Capítulo 3

Toda a figura de Serena era deslumbrante naquela noite. Havia um brilho especial que emanava dela e era impossível ignorar. Possivelmente era uma aura de felicidade, tão visível em seu brilhante olhar azul quanto em seu sorriso.

Hana escapuliu do salão de festa à primeira oportunidade. Carregou consigo uma garrafa de bebida alcoólica, e foi bebendo, hesitante, pelo caminho, até chegar aos jardins. Meio ano e ali estava no lugar onde tudo começara. Ela sorriu zombeteira, sentando-se no mesmo banco e perguntando-se o que teria acontecido caso aquela fatídica noite nunca tivesse sobrevindo.

Ela soltou um suspiro. Provavelmente Endymion teria se casado do mesmo jeito, porque ela ainda não teria tido coragem para impedir um matrimónio feliz. Era testemunha que os dois de amavam — mal ou bem, ela não tinha nada a ver com isso. Talvez a única e grande diferença era que Hana continuaria sendo uma pirralha egoísta e inconformada com o destino, caso aquele segredo não tivesse lhe caído aos ouvidos.

— Princesa Hana.

Seiya ilusoriamente estava no mesmo lugar daquele dia, Hana perguntou-se se pensava no mesmo. Era provável que sim, pela sua expressão. Ela deu-lhe um aceno de leve e ele tomou a liberdade de sentar-se ao seu lado. A falta de cerimónia não incomodou nenhum dos dois. Eram inimigos declarados, depois cúmplices, enfim, quase amigos.

— Viu Serena?

— Estava bonita, não estava? — Seiya entornou uma garrafa nos lábios. Hana agora conseguia ver, estava bêbado. Suas bochechas encontravam-se ligeiramente rosadas pelo álcool. — Hana... ela estava feliz.

— É. Endymion também. — Murmurou quase desgostosa. E imitou a ação anterior do guerreiro, bebendo do líquido que trouxera. — Que droga, hein, Seiya. As pessoas que amamos se casando e sendo felizes... e nós bebendo no escuro do jardim. Atingimos o fundo do poço.

Ele soltou uma risada.

— Você assumiu. — E cutucou-a no ombro com o dedo. — Que ama o seu irmão.

— Censure-me.

— Devia. Isso é lá coisa que se faça? Amar o próprio irmão... quanta corrupção.

— Fale-me de corrupções.

Os dois suspiraram, beberam, olharam-se... e caíram na risada.

— Quer usar isso contra mim? — Hana continuou divertida como nunca, olhando de lado para o Sailor. — Vejamos... peça algo em troca como «ou você me dá seu reino ou eu espalho pela galáxia inteira seu desejo pecaminoso». Isso é algo bom, não é?

Seiya demorou a responder, um pouco perdido com a visão da princesa entornando a garrafa sem preocupações. Então coçou a cabeça.

— Para quê eu quereria seu reino?

— Sei lá. De facto... quem quereria a terra? Reino sem graça... olhemos para a Lua. Um lugar encantador e cheio de luzes. O seu reino também é muito mais bonito... praticamente tudo é melhor do que a Terra. — Ela pousou a garrafa entre eles, suspirando — Mas eu gosto tanto, tanto, dali. Farei tudo para que se torne um lugar melhor.

— Você será uma boa rainha.

Eles observaram-se por um longo instante. Seiya estava diferente outra vez; seus olhos brilhavam com sinceridade e pela primeira vez, não via a pirralha mimada, mas sim, Hana. Ela sorriu.

— Hm. Se eu amar a Terra da mesma forma que amo Endymion... provavelmente será o melhor reino do Universo.

— Parabéns. — Seiya disse-lhe após um longo instante de silêncio.

— Pelo quê?

— Não sei... — Ele sorriu sem graça diante da expressão aparvalhada da jovem — Por manter segredo, acho. Por ter sacrificado sua felicidade. E por se tornar rainha da Terra.

— Terei mesmo sacrificado minha felicidade? — Ela sorriu de leve, dando de ombros — Endymion nunca olharia para mim da maneira que olha para Serena. Acho que se minha felicidade dependia dele eu nunca poderia tê-la sacrificado já que a escolha nunca foi minha.

Seiya tomou coragem para tocar-lhe no ombro.

— É. Acho que você falou por nós os dois.

— Devemos beber a isso? — Ela recuperou sua garrafa, agitando-a no ar com desequilíbrio. Seiya recuperou a sua.

— A noite toda. — E brindaram.

As coisas estavam confusas para os dois, no dia seguinte. Com a cabeça latejante, Hana abriu os olhos para descobrir-se nua envolvida entre um lençol e um corpo quente e desnudo de alguém. Enquanto Seiya sentia seu braço completamente dormente por alguma razão. Abriu os olhos e encontrou Hana.

— O que você está fazendo aqui? — Perguntaram em uníssono, afastando-se um do outro.

— E por que você está nu?

— E por que você está nua?

Hana suspirou, puxando o lençol para tapar seu corpo enquanto Seiya procurava alguma coisa para vestir.

— Você se lembra do que aconteceu? — Perguntou num fio de voz, que ainda era seguro o bastante para ser dela.

— Lembro... — Seiya vestiu-se, as recordações lascivas o fazendo corar por alguma razão. — Ah, bem, mas nós estávamos muito bêbados... bem, desculpe-me, eu... sei lá... o que aconteceu Hana?

— A gente dormiu junto. — Ela replicou solene, para soltar uma risada depois. — Ah, quão patéticos somos? E quão irónica é a nossa situação?

Seiya não se conteve e riu também.

— Hana? Posso dizer-lhe uma coisa sem correr o risco de ser decapitado?

— Você já devia estar morto há muito tempo, idiota. — Mas seus olhos brilhavam com diversão.

— Pelo menos podemos dizer que nos divertimos tanto quanto os noivos na noite passada.