Título: Rain on me
Casal/Personagens: George/Lee e George/Fred
Sumário: Porque das nuvens mais negras, cai água limpa e fecunda...
Aviso: Esta fanfic contém SLASH, ou seja, relacionamento amoroso entre homens. Se não gosta recomendo a não prosseguir.
Disclaimer: Harry Potter não é meu. Costumo matar personagens de forma mais digna...
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Rain on me
Por: Menina Emilia
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Cicatrizes
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Take away my pain
Leave the cold outside
Please don't let it rain
Don't stumble on my pride
Take away my pain
I'm not frightened anymore
Just stay with me tonight
I'm tired of this fight
Soon I'll be knocking at your door
(Dream Theater – Take away my pain)
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Bem no fundo na mente de George, ele percebia que alguma coisa estava mudando e que estava fugindo de seu controle. Ele e Lee se encontravam quase todo dia. Ele raramente era tomado pela tristeza e pelo desanimo como era comum a pouco tempo atrás. Era como, depois de todos aquelas anos, descobrir que havia coisas que ainda podiam fazer sentido, mesmo que ele esstivesse incompleto. E que se sentir incompleto não queria dizer ser vazio ou sozinho.
No dia seguinte que George recebeu a notícia sobre a Copa, houve um almoço na Toca, George levara Lee como já vinha sendo de rotina desde que ele voltara à Inglaterra. Mesmo que nunca tivessem conversado sobre como agir na frente de sua família, Lee agira diferente do "velho amigo", respeitando completamente o espaço que Georgenem lhe dissera que precisava. Lee aproveitou a oportunidade para convidar seus irmãos a usarem os outros convites a que teria direito. Afinal, Lee era filho único e seus pais não gostavam muito de Quadribol, então não tinha tanto para quem oferecer.
Ginny e Harry aceitaram de imediato. Ron só perdia no quesito "parecer uma criança feliz" para George. Hermione dispensou sem pensar duas vezes. Charlie quase sofreu um infarto quando achou que não conseguiria dispensa para ir, mas depois de algumas corujas trocadas, ficou mais calmo e confirmou. Bill não disse nada a princípio, mas seus olhos se desviaram instantaneamente para o bebê nos braços de Fleur e todos entenderam que ele não iria. Percy pareceu estar tomando a decisão mais difícil da sua vida de tão compenetrado que estava, mas depois disse que infelizmente não poderia faltar tantos dias no trabalho.
Em uma semana, nove entre dez palavras que George dizia eram Copa, a décima era Quadribol. Mas depois de decidido quem ia e quem não ia, vieram outras questões, como por exemplo: Quem ia ficar na loja? Isso rendeu um caloroso debate entre George e Ron, mas no final ficou decidido que os atendentes eram mais que capazes de ficar sem supervisão por duas semanas. O segundo problema fora Fred, como Angelina era casada com o goleiro da seleção inglesa, ela obviamente iria acompanhar os jogos e depois George bateu o pé dizendo que seria uma traição deixar o filho com os avós enquanto ele ia à copa. Demorou um pouco, mas ele acabou sendo convencido que uma copa de Quadribol não era tão interessante para uma criança que ainda nem completara dois anos.
A terceira questão se deu somente na cabeça de George: seus irmãos não sabiam qual era o tipo de relacionamento que estava tendo com Lee e com a convivência diária de duas semanas não seria tão fácil manter a pose de "não estou escondendo, só não estou mostrando" que vinha tendo até agora. Se bem que ele achava que Ron já desconfiava, ele já quase os pegara em situações meio constrangedoras diversas vezes.
As decisões e dúvidas de toda aquela semana agitada sequer passavam pela mente de George agora. Ele já não tinha a mesma concentração de antes para aquilo e por isso o esforço era ainda maior. Forçou a vista e apertou o bastão nas mãos antes de rapidamente levantá-lo e tornar a baixá-lo, acertando com violência um balaço no caminho. A bola mágica foi arremessada para longe, mas em pouco tempo fazia o caminho inverso.
-Merda. – George xingou antes de bater de novo.
De repente as tranças de Lee chicotearam no seu rosto e o amigo estava rebatendo o seu balaço!
- Ei! Esse balaço era meu!
-Tão seu que você ia dar um beijo nele, né?
George resmungou alguma coisa, mas deixou de lado depressa quando viu o balaço voltando outra vez. Entrou na frente do amigo e rebateu. Aos poucos sua concentração parecia melhorar e quase não deixava mais chance para o outro rebater. A brincadeira ficava cada vez mais disputada e divertida. George só sentiu o quanto tempo passara depois que seus braços já estavam doendo e que se equilibrar na vassoura estava exigindo esforço demais. Deixou que Lee rebatesse uma última vez e entrou no caminho do balaço agarrando-o com força.
- Já chega ou vamos jogar até nossos braços caírem?
Lee deu uma risada sonora e concordou em parar o jogo. Poucos segundos depois, os dois se encontraram na grama e Lee ajudou George a guardar o balaço na caixa.
- Eu tava pensando em fazer umas experiências com as bolas de Quadribol. – George falou enquanto se jogava na grama – Uma versão infantil, um pouco menos violenta, afinal daqui a pouco Fred já vai ter idade o suficiente para aprender Quadribol.
- Ele não tem nem dois anos, George.
- Então daqui a mais uns dois anos já dá para começar. – ele disse como se fosse obvio e Lee o olhou como se ele fosse um alienígena. – Afinal, ele vai ter que começar desde cedo se quiser ser narrado por aquele tal de Lee Jordan.
O comentário fez Lee rir e dar um soco no braço de George. George se jogou para trás, deitando e olhando para o céu. Ia chover.
- Mas você devia mesmo levar essa idéia adiante, acho que ia vender.
-Talvez...
George voltou suas atenções para as nuvens de novo. Ia chover. Mas isso não parecia tão importante agora que vira que aquela nuvem na direita parecia tanto um hipogrifo. Ele sorriu sem perceber. Costumava fazer muito isso antes da guerra, ali nos campos que cercavam A Toca. Sempre com...
Lee. Sua atenção foi roubada pelo rosto de Lee se colocando na frente da sua visão do céu, mas isso não impediu que outro nome também surgisse nas suas lembranças. E depois, ainda havia o nome Fred ecoando no fundo na sua mente, mas havia também os lábios de Lee nos seus e o calor do corpo dele de repente junto do seu. Ele o empurrou devagar e foi sua vez de ficar meio deitado em cima do outro. Beijou a bochecha e então o pescoço do outro, para então apoiar sua cabeça no peito dele.
- Vai agüentar duas semanas sem isso?
As palavras faziam o peito de Lee vibrar e davam uma sensação estranha na cicatriz da orelha perdida de George que estava encostada nele.
- Como?
- Na copa. Eu vou estar meio ocupado e, depois, seus irmãos vão estar lá.
- Talvez a gente deva contar para eles. – George respondeu como se não desse muita importância - Eles não vão se importar.
- Contar o que?
- O que nós temos. - ele já não parecia mais tão certo assim do que estava falando.
- É? – Lee parecia mais querendo provocar do que confuso de verdade - E o que é?
George não respondeu, não sabia o que responder na verdade. Lee tinha um ponto. Ele levantou a cabeça um pouco desencostando do outro para encará-lo. Lee não parecia chateado, mas George achava que ele estava.
- Não me olha assim. Se você não sabe, então não force as coisas.
George ficou olhando para ele um tanto espantado.
- Porque você é sempre tão... – faltava uma palavra de repente, George se recusava usar "legal" – ...compreensivo?
-Você não sabe?
- Eu deveria saber? – ele rebateu já meio cansado daquele joguinho
-Não, não deveria – o semblante calmo de Lee continuava inalterado – Já descansou?
- Acho que meus braços nunca vão se recuperar. – ele riu se jogando para trás e voltando a deitar na grama.
E antes que pudesse olhar de novo para as nuvens, a chuva desabou em cima deles.
- Merda! Vamos aparatar! – Lee sugeriu levantando.
-Não, vamos correndo! – George sugeriu voltando instantaneamente a ficar animado .
-Se eu ficar gripado e a minha voz ficar que nem a de uma gralha...
-Então você pode me culpar, mas relaxa, vai dar tudo certo.
Pegaram as vassouras e a mala com as bolas e voltaram de baixo de chuva para A Toca.
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- Ainda não dá para acreditar que a seleção da Inglaterra teve um desempenho tão ruim! – George suspirou olhando para a tabela de jogos e completou – Aquele marido da Angelina é uma desgraça!
Lee riu e balançou a cabeça, se preparava para narrar a final da Copa. Ele estava um pouco tenso e George não parava de tagarelar, para completar, tinha perdido a folha onde havia anotado as coisas que precisava falar obrigatoriamente durante o jogo. Sua roupa estava separada em cima da sua cama, George estava jogado sobre a dele, Charlie roncava sonoramente deitada na terceira cama e a última cama dentro da barraca, a de Ron, jazia vazia e desarrumada. Lee estava ignorando a falação de George há uns bons minutos já enquanto andava de um lado para o outro vestindo só um jeans e revirando o lugar atrás das folhas.
- Ela devia ter escolhido aquele artilheiro, Kyle. Pelo menos ele não joga tão humilhantemente mal.
- Gregory Kyle é um imbecil. – Lee finalmente respondeu alguma das observações de George. – E eu não acho que o critério principal de Angelina tenha sido habilidade de Quadribol.
- Mas deveria! Que exemplo esse cara vai dar para o Fred?
Lee parou ao lado da cama de Ron e resolveu levantar o travesseiro e os lençóis, nunca se sabe onde as coisas poderiam parar naquela barraca. Riu do absurdo do amigo, estava um pouco concentrado demais na sua busca para entender logo de cara o que ele tinha dito. Depois de todos aqueles anos ainda se perguntava de qual substância estranha era abastecida aquela mente para ter idéias tão insanas.
- O cara não é tão ruim assim. Eu até gostei da atuação dele. – dizia olhando por trás das almofadas da única poltrona do cômodo. – É sério George, eu preciso das folhas que tão anotados os anúncios!
-Ah! Você ta procurando isso aqui? – George estendeu um par de folhas que estava segurando atrás da tabela.
Lee parou no meio do quarto e olhou para George refletindo qual seria a maneira mais dolorosa e lenta de matá-lo.
- Nossa! Não me olha com essa cara! Eu não sabia que era isso que você tava procurando! – explicou com a maior cara lavada do mundo. – De qualquer forma eu achei que você já tinha decorado isso de tanto que leu ontem.
- Eu tava a treinando. – o narrador se justificou, dobrando as folhas cuidadosamente e colocando-as no bolso.
- Ron que o diga.
O fato de não ter uma desculpa realmente convincente para não terem que dividir a barraca com Ron e Charlie incomodara um pouco Lee no início. Harry e Ginny tinham ficado em uma separada, e a desculpa que eles tinham para isso, Lee não poderia usar. Mas no final estava realmente achando aquilo divertido – apesar da falta de sexo –, era como voltar a dividir o dormitório de Hogwarts. O problema da noite anterior tinha sido que Ron não tinha lidado muito bem com sua maneira de treinar os anúncios. A mistura de leitura em voz alta com repetição compulsiva tinha feito Ron "ir dar uma volta", o que provavelmente significava que ele tinha ido se refugiar na barraca de Harry e Ginny. Charlie tinha chegado praticamente de manhã e estava dormindo até agora, já estava quase anoitecendo. E mesmo assim, George tinha o empurrado para longe falando que os outros dois poderiam voltar até o momento.
George largou a tabela de lado e observou Lee de costas, mexendo nas roupas que tinha deixado em cima da cama.
- Onde você conseguiu essa cicatriz?
Lee virou para ele surpreso. Claro que George já tinha visto aquela cicatriz antes, mas tinha achado que talvez Lee não gostasse de falar sobre ela. Na verdade ainda achava isso, a pergunta tinha escapado antes que ele pudesse pensar.
-Deixa para lá. Não precisa... – George tentou consertar gesticulando nervosamente.
-Ah, não tem problema, eu só não esperava essa pergunta. Foi na batalha de Hogwarts.
- Você nunca me disse o que aconteceu com você na batalha.
- É... – ele apenas concordou e vestiu a blusa que segurava.
- Ok. Isso te incomoda.
-Não me incomoda. Eu só acho que você... que eu não devia... – ele não terminou de falar e virou para pegar a varinha que também estava jogada em cima da cama.
- Eu estava junto?
- George, a gente pode falar disso depois se você realmente quiser, mas eu preciso ir agora.
-Tudo bem. – George respondeu, mas não soou muito convincente.
- Não demora muito para acordar o Charlie, hoje vai estar bem mais cheio.
George assentiu, toda a animação com os jogos tinha desaparecido. E Lee quis ter forças para simplesmente virar e ir embora, mas não conseguiu. Quando deu por si tinha os braços em volta de George. Sua boca procurou pela dele instintivamente. Todos aqueles dias ao lado de George, mas sem poder tocar nele direito, faziam que o modo lento que se beijavam agora fosse quase doloroso. Lee puxou George mais para perto pela nuca quando sentiu as mãos dele levantando a barra da sua camisa.
Lee estava tão concentrado em não atacar George com Charlie dormindo a alguns passos dali que ele levou um tempo para perceber que o barulho da passos não era de fora da barraca era de dentro. Quando se separaram, ainda conseguiram ver Ron saindo da barraca.
- Ron!
Lee se surpreendeu com George chamando o irmão, que não devia ter ido muito longe, pois não demorou a voltar para o interior da barraca.
- Você trouxe água?
- Acabei de ir buscar.
George sorriu.
- Vamos acordar o Charlie.
Ron abalançou a cabeça rindo. Lee achou graça da animação dos dois, mas tentava entender o que George queria com aquilo.
- Você não estava atrasado?
-Sim, eu já vou indo. Eu encontro você aqui depois do jogo.
Os dois confirmaram com a cabeça, Ron já estava segurando um balde cheio d'água.
- ANGUS MCANDREWS PEGA O POMO E GALES VENCE A COPA MUNDIAL DE QUADRIBOL! – A voz já rouca de Lee se sobrepunha ao imenso barulho que os expectadores faziam, aquele jogo demorara demais, mas finalmente acabara.
As bandeiras do dragão vermelho simplesmente atropelaram as listradas. E Lee sorriu, George apostara certo de novo. Ele teria apostado na Bulgária. Precisou ainda tecer alguns comentários sobre a partida com duas ou três autoridades e se embrenhou no meio da multidão rumo a barraca.
Sua garganta estava doendo, ele narrara o jogo por sete horas seguidas e suas cordas vocais estavam em frangalhos. Ele tinha a sensação que não ia querer dizer uma única palavra que fosse por pelo menos uma semana. Mas ele rapidamente desistiu da idéia quando entrou na barraca e o único ocupante que encontrara fora George, no meio do que parecia ser um cenário devastado por um furação.
- Eu disse para você que ia dar Gales. – parecendo não se importar com a zona.
Lee sorriu.
- O Krum não é mais o mesmo, devia ter se aposentado já.
Nenhuma resposta de Lee de novo a não ser o riso.
-Sua garganta deve estar péssima, né? – George continuou o monólogo quando viu Lee assentir – Quer alguma coisa para beber? Água? Chá? Café? Chocolate? Firewhisly?
-A gente tem tudo isso aqui?
Foi a vez de George rir.
-Merlin, sua voz está sexy!
- Mesmo? – Lee perguntou incrédulo.
-Não, ta uma desgraça – George riu – E a gente só tem água e Firewhisky aqui.
- Eu fico com a água então.
- A Ginny com certeza tem chocolate, quer que eu pegue com ela?
Lee assentiu e assistiu George sair e voltar para a barraca em tempo recorde. Não demorou muito para que tivesse uma caneca de chocolate fumegante nas mãos. O líquido quente era já era um alívio suficiente para que ele arriscasse falar um pouco mais.
-Onde estão os outros?
- Charlie sumiu misteriosamente depois que os Malfoys passaram por nós no fim da partida. – ele disse com uma expressão divertida no rosto, sentando-se ao lado de Lee na cama – Nós encontramos Neville, Seamus e Dean quando fomos comprar cerveja e eles combinaram de ir beber para comemorar quando o jogo acabasse. Independente do resultado da partida, claro.
- Você não vai encontrá-los?
- Muito engraçado, você que conseguiu os ingressos por passar vinte horas seguidas narrando e eu largo você aqui agonizando com essas cordas vocais.
Lee deu mais um grande gole no chocolate, e George continuou:
- Falando em muito engraçado, você perdeu o Charlie acordando.
Isso lembrou Lee de outra coisa.
-O que você disse para o Ron?
-Eu? Nada. Ele que disse. Pediu desculpas por interromper. Depois a gente ficou ocupado demais fugindo do Charlie, mas acho que ele já sabia.
Isso explicava a bagunça eu estava ali e situação toda do balde d'água para Charlie também começava a fazer sentido agora, servira para manter Ron ocupado demais para que tivesse chance de perguntar algo. Isso lhe fazia lembrar que ainda tinha outra coisa a ser explicada. Ele tinha evitado pensar naquilo durante todas aquelas horas, ou teria se distraído demais do jogo.
- Eu ainda tenho que te devo uma explicação, não é?
- Eu não tenho certeza se quero saber. – o bom-humor recuperado durante o jogo pareceu se esvair.
- Eu também não tenho certeza se eu quero contar, mas é melhor que a gente converse sobre isso logo.
- Tudo bem.
Lee hesitou – talvez aquele não fosse o momento, talvez tivesse se precipitado –, suspirou e começou a falar movido por uma coragem que ele achou que não tinha mais.
- Eu estava com Percy e nós encontramos vocês dois. Você sabe como eu era péssimo andando no castelo, eu sempre me perdia e o Percy provavelmente nunca conheceu uma das passagens secretas na vida. Mas não podíamos ficar os quatro juntos, tinha comensais por todos os lados. Então eu sugeri que cada um de nós fizéssemos dupla com um de vocês. Você veio comigo e Fred ficou com Percy.
George sempre imaginou que se estivesse junto de Fred, ele não teria morrido. Logo depois da batalha, quando seus irmãos ainda fizeram algumas tentativas de conversar sobre Fred, eles falaram de mil maneiras diferentes que ele nunca poderia ter evitado que aquela parte do teto caísse sobre seu gêmeo. Depois dos ataques de choro e de raiva que essas conversas ocasionavam, falar de Fred na sua presença foi se tornando cada vez mais raro. Mas em nenhum momento qualquer um deles chegou perto de convencer George com aquele discurso. Ele simplesmente achava que a ligação que existia entre eles dois, teria feito com que ele salvasse Fred.
Ele só não sabia por que não tinha estado do lado do irmão. Nunca tinha dito a ninguém que não se lembrava, mas tinha dito a Lee e agora o amigo lhe trazia toda aquela dor de novo.
- A última coisa que ele me disse foi para a gente não fazer nada divertido sem ele. Mas nós dois estávamos nos divertindo. – Lee continuou – Com aquele tipo de humor que as pessoas só têm na guerra. A gente tava contando quantos comensais cada um estava derrubando. Parecia que nós estávamos brincando. Eu fui acertado. Não foi nada sério, eu só demorei demais para tomar alguma poção e então ficou essa cicatriz enorme. A gente foi percebendo que o número de comensais estava diminuindo e então voltamos para o salão. Você o viu assim que entrou no salão e foi andando até ele como estivesse sendo puxado por um imã.
George sacudiu a cabeça e percebeu que havia lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
- Eu me lembro a partir daí.
- Me desculpa.
George sacudiu a cabeça num movimento que não parecia nem assentir nem negar e Lee não soube o que fazer. Chegou um pouco mais para perto e fez menção de abraçá-lo, mas o ruivo se esquivou.
- Eu preciso pensar um pouco. – foi a última coisa que ele disse antes de levantar e sair da barraca.
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Bem no fundo na mente de George, ele percebia que centenas de coisas estavam acontecendo no salão, mas ele dificilmente conseguiria citar qualquer uma delas depois que tudo estivesse acabado. O pensamento mais racional que conseguia agora era quase uma ordem que o impulsionava a andar para frente, como se estivesse sobre o efeito de imperius. Mas seus olhos não estavam desfocados e só enxergavam uma imagem: um corpo igual ao seu estendido no chão. Deixou-se cair de joelhos e se abaixou ainda mais tocando a testa do irmão com a sua.
"Acorda" – ele pediu dentro da sua cabeça e afastou sua testa para olhar nos olhos do irmão. Mas os encontrou ainda fechados.
"Acorda" – a frase se repetiu, enquanto ele deixava que os seus narizes se tocassem levemente e lágrimas escapassem dos seus olhos sem que ele se desse conta.
Havia uma certeza física, tão real quanto uma ferida, de que agora ele era apenas metade, mas sua mente não queria racionalizar isso. Ele obrigou seus dedos a tocarem o rosto do outro devagar, mas seu corpo sabia que não havia mais nada que faria aqueles olhos abrirem. E sua mente ordenava que fosse com cuidado porque não queria que ele acordasse assustado.
"Acorda" – o pedido agora tinha um tom mais desesperado, que Fred nunca ousaria negar. Mas ainda assim os olhos continuavam fechados.
- Acorda! – a voz encontrou o caminho para fora.
Braços o envolveram. Braços que nunca o abraçariam como alguém que é uma parte de você pode fazer. E a consciência de que agora ele era só uma parte. Uma parte que sozinha não significava nada.
Ele nunca saberia dizer quando tempo Bill o segurou em seus braços, o cabelo dele caia sobre as faces dos dois e talvez tenha sido só por isso que George gravara que fora Billl e não algum dos seus outros irmãos. Deixou-se ficar e com o mesmo abandono permitiu que as lágrimas caíssem livremente.
Só expressou alguma reação quando Bill tentou afastá-lo. Ele simplesmente explodiu. Era a mesma sensação de antes, de só ter um pensamento ecoando na mente, mas dessa vez não era o irmão. Era raiva. Não tinha o menor traço de racionalidade, não tinha um porquê. Era raiva no seu estado mais puro. Ele queria destruir.
Todas as outras coisas passavam esbranquiçadas e turvas, mas ele tinha alguma consciência de que o salão começara a se encher de novo e de repente ele estava envolvido em todos os duelos que podia. Lee estava do seu lado, mas ele sequer dirigira um olhar para ele. Ele só recuperou o controle sobre seus atos quando todos começaram a comemorar.
A raiva deu lugar à desolação. Ele não fazia parte daquele cenário. Para ele não havia chances de celebração ou conforto. Andou a esmo pelo castelo e a primeira coisa que o fez parar foi Peeves. O poltergeist cantava e dançava no ar, mas ao avistá-lo, parou imediatamente e tirou o chapéu e se inclinou como se quisesse passar suas condolências.
George sentou no chão – sem se importar e sem saber onde estava – e chorou.
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Nota1: JKiller Rowling é uma bicth!
Nota2: Quase desidratei escrevendo isso.
