.

Preguiça

.

O dia estava amanhecendo, mas o sol se recusava elegantemente a brilhar. Seus olhos estavam abertos, mas isso não significava necessariamente que ele estava acordando, até porque Mello não costumava acordar às cinco da manhã. Ele sequer havia dormido.

Depois de tanto tempo, era de uma certa forma um incômodo dividir a cama com outro corpo, ainda que eles não estivessem dormindo. Ainda que ele não estivesse dormindo. Matt talvez a cinco minutos atrás estava ofegando na mesma posição que agora, porém rendeu-se ao sono mais fácil que o companheiro.

Os lençóis estavam empregnados de forte cheiro de suor e tabaco. Roupas espalhadas pelo chão junto com diversos objetos indecifráveis jogados para diferentes lados daquele ambiente. Ele ainda não sentia falta do orfanato.

Ele sentia falta de ter tudo o que queria na hora que queria; de ter o conforto que todo aquele lugar oferecia; saber que lá dentro ele estaria seguro e protegido de tudo que fosse inconveniente ou auto-destrutivo. Mas ele não sentia falta do orfanato em si.

Na mesma proporção com que ter Matt perto de si às vezes era um incomôdo, também era teoricamente saudável. Era algo do gênero "estou entediado! Tire a roupa, querido!". E isso fazia um bem que se refletia instantâneamente no humor do loiro. Ou não. Nada é tão simples assim.

O irritante barulho do relógio na mesa de cabeceira o surtia a consciência de que o tempo estava passando enquanto ele permanecia deitado em profunda inércia. Se não fosse pelo cansasso corporal, haveria naquele instante um relógio voando janela abaixo, mas ele apenas tirou a pilha com cautela. Pronto, na teoria ele havia parado o tempo para si mesmo.

Estranhamente sutil, ele levantou a cabeça da almofada, como reação comprimiu os olhos ao notar a incomum claridade de um dia nublado acertando sua visão ao forçar seu tórax em um ângulo de noventa graus. Era só um espectro, notou ao sentar-se.

Não, ele não estava sendo sutil em momento algum, era mais por sonolência, tornando-se notável quando ele abriu a gaveta do criado-mudo a procura de algum chocolate. Ele não encontrou, mas não precisou mudar de posição para avistar três barras sobre a mesa, longe o suficiente para que se sentisse inutilmente lesado.

Os pacotinhos plásticos dentro da mesma gaveta fizeram lembrar que chocolate era algo tão substituível. Aquilo não era proposital, o que havia ali dentro só era uma forma não-convencional de se ganhar dinheiro. Então uma linha em pó formou-se sobre a mesa de cabeceira com a mesma precisão com que foi aspirada por Mello.

Ou com a mesma falta de precisão. Pois não costumava fazer aquilo com frequência, mas de vez em quando ele buscava algo mais fatal que chocolate. Ou por preguiça mesmo.

.