Capítulo III
Ao se recuperar dos efeitos da chave de portal, Severus olhou em volta, reparando no quarto. A melhor palavra para definir o que ele sentia era decepção. Não havia absolutamente nada de mais no ambiente. A menos, é claro, que ele tivesse alguma tendência para ser um daqueles monges trouxas. O que, definitivamente, ele não tinha.
Havia uma cama, uma mesinha de canto, tapete, lareira. Só. Deu um suspiro irritado. Se aquela era a idéia de um motel de luxo, teria que retirar todos os poucos elogios que fizera aos gêmeos. Sobre a mesinha, havia uma garrafa e dois copos. Tinha quase certeza que era Uísque de Fogo. Suspeitas confirmadas. Um quase sorriso se desenhou em seus lábios ao provar o líquido âmbar. A bebida, pelo menos, era de qualidade. As coisas ficariam ainda melhores com a chegada de Harry.
Virou-se e finalmente reparou numa porta a esquerda da cama. Severus tinha quase certeza que ela não estava ali antes. Pegou a garrafa e caminhou até a porta. Abriu-a sem dificuldades e, ao reparar o interior do outro aposento, sorriu. Agora, compreendia a expressão no rosto do Weasley.
Severus não tinha a menor idéia do que era aquele ambiente. Parecia uma mistura de banheiro, cachoeira e praia. Bom, isso considerando as bolhas de espuma que enchiam a água, as quedas d' água ao invés de paredes e a pequena ilha bem no meio da piscina natural. Caminhou, contornado a água, até uma parte oculta por pedras. Descobriu o que parecia ser uma caverna. Uma grande caverna com uma cama enorme no fundo. Ou o que ele achava que era o fundo, pois parecia haver outra passagem. Pensou em explorar o lugar, mas um grito de alegria e o som de água espirrando atraíram sua atenção. Talvez, só talvez, o lugar não fosse tão mal assim.
Saiu da caverna e viu as roupas espalhadas pelo chão. Não reparou muito nelas, mais atento à única parte de Harry visível na água: a cabeleireira negra. Um sorriso se formou em seu rosto enquanto se despia rapidamente. Cuidadosa e silenciosamente, entrou na água, procurando aproximar-se do outro sem que ele percebesse. Nadou até ele, alcançando-o na metade do caminho até a ilhota, onde havia uma grande concentração de bolhas de sabão.
Esticou o braço para puxar o outro e foi surpreendido ao perceber que Harry estava bem mais próximo que Severus imaginava. O beijo foi longo, excitante, sensual. E estranhamente diferente. Assim como o corpo que encostou ao seu. E a voz que soou indignada quando se separaram:
- Mas que merda...
Todas as azarações e mais algumas passaram pela mente de Severus. Aqueles gêmeos iam pagar caro pela brincadeira. Afastou-se e observou Black quase se afogar e se recuperar em seguida. Sequer pensou em ajudá-lo e nadou tranqüilamente para a margem. Morrer afogado até seria honroso, considerando o que Harry poderia fazer se descobrisse que Severus andou beijando o padrinho dele. Acidentalmente, é claro.
Observou Black sair da água, raiva e indignação visíveis no rosto dele.
- O que você está fazendo no meu quarto?
Severus respondeu, mas continuou observando ao redor:
- Eu não estou no seu quarto, Black. Pode ter certeza que eu jamais escolheria isso voluntariamente. Mas parece que nossos 'anfitriões' acharam engraçado nos colocar juntos aqui.
Black abriu e fechou a boca, mas resolveu não dizer nada e afastar-se, pisando duro. Para voltar mais rápido que Severus poderia desejar.
- Onde você escondeu minhas roupas, Snivellus?
Severus contou até dez, repassando mais algumas maldições. Dessa vez, para Sirius.
- Se você não notou, Black, eu também não estou exatamente vestido, não é? – Notou com satisfação o ar de desconforto do outro. – Eu não tenho a hábito infantil de esconder as roupas de Harry. E deixei as minhas perto da porta. Se você observar bem, verá que a porta também sumiu.
Black virou-se na direção onde, tinham certeza, a porta deveria estar.
- Mas isso não é possível. Só pode ser pesadelo. Ou uma brincadeira do Moony para eu não reclamar mais de nossa casa. Só pode ser isso...
Severus simplesmente parou de prestar atenção e foi em direção à caverna, ver se localizava algo para vestir. Black foi para o lado contrário.
-.-.-.-.-.-.-.-
Sirius caminhou apressado em direção a umas estranhas árvores, ainda resmungando. Não podia acreditar na fria em que se metera. Remus ia matá-lo. E seria doloroso. Infinitamente doloroso. Um arrepio, sem qualquer relação ao frio, percorreu seu corpo ao imaginar o olhar furioso do namorado se sonhasse que ele beijou o Seboso. E que ambos estavam nus. Procurou afastar a imagem e arrumar uma maneira de sair dali.
Descobriu um tipo de cabana atrás das árvores. Era toda aberta e de madeira. Aproximou-se, lentamente, não acreditando nos próprios olhos. Havia apenas um sofá grande e confortável ocupando toda uma parede. E muitos brinquedos espalhados por todo o aposento. Sua boca secou ao imaginar tudo que Remus e ele poderiam fazer com todos os brinquedinhos dali. Mas uma sensação de puro desgosto afastou suas fantasias para bem longe. Ao invés de Moony, estava preso ali com o Sebosão. Era demais para ele.
Deixou-se cair no sofá, segurando a cabeça entre as mãos. Foi chamado de volta dos planos mirabolantes de fuga pela chegada de Snape. Nem tentou conter o som de desgosto ao notá-lo ainda nu.
- Encontrou alguma coisa interessante?
Se Sirius não estivesse tão preocupado em como sair dali, poderia ter respondido aquilo como o Seboso merecia ouvir, mas disse simplesmente:
- Nada. E você?
Snape encaminhou-se até um dos armários e Sirius viu-o erguer uma sobrancelha ao pegar uma algema.
- Você precisa ampliar seus horizontes, Black.
Aquilo era realmente o fundo do poço! Snape realmente achava que poderia ensiná-lo algo sobre sexo? Sirius deu um sorrisinho debochado e respondeu:
- Qualé, Snape. Você provavelmente nem tinha vida sexual antes de sair com Harry.
- Seu afilhado – Snape fez bastante questão de frisar a última palavra. – não costuma reclamar.
Sirius sentiu a velha indignação fervendo nele. Nunca aceitara aquele relacionamento e, se não fosse pelo falatório do Remus e – tinha de admitir a contragosto – a visível felicidade de Harry, já teria dado um jeito no Seboso há tempos. Mas, talvez, se azarasse ele só um pouquinho, nenhum dos outros dois reclamasse.
- Como se ele tivesse algum parâmetro para isso. – Sirius não queria discutir a vida sexual do afilhado, mas não resistiu em provocar.
Notou, satisfeito, Snape contrair o maxilar. Touché. Mas o sorrisinho dele não foi nada tranqüilizador para Sirius.
- Se preferir, pode perguntar a Remus...
Sirius levantou-se.
- Como é que é? – Ia quebrar a cara dele, se Snape estivesse dizendo o que Sirius pensava que ele insinuava.
- Ora, por favor, Black. Você não acha realmente que Remus passou todos esses anos sozinho, não é?
Sirius partiu para cima do outro. Acertou um murro certeiro em Snape, que revidou. Logo, os dois estavam embolados no chão, como dois adolescentes, trocando sopapos e pontapés. Depois de um tempo, caíram lado a lado, exaustos.
- Acho que estou velho demais pra isso. – Sirius gemeu baixinho, sentindo uma dor do lado esquerdo.
Snape também gemeu e resmungou qualquer coisa. Sirius virou-se para encará-lo e só então percebeu o constrangedor da situação: os dois estavam nus e ofegantes, lado a lado. Nunquinha na vida conseguiria explicar a Remus, se ele aparecesse naquele momento, que estiveram apenas discutindo até agora. A lembrança de Remus fez Sirius suspirar e Snape o encarar, a expressão indagativa.
- Não entendo. Como pode estar tão tranqüilo nessa situação?
Snape balançou a cabeça levemente ao responder:
- Acho que brigar como um trouxa não me enquadra na categoria de tranqüilo, Black. Só não estou tão desesperado quanto você.
Sirius voltou a deitar, encarando o teto da cabana.
- Claro, você não conhece Moony. Ele só tem cara de bonzinho. Se ele sentir o cheiro de outra pessoa em mim – Sirius estremeceu levemente. – não quero nem pensar o que ele faria.
Snape riu baixinho.
- Você está com medo da reação de Remus? Não aconteceu nada, Black. Além disso, eu moro com seu afilhado. Acho que isso te dá um voto de confiança, não é?
Sirius não tinha certeza nenhuma daquilo. Remus podia ser irracional quando queria. E com a proximidade da Lua então...
- Engraçado, você dizer isso. Não te preocupa saber que Harry pode estar em algum outro quarto, preso com alguém?
Snape respondeu, tranqüilamente:
- É uma inauguração fechada. Não têm desconhecidos aqui. Além disso, não me preocupo se ele estiver com Remus.
Foi à vez de Sirius rir.
- Não sei, não. Remus só tem cara de bonzinho, já disse. Ele consegue ser pior que eu.
Snape apoiou-se no cotovelo, uma expressão pensativa no rosto.
- Pensei que a idéia era tranqüilizar e não preocupar ainda mais. Muito obrigado, Black.
- Quem sabe assim você não me ajuda a sair daqui?
Snape o encarou.
- Não acho que consigamos sair antes do prazo estipulado pelos gêmeos. 24 horas.
Sirius deu um gemido quase de dor. Aquilo não podia estar acontecendo com ele. Snape começou a levantar-se.
- Onde vai?
- Pra caverna. Acho que prefere passar o resto das horas aqui, não é?
Sirius observou o outro se afastar e seus olhos pousaram sobre uma venda de seda negra. Remus nunca acreditaria que ele ficou preso com Snape e não resolveu o pequeno problema de 'tesão mal resolvido' dos dois, como Moony gostava tanto de dizer. Sem pensar, disse:
- Medo de ficar sozinho comigo?
Snape estava de costas e Sirius pode apreciar a 'vista' tranqüilamente.
- Ora, não me faça rir, Black. Por que eu teria medo de você? Aposto que não sabe para que serve um terço das coisas que temos aqui...
Sirius sorriu, sacana.
- Aceito. Apostas podem ser bastante instrutivas.
Snape virou-se, um leve sorriso nos lábios.
- E onde foi parar todo o medo do Remus?
Sirius levantou-se e deu de ombros.
- Pra alguma coisa toda essa espuma deve servir, né? Pelo menos para despistar o seu cheiro...
- E por onde começamos?
Sirius sorriu, malicioso e pegou a seda negra entre os dedos.
- Que tal brincarmos de cobra cega?
- Pode ser. – Snape aproximou-se. – E ainda temos a caverna, a ilha, a piscina...
Antes de se beijarem, Sirius ainda pensou que talvez o tempo fosse curto. E não percebeu um vira-tempo balançando discretamente ao lado da entrada. Ainda...
Continua...
