Cuddy acordou com o barulho irritante do despertador. Rachel estava com as pernas estendidas pela sua costa, totalmente esparramada na cama. Ela tirou as pernas e se sentou na cama, deslizando os dedos sobre o cabelo fino da pequena Rach.

Ela estava bem. Era só isso que importava. Quem quer que fosse o restrito, ela tinha que admitir que ele cumpria sua palavra. Ela debruçou-se e pegou o celular no criado mudo. Sem chamadas, sem mensagens. Livre.

Faltava um pouco menos de quinze minutos para as 7 horas. Cuddy alongou os braços e certificou-se de que havia tempo para uma pequena sessão de pilates.

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House se remexia na cadeira do escritório, impaciente. Cameron falava alguma coisa, mas ele não estava prestando a mínima atenção. Chase a acompanhava no raciocínio, e Foreman, bom... Foreman não estava nem aí.

Um dia ele seria reconhecido como a versão negra de Gregory House.

De qualquer modo, tudo que House conseguia mentalizar era os acontecimentos da noite passada. Cuddy, tão maravilhosamente sedutora como enigmática. E o beijo. Aquele beijo. House podia classificá-lo na categoria dos mais ardentes. A atitude dela, o jogo.

O que diabos aquela mulher estava pensando?

"House!" - Cameron gritou e ele enfim percebeu que ela havia ficado em pé. "Você está prestando atenção em alguma coisa que eu falei?"

Ele olhou para ela com a cara mais debochada do mundo. Em seguida, pegou algumas folhas que estavam sobre o seu notebook e estendeu à ela.

"Na verdade, não. Tudo o que você disse eu já tenho impresso bem aqui, como você pode ver. Aliás, além da sua extensa 'pesquisa' eu adicionei o diagnóstico e o tratamento na ultima linha."

Ela olhou para ele, incrédula e se sentou. Chase sorriu e Foreman estava mais interessado em uma revista médica.

"E você me deixa falando igual a uma idiota aqui por quê?" - Ela estava indignada. E ela conseguia ficar ainda mais insuportável, se é que é possível ultrapassar esse nível.

"Eu adoro a sua voz, sabia?" House debruçou-se sobre a mesa, apoiando os cotovelos na mesma e colocando as mãos por baixo do queixo, numa careta meiga. "Toda suave como o canto dos riachos. Fico todo apaixonadinho."

Cameron o fuzilou com o olhar por alguns minutos e então se levantou e saiu, pisando duro. House forçou-se a olhar, mas... Ah que tortura. Como comparar as montanhas de Lisa Cuddy com essa planície desértica? Era praticamente humilhante. Cuddy. Ele não conseguia pensar em outra coisa.

E então ele reparou que Chase e Foreman continuavam olhando para ele.

"O que os integrantes do M.I.B estão fazendo aqui ainda? Vão atrás da cantora de riachos para que ela não mate ninguém."

Eles trocaram um olhar significativo e saíram. Meio minuto depois, Chase voltou até a porta e comentou:

"Chame-a para sair. Você não consegue nem disfarçar mais."

House não teve tempo de alfinetá-lo. Ele já havia sumido.

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Tiler estava na clínica, analisando os resultados dos exames que havia requisitado. Sua paciente estava bem, ele não estava vendo nada de mais naqueles exames, mas algo estava errado. Ele podia pressentir o pior.

Dolores era sua paciente há anos. Ele acompanhara de perto desde quando ela carregava a mãe para cima e para baixo naquele hospital, portadora do Mal de Parkinson. Ela sempre fora forte e sorridente, combatendo o cansaço e a doença da mãe com otimismo.

Enfim, a mãe teve que ir para um asilo médico com cuidados mais precisos. Compatíveis com a doença e o estágio apresentado. E nas ultimas consultas, ele tinha notado uma alteração no humor dela, no seu semblante, uma leve confusão mental.

Mas os exames não mostravam nada.

Isso fora o suficiente para ele cruzar o salão e bater na porta de Lisa Cuddy. Precisava de uma intervenção no seu caso e não sabia exatamente o que fazer. Talvez sua chefe pudesse dar uma luz. Na opinião dele, ela poderia lhe dar mais do que uma luz, mas ele não ousaria dizer isso a ela.

"Entre." - Ela disse em bom tom quando ele bateu na porta.

"Doutora Cuddy, preciso de orientações à respeito de uma paciente."

Cuddy levantou os olhos para certificar-se de quem se tratava.

"Seja conciso, Tiler."

Ele se aproximou da mesa, e explicou brevemente a sua preocupação. Cuddy assentiu com a cabeça, registrando o quadro clínico na sua mente enquanto mantinha seu olhar preso ao dele, totalmente séria.

Ela levantou-se e se postou ao lado dele, para conferir os exames. Se tinha uma coisa que Lisa Cuddy sempre necessitava era ter certeza do que lhe estava sendo informado. Ela precisava de provas e fatos para acreditar em algo. Ela não havia visto nada de anormal, mas se Tiler West estava preocupado pessoalmente com alguma paciente, quem ela era para impedi-lo?

Além do mais, era admirável essa dedicação. Poucos médicos em seu hospital tinham essa humanidade, ela tinha que admitir.

"Tiler, você tem minha autorização para encaminhá-la a um especialista ou para proceder com uma bateria de exames mais específicos. Realmente eu não vi nenhum aspecto alarmante no caso dela, mas se você insiste, eu compreendo."

"Eu tenho acompanhado a Sra. Dolores desde que trabalhava no Mercy. Estou certo de que o quadro dela não está normal."

Tiler foi se dirigindo à saída lentamente, e Cuddy manteve-se ao seu lado, acompanhando-o.

"Então salve a vida dela, é para isso que eu pago todos vocês."

Ele chegou na porta e Cuddy estendeu a mão para enfim, despedir-se. No entanto, a cena a seguir foi inesperada. Tiler segurou a mão dela e trouxe à boca, beijando a costa de sua mão elegantemente. Ela ficou pasma, talvez pela ousadia no neurocirurgião, talvez pelo fato que o saguão estava cheio de pessoas, talvez pela própria surpresa. Não havia sido uma falta de respeito nem assédio da parte dele, apenas... Inadequado para o momento.
Enquanto ele se afastava, sorridente, sem entender a ousadia do seu ato, Cuddy o seguiu com o olhar, a incredulidade estampada em sua cara.

Do outro lado do saguão, House, Cameron, Chase e Foreman assistiam a tudo em silêncio.

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Manhã seguinte

Tiler West entrara em sua sala pela manhã e quase tivera um infarto. Seu escritório havia sido destruído. Completamente destruído. Sua mesa estava parcialmente queimada. A estante de livros estava jogada por cima do seu sofá de couro africano novíssimo, rasgando-o. Seus livros, rasgados em mil pedaços.

Os vidros da sua janela, quebrados. Havia buracos nas paredes, feitos possivelmente com uma marreta. O notebook, totalmente queimado. Todos os porta-retratos estavam intactos, com exceção de uma coisa: seu rosto havia sido recortado de todas as fotos.

As paredes haviam sido rabiscadas com um tipo de spray, e no canto da sala, havia apenas uma palavra rabiscada sobre o quadro recém comprado na Índia:

Afaste-se.

HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

"Como assim o vigia do hospital não viu nada? Como diabos isso pode ser possível?"

Cuddy estava tomando café no Le Revenge Café com sua amiga Priscila, Marina e Rach. Corrigindo para o presente, apenas as três tomavam café e comiam seus muffins, porque Cuddy estava gritando ao celular, totalmente exasperada.

"Salvatore, onde estão as fitas de segurança? Eu pago caro na vigilância desse hospital. A verba de segurança é bem alta para termos falhas desse tipo!"

Rachel bebia seu suco de cramberry na mamadeira que havia ganhado de House. Cuddy acalmou-se ao lembrar de tal fato.

"Como é que vocês repassaram a fita milhares de vezes e não houve nenhuma invasão, pelo amor de Deus. Tiler West teve seu escritório destruído. Alguém entrou lá e fez isso. Vocês precisam descobrir quem foi."

Priscila sorriu levemente e voltou-se para Rachel.

"Sua mãe está ficando maluquinha, não é Rach?"

"Ela vai ficar doidona igual ao Pirata Bootstrap."

Cuddy olhou de soslaio para as duas, sem desgrudar do celular. Marcou como nota mental dizer á Marina para não deixar sua filha assistir mais filmes de piratas. Não bastava aqueles asquerosos desenhos na madrugada?

"Ok, Sal. Eu estou tentando tomar café com a minha filha, mas eu chego em uma hora. E quando eu chegar, eu vou querer uma ótima explicação para isso. Tenha um ótimo dia."

Cuddy desligou o telefone, irritada. Estendeu a mão e bebeu um gole do seu cappuccino. Priscila sorriu para ela enquanto estendia a bandeja de muffins.

"Mãe, quero um daqueles bolinhos quente com sorvete."

"Rachel Cuddy, não é muito cedo para encher essa barriga minúscula de doce?"

"Mãe, minha taxa de açucar no sangue está baixa! Eu posso desmaiar."

Todas começaram a rir da genialidade dela. Cuddy acenou para Marina, afirmando.

"Compre um Petit Gateau para ela, Marina." E ela voltou á olhar para Rach, sinalizando com o dedo. "Mas é só um, entendeu espertinha?"

"Siiiiiiiiiiiiiiim" - Respondeu ela sorrindo, enquanto se afastava com a babá.

Cuddy ia tomar mais um gole do seu café, mas o celular vibrou. Ela pegou o aparelho, mas seu sorriso morreu quando viu o destinatário. Restrito.

"Olhe dentro da sua carteira" - Era tudo o que a mensagem dizia.

Cuddy abriu a bolsa, apreensiva. Ela encontrou a carteira, seu coração acelerou-se. O medo causa sensações desesperadoras. Quando abriu, encontrou uma foto recortada. Era a cabeça de Tiler West.

Atrás da foto, as palavras: Cole no seu album.