Gente, não é crise, não é DR, não é nada disso. É só... tão legítimo que ela esteja passando por isso agora, a Sara. À parte a vida pessoal da Jorja, tanta gente apostou que a Sara ia sair mais cedo. Quantas milhares de fanfictions não existem, em que a Sara foi embora de Vegas na terceira, na quarta, na quinta temporada...? Até o Grissom.! Por isso não se envolveu antes com ela. Ele tinha um certo medo, não só por ela, mas por ele, de como ficaria se ela fosse (e isso é canônico!). Mas todos tiveram de dar o braço a torcer. Ela é mais forte do que todos esperavam. Até por estar fazendo isso agora, sozinha. Sem se escorar em ninguém, ela preferir sofrer, não, se refazer, sozinha. Ela é muito mais forte do que todos nós pensávamos... E é por isso que ela vai voltar!

Capítulo 4

As Palavras Esperadas.

"Gil?"

Sara repetiu, a essa altura já arrependida de ter ligado tão repentinamente, enquanto esperava uma resposta do outro lado da linha.

'Burra, Sara, você... tinha de ligar tão cedo? Provavelmente ele estava dormindo... Ou pior. Talvez ainda não estivesse pronto para ouvir a voz de quem o deixou a milhas de distância apesar de ele ter insistido tão veemente e... calorosamente que ficasse. Devia ter ao menos esperado chegar ao hotel...'

Sara apertou os olhos e suspirou. Ainda não tinha sequer deixado o saguão do aeroporto. Olhou em volta e seguiu em direção ao balcão de locação de carros. Mas continuou na linha. Não ia desistir de falar com ele agora. Tinha seguido um impulso, claro. Era mais forte que sua própria razão o ímpeto de ouvi-lo dizer... Alguma coisa.

Por sua vida inteira, Sara jamais se perturbou com o que quer pensassem a seu respeito. Sobre seus ímpetos; suas razões tão particulares; suas emoções; suas explosões. Medo, raiva, o que quer que fosse... Por muito tempo, sabia que a única pessoa que poderia amá-la era ela mesma. E ninguém valia tanto a pena. Esse foi seu 'lema' desde... Desde que se entendia por gente. Ninguém, de perto, valia tanto a pena. Por isso havia tantas pessoas feridas. E mortas por dentro. Ou mortas de fato... Porque ignoravam isso ou se entregaram.

Crescer com isso não foi nada fácil, mas foi o que lhe permitiu crescer. Pelo menos foi o que pensou até que encontrou alguém que passou pela vida de alguma forma seguindo também uma lógica muito própria.

De algum jeito, Sara descobriu com ele que suas defesas não eram tão fortes assim. Na verdade ela esperava, queria que algo acontecesse e demonstrasse que ela estava errada. Que havia uma vida diferente daquela, e que alguém um dia lhe mostraria isso. Não foi mais que depois da terceira conversa que teve com Gilbert Grissom que soube que eleera essa pessoa.

Havia começado sua carreira há pouco tempo e tinha, claro, algumas dúvidas a respeito de como seria lidar dia após dia com pessoas e situações parecidas ou piores que aquelas que a marcaram tanto, e que a fizeram sofrer. Mas o jeito dele... Não foi seu entusiasmo. Ela não era do tipo que se contagia apenas com entusiasmo. Ele tinha muito mais que isso. Ele acreditava no que fazia. E o fazia não como um justiceiro, não como um competidor, não como uma peça de equilíbrio do universo, mas como homem. Como o homem que era: um cientista. Ele acreditava na humanidade. E de alguma forma ela viu que, mesmo tentando não se aproximar perigosamente dessa grande engrenagem, ele era capaz de crer que sua amada ciência podia contribuir com essa humanidade em que acreditava. E isso o fazia sorrir um sorriso que ia até seus vivazes olhos azuis e os tornava ainda mais brilhantes.

Foi assim que ela soube, numa dessas conversas, que estava bem diante do melhor que a vida podia lhe proporcionar: a perspectiva de aprender a ajudar os outros de verdade. E Gil Grissom. E foi ali que soube também que nunca mais seria capaz de resistir a um impulso quando ele estivesse envolvido. Por isso pegou o primeiro avião disponível oito anos atrás, logo após uma ligação dele. E por isso ligou para ele assim que desembarcou deste avião.

Depois do que pareceu uma eternidade, ele respondeu com a voz num tom mais doce que qualquer tom que ela esperasse.

"Ei."

Sorriu. Era isso. Uma simples saudação. O suficiente para que ela continuasse respirando.

"Gil. Tudo bem?" Disse um tanto apreensiva, apesar do tom suave dele.

"Sar... Desculpe. É que eu acabei de acordar."

"Não queria acordar você. Só... não resisti a vontade de ouvir sua voz. Desculpe."

"Não, não, não. Não se desculpe. Eu... Esperava que você ligasse. Eu... Hum... Você está no hotel?"

Havia alguma resistência na voz dele? Mas o que era?

"Não. Ainda não. Estou no aeroporto. Meu vôo atrasou um pouco."

"Hum... Mas você chegou bem? Está tudo bem?"

Ele estava legitimamente preocupado. Podia até ver a expressão dele, cenho franzido, sentado na cama. Na cama deles... 'Pare com isso, Sara. Isso já é bastante difícil sem sua imaginação.' Ordenou a si mesma, se forçando a encarar a realidade concreta. Estava fazendo a coisa certa. E não podia fraquejar agora. Isso era por ele também. Pelos dois.

"Estou. Só um pouco enjoada."

"Enjoada?"

Sara disse aquilo sem maiores pretensões. Sua tentativa de ater-se à realidade concreta. Mas o tom alerta, entre intrigado e surpreso de Gil a despertou para algo que ele poderia estar pensando. Improvável, mas ele poderia estar imaginando... Tentou afastar esse pensamento da cabeça dela. E da dele.

"É. Da viagem. Da comida da viagem, na verdade."

"Hum." Respondeu ele, parecendo não muito satisfeito.

Isso era algo que precisava realmente ser discutido. Sacudiu a cabeça diante da idéia com certa preocupação. Afinal, Gil achava que ela não contaria a ele algo assim? Que realmente seria capaz de deixa-lo no escuro se estivesse... Definitivamente não tinha disposição para essa conversa agora. Era algo em que ela mesma teria de pensar antes de qualquer coisa. E, dada a situação e tudo o que estava acontecendo, esse definitivamente não era o momento. Apenas tentou continuar falando para tentar disfarçar sua inquietação.

"Griss, eu preciso ir. Estou na fila do aluguel de carros e tá chegando minha vez."

"Sara, descanse, tá? E... Eu sei que você precisa... disso..."

Ela podia sentir a dificuldade dele de repetir as palavras dela, que precisava disso.

"Mas me promete uma coisa?" Continuou ele.

"O quê?"

"Prometa que não vai resistir a nenhuma vontade de falar comigo. Qualquer hora, o que quer que seja. Só... pegue o telefone e eu vou estar bem aqui."

"Eu falando e você só ouvindo? Mas isso vai ser tããão difícil!" Sorriu gracejando de si mesma.

"Sara?" Seu tom continuava suave, mas também era firme.

Ela apenas suspirou e respondeu. "Prometo."

Antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa, ele continuou num só fôlego. Ela sorriu.

"E, se precisar de qualquer coisa, não sei, um copo de água, um entomologista, um... qualquer coisa, é só ligar. Vou estar aí em algumas horas. Talvez antes de desligar o telefone."

Não que ele não tivesse demonstrado algum apoio a ela, mesmo a contragosto. Não que ela esperasse menos dele. Só que desta vez ela simplesmente não pôde deixar de perceber o quão realmente difícil tudo isso seria. Estar longe dele.

Mas o que afinal ela esperava ouvir dele que não fosse fazê-la sentir ainda mais a falta dele?

"E, Sara?"

"Sim?"

"Eu amo você."

Um nó se formou em sua garganta, mas Sara sorriu.

"E eu amo você. Muito. Eu..." Antes de se deixar dominar pela emoção de ouvi-lo dizer ainda mais do que ela esperava, Sara procurou se despedir. Já estava no balcão da locadora quando disse, talvez reafirmando para si mesma, mais do que dizendo a ele: "Eu tenho que ir."

"Um beijo e... se cuida, tá?"

"Hum hum" Foi o que conseguiu responder antes de sussurrar "Outro." e desligar.

Mais tarde, no hotel, enquanto secava os cabelos depois de um longo banho, Sara pensava em todos os acontecimentos das últimas vinte e quatro horas, na inevitável reviravolta que estava acontecendo... Mais uma vez. Mudanças drásticas assim não eram novidade em sua vida. E tudo isso sempre esteve além de sua vontade. Não foi ela quem fez as escolhas que traçaram a maior parte do curso emocional de sua vida. E ela estava aqui para mudar isso. E assumir o controle de tudo isso de uma vez por todas.

Durante estes períodos de mudança, em todas as mudanças pelas quais passou, Sara esteve sozinha porque era sozinha. Era. Desta vez havia mais alguém envolvido. E, apesar de fisicamente distante, não podia deixar de senti-lo. Mesmo estando a (muitos) quilômetros, ele era a pessoa mais presente em sua vida.

E as palavras dele ao telefone mais cedo ainda ressoavam vívidas em sua mente. Talvez uma conseqüência psicológica de saber que eram provavelmente as únicas que ouviria em um bom tempo, ou talvez porque Sara dava muita atenção às palavras de Grissom. Ditas ou não, suas palavras sempre mexiam com ela.

Daquela vez não havia sido diferente. Cada coisa que ele disse ao telefone: que tinha esperado para falar com ela e que esperava falar com ela. Até arrancou uma promessa sua! Sara sacudiu a cabeça sorrindo.

E ele disse que a amava.

Na maior parte das vezes, ela via isso em seus olhos. Ele não precisava dizer. Na verdade, o disse de fato algumas vezes, sempre em momentos e de modo significante. Ele não dizia aquelas palavras apenas como uma expressão desgastada. Grissom sentia o real significado de dizer 'eu amo você' cada vez que o fazia. O que a emocionava, cada vez que ouvia.

Mas o que mais mexeu com Sara desta vez foi o que ele não disse.

Ela tentou identificar o que havia quando, com apenas uma entonação diferente na voz, ele se mostrou algo além de surpreso diante de sua afirmação de que estava enjoada. Ele não disse, mas Sara sabia do que ele estava falando. De futuro. Ela só não sabia o que ele se sentia a respeito disso.

Os dois tinham feito uma escolha. Juntos. Estavam dispostos a compartilhar suas vidas. E isso era algo grande demais, ela sabia. E estava realmente feliz com isso. Até com seu modo muito próprio, um tanto egoísta, ela mesma admitia, de guardar entre quatro paredes, o melhor de seu mundinho particular.

Mas a verdade é que eles nunca discutiram nada a respeito do que viria depois. Bem, aparentemente, pensara até ali, não havia muito o que discutir. Não que ela pensava nisso como um filme romântico e mudo que terminaria com o tradicional 'e viveram felizes para sempre'.

Mas também, nunca conversaram a respeito de... ter um filho. Será que Grissom queria ter um filho?

É claro, Sara passou por fases em que pensou em como seria ter um bebê. Inevitável, pensou, talvez biologicamente inevitáveis, esses pensamentos. Mas nunca pensou seriamente a respeito disso. E quando tentava, não conseguia pensar em si mesma como uma... Mãe.

Talvez depois disso tudo fosse capaz de encarar tudo aquilo da maneira devida. Com naturalidade. Afinal de contas, tudo isso devia ser algo... natural. Sara sabia disso. Só não tinha ainda aprendido como.

Mas ela aprendera tantas coisas com Gil. Poderia aprender... muito mais.

Sara suspirou. No fundo, este era mais um daqueles fantasmas de seu passado que veio aqui exorcizar.

Ela se levantou e foi até o espelho da penteadeira. Era preciso dar algumas ordens àquela sua figura por vezes, até mesmo quando a ordem era relaxar.

Iria rever os lugares que amou e respirar a brisa do mar – o que mais amava em São Francisco. Iria procurar sua mãe. Iria chorar (pois havia momentos em que ela mesma se achava incapaz até mesmo de chorar). Iria, não importava o quanto custasse, finalmente enterrar seus fantasmas. E iria um dia voltar para o único lugar digno de chamar de Lar: iria voltar para Grissom.

Lembrou das palavras dele. É claro que ela iria se cuidar. Por que finalmente ela se sentia valorizada. Porque finalmente encontrou alguém que se preocupava com ela como se fosse consigo mesmo. Como se os dois fossem um só. Porque finalmente encontrou alguém que valia a pena.