No último capítulo…
Duo levou Heero para conhecer outros participantes do torneio, muito disposto de fato de fazer amigos. Os cinco cavaleiros, Heero, Duo, Trowa, Quatre e Wu Fei, gastaram um tempo falando amenidades e depois combinaram de se encontrar na taverna Barge aquela noite. Com um pouco de resistência, Heero decide juntar-se a eles e entre goles de cerveja, acaba recordando-se da dama loira com que se esbarrou naquela manhã, deixando-se intrigar por ela. Aquele encontro de algum modo o confundia e perturbava.
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Capítulo 04 – Reflexões
Naquele dia, Akane não se dedicou a nada além de si mesma. Uma grande honra a aguardava naquele crepúsculo – tinha um compromisso com a própria princesa do Reino de Sanc.
_Não sei como você consegue, Ane! –Howard provocou-a com um sorriso de espanto.
Ele reconhecia que Akane possuía uma chama interna que fazia qualquer um sentir-se à vontade ao lado dela, era como um feitiço: sabia criar uma atmosfera agradável com sua simples presença. Mas ganhar a consideração da princesa do reino era algo muito notável. Akane, no estado em que vivia, tinha alguns conhecidos e achegados influentes, amigos nobres, mas uma princesa é muito mais do que tais, ainda mais ao pensar em Akane como sendo o que era. Howard via a menina mais linda que nunca para o encontro, ela sorria brilhantemente, as sardas lhe davam um infantil toque de charme.
Ela pôs um de seus melhores costumes, um vestido amarelo com bordados brilhantes de um tom verde-claro, Alaric lhe ajudou com o cabelo, fazendo-lhe uma meia-trança embutida, um penteado simples, mas que conferiu nela uma aparência nobre. Do baú de madeira ela retirou botinas delicadas, encapadas de veludo preto, e um pouco incomodada com as mangas pendendo muito longas, lindas sem dúvida, mas nada práticas, Akane saiu da tenda em rumo ao palácio.
O Sol estava suave, conferia uma luz pálida a tudo enquanto recolhia-se para descansar em seu leito de nuvens. Heero estava afiando a espada do lado de fora de sua tenda e viu Akane passando enquanto o vento levava o vestido e os cabelos dela. Ficou assistindo-a caminhar, finalmente a via vestida decentemente como uma menina.
_'Tarde, Heero! –ela saudou com sua simpatia fiel, e não esperou que ele lhe respondesse.
Ela chegou ao palácio, sem temer nada, e ninguém a impediu de entrar, os soldados assumiam que ela fazia parte da corte, e só na entrada do palácio é o que o guarda real, vestido em trajes vistosos e imponentes de cores, interessou-se em saber os motivos dela.
Com um sorriso mimoso e suas sardas atrevidas, ela foi explicando que a Alteza Relena a havia convidado para uma visita amigável.
Assim, um segundo guarda escoltou Akane até os aposentos de Relena e foi uma das camareiras quem abriu a porta.
_Ela pode entrar, senhorita Noin?
Noin somente assentiu de forma firme e um minuto depois Akane se viu dentro dos aposentos da princesa. Tudo era delicado e lindo lá dentro, combinando perfeitamente com a personalidade de Relena, e Akane olhava a volta discretamente, observando os detalhes primorosos espalhados pelo lugar.
_Ela está na varanda… –com discrição, Noin direcionou.
Com nenhum ruído, Akane foi se aproximando da sacada, via já o céu trocando de trajes, vestindo-se num glorioso costume de gala, ostentando pequenos brilhantes cintilantes por todo ele.
_Boas graças, Alteza. –disse discreta, sem querer interromper, fazendo uma mesura reverente.
Relena estava distraída e dedicada a ler a Bíblia. Com um sorriso vibrante e doce, olhou sua convidada:
_Boa noite, jovem… Queira se sentar. –e havia outra cadeira ali próxima. Noin veio com duas xícaras de chá e depois se despediu com uma mesura de cabeça.
Por um instante, Akane olhou Relena e ficou admirada com toda a beleza da princesa. Havia algo de extrema majestade naquela moça, vinha de dentro dela, era algo que não era possível esconder. Era uma luz que não podia ser jamais contida por qualquer velo.
Relena olhou a xícara de chá antes de beber um pequeno gole e depois encarou sua convidada com curiosidade. Via que Akane era uma menina muito bem cuidada e apresentava um viço tão atraente, seus olhos eram eternamente calorosos. E Relena bem percebia que havia impresso na menina algo de indescritível nobreza e honra, como se na verdade ela tivesse recebido uma criação semelhante à de Relena.
O mar era o espelho onde a noite se admirava, enquanto ia experimentando suas vestes: ora lilases, vermelhas, ora azuis ou verdes. As bandeirolas eram alçadas pelo vento com força, ruidosas, e a Lua brilhava como o régio diadema – a noite estava mais uma vez pronta para sua infinita valsa.
_Qual livro é o seu preferido entre as Escrituras Sagradas, Akane? –Relena lhe perguntou a opinião bebericando o chá e deixando o livro de lado.
_Os livros de "1 e 2 Samuel" – os relatos sobre o rei Davi. E o que a Alteza está lendo?
_Os Salmos. Não me chame de Alteza, pois sim?
Akane assentiu obediente, e com um sorriso suave, indagou:
_Está buscando consolo, Relena?
_Não, somente inspiração. É agradável ler as palavras dos salmistas, eles têm sentimentos como os nossos e isto ajuda-nos a expressar o que ansiamos. São sempre palavras tão lindas…
_Deveras. –Akane comentou circunspeta, imaginava que Relena falava aquilo por algum motivo particular. Não se incomodou em, na verdade, não entender. –Como você passou o dia?
_Bem; não foi tão ocupado como o seu, nem tão interessante, mas me foi agradável, como sempre.
_Não diga estas coisas, é bobagem sua. Minha vida não é tão boa assim!
_Isto porque é você quem a vive! –Relena replicou com um jeito jocoso, um sorriso pilhérico, e Akane riu diante da ferina realidade das palavras de Relena. Até ficou sem graça. Mas não podia ainda concordar que sua vida era tão especial assim como Relena achava.
_Ninguém dá valor ao que tem, não é mesmo?
_É porque quem tem, conhece bem a ponto de desagradar-se… Não sei se isto é certo ou errado…
_Também não sei, é algo muito difícil de compreender. Você não gosta de como vive? –Akane questionou para ver se conseguia começar a compreender aquela questão.
Relena pareceu calma, mas melancólica, e pensou antes de responder, mirando o céu de estrelas.
_Sim, mas eu tenho os anseios que todas as outras princesas têm, e estes não te perturbam. –explicou, e se sentia frustrada.
_Não? Diga-me que anseios são estes e eu te direi se eles me perturbam… –Akane pediu curiosa. Queria compreender o porquê do sentimento de Relena. O que será que desagradava aquela linda princesa que tinha tudo o que desejava?
_Minhas asas estão atrofiadas! Não me basta só esta gaiola dourada… Tenho o desejo de ir mais além, quero mais do que o que já conheço! –Relena expressou-se com um ar intenso, gesticulando de um modo como se fosse alcançar o céu fronte à sacada, seus olhos de luz pareciam brilhar por um sonho.
Akane sorriu e depois suspirou.
_Vou te dar uma palavra de conselho: permite-me?
_A partir de hoje somos amigas! –Relena queria que Akane fosse sempre o mais franca possível, mas era realmente só isto o que Akane podia garantir.
_Sei o que almeja, você quer mais, porém, deixe de pensar que tudo é muito mais do que o que você pode ter.
Relena olhou-a pensativa, e murmurou confusa:
_Eu não sei se posso… –e sem saber se terminava ou não sua frase, espantou-se em ouvir Akane dizendo depois:
_Princesa Relena, o céu é infinito. Abra suas asas e alcance tudo aquilo que tem em sua mente com toda a força de seu coração. E você mesma vai descobrir os seus limites.
_Você já descobriu os seus? –Relena perguntou depois encantada com o incentivo da amiga.
_Ainda não… Ainda não. –Akane respondeu pensativa, com um sorrisinho suspeitável.
Relena olhou para o firmamento já tão escuro e manteve-se em silêncio enquanto Akane bebia o chá.
_Se agrada dos duelos? –Akane indagou depois, calmamente.
_Não sei… é algo que ainda não consegui decidir. Às vezes acho que tudo não passa de uma vã demonstração de força, e me dizem que as mulheres é que são fúteis! –Akane riu do comentário da princesa que tinha um modo irônico de deboche. –E assim fico a refletir se os cavaleiros são mesmo guerreiros justos e piedosos como era o rei Davi…
_Pode ter a confiança de que são. Os cavaleiros não se agradam com a maldade, embora imperfeitos. O código de honra deles é rígido e estritamente obedecido.
_Sim, você que está sempre cercada deles sabe dizer com certeza. E como é sua vida entre eles?
_É dura, mas nunca tenho medo. Os verdadeiros cavaleiros são homens muito especiais, merecem o respeito que recebem e toda honra que ostentam é legítima.
_Mas nem todos são gentis, não é? Ou para ser cavaleiro é preciso ser cavalheiro? –Relena brincou com as palavras e Akane riu outra vez, achava a princesa tão simpática.
_Bem, isto dependerá do que você chama por gentil… Para mim, todos o são, mesmo que haja aqueles difíceis de lidar. O coração de um cavaleiro é todo benévolo, mas é tão coberto de estigmas: ele é rude pela aspereza das cicatrizes.
Relena a escutou e um pensamento a intrigou, este a vinha incomodando desde que soubera do torneio, e antes de expressar-se, suspirou:
_Não sei como pode ser tão terna a relação entre a dama e o cavaleiro… Acho as baladas tão superficiais!
Akane a olhou por um minuto, querendo compreender os motivos de Relena sentir-se assim, e pensou muito para dar resposta. Precisava cuidar de não vituperar a glória.
_Não se sinta mais assim, Relena. Existe uma ternura especial na devoção do cavaleiro… Ele é ardentemente fiel, não decepciona, mesmo que se mostre rude. Não é nada sobre sentimentalismo, é algo sobre genuína escolha do coração.
Relena sorriu impressionada pelo que ouvia, achava agora a filosofia dos cavaleiros muito interessante.
_Você está acostumada, não é? E por isso sabe entender o que não consigo. –com uma inveja saudável, Relena expressou admiração. Queria poder entender a mente dos cavaleiros assim como Akane. –E agora pergunto a ti: já encontrou o seu cavaleiro?
Akane sorriu e ficou sem saber o que responder. Temia desanimar Relena com sua resposta. Percebia na princesa uma frustração e não queria alimentar esta, mas sim dissipá-la, tinha de dizer algo edificante, mas não fantasioso. Tarefa difícil.
_E você já, Alteza?
Relena sentiu algo diferente então. Nunca ninguém havia falado com ela daquele modo, sentiu-se assustada e sem fôlego, e por fim deu um sorriso tímido, e quase que apenas murmurou:
_É tão difícil assim?
_A vida da dama é esperar sempre e para sempre. Isto começa mesmo antes dela encontrar o cavaleiro!
Relena riu divertida, Akane a olhava de um modo esperto e conformado. E depois, continuou:
_Eu não quero esta vida para mim. Perceba que não sou pessoa para dizer-te que se resigne. Se eu vivesse assim como as demais, ah, mas não vivo! Me nego! Não me resigno, não espero! Eu faço meu próprio caminho… Sou meu próprio cavaleiro, não fico fadada à incerta espera. É assim que penso; não quero te insultar, nem te desanimar.
_Não, não se incomode, pois entendo bem. Você pensa como um homem porque é entre eles que você vive. O amor está a sua espreita, quanto a mim, eu estou à espreita do amor.
Akane achou o raciocínio da princesa tão preciso e se admirou com a sabedoria dela.
E enquanto elas discorreram aquele assunto, em todo momento Relena pensava no cavaleiro desconhecido dela. Desde que o vira, não deixou de pensar nele um só instante e tinha os olhos firmes dele a fitar-lhe na memória, eram tão azuis como a noite.
Por que de repente entendeu as baladas?
_Ainda iremos viver o amor, Relena. Nós duas havemos de encontrar a nossa alma-gêmea, aquele a quem acorrentaremos nossa esperança e coração para todas as eternidades.
_Que assim seja, Akane. Viver esperando algo que ainda não existe é tamanho fardo que não sei se suporto. –havia um pouco de desânimo em Relena, mas com um sorriso compreensivo, Akane a consolou:
_Você é forte, seu coração é maior, muito maior que o meu, e possibilita milagres que eu desconheço, e seu coração é mais poderoso que um exército. Eu acredito que você encontrará somente vitórias.
Que força! Relena, com um sorriso caloroso, duvidava divertidamente em seus pensamentos que era mesmo dona de um coração tão forte assim. A convicção e certeza de Akane impressionaram-na naquelas palavras e Relena sentia-se arrebatada pelo poderoso incentivo sublinear expresso. E isto a fazia intrigar-se e perguntar-se se Akane a escrutinava a tal ponto de suspeitar-lhe os sentimentos mais internos.
Quem saberia dizer? Só Akane poderia com exatidão responder se por acaso os seus instintos aguçados estavam ou não viajando livres pelos sentimentos de Relena e só ela podia dizer se a intuição lhe era tão forte que no olhar plácido da princesa podia ler as linhas íntimas do coração.
Publicação especial de feriado!
Como eu disse, estou fazendo o possível para editar bem pouco o texto original pré-histórico.
Relevem alguns pormenores, desconsiderem até, se puderem.
Espero que estejam gostando!
Beijos e abraços!
27.05.2016
