"Todo
o chão se abre
No escuro, se acostuma
Às vezes a coragem é
como quando a nova lua
Somos a discórdia
E o perdão
E nos
esquecemos da cor que tinha o céu, assim
Como a saudade
Ou uma
frase perdida ... "
A madrugada estava fria, o vento era intenso, as árvores arranhavam a janela. Ckamiryn trajava uma camisola de cetim branca. A janela se abriu com um simples movimento de suas mãos. Levantou-se do aconchego de sua cama, já se encontrava á beira da janela, o vento a arrepiava, os cabelos e a camisola esvoaçavam. Saltou para o jardim. Avistou ao longe algo cintilando, olhou para o pulso e sentiu a falta de um de seus pertences. Caminhou cautelosamente em direção ao objeto brilhando, parou um instante e suspirou sentindo seu corpo ser lambido pela ventania e lutando contra ela recomeçou a caminhada. Seus olhos agora estavam ansiosos, curiosos, sedentos por chegar ao seu destino. Seus passos ficavam cada vez mais lentos e a medida em que chagava mais perto, o medo tomava conta de sua alma, mas o corpo continuava, quase que involuntariamente. Chegou finalmente, a pulseira que ela carregava desde que se entendia por gente, encontrava-se com seu pingente aberto, aos seus pés. Nem sabia que poderia ser aberto, ao seu ver era apenas uma pulseira. Uma pulseira idiota que não conseguia tirar do pulso, pois toda vez que o fazia, logo a colocava novamente, sem saber o porquê.
"... Durma, Medo Meu
Durma,
Medo Meu ... "
Naquela madrugada, olhando-a ali, como num convite a explorá-la, ver de perto seu conteúdo. Não enxergava direito o que tinha dentro do pingente, então abaixou-se para ver...estava bem perto agora...perto...
"...Às
vezes um "não sei"
Janela, madrugada, luz tardia
E o
medo nos acorda
Pára e bate o coração
Em pura disritmia
O
medo amedronta o medo
Vela, madrugada, dia, assim
Como a
saudade
Ou uma frase perdida ..."
Num instante abrira os olhos, estava em seu quarto, suando, deitada em sua cama, os lençóis no chão. Apalpou seu pulso e lá estava, rígida como pedra. Ckamiryn ofegava, fazia semanas que tinha sempre o mesmo pesadelo. Não voltou a dormir.
"...
Durma, Medo Meu
Durma, Medo Meu. "
