Erwin entra na igreja, o eco dos seus passos ressoando pelo tecto abobadado e atravessando pelas filas de bancos vazios. Olha para o crucifixo, para a imagem lúgubre de Jesus e de repente apercebe-se que, se se acreditar na história, então o homem não era mais velho do que ele quando fora pregado naquela cruz. Uma acção cruel que trouxera mais crueldade do que algum dos seus executores provavelmente alguma vez poderia imaginar ou prever.
Senta-se e cruza as mãos sobre o colo. Por esta altura, mais por hábito do que por qualquer outra razão - Holtz não é o tipo de ir à igreja, e Erwin tem de admitir que ele próprio nunca fora devoto. Olha para o filho do carpinteiro cravado a madeira e o rosto obscurece-se, quase desejando poder sentir aquele ímpeto para rezar, para implorar por absolvição. Interroga-se o que seria necessário: um simples Pai Nosso? um rosário inteiro de Avé Marias? Talvez devesse deitar-se no chão e abrir os braços, espelhar a pose do homem esfomeado e espancado sobre si. Ou talvez devesse levar a sua humilhação mais longe, flagelar-se e punir a carne e a mente por todos os seus crimes. Há algo tentador nesse pensamento, algo na dor agradável de fazer exercício e levar-se ao limito do que é suportável - e algo além disso, algo que ressoa na escuridão da mente, no perpétuo ódio próprio de que todos os homens se tentam abstrair.
O Judeu entra algum tempo depois e toma o lugar atrás de Erwin, passando-lhe os documentos sem dizer uma palavra. Lê-os rapidamente, tentando evitar que os olhos se desviem para o chapéu do uniforme que lhe assenta tão mal que o homem ainda tem na cabeça; a visão faz o estômago de Erwin contrair-se ainda mais do que fez na casa de banho. Durante todo o tempo em que lê, o Judeu senta-se à sua frente, imóvel e em silêncio. Erwin interroga-se se ele se está a manter tão quieto para não o distrair. Bom homem, a escolha perfeita para a operação - mesmo que o remorso de Erwin por o incluir o impeça de sentir a alegria que normalmente esse conhecimento lhe traria.
Quando menciona o assunto do chapéu, o pobre coitado diz-lhe que houvera um problema que torna a demanda de regressar ao covil do leão para devolver os documentos ainda mais perigosa do que tinham previamente assumido. Nesse instante, toda a missão se revela ser tal como Erwin temera: a acção mais egoísta, o esquema mais imprudente e mal planeado onde colocara outra vida em risco. Mas o vislumbre de absolvição vem no momento seguinte quando o Judeu lhe diz que revelara o seu nome num momento de pânico; Erwin sabe que esta não é a altura para uma consideração mais profunda sobre o assunto, e deixa que lhe escape da mente.
- Não há nada mais que possas fazer quanto a isso - diz ao Judeu em voz baixa. - O resto é comigo. Vem ter comigo à casa de banho assim que consigas.
O homem acena e retira-se pouco depois, deixando Erwin sozinho na igreja vazia de novo. Olha para o seu relógio e permite-se alguns minutos para considerar o problema com Osterhaus que agora se antevê. Aquele maldito jantar. Se ao menos tivesse mantido uma relação cordial com o homem, lidar com o problema seria sem dúvida tão fácil como fora no caso de Schaumann.
Erwin olha para o relógio de novo e levanta-se, regressando para a casa de banho pública num passo vagaroso; um cavalheiro num passeio nocturno. No calor do verão, já sonha com os mergulhos que tem planeados para mais tarde, e quando sente o cheiro a urina seca dos lavabos de novo, tenta em vez disso imaginar o cheiro de cloro. Os pensamentos regressam ao homem que deve agora estar bem no interior do complexo, usando a sua notável destreza para se escapulir de novo. Seria mesmo um desperdício não aproveitar tal mente. Apenas mais uma das coisas que enfurece Erwin nos nazis; como não têm apreço pela diversidade e pela singuralidade de personalidades.
A porta abre-se, e Erwin sente a familiar corrente de adrenalina que segue o olhar de aviso que o Judeu atira na sua direcção. Recua de volta para o cubículo, a mão já a fechar-se em torno do pequeno revólver que trouxera consigo. Escuta a porta abrir-se de novo, e fechar-se, esperando gritos, os sons de uma luta, mas em vez disso ouvindo nada mais do que o embater de urina contra porcelana.
E então, uma voz baixa. - Não há muitos homens como tu hoje.
Por um momento, parece-se com algo vindo de uma vida anterior em Inglaterra, e um canto da boca de Erwin estremece para cima como se numa resposta coordenada. O homem deve estar mesmo desesperado, ou o Judeu deve ter-lhe dado o suficiente para ele agir com ousadia; mas para Erwin, fazer uma proposta a um soldado numa casa de banho pública parece imprudente ao extremo, não importa as circunstâncias. A mente já decidira o plano de acção, e demora um momento para retroceder na formação do plano até à sua origem antes de sair e se juntar aos outros dois homens no urinol.
É um risco, claro, assumir que o Judeu conhece este jogo, mas assim que sente o ombros do homem ficarem tensos à sua esquerda, Erwin sabe que os seus instintos não lhe falharam. Quando o Judeu muda o peso sobre os pés e se inclina ligeiramente para mais perto de Erwin, sabe que o homem apanhara o esquema. Um momento tenso acompanha a saída do terceiro homem; uma sensação excitante, como uma corrente eléctrica a passar pelos seus olhares no espelho quando o Judeu se retira para o cubículo para mudar aquele uniforme tão mal ajustado. Olha para baixo para si e sorri. Pensar nas oportunidades que um momento como este poderiam ter aberto há uma boa década atrás.
Aquela tensão mantém-se na sua mente, permanecendo na pele quando se despe na piscina coberta. Acompanha-lo quando mergulha na piscina, sobrevive ao abraço da água fria e a todos os planos preliminares que traça em relação a Osterhaus. Leva-a consigo para casa nessa noite, para a cama onde os músculos se recusam a relaxar apesar das horas de esforço que lhes tinham sido infligidos. Mas não lhe parece correcto, pensar no Judeu. Por alguma razão, não parece correcto. Talvez seja porque não sabe o nome do homem. E como passara a não gostar de pensar nele como o Judeu; o termo - ainda que não haja nada de errado nele - tem uma nota de Holtz a correr por ele como um rio de veneno que Erwin não consegue estancar ainda que tente, e talvez seja por isso que força os seus pensamentos para outros momentos - mas também não para Lilian.
O homem vem no dia seguinte, e por um segundo o seu mau humor faz Erwin recear contra toda a lógica que de alguma coisa ele saiba que Erwin o considerara, baseando-se nele e no momento que partilharam nos lavabos para fundamentar tal coisa. Parece que o Judeu começa a achar Holtz - ainda que nunca o tenha conhecido - tão vil e repulsivo quanto o próprio Erwin é, se enojara com a visão das suas roupas, e os botões de punho com motivos de suásticas que usa na camisa. Erwin esconde-os do seu campo de visão quando ele expressa o seu desagrado por eles, mas parece que qualquer que tenha sido o dano causado precede a chegada do homem, e no final torna o gesto completamente inútil. A forma como se retira é curta e amarga. Deixa Erwin perplexo - e na verdade, porque não o deveria incomodar de todo, e ainda assim incomoda.
Atira-se de novo ao trabalho - o problema de Osterhaus está a chamar a sua atenção. O homem não vai demorar muito a agir, mas também não vai poder agir imprudentemente com todas as pontas soltas que tem de cortar. E claro que a ideia de fugir atravessa a mente de Erwin - atravessa e desaparece assim que o faz. Até nisto, não consegue ser um homem melhor. Até nisto é egoísta e indisciplinado, colocando os seus próprios interesses antes do bem comum. Não perde tempo a tentar justificar a sua decisão ao pensar nos sacrifícios que fizera. Porque na verdade, que sacrifico seria assim tão grande para justificar um acto traiçoeiro e para fim pessoal como este? Continuar a agarrar-se a uma linha de um poema que gostaria de ter lido no funeral do seu pai como acto final de reconciliação adiada não parece ser sacrifício algum, e em vez disso parece-lhe bem aquilo que merece.
Só uma pancada na porta é distracção forte o suficiente para puxar Erwin para fora dos seus pensamentos. Talvez devesse ficar surpreendido por ver o Judeu na ombreira mas por alguma razão inexplicável, não fica. Algo parece estar errado com o pobre coitado; fecha-se na casa de banho assim que passa pela porta e quando Erwin se lhe junta após lhe dar um tempo decente, ele está sentado no banho, olhando em frente, parecendo zangado e perturbado. A recusa do homem em aceitar a ajuda que oferece deixa Erwin impaciente e nervoso.
- Há alguma coisa que precises? - pergunta por fim ao Judeu, aliviado por ver o aceno que ele tem lutado para obter.
- Preciso ficar aqui esta noite.
E mesmo aí, aquilo não surpreende Erwin, seja porque razão for.
Levanta-se devagar e volta-se para a porta. - Tudo o que puder fazer para ajudar - diz, e acrescenta: - Vou preparar-nos um chá enquanto acabas o banho.
Quando o Judeu se junta a si na sala, Erwin não lhe pergunta a razão para ele estar aqui, ou se tudo isto está relacionado com o mau humor anterior dele, ou com o oficial de Berlim com quem Darlett está tão preocupado. Em vez disso satisfaz-se com o silêncio que o homem parece preferir durante todo o tempo que demoram a terminar o chá.
Ainda assim, não consegue resistir oferecer a sua ajuda mais uma vez antes de se retirar - e o que há neste homem que o faz querer oferecer ajuda, não sabe dizer.
- Não gosto de precisar de ajuda - diz o homem sem olhar para Erwin. - Especialmente não vinda de ti.
Erwin considera as palavras por um momento, tenta imaginar uma vida a depender dos outros; a simples ideia arrepia-o.
- Compreendo - diz, mais baixo do que antes, voltando-se para sair quando o homem fala de novo.
- Preciso de fazer mais - há algo desesperado na sua voz agora. - Mais do que fizemos. Não só limpeza.
Erwin sente a sua própria hesitação quando olha para o homem, sente aquele egoísmo subir à superfície e começando a sua batalha contra ele. O Judeu é talhado para aquilo - disso não há dúvida. E talvez ele esteja certo ao dizer que nada pode assegurar a sua segurança, nem ficar afastado de coisas como estas. No final, é a ideia de se vir a tornar mais uma pessoa a atrapalhar a vida do homem, a impedi-lo de a viver como ele a desejaria, que se comprova ser insuportável e força a decisão de Erwin.
- Certo - diz ao homem. - Podemos discuti-lo de manhã. Boa noite então, Herr Weller.
- Levi.
O nome faz Erwin estacar e faz um arrepio correr-lhe a espinha.
- O meu nome é Levi.
Claro. Como poderia ser qualquer outro?
- Levi - diz Erwin, testando a forma como soa na sua boca. - Finalmente um nome que te fica bem.
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