I Like You.
IV
Tomando coragem, ele deixou para trás toda a comodidade, levantando-se cedo mais ou menos disposto após se espreguiçar serenamente sobre os lençóis da cama e por um instante tentar retornar para o sono de outrora.
Já em pé buscou na poltrona da frente sua calça larga esportiva e uma blusa de agasalho escura e gasta. Havia deixado a janela aberta de madrugada e agora se arrepiava ligeiramente com os sopros gelados da manhã invadindo parte do quarto.
Caminhou para o interior do quarto fechando as janelas e se dignando a levantar a vista para a permanente escuridão que jazia do lado de fora, varrendo a vista com a iris a procura do motivo que seqüenciara os latidos repentinos dos cachorros; não encontrando nada, calçou seus chinelos e arrastou-se para o banheiro, espreguiçando-se novamente durante o caminho.
Realizou a higiene matinal durante o banho sem demorar muito no chuveiro.
Voltou para o quarto mais desperto terminando de se enxugar. Jogou a toalha encima da cama e entrou no closet vestindo a roupa que já havia deixado separada; admirando o vasto espaço que ainda restara no recinto; suas roupas não chegaram ocupar nem metade do luxuoso espaço. Saiu de lá composto ajeitando alguns fios do cabelo.
Finalizou e foi se mirar novamente e rápido no espelho, checando se estava tudo em ordem. Não se impressionou muito com seu reflexo, embora notasse algumas poucas marcas recentes de exaustão e estresse. Mas não se apegou aquilo, forçando-se a pensar em outras coisas.
Desceu as escadas e foi para a cozinha com a única intenção de pegar a mochila que deixara encima da bancada. Comeria alguma coisa no caminho.
Foi para o quintal dos fundos quando os cachorros recomeçaram a latir, eles pareciam mais agitados. Sentiu-se observado por alguns segundos enquanto lhes acariciava, virou-se notando a chegada das duas senhoras estrangeiras que contratara para ajudá-lo na limpeza da casa.
Caminhou até elas cumprimentando-as com sobriedade antes de seguir para o trabalho.
Sentiu uma delicada pressão sobre o ombro esquerdo, mas não se ressaiu; apenas pareceu despertar de relance, não precisando se virar para reconhecer quem chegara.
Permaneceu em silêncio, instalada na poltrona reclinável, sem mover-se um instante.
- Vá para casa, Sandra.
A voz firme e atinada preencheu seus ouvidos como águas rasas que absorvem a areia fina. Tão logo desapareceu quão rápida esteve presente em sua mente.
A mesma voz ressurgiu ganhando um toada mais segura. Seu som não era alto, nem incomodava. O corpo repouso não despertaria.
- Você precisa descansar. Há pacientes que dependem de você.
Houve um suspiro falho em ser contido saído de si. Compreendia a trágica cena que se desenrolara lentamente diante dos olhos de todos os profissionais do hospital; acompanhava o pesar dos sentimentos ali refletidos, e, no entanto, estava a par de sua responsabilidade permitir que as obrigações de terceiros desencadeasse tensões palpáveis dentro da instituição, caso não fossem cumpridas.
- Respeito sua dor, doutora McCoy. Por hora, não há mais nada que possamos fazer. O que podíamos ter realizado, já o realizamos. Apenas nos resta esperar.
O silêncio derradeiro que se seguiu o levou a coragem para continuar. Embora soubesse que pareceria um tanto cruel, ela não o havia deixado outras escolhas. Já haviam se passado seis meses.
- Entendo o que esteja sentindo. Mas pense no que seus pacientes sentem ao se verem desamparados por sua médica. Talvez devesse por um momento levar seus pensamentos para suas famílias, assim descobriria não ser a única em meio a um turbilhão de dores e incertezas. Seu jaleco não corresponde somente a sua fibra e competência de mulher; mas, sobretudo, a uma profissional responsável que jurou zelar por aqueles a quem viesse buscar ajuda e auxilio.
Aquela repreensão firme e velada havia sido o bastante para que um lacônico clarão cruzasse seu espírito, obrigando-a a se libertar daquela amarra invisível na qual havia propositalmente se prendido. Seu olhar deixou o corpo adormecido e acobertado pelos lençóis hospitalar. Se levantou sem fraquejar.
Sua voz ameaçou falhar, mas nos fins das contas saiu sem dificuldades. Sem, porém, estar sob o volume normal. Se tudo não estivesse tão quieto, talvez não a ouvisse.
- Ele... Já chegou?
- Esta a caminho.
- Acha que se adaptará?...
- A quem está se referindo?
Ela não se deu ao trabalho de responder. Sequer voltou seu olhar para ele em momento algum. Deixou o quarto em passos lentos como se lutando intimamente contra si mesma.
Ele notou o lugar vazio ao lado da cama confortável, mas preferiu permanecer onde estava. Encarou com mais aptidão o leito e escondeu ambas as mãos dentro dos bolsos pálidos do jaleco.
Manejou a cabeça.
- Aquela é a mulher que vem visitá-lo todos os dias. É quem o protege e zela. É quem tem tomado a frente para confortá-lo de todas as formas. E a quem sofre pelas decisões tomadas. Lembre-se disso, doutor Padalecki, antes de ignorá-la novamente.
Antes de sair, encheu o copo de vidro com a água que vinha da jarra fina, firmada encima de uma pequena mesinha ao lado da cama.
Suspirou aguardando a resposta que não viria; sequer um movimento.
Virara as costas com pesar e deixara o quarto, tomando cuidado antes de fechar a porta, mesmo sabendo que no leito, o paciente despertara havia horas.
O ambiente claro e suavemente decorado mergulhou-se então numa espessa onda silenciosa onde se ouvia somente alguns timbres sonoros vindos de uma das máquinas ainda ligadas.
A quietude era forte e amarga. Os minutos tornaram-se opressores no alto relógio firmado na parede branca.
Seus olhos se partiram lentamente. Encarou o teto bege, sem falhas. Seus olhos eram acastanhados e opacos. Falecidos e enraivados. Pincelados e ressentidos. Não pôde amaldiçoar seu destino, nem quem o acompanhava. Lembrava-se das palavras ditas anteriormente.
Seu estômago revirou quando não pôde fugir da horrível sensação de sentir os lençóis mais frouxos abaixo dos joelhos. Tentou cerrar os punhos, mas nem isso conseguiu.
A palavra cruel que ameaçava surgir em sua mente era combatida com garra.
Não aceitava. Ainda não podia aceitar...
Fechou os olhos fortemente, mais uma vez naquele dia, novamente nestes seis meses passados. Mentalizando o momento em que despertaria daquele injusto pesadelo.
Quando os abriu novamente, sua face umedeceu.
Havia um novo borbulho no corredor que se estendia até os consultórios do andar...
Every time that I look in the mirror
Toda vez em que eu me olho no espelho
All these lines on my face getting clearer.
Estas linhas no meu rosto se enaltecem
The past is gone,
O passado se foi,
It went by like dusk to dawn.
Passou como do nascer ao pôr do sol
Isn't that the way
Não é assim
Everybody's got their dues in life to pay?
Que todos pagamos nossas dívidas?
Havia conversado com algumas pessoas. Havia sido apresentado a tantas outras...
Yeah, I know nobody knows
Sim, eu sei que ninguém sabe
Where it comes and where it goes.
De onde viemos e para onde vamos
I know it's everybody's sin
Sei que é a sina de todos nós
You got to lose to know how to win
É necessário perder para saber como vencer
Pôde se sentir acolhido, apesar do nervosismo aparente. Nova instituição. Nova equipe. Novos pacientes. Novos trilhos, novos caminhos. Respirou fundo. Não havia mais volta.
Half my life's in books' written pages.
Metade da minha vida está em páginas escritas de livros.
Live and learn from fools and from sages.
Vivendo e aprendendo dos tolos e dos sábios.
You know it's true,
Você sabe que é verdade,
All the things you do come back to you
Tudo volta para você.
Avistou duas enfermeiras visivelmente aborrecidas deixarem o quarto que lhe fora recomendado. Ambas morenas e coradas. Deixou a mente em branco; lembrando-se que apenas relataram o quadro clínico e alguns traços da personalidade de quem passaria a ajudar, junto com uma equipe formada, o enfermo...
Sing with me
Cante comigo
Sing for the year
Cante para o ano
Sing for the laughter n' sing for the tear
Cante para o riso cante pelas lágrimas
Sing with me
Cante comigo
If it's just for today
Se é só por hoje
Maybe tomorrow the good lord will take you away
Talvez amanhã o bom Senhor o levará
- Eu não consigo ter pena dele.
- Ahn... Odeio entrar lá! Tem toda uma energia ruim.
- Também. Acho que vou pedir para Karl ficar no meu lugar. Fui dar os comprimidos praquele desgraçado tomar e ele só faltou quebrar meu punho!
- Ele conseguiu ficar pior depois do acidente.
Pôde ouvir algumas reclamações enquanto passava pelas duas enfermeiras. Afastou o melindre para longe de si. Acreditava em seu trabalho e levava a carreira promissora muito a sério.
Havia preferido conhecê-lo primeiro antes do resto dos funcionários. Sua apresentação oficial seria realizada após o almoço.
Chegou frente ao quarto 493.
Bateu duas vezes na porta e foi abrindo-a devagar, pedindo licença de forma branda...
Dream on, dream on, dream on
Sonhe, sonhe, sonhe
Dream until your dream comes true
Sonhe até que seu sonhe se torne realidade
Dream on, dream on, dream on
Sonhe, sonhe, sonhe
And dream until your dream comes true
Sonhe até que seu sonhe se torne realidade
Dream on, dream on, dream on, dream on
Sonhe, sonhe, sonhe, sonhe
Dream on, dream on, dream on
Sonhe, sonhe, sonhe
