061. Memória.
Rikuou passava horas pensando em Tsukiko, lembrando das menores coisas, para fixá-las na memória. Tinha medo de esquecê-la. Não pensava em Kazahaya desse jeito, nunca – porque nunca iria perdê-lo, portanto nunca temeria esquecer.
062. Inocência.
Eles estavam na cama, nus e cansados, quando Kazahaya perguntou em voz baixa: "Você acha que Kakei-san e Saiga-san, eles também...?"
Rikuou riu. "Sim, Kazahaya. Eles também."
063. Morte.
Ninguém nunca tinha o visto realmente nervoso, triste, abalado, desesperado. E ninguém o recriminou ou o impediu de praticamente destruir a farmácia, em sua tentativa triste e falha de exprimir e redimir toda sua dor.
064. Conexão.
Eles nem precisavam mais falar, porque seus olhares já diziam o bastante. Tanto como a "equipe" para os trabalhos de Kakei, quanto como o casal mais briguento e mais adorável que Tóquio já vira.
065. Força.
Rikuou agradecia por poder carregar Kazahaya quando ele desmaiava, e por poder segurar as lágrimas quando ele fraquejava. Por ter força suficiente para que Kazahaya pudesse ser frágil.
066. Anjos.
Kazahaya tinha sido salvo tantas vezes por Rikuou, que em sua mente a idéia de "anjo" já tinha adquirido cabelos negros, um corpo enorme, ar sarcástico, e olhos verdes brilhantes.
067. Traição.
Rikuou entrou na loja da Yuuko-san, e pediu para encontrar Tsukiko. Ela lhe pediu, em troca, seus sentimentos pela pessoa mais especial. Rikuou sentiu os olhos umedecerem, e murmurou um "adeus" ao garoto que um dia fora seu grande amor.
068. Impossível.
Mas Kazahaya não esquecera, e perdoara. E eles construíram aquele sentimento todo de novo.
069. Primavera.
Aquele beijo teve apenas as flores como testemunha; e Kakei e Saiga, que espiavam e riam de trás de uma árvore, claro.
070. Queimar.
Rikuou sentia o corpo de Kazahaya tão quente, que ele parecia arder em febre. Mas não – apenas ardia de desejo.
Uma maneira deliciosa de queimar.¹
071. Família.
Quando Kazahaya sugeriu deles adotarem uma criança, Rikuou riu. Mas foi ele quem, anos depois, sugeriu que adotassem uma segunda.
072. Cego.
Kazahaya podia estar de olhos fechados, mas não importava. Eles estavam de mãos dadas, Rikuou veria por ele, e tudo estava bem. Para sempre.
073. Nome.
Kazahaya zombava do nome "Himura Rikuou", mas só porque o achava lindo, imponente, e a cara do dono.
074. Sonhos.
Era até estranho levantar de manhã e não lembrar de terem sonhado um com o outro. Por mais que não tivessem nem chegado perto de fazer qualquer uma daquelas coisas quando acordados.
075. Chuva.
A chuva parecia fazer barulho demais para que eles pudessem dormir. Ou talvez fossem os pensamentos, o desejo, a confusão, o amor.
076. Não ter medo.
Rikuou apenas disse para Kazahaya não ter medo, mas não funcionou. Deu a mão para que ele segurasse, e sentiu que agora o garoto poderia enfrentar o mundo inteiro.
077. Paradoxo.
Como podia ser possível amar tanto alguém que se achava tão absolutamente idiota?
078. Mundos.
Kazahaya apontava as estrelas, constelações e planetas, ensinando para Rikuou os seus nomes.
– Eu gostaria de morar em Titan, uma lua de Saturno.
– Por que, Kazahaya?
– Porque é bem longe...
– De mim?
– Por quê? Não quer vir comigo?
– Então me leva pra lá...
079. Estrelas.
Porque fazer amor, tocar as estrelas, ir morar em alguma delas. Era tudo a mesma coisa, para eles.
080. Sorriso.
Mas, pensando bem, ver outro sorrir já tornava o universo inteiro doce o suficiente para qualquer lugar ser perfeito para viverem, juntos.
¹Essa frase é tradução direta do último verso da música Fever, de J. Davenport/E. Cooley
