Capítulo 4- Ab origine (Desde a origem)

Mas o que ele estava fazendo com ela? Que movimentos eram aqueles que lábios e língua lhe impunham fazendo com que o corpo dela se enchesse de calor e ansiasse por algo que Ana-Lucia não conseguia definir o que era?

Buscando forças dentro de seu ser, ela o empurrou de cima de si e gritou histérica retirando debaixo da camisola o punhal que trazia preso à perna:

- O que está fazendo bastardo inglês?

- Você estava chorando.- respondeu ele, se afastando dela antes que o punhal que ela agitava com ferocidade no ar lhe rasgasse a carne. – Eu estava tentando acalmá-la!

- Você estava tentando me estuprar!- ela acusou. – Seu porco nojento!

Incrédulo diante da agressividade dela, Sawyer levantou-se da cama e ficou bem longe de sua esposa.

- Eu não estava tentando estuprá-la! Nunca precisei estuprar uma mulher para ter sexo! E não pense que sinto qualquer tipo de desejo por ti, uma mulher que dorme com um punhal debaixo da camisola e tenta machucar o próprio marido. Jamais pensei em te estuprar, mas você pensou em matar-me e me fez ameaças, então quem é o vilão aqui, pequena?

Lady Ana-Lucia ficou sem resposta e o Conde de Sawyer, cansado e aborrecido deixou o quarto antes do nascer do sol. Ela voltou a deitar-se na cama e alisou o punhal antes de amarrá-lo de volta à perna. Não importava o quanto ele pudesse parecer confiável. Nenhum homem era confiável e Ana-Lucia tinha experiência de sobra nisso.

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Goodwin estava com uma dor de cabeça terrível, mas o conde de Sawyer pareceu não se importar nem um pouco com isso quanto entrou no quarto onde ele dormia batendo a porta com toda a força e ainda não era nem seis da manhã.

- Mas que diabos, homem?- disse Goodwin erguendo-se de um salto da cama. – O que aconteceu? Não tem respeito pelo sono de um amigo embriagado não?

- Já passou da hora de você tornar a ficar sóbrio, Goodwin.- disse Sawyer puxando um banco de madeira para sentar-se.

Goodwin viu que o braço dele sangrava e indagou:

- O que foi isso? Onde se feriu?

- Minha esposa apunhalou-me.- respondeu ele, aborrecido. – Em nossa noite de núpcias ela foi capaz de cravar uma estaca em meu braço.

- Deixe-me ver isso.- disse Goodwin retirando o pedaço de tecido que recobria o ferimento. – Isso parece feio, meu amigo! Temos que cuidar disso agora mesmo ou vai infeccionar. Vai precisar de um ou dois pontos, acho.

Mas Sawyer não estava preocupado com o ferimento. A dor era superficial diante da raiva e frustração que ele estava sentindo depois de sua noite de núpcias fracassada. Goodwin sentou-se ao lado dele em outro banco de madeira e pôs-se a limpar o ferimento com um pano úmido. Sawyer fez careta.

- Definitivamente, depois de ver esse ferimento no seu braço, Sawyer, devemos acreditar que tudo o que diziam sobre a sua esposa ser uma bruxa era verdade, embora ela seja uma das mulheres mais lindas que meus olhos já tiveram a oportunidade de apreciar.

- Pode ser!- resmungou Sawyer. – Mas tem algo estranho nessa história.

- O que poderia haver de estranho? È mais do que óbvio que ela não está aceitando muito bem a imposição do rei que a obrigou a casar-se contigo.

- Goodwin, ela parecia aterrorizada ontem quando me feriu com o punhal. Chegou até a pedir-me desculpas, mas depois voltou a dizer-me palavras de escárnio. Ficava repetindo que eu ia estuprá-la e não é só isso. Eu resolvi deitar-me no chão para dormir e ela ficou na cama. Se contar para alguém que não fiz amor com minha esposa em nossa noite de núpcias jogar-te-ei ao calabouço, está me ouvindo?

- Alto e claro.- respondeu Goodwin com um sorriso debochado. – Não se preocupe Sr. Conde, sua masculinidade não está em voga aqui, o que mais ia dizer?

- Então, eu estava no chão e ela na cama. Eu acordei de repente com os gritos dela, e fui pra cama. Ela estava tendo um pesadelo, chorando e chamando por Vivian. Então eu tentei acalmá-la, abracei-a e não pude resistir.

- A possuístes então?

- Não, apenas a beijei. E ela correspondeu-me, tenho certeza que sim. Na verdade, ela parecia até muito surpresa com o beijo, como se nunca tivesse beijado daquele jeito antes, como se fosse pura...

- Não se iluda, amigo!- disse Goodwin esterilizando uma agulha na chama da vela que ardia e iluminava o aposento antes de prender a linha e inserir na carne de Sawyer que mordeu os lábios para não se queixar da pequena dor. – Ela o apunhalou. Pode ser capaz de fazer muito mais coisas como cortar-te a garganta enquanto dormes.

- Mas eu estarei atento a isso, Goodwin e se quer saber, não acredito que ela seja capaz de fazer isso. Meu pai costuma dizer que cão que ladra não morde. Talvez ela seja assim agressiva por algum motivo, quer que eu fique longe dela e fala em estupro o tempo todo. Penso que o primeiro marido dela pode tê-la violentado. Sim, só pode ser isso, Goodwin! E quem essa tal de Vivian? Uma irmã? Uma amiga?

- Não se mexa tanto, estou suturando seu braço. Olha, se quer mesmo a minha opinião, talvez deva interrogar os serviçais sobre isso. Aliás, seria interessante que interrogasse a serviçal dela, porque ela é a pessoa mais próxima à sua esposa nesse momento e eu acredito que se ela continua inteira é porque Lady Ana deve ter algum apreço por ela. Portanto, a serviçal deve saber de coisas importantes que poderiam explicar o estranho comportamento de sua esposa. Eu poderia interrogar a moça, o que acha disso?

- Nada disso, você não interrogaria a moça, a levaria para sua cama.

- E por que eu não poderia interrogá-la em minha cama?

- Esqueça Goodwin! Eu cuidarei disso. Descobrirei o que acontece com minha esposa e enquanto isso fique calado sobre tudo o que lhe contei. Ninguém pode saber disso ou minha cabeça pode ir a prêmio se eu não for capaz de controlar minha própria esposa.

O conde estava certo. Um senhor de terras precisava ser temido para ser respeitado e seu alguém soubesse que ele não podia cuidar da própria esposa então todos começariam a se perguntar se ele era o homem certo para assumir aquelas terras.

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Sawyer não viu a esposa durante toda a manhã, ocupando-se com os assuntos financeiros do feudo que pelos livros de contabilidade não andavam nada bem. Mas resolveu esquecer esse assunto na hora do almoço porque teria de encarar Ana-Lucia outra vez e queria ver como ela ia se comportar depois da discussão que tiveram antes do amanhecer.

Mas a demora dela em descer para a refeição começou a deixá-lo inquieto e irritado. Sawyer chamou o mordomo:

- Onde está minha esposa, Linus?

O mordomo se aproximou com o jeito cabisbaixo e subserviente de sempre.

- Lady Cortez... – Sawyer olhou feio para ele e o mordomo corrigiu com um pigarro. – Digo, Lady Sawyer não costuma descer para o almoço ou para qualquer outra atividade. Ela desceu ontem à noite para o casamento porque acredito que o senhor tenha sido muito persuasivo para trazê-la.

- Como ela não desce para as refeições?- o conde retrucou, sem entender.

- È assim desde o tempo de Lorde Cortez, Conde Sawyer. Milady prefere comer no quarto a fazer as refeições no salão.

Uma criada começou a servir a mesa trazendo uma travessa com porco assado e legumes. Sawyer olhou para a comida e com uma expressão de fúria ergueu-se da cadeira.

- Mas isso vai mudar agora mesmo! Eu vou buscar milady para almoçar.- ele se dirigiu a criada, avisando para que ela ainda não servisse toda a comida até que ele voltasse.

Os cavaleiros de Sawyer assistiriam ao impasse em silêncio, mas quando o Conde se ausentou, eles começaram a conversar entre si a respeito do lorde estar tendo problemas conjugais. Goodwin tratou de abafar o caso.

- Não existe nada errado com o casamento do conde.- disse ele. – O conde e sua senhora estão se dando muito bem.

- Acreditamos que sim.- disse um dos cavaleiros. – Só se o conde fosse imbecil para não viver feliz ao lado daquela beldade. Nunca vi tanta beleza.

- Cuidado com sua língua, Dustin.- falou Goodwin. O conde Sawyer pode mandar cortá-la ou a feiticeira esposa dele pode deixá-lo mudo com um feitiço.

- Acredita mesmo que ela é uma bruxa?- indagou outro cavaleiro. – Mas ela é tão linda.

- E quem foi que inventou que as bruxas mais poderosas são feias?- retrucou Goodwin deixando os homens pensativos. Era melhor que ele alimentasse o boato de que a esposa do conde podia ser uma feiticeira poderosa do que ver os cavaleiros deixando rastros de saliva por onde a mulher passasse. Sawyer não gostaria disso e além do mais, a mulher era mesmo perigosa porque fora capaz de apunhalar o próprio marido na noite de núpcias. Goodwin gostaria de saber como Sawyer faria para convencê-la a descer para almoçar.

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Ana-Lucia tentou esticar-se um pouco na tina de banho estreita enquanto Juliet lhe lavava os longos cabelos com essência de rosas vermelhas. As preferidas da lady.

- A senhora não me contou como foi sua noite de núpcias.- Juliet provocou espalhando a essência sob os cabelos dela, sabendo que ouviria um palavrão por perguntar isso.

- Diabos, mulher! A tua impertinência não se acaba nunca?

Juliet prendeu o riso e desculpou-se:

- Me perdoe, milady, eu não devia ter lhe perguntado isso. Sou uma impertinente. Pode mandar chicotear-me se quiser.

- Pois bem o merecias, Juliet. Não consegue controlar tua língua! Mas não farei isso contigo porque não confio em mais ninguém nesse castelo.

Juliet sorriu e abraçou a patroa pelos ombros.

- Obrigada, milady. És tão boa para mim!

- Está bem.- disse Ana se sentindo desconfortável com aquele abraço.

Juliet voltou a lavar-lhe os cabelos, mas sabia que Ana-Lucia queria falar. A conhecia muito bem.

- Esse homem... – ela começou a dizer e Juliet comemorou internamente sabendo que ela contaria tudo que queria saber. – Ele é diferente...

- Eu disse à senhora que ele era diferente!- Juliet afirmou.

- Eu esperava que ele fosse me fazer algum mal...

Juliet lembrou-se do barulho dos gritos dela em sua noite de núpcias com Lorde Daniel e entendeu do que ela estava falando.

- Mas ele não a machucou, senhora?- dessa vez havia preocupação na voz dela.

- Não.- Ana admitiu. – Mas ele tentou!

- Tentou? Como?

- Ele forçou um beijo, mais de um, em minha boca e eu o apunhalei.

- A senhora fez o que?- Juliet não podia acreditar.

- Eu o machuquei com o punhal e ele ficou furioso! Achei que fosse me estuprar, mas ele não o fez. Dormiu no chão. – Ana-Lucia omitiu a parte do pesadelo em que ele a acalentou em seus braços na cama e a beijou novamente, e que dessa vez ela correspondeu.

- Por isso a senhora diz que ele é diferente?

- Sim.- respondeu Ana. – Ele age como se fosse um bom homem, por isso ele é mais perigoso do que qualquer outro.

- Acredita mesmo nisso, milady?

- Com todas as forças de meu ser. E eu hei de descobrir o que esse homem pretende em nosso reino e o farei partir daqui logo, Juliet, você verá.

- Mas a senhora acha que não existe mesmo nenhuma possibilidade dele realmente estar sendo honesto?

- Não existem homens honestos, Juliet. Eles só querem duas coisas: maltratar as mulheres e ficar no poder.

Juliet terminou de lavar os cabelos de Ana-Lucia e ela se ergueu da tina para que Juliet os enxugasse.

- Ainda acho que a senhora deveria tentar ter uma boa conversa com ele.

- Isso é bobagem, Juliet. – Ana-Lucia estava dizendo enquanto Juliet esfregava-lhe os cabelos com uma toalha quando o conde Sawyer entrou de repente e estacou no lugar ao vê-la nua, de costas.

A beleza dela era indiscutível. A pele morena brilhava ao sol que entrava pela janela como se estivesse acariciando-lhe as costas, o bumbum empinado, as coxas grossas e os tornozelos bem torneados. Mas a despeito da voluptuosidade das curvas femininas de sua esposa, outra coisa foi capaz de chamar-lhe mais a atenção. Nas costas dela haviam pequenos ferimentos cicatrizados que pareciam ter sido feitos com chicote.

Sawyer ficou lá parado. Chocado com o que estava vendo. Foi quando Juliet notou a presença dele.

- Milorde?

O rosto de Ana-Lucia ficou lívido e ela se cobriu com a toalha rapidamente antes de dizer:

- O que você está fazendo aqui?

Continua...