A tristeza.
As gotas caem lentamente no pára-brisa do carro. O trânsito lento de Midgard me irrita, eu afasto o colarinho da farda com impaciência. Um raio ilumina o céu por um instante.
"Merda!" – bato com o punho no volante do carro. Eu vejo reprovação nos olhos âmbar de Tifa. Respiro fundo. – "Nós vamos nos atrasar por causa do trânsito."
"Nós ainda temos tempo de sobra, Cid." – sua voz continua repleta de uma tristeza que eu julgava impossível de existir nela. – "O que você tem?"
"Que cê quer dizer?"
"Você está o dia todo xingando tudo o que vê. Quero dizer, xingando mais do que o seu normal."
Por um segundo eu penso em dizer que é implicância dela, mas a verdade escapa da minha maldita boca grande antes que eu consiga segura-la.
"Não gosto de enterros."
Ela fica em silêncio, absorvendo a resposta aos poucos e, eu sei bem, vendo mais de mim naquela resposta do que eu gostaria que ela visse.
"Você quase não fala sobre Rocket Town. Nós somos parceiros há quase cinco anos e eu mal conheço o seu passado"
Meu mau humor piora ainda mais. Eu sinto vontade de jogar a Tifa pra fora do carro, mas ao mesmo tempo eu sinto que eu devo isso à ela.
"Eu fui casado, mal tinha entrado na aeronáutica na época. Ela era uma oficial também, uma mecânica como jamais existiu. Seu nome era Shera."
Minha voz tranca na garganta, os olhos embaçam por um segundo, nada que uma respirada mais funda não resolva. Isso é passado, seu idiota! Deixe o maldito passado no passado!
"O que houve com ela?"
"Morreu. Quase um ano depois do casamento, nós estávamos voando num ultraleve que ela tinha reformado. Ela me disse que ele não estava pronto pra voar, mas eu não conseguia ficar com os meus malditos pés na terra! Eu insisti pra ela vir comigo. No meio do vôo deu uma pane no motor e nós caímos. Ficamos perdidos por quase uma semana..."
Eu abro um pouco a janela pra sentir o vento bater no rosto. Droga! Eu já não pensava nisso há meses. Eu já tinha quase... Não. É mentira, eu sei. É impossível esquecer.
"Quando finalmente nos encontraram, nos levaram a um hospital. Eu tive alta logo, não tinha nenhum ferimento grave, mas ela não teve alta. Apesar de também não ter ferimentos graves, ela havia contraído geostigma. Ainda não tinha cura para a doença na época."
Eu finalmente avisto o cemitério e estaciono o carro. Recosto minha cabeça no encosto do banco e ajeito o colarinho da farda. Meus olhos de repente parecem estar presos no teto do carro.
"Eu nunca tinha ido a um enterro. De certa forma eu era tão inocente, eu não sabia que alguém jovem podia morrer. Sabe? Parecia impossível. Há dois meses nós estávamos rindo e então ela se foi."
Eu estalo meus dedos, e tudo fica em silêncio por um tempo.
"Desculpe, eu não queria te fazer lembrar de tudo isso."
Merda Cid! Você conseguiu, agora ela ta se sentindo ainda pior.
"Relaxa garota. Isso é passado."
Ela me encara daquele jeito que ela faz quando duvida de algo, mas não diz nada. Eu sorrio pra ela, sem jeito.
"Vamos!"
A cerimônia é breve. Um reverendo jovem faz algumas orações longas demais. Os companheiros de corporação estendem a bandeira de Midgard sobre o caixão de Zack e, como se esse fosse o sinal esperado, os disparos começam. É o fim.
Tifa e eu continuamos ali por alguns minutos, esperando que o movimento de saída diminua um pouco, e que, por sorte, a chuva diminua. E é só nesse momento que eu reparo que aquela enfermeira de olhar triste está parada sob a chuva junto ao túmulo. Aqueles olhos verdes tão bondosos e cheios de energia, e ao mesmo tempo vazios.
Eu me aproximo dela, deixando que a chuva me molhe também, e talvez que leve consigo a tristeza que está esmagando meu coração.
"Isso é errado. Gente como ele não deveria morrer assim."
Eu vejo ela desviar lentamente o olhar do túmulo na minha direção.
"O senhor não deveria estar tomando chuva."
Mas hein? Sério. É o fim da picada! Eu aqui, tentando dar algum apoio a ela e tudo o que ela consegue me dizer é pra eu sair da chuva! É nessas horas que eu acredito que existem loucos para tudo. Mas controle-se Cid, ela provavelmente só está abalada demais.
"Cê também não devia estar na chuva."
"O senhor tem certa razão, mas eu não consigo sair. Parece-me que ele vai sair dali a qualquer momento, e que se eu não estiver aqui eu vou perde-lo para sempre."
Sua voz é suave e melancólica ao mesmo tempo. Merda. Eu realmente queria saber como agir nessas horas. E nessa hora a Tifa abre um guarda-chuva sobre nós e diz bem calmamente.
"Um amigo meu hoje me ensinou que às vezes é simplesmente impossível lidar completamente com a perda. Que uma parte da dor irá nos acompanhar pelo resto de nossas vidas. E que o verdadeiro desafio é não deixar morrer em nós aqueles que amamos. E não deixar que aquilo que eles mais amaram em nós se perca na melancolia."
Aerith suspira levemente e põe sobre o túmulo um único lírio branco.
"Até mais, meu amado. Leva contigo todo o meu amor, e descansa em paz."
Nós nos despedimos em seguida. Tifa foi fazer companhia ao Cloud que ainda está abalado com a morte do amigo. E eu fiquei de ir ao Hospital ver o Vince depois do funeral.
Entro no meu carro, e minha cabeça parece mais leve. É como se algo tivesse mudado dentro de mim, como se agora eu fosse livre para tentar de novo. Como se eu fosse livre para voltar a viver.
