já estava farto e quase concordando com a opinião do Malfoy sobre o infeliz quando Remus surgiu na porta do quarto, cumprimentou todos os presentes com o seu jeito afável.

"Lupin, presumo que pontualidade não seja uma de suas características marcantes," Snape rapidamente comentou e ao seu lado Harry ouviu Draco sussurrar: E a onde foi parar o seu manual de como tratar um lobisomem, Severus?, fazendo o grifinório rir mentalmente.

"Severus peço desculpas pelo atraso," Remus respondeu, parecendo não ficar nenhum pouco abalado com o quase ataque verbal do bruxo, "infelizmente a assembleia das novas leis mágicas demorou mais do que eu previra e acabei perdendo o trem."

Esta justificativa chamou a atenção de Harry. Hermione e Remus haviam passado os últimos meses lutando por leis menos preconceituosas, visando beneficiar principalmente lobisomens, e apesar dele dar a maior força para a causa, sentia-se um pouco culpado por não possuir o mesmo espirito ativista dos amigos.

Ouvindo agora que ambos conseguiram marcar uma Assembleia sobre o assunto, sentia-se feliz por ver que as coisas estavam evoluindo, mas obviamente ele era o único interessado no desfecho daquele encontro, porque de imediato Snape deixou de lado seus comentários sobre o atraso e passou a falar sobre o que eles iriam fazer.

"Agora que finalmente todas as pessoas interessadas no caso do Sr. Potter estão presentes," e ao falar isso fez uma pausa suspeita, "vou começar a descrever o procedimento que iremos realizar."

O lugar ficou em um total silêncio e só a voz de Snape cortava o ar, todos aparentando estar bastante tensos e ansiosos. "Como a maioria aqui já sabe, Harry Potter foi envenenado com uma substância desconhecida e, até o momento, não registrada. Nestes últimos dias conseguimos identificar apenas alguns compostos, mas infelizmente não podemos afirmar nada devido a presença de uma grande quantidade de hemeróbios em seu sangue."

Murmúrios de compreensão preencheram o quarto e Snape interpretou isso como um sinal para que continuasse.

"O Sr. Malfoy, ao meu pedido," e aqui fez uma nova pausa e Harry tinha certeza que o bruxo apontara o afilhado em um claro sinal de respeito, "está tentando produzir um antídoto, mas para que consiga prosseguir com seu trabalho é preciso remover os hemeróbios para poder identificar com precisão qual é a composição do veneno. Passamos alguns dias pesquisando qual seria a forma mais segura de se fazer isso, até que Draco chegou à conclusão de que a melhor opção seria utilizando calor."

Snape fez uma nova pausa, mais curta dessa vez, e depois prosseguiu. O bruxo tinha a atenção irrestrita de todo o quarto, inclusive a de Harry.

"Não sei se a maioria aqui tem conhecimento sobre o mecanismo de ação dos hemeróbios, mas basta dizer que eles se ligam com bastante facilidade a alguns componentes sanguíneos e que a única maneira de removê-los é alterando sua estrutura. A forma menos arriscada que encontramos, depois de muitos testes, foi a de aumentar a temperatura da solução em que ele se encontra, alterando assim sua conformação. Portanto, é exatamente isso que iremos fazer hoje."

Imediatamente alguém tossiu e uma voz bastante rouca perguntou, "E como vocês pretendem aumentar a temperatura corporal do Sr. Potter? Pelo o que eu saiba é bastante arriscado provocar uma febre que possa ultrapassar quarenta graus, estamos falando aqui de sérias alterações fisiológicas, principalmente de danos cerebrais."

E dessa vez quem tornou a falar foi Draco, sua voz indicava que ele não gostara nenhum pouco do que ouvira.

"Acredite ou não," o loiro começou em um tom entediado, "eu tenho especialização em fisiologia, anatomia e bioquímica." Imediatamente um silêncio pesado recobriu o quarto e Malfoy continuou com seu sermão arrastado. "Conheço todos os riscos e fiz vários testes em diferentes amostras de sangue até encontrar a melhor solução. Existe uma poção específica para aumentar a temperatura corporal, ela é utilizada para casos de hipotermia, acredito que muitos aqui a conhecem. Realizei algumas alterações na fórmula com a ajuda do Professor Snape e posso assegurar que ela não aumentará a temperatura de Potter além do limite de quarenta graus."

"Mas como você pode ter tanta certeza que ela atuará da mesma forma in vivo?" Alguém pressionou e Harry imaginou um Draco Malfoy trincando os dentes.

"Porque eu mesmo testei a poção." Foi a resposta e com isso a sala imediatamente foi preenchida com diversos arquejos e se Harry estivesse acordado, com toda certeza estaria de queixo caído. Será que Malfoy era tão maluco assim para sair experimentando coisas em si mesmo?

Mas o momento de surpresa rapidamente foi interrompido por outra pergunta.

"Mas e o tempo? Por quanto tempo será preciso que ele fique neste estado?"

"O suficiente para todo o hemeróbio ser desnaturado. Acredito que por uns cinco minutos," Draco respondeu sem pestanejar, parecendo estar preparado para aquele tipo de pergunta.

"E como vamos avaliar se todo o hemeróbio foi eliminado?"

"Não posso te dar uma resposta prática para isso, Madame Sprout. Este é um procedimento novo. O tempo que informei foi obtido por meio de experimentos e cálculos. Só serei capaz de afirmar que tivemos sucesso depois que estabilizarmos a temperatura de Potter e colhermos uma nova amostra de sangue."

Um burburinho se formou depois disso, todo mundo começou a falar ao mesmo tempo, alguns gritando para serem ouvidos e Harry teve uma imensa vontade de berrar para que todos calassem a boca e andassem logo com aquilo. Para o seu alívio Remus estava ali e o licantropo fez exatamente isso, só que de uma forma mais delicada, claro.

"Pessoal. Pessoal!" Lupin teve que praticamente gritar para fazer com que todos se calassem. Harry não precisava ver para saber que seu guardião provavelmente estava parado no meio do quarto com um sorriso tranquilo, erguendo as mãos para pedir calma. "Sei que estamos todos muito nervosos com esta situação, mas infelizmente não temos outra opção. Como todos aqui sabem o Harry já está a mais de setenta e duas horas sobre o efeito de um veneno desconhecido, não sou nenhum medi-bruxo nem nada, mas sei que se não agirmos rápido podemos não conseguir reverter seu quadro comatoso."

Novamente um tumulto de vozes, dessa vez a maioria parecia concordar com o que acabara de ouvir enquanto uma minoria fervorosa tentava argumentar contra.

"Senhores, senhores!" E mais uma vez foi preciso que Remus gritasse para por ordem na bagunça. "É uma decisão difícil, eu sei, mas ela já foi tomada por mim que sou o guardião de Harry. Acredito de verdade que ele não gostaria que ficássemos de braços cruzados com medo de agir. Harry sempre foi um bruxo muito corajoso, não tenham dúvidas de que estamos tomando a decisão certa."

E o que se seguiu foi um burburinho mais tranquilo, carregado de aceitação. Draco ao lado de Harry não se conteve e murmurou, "Grifinórios e seus discursos sobre coragem." E ele sabia muito bem que o loiro estava revirando os olhos.

Alguém mais adiante pareceu tomar a iniciativa e lançou uma pergunta.

"Então agora que vamos prosseguir, o que vocês precisam que a gente faça?" Harry só pode imaginar que era um medi-bruxo falando. Aliás, estava se perguntando porque é que tanta gente estava presente em seu quarto, mas levando em conta como seu nome era famoso, não era de se espantar nenhum pouco que todo mundo do hospital parara para assistir o que iria acontecer.

"Primeiro preciso pedir que quem não tem nenhuma ligação com o caso que se retire imediatamente do quarto," a voz arrastada de Malfoy informou e foi seguida por diversos muxoxos e sons de passo. "Smethwyck e Sprout, vamos precisar que vocês monitorem os sinais vitais e que fiquem atentos para qualquer eventualidade, eu e Snape iremos administrar a poção."

Ambos os bruxos fizeram sons de concordância, mas Smethwyck rapidamente acrescentou, "Vocês não vão usar nenhum feitiço para que ele consiga deglutir a poção?"

Draco imediatamente respondeu com o tom de quem está explicando algo muito óbvio pra uma criança. "Não, seria arriscado demais, o feitiço poderia provocar uma reação indesejável ao entrar em contato com o veneno."

Novamente alguns murmúrios, dessa vez em menor escala, e logo em seguida se instalou um silêncio carregado de expectativa, que só foi interrompido por um rápido 'tudo pronto?'

Por longos segundos Harry não sentiu nada, não sentiu que estava sendo erguido ou que alguém estava debulhando um frasco de poção em sua boca. Não soube se o haviam deitado de novo na cama, nem o que estava acontecendo ao seu redor. Todos permaneciam em silêncio, uma pesada expectativa recaindo como uma aura fúnebre sobre o quarto.

Tudo isso só contribuiu para que ele ficasse ainda mais ansioso com o resultado. Sua mente fervilhava com as mais variadas hipóteses e desfechos até que ele finalmente sentiu algo diferente, um estranho formigamento que começou na ponta de seus dedões dos pés e foi subindo como aranhas, passando pelo seu joelho, quadris, cotovelos e nuca. Era uma sensação estranha, mas ainda assim emocionante, se pudesse ele teria começado a chorar. Sentira tanta falta do próprio corpo, de ter consciência de seus membros, de sua pele e músculos.

Mas o formigamento passou e em seguida ele sentiu uma enxurrada de energia mágica ondular por sua mente e corpo, sua magia formando camadas fortes que pareciam escapulir por seus poros e invadir o quarto. Não demorou muito para que ele ouvisse arquejos e o som inconfundível de coisas se quebrando, janelas, frascos, copos e qualquer tipo de coisa frágil.

Sim, aquilo era ele, era sua magia descontrolada fluindo por todos os lugares, ele também sentira falta disso. Imediatamente um burburinho apreensivo começou a se formar e ele conseguia discernir alguns suspiros tensos.

"Parece que está funcionando," ouviu Malfoy murmurar ao lado da cama, sua voz um pouco estrangulada.

"Sim, mas a magia dele está um caos." E foi Snape que respondeu, não parecendo nenhum pouco surpreso com o resultado positivo.

Agora todos os presentes pareciam começar a comemorar, os medi-bruxos imediatamente passaram a anunciar, animados, as milagrosas melhoras nos seus sinais vitais e alguém mencionou logo ao fundo que suas ondas cerebrais estavam normalizando. Uma esperança que Harry por muito tempo tentara reprimir em um pequeno recanto de seu cérebro retornou com força total. Ele estava voltando!

Mas foi aí que tudo pareceu desandar e pela primeira vez naqueles dias ele sentiu algo forte o suficiente para fazê-lo perder o fôlego e no instante seguinte se pegou arfando, sem conseguir puxar o ar para os pulmões.

O quarto explodiu em um imediato pandemônio, Remus à distância deixando escapar um assustado 'Oh, Merlin, não!' enquanto Snape praticamente o expulsava do caminho.

"Madame Sprout!" Alguém gritou e algo muito pesado pareceu cair em algum lugar.

Seu peito estava doendo, como se estivesse prestes a explodir e ele não conseguia abrir os olhos, a única coisa que sentia era aquela pressão insuportável que começava a migrar por seu pescoço até os seus ouvidos e olhos. Ele queria gritar.

"Ele está tendo uma parada cardiorrespiratória!" Sprout informou em um meio gritou de algum lugar ao seu lado, mas Harry não conseguia mais se concentrar, estava muito difícil permanecer consciente.

Aquilo só poderia ser o fim, certo? Ele iria morrer a qualquer momento, não?

E como se tivesse ouvido suas perguntas, a voz de Draco se sobressaiu em meio ao barulho, muito próxima de seus ouvidos.

"Oh, Potter, nem ouse morrer, não vou deixar você escapar assim tão fácil," e a voz de Draco não estava arrastada e muito menos carregada com o seu típico sarcasmo, se ele pudesse descrevê-la diria que possuía um tom lívido, como se o loiro estivesse com medo.

Se pudesse Harry teria descrito aquilo tudo como algo muito hilário, afinal, sua última lembrança antes de morrer provavelmente seria a de um Draco Malfoy debruçado sobre si, soando inesperadamente desesperado.

E pensando nisso não teve muito o que ele pudesse fazer a não ser perder a consciência.


N/A: Agora sim a coisas começam a andar (finalmente!). Minha intenção até agora foi criar um pequeno vínculo entre os personagens, um vínculo forte o suficiente para que eles deixassem alguns preconceitos de lado. Acho que funcionou, hehehe.

Respondendo a minha própria pergunta sobre o patrono do Draco, bem, já tem certo tempo que elaborei essa ideia e ela é um pouco, digamos, inesperada. Já cheguei a pensar, como muitos, que seria um dragão, ou uma cobra e até mesmo um cervo, hahaha, mas nada parecia encaixar, até eu lembrar de uma criaturinha mitológica.

Pois bem, o patrono do meu Draco (veja bem, ênfase no meu) é uma quimera. Não vou me prolongar muito na explicação porque de certa forma eu irei apresenta-la em capítulos mais adiante, mas as quimeras são criaturas que lançam fogo pelo nariz e que possuem uma aparência híbrida de dois ou mais animais. No caso do Draco, a quimera dele tem cabeça de dragão, corpo de leão e rabo de serpente. Como podem ver dá pra construir todo um simbolismo em torno disso e é exatamente isso que pretendo fazer no futuro.

Enfim, espero não ter decepcionado vocês com a resposta, hahaha.

Agradeço a todos que deixaram comentários, principalmente depois daquele capítulo pavoroso, yeah, e espero que tenham gostado deste aqui, que marca o início de uma nova fase da história.

Será que o Harry morreu? (maldade perguntar isso, né?)

Enfim, é isso aí.

Bom início de semana para todos!