Sianne POV
O que faço aqui? Esta é a pergunta mais pertinente. Não combino com este lugar, com estas pessoas, esta festa... quero voltar pro meu vilarejo. Logo chegarão mais pessoas, e eu ficarei cada vez mais vexada. Por que Marin teve a idéia de me trazer aqui?
O Mestre... ou melhor, o ex-Mestre, o qual ajudou meu avô e ao mesmo tempo traiu sua ideologia principal... ele encontra-se presente. O que... o que deveria eu sentir acerca dele? É um homem terrível, mas neste momento não é isso o que aparenta ser. Ele volta e toma seu assento a meu lado outra vez. Seu olhar, porém... seu olhar permanece distante.
- Bem! - Seiya interrompe o silêncio outra vez - Enquanto esse pessoal atrasado não chega, que tal animar um pouco as coisas? Eu trouxe o violão. Quem quer me acompanhar cantando?
- Eu não; você sabe que não tenho o mínimo talento para isso - redargüe Marin, como que se esquivando.
Como Saga nada responde, não vejo outra opção a não ser aceitar, já que não será bom deixar Seiya sem um acompanhante.
- Eu canto. Que música você sabe tocar?
Os demais parecem se surpreender com a minha atitude solícita. Também indicam um interesse fora do comum, como se esperassem tal coisa há tempos.
Como sou grega, Seiya indica uma música tipicamente helênica, folclórica mesmo. O que faço é ensaiar um pouco junto com o violão e começar a cantar. Sempre pensei em minha voz como algo medíocre, mas meus amigos e parentes sempre a elogiaram. Cantava ao cozinhar, lavar roupas, cuidar de meus irmãos menores. Sempre gostei de música. Mas a expressão que os presentes fazem é... um exagero?
Só lhes falta cair para trás. "É a voz de um anjo!", ouço Marin dizer. Mas não penso que o timbre dela seja tão sobrenatural: é algo que eles percebem, mas eu não. Talvez por sempre ter convivido com minha própria voz...
Quando a música acaba, aplaudem efusivamente. Com certeza não é a minha voz que eles admiram! O que... o que será?
Em seguida
alguns outros convidados chegam.
É mais constrangedor
ainda para mim. Sinto vontade de fugir, mas permaneço em meu
lugar. Alguns deles são Shiryu e Mu. Eles têm um ar bem
mais sério que o Cavaleiro de Pégaso. Eu ainda
atrevo-me a cumprimentá-los, como camponesa não-instruída
que sou, e o que me surpreende é tratarem-me com igualdade.
Mais do que isso: com deferência. Alguns outros, tal como Ikki
de Fênix, transmitem frieza. Já uns poucos tentam
disfarçar tal destaque, mas eu... apenas sinto-me com mais
dúvidas.
- Sianne! - chama-me Marin, de repente - Você ainda não cantou a alguns dos convivas. Faça-o agora, para que todos os presentes possam vê-la!
- Mas... Marin... eu não devo cantar tão bem assim, não ao ponto de...
- Canta sim - diz Saga, o Cavaleiro que ainda causa assombro e até algum estranhamento perante alguns da sala - Não haverá mal algum em apresentar-se de novo, pelo contrário.
Não é uma reação distante, como as outras que vieram de si. Ele sorri, e não de maneira tão desgastada quanto antes. Não acho modo de negar... e junto-me a Seiya novamente. Vou soltando a voz aos poucos, cantando outra música grega. Entre uma e outra pessoa, reparo cochichos. Serão sobre mim? É provável, mas não sei porque suscito-lhes atenção.
- É a Donzela do Canto, sem dúvida!
Seiya solta tal exclamação repentina, como se fosse um título atribuído a mim. Mas... a mim? Uma aldeã acostumada ao trabalho braçal? Não; deve ser... algum arroubo repentino seu.
Sento ao lado do anterior Grande Mestre outra vez. Após minha demonstração, o olhar dele parece mais calmo. Será algum... indício?
Tenho de interromper meu raciocínio, pois para meu ainda maior azar, chega ao recinto a atual encarnação da deusa Atena. Meu coração se oprime. Não quero estar em presença de... uma divindade.
Todos, sem exceção, a reverenciam com devoção, até os Cavaleiros de Bronze, os quais já a conhecem desde a presumida infância de sua encarnação atual. Eu, branca como papel, reverencio-a também, sem ter coragem para olhá-la diretamente nos olhos. A jovem de vinte e três anos, surpresa, toma minha cabeça com as mãos e... me faz olhá-la.
- Quem é você? É a única nesta celebração a quem não conheço.
- Sou... Sianne, aldeã da Vila de Rodório. Desculpe, ó deusa, minha insolência em comparecer numa celebração do Santuário sem ser membro dele, mas Marin insistiu...
Ela me recebe com um sorriso.
- Não há problema. Sinta-se em casa.
Em seguida Saga a reverencia, também evitando seu olhar. Sem mostras de rancor, Atena trata-o com simpatia, deferência até, reconhecendo nele o grande homem que com certeza é.
- Obrigada, Saga, por aceitar sua nova missão e dispensar seu descanso em prol dela.
- Não é mais do que minha obrigação...
- Você poderia tê-la recusado. E mesmo assim aceitou.
A cada um dos presentes, a deusa dirige alguma saudação parecida. Mas já não presto atenção, absorta em meus próprios pensamentos. Por que eu? Por que justo aqui? Já não consigo entender. Aliás, acho que jamais entendi.
A festa continua, celebrando algo ainda incognito para mim. Talvez apenas uma reunião... ou algo o qual não me é permitido saber. Não penso nos defensores de Atena como sociáveis; talvez tal idéia seja um engano meu.
Peço permissão para ir ao banheiro lavar o rosto, pois o calor ainda é forte. Assim que a obtenho de Marin, dirijo-me ao lavatório, ainda pensando sobre a amazona de Águia e seu convite. Pessoas tão diferentes, os Cavaleiros da Deusa Atena... quase deuses, a meu ver. O porte de todos eles é majestoso por si próprio, exceto talvez o de Seiya, mas ele esconde o próprio "ouro", por assim dizer.
Decido parar de pensar sobre o motivo de Marin ter-me convidado, e resolvo voltar para o salão principal, Lá, antes de eu terminar de atravessar o corredor que leva a ela, ouço Marin conferenciando com Saga num tom não muito alto, mas suficientemente volumoso para eu o escutar claramente.
- É ela mesma? - indaga a Amazona de Águia.
- Sim. Tem todos os indícios de o ser.
A guerreira ruiva senta-se assim que me vê chegar. "Ela"?
Permaneço o resto da festa junto de Marin e Seiya, os que melhor me acolheram, e eventualmente lanço um olhar a Saga, o mais "isolado" da reunião; e claro, a Atena, o centro das atenções.
No final de tudo, quando já é noite, todos se despedem, inclusive de mim. Marin e Seiya oferecem-se para me levar em casa. Antes de sair, ainda ouço Atena falando com o Cavaleiro de Gêmeos:
- Você vai para sua casa, Saga?
- Ainda não sei. Sequer tenho certeza de ainda possuir uma casa.
Dou as costas e vou embora, com meus dois companheiros. A presença de Saga, embora ele seja amável, ainda me incomoda. Pois ele é superior, e ainda carrega o estigma de seu passado, por mais que esteja arrependido; é praticamente involuntária tal reação.
Assim que chego em meu lar, meus parentes reverenciam os Cavaleiros que me acompanham, pois eles são venerados em minha vila. Mamãe, especialmente, tem-se demonstrado muuto feliz com a minha amizade com Marin. É como se eu houvesse... sido escolhida, dentre os mais humildes.
Despeço-me de Marin e Seiya, e vou dormir, pois amanhã tenho bastante trabalho em casa. Mas apesar de geralmente ter o sono pesado, custo a adormecer... pois o simples diálogo entre Marin e Saga, sobre a tal "ela", a qual provavelmente sou eu, toma-me o tempo e as energias que restaram-me da noite de festas.
