IV

E, na verdade, a noite não havia sido tão perfeita assim. Era um assalto a banco onde eu estraguei, pelo menos, cinqüenta mil dólares. Buracos de balas. Porém, antes que pudessem ver como eu agia, fugi enquanto logo deixava o último incapacitado para a polícia. Como havia deixado meu sobretudo e minha cartola em cima de algum prédio antes de agir, apenas a blusa e a calça foram danificadas. Fui inteligente, e preferi apenas agir na primeira vez com um básico que não fosse tão precioso. Eu não podia estragar uma cartola daquele jeito, um sobretudo daquele jeito apenas querendo ter mais estilo. Cheguei na casa do meu avô de madrugada. Apenas para deixar a roupa estragada ali e procurar substituições. Deveria ser mais cuidadoso, se fosse para realmente dar uma de herói. Não poderia estragar roupas maravilhosas que foram deixadas apenas para mim.

Blusas e calças pegas. Foi só voltar para casa voando. A cidade deixou de cobiças e pecados para ir dormir. A escória descansa, enquanto os homens puros e bons preocupam-se com seus filhos, filhas, com suas contas e os relatórios que tem de entregar em seus trabalhos. Eu, de repente, comecei a fazer com que a cidade fosse meu parque de diversões. Uma excursão incrível e eterna. E eu era o garotinho filho do dono do parque que poderia fazer o que quiser. Ser fútil daquele jeito, pela primeira vez na vida, tinha sido cem por cento agradável.

Mas eu não sabia nem se o que eu tinha era vida. E daí?

Juntei as roupas, sapatos e tudo no baú onde meu avô guardava os sobretudos, e então voei, e literalmente voei, para casa. Escondi o baú encostado debaixo da cama. Deitei-me, e não demorou muito para adormecer.

Acordei. Não lembrava nada do que eu havia sonhado. Devia ter estado mesmo cansado. Meu corpo estava bom, apesar da longa noite de sono e quase nada de dormir. Levantei da cama. De supetão, eu me desesperei e olhei debaixo dela. Nada daquilo havia sido um sonho, que bom. O baú continuava lá. Retirei-o e o pus em cima da cama, e abrindo-o, comecei a admirar o que havia lá dentro. Minhas roupas. Agora aquelas eram minhas roupas. Meu rosto ainda estava pintado. Já que eu nem ligava muito de estragar meu rosto ─ então eu arranjaria uma máscara ─, peguei uma faca afiada que minha mãe usava para cortar ossos de galinhas e fui para o banheiro. A tinta permanente, branca. Teria de arrancar o rosto, mas desde que aquilo tudo havia sido real, de novo: não iriam parar agora. Apontei a faca para aonde acabava a tinta. Enfiei aos poucos, e doeu apenas de início. Mas de novo, a sensação de leveza.

Fui contornando com a faca, sentindo o sangue descer enquanto eu separava sangue de carne. Que maravilhoso. Que sensação gostosa, aquela dormência, mas mesmo assim, aquele horror completo. Eu não tirei o olho do espelho em nenhum momento. Não sabia que existia tanto sangue assim para sair. Aliás, sabia, mas era uma surpresa na hora. Então acabei de cortar. Retirei a pele, era carne pura, os dentes e os olhos grandes expostos. Até que, num surto, começou a tudo produzir pele nova. Idêntica à velha. Minha regeneração novamente. Enquanto eu olhava aquela pele velha, branca. Parecia ter uma expressão triste. Ainda estava molhada, com o sangue escorrendo. Passei o dedo por ali, o encharcando de sangue e então o levei à boca. E olhei no espelho. E, claro, pensei: por que não? Cobri o meu rosto com aquela pele novamente. E fiquei contemplando a monstruosidade no qual eu havia me tornado. Sentia como se eu não tivesse nenhuma humanidade. O desejo de fazer justiça, mas não para proteger os inocentes como se fosse alguma filantropia estranha e disfarçada. E sim para caçar quem os fizesse mal. Pois eles iriam pagar por aquilo. E era isso que me deixava tremendo de ansiedade praticamente, pedindo por mais e mais. De repente, percebi: eu era um vingador sem motivo nenhum. Ou iria ser. Ou tentaria muito ser. E percebi outra coisa também: tinha de limpar logo aquele sangue todo. Botei em um pote, enchi de álcool e guardei num lugar onde ninguém nunca iria pegar: debaixo da minha cama, também. Parecia que tudo estava completo. Nada faltando no lugar. A não ser o meu café da manhã. No meu estômago. Peguei um dinheiro que ainda tinha no bolso da minha jaqueta e saí para comprar pães, suco, tudo o que eu precisava.

E, quando eu fui saindo da lanchonete, parei. Como um surto, talvez. Mas eu olhei para um certo homem. Parecia já velho. Eu parecia ler tudo o que ele poderia fazer. Era como se eu pudesse ler sua alma. Algo, uma sensação, como uma voz me dizendo: investigue. Procure. Saiba o que este homem é. Persiga-o, faça-o mostrar seus piores pecados. Algo de ruim, como o sentido aranha de Peter Parker. Uma sensação até ruim, mas me deixava excitado e pedindo por mais. Estava claro qual o programa que seria esta noite.

Segui-o bem discretamente aonde ele ia. Deu em um apartamento, não tão longe da minha casa. Voltei correndo para casa. Peguei a roupa e botei dentro de uma mochila. A face eu embrulhei em alguns guardanapos, mas não poderia demorar muito tempo. Enrolei em algum pano onde o álcool não secaria, botei numa bolsa impermeável que tinha, pequena, e pus dentro da mochila. E lá eu me ia. Botei a mochila nas costas e o caminho não era longo. Fui para o beco. Tinha as sacadas. E eu iria observá-lo do alto de algum prédio até que ele liberasse algo suspeito. E lá estava ele.

Não demorou muito, anoiteceu. E lá estava ele. Uma pequena garotinha havia chegado em sua casa. Ele passava as mãos nos cabelos dela, e eu via tanta malícia em sua face, que era inexplicável, não conseguiria expressar o que senti, o ódio dele que senti naquele momento. Então aquela sensação havia servido para isso. Que ótimo. Eu teria de agir rápido. Peguei uma pedrinha no chão. Talvez se ele fosse um psicopata inteligente, descobriria logo que alguém o estava seguindo, se eu jogasse de cima para baixo. Desci com um pulo do prédio de quatro andares, a rua era movimentada, ninguém nem ver viu ou ligar ligou. Então eu joguei a pedra, quebrando a janela dele. Subi pelas paredes, apoiando nas partes da sacada, e o vi descendo com pressa. E então ouvi a garotinha falar meio alto e correr atrás dele:

─ Papai, não me deixa sozinha, eu fico com medo!

Ótimo, eu precisava ser rápido. Retirei as luvas da mochila e subi a janela, que por sorte estava aberta. Vi o laptop dele numa mesa, ligado em algum documento de texto, onde escrevi bem grande e preto: ''você irá morrer por tudo isso''. Peguei a pedra que estava comigo também, e passei na cozinha para pegar algum pano que me ajudasse a limpar o resto de digitais que havia nas sacadas. Limpei bem rápido, e quando ele havia voltado, eu já estava no alto do prédio novamente. Eu pude ver a cara de horror do homem ao se deparar com a janela aberta e aquilo escrito em seu pequeno texto. Havia sido o melhor modo, confesso, queria arranjar alguma outra coisa. Mas ia ser uma noite maravilhosa.

Eu tinha de me preparar para a ocasião, afinal, seria minha primeira ''vítima''. Mas eu não poderia matá-lo sem saber que sua filha ficaria bem. Isso eu iria ter de verificar primeiro.

Mas ia ser uma noite maravilhosa, deveras. Pelo menos torturá-lo eu iria fazer. E pensava nisso esfaqueando minha pele normal na região que estava pintada e botando a pele pintada por cima. Eu estrearia meu sobretudo, finalmente. E tudo estava andando nos eixos.