Capitulo IV
A tarde já tinha avançado quando Tiago saiu da cocheira, depois de mais uma sessão de perguntas inúteis. Por um instante ficou parado na calçada de madeira sentindo o calor agradável do sol de primavera.
Duas mulheres, carregando cestas de vime, vinham se aproximando pela calçada. Tiago afastou-se para lhes dar passagem, tocando a aba do chapéu em saudação. A mais jovem sorriu, correspondendo ao cumprimento, enquanto a mais velha apressava o passo, sem olhar para ele.
Tinha sido assim o dia inteiro. Como Lílian havia dito, muitos dos antigos moradores lembravam-se dele e não estavam satisfeitos em tê-lo como xerife. Já os mais novos não se importavam, desde que a lei e a ordem fossem mantidas. Mas ninguém em qualquer dos grupos tinha alguma informação sobre a morte da garota do saloon. Respondiam com paciência às suas perguntas, mas em seus olhos havia aquela expressão de "o que eu tenho a ver com isso?".
Uma ou duas pessoas tinham tentado ser de algum auxílio, mas a grande maioria demonstrava que o assunto não lhes interessava. Tiago detestava ver que a vida de algumas pessoas, valia mais do que a de outras. Enquanto fosse encarregado da justiça naquele lugar não permitiria que tal coisa acontecesse. Infelizmente, era tarde demais para a pobre Laurie Smith.
Abotoando o casaco para abrigar-se do vento frio que começava a soprar, fez um inventário mental do trabalho do dia. Tinha enviado Matt para falar com as outras garotas do saloon e o jovem Thomas para descobrir o que fosse possível através dos fazendeiros da região. Quanto a ele próprio, encarregara-se dos comerciantes da cidade. Com exceção de uma.
Com as mãos nos bolsos, começou a andar. Em passadas largas atravessou a rua. Gostaria de saber se deixara Lílian para o fim por estar inconscientemente retardando um encontro difícil ou se, ao contrário, para ter mais tempo para ficar ao lado dela, já que a essa altura, o movimento na loja deveria ter diminuído. De qualquer forma, o melhor para ambos era que seus caminhos não mais se cruzassem.
Era tarde demais para mudar o que acontecera na véspera. Tarde demais para apagar os beijos cuja lembrança o mantivera acordado parte da noite. Se ao menos ela houvesse se casado... Um marido a manteria a distância.
Com as esporas de suas botas tinindo de encontro às tábuas da calçada, ele chegou à Evans General Store. Gostaria de não precisar entrar. De não precisar ir interrogá-la como aos outros moradores da cidade. De uma forma ou de outra, aquela mulher sempre acabava por obrigá-lo a fazer papel de tolo. E no passado quase o destruíra.
Contudo, naquele momento, não tinha escolha. Uma garota fora brutalmente assassinada, e não havia ninguém além dele para levar o criminoso à justiça. O dever era mais importante que seus sentimentos em relação a Lílian.
Num gesto decidido, abriu a porta e entrou, ouvindo o soar do pequeno sino que alertava para a entrada de fregueses. Apesar das grandes janelas da frente e das outras dos lados, o interior da loja achava-se mais escuro que a rua.
Os olhos de Tiago levaram algum tempo para se ajustarem e enxergar.
Os odores, porém, foram imediatamente reconhecidos. Couro e perfumes, madeira, tabaco, café e exóticas especiarias estocados em barris ao longo das paredes laterais. Inalando profundamente, ele recordou-se de quando era garotinho e aquilo lhe parecia a caverna de Ali-Babá.
Quando a vista se acostumou, pôde verificar as mudanças introduzidas por Lílian. Em vez de amontoadas ao acaso, como nos tempos do velho Evans, as mercadorias achavam-se agora dispostas de maneira organizada. Prateleiras dividiam o espaço em corredores, onde os produtos estavam expostos de acordo com a categoria. Uma dúzia ou mais de fregueses percorriam os corredores, escolhendo artigos domésticos, ferramentas e até livros e jornais. Ao fundo, nos balcões, funcionários serviam àqueles que queriam comprar tecidos e alimentos.
— Boa tarde, Tiago. Por acaso veio me ver? Voltando-se na direção da voz, ele ficou surpreso por avistar a viúva Dobson sentada a uma escrivaninha junto à janela.
— Não exatamente. Mas já que está aqui posso aproveitar para fazer algumas perguntas. Assim que a senhora terminar suas compras.
A sra. Dobson deu uma risadinha.
— Não estou fazendo compras. Estou trabalhando. — Indicou as cartas e selos arrumados sobre a mesa. — Sou a agente do correio. Desde que fiquei viúva.
Tiago voltou-se, impressionado.
— Como vai a gatinha? — Ela perguntou.
Gatinha? Por um breve instante, Tiago não soube o que dizer. Como explicar que dera o filhote para Lílian? A cidade inteira ficaria sabendo.
— Está ótima — conseguiu dizer.
— Engraçado — a viúva comentou. — Lílian chegou aqui esta manhã com um bichinho idêntico ao que eu lhe dei. Não sabia que vocês eram tão amigos.
Os cabelos de Tiago se arrepiaram na nuca, como sempre acontecia quando pressentia perigo. A velha senhora podia complicar a vida de Lílian. Não podia assumir a verdade e resolveu blefar.
— Não sei do que está falando.
Os olhos da viúva se estreitaram estudando-o com atenção. Quando Tiago ficou certo de que seria acusado de mentir, a sra. Dobson recostou-se na cadeira, e pôs-se a mexer numa pilha de cartas.
— Entendo. Bem, você queria me fazer algumas perguntas, não queria?
— Sim. É a respeito de um crime que ocorreu em Landing no mês passado. Uma garota do saloon foi encontrada morta nos limites da cidade, espancada de forma brutal. Tem alguma informação que possa me ajudar a esclarecer o caso?
A viúva encarou-o com severidade.
— Como tenho certeza de que sua intenção não foi a de me ofender, vou fingir que não escutei.
Por mais que Tiago tentasse explicar que não a considerava no caso e que qualquer informação, por mais irrelevante que parecesse, poderia ser útil, a velha dama mostrou-se irredutível em seu silêncio.
Finalmente, Tiago desistiu. Essa atitude era a mesma da maioria das mulheres respeitáveis a quem interrogara. Pareciam considerar abaixo de sua dignidade sequer falar sobre uma criatura como Laurie. E ele não sabia como enfrentar esse tipo de reação.
Deixando a sra. Dobson, pôs-se a andar por um dos corredores de prateleiras. Um garoto de cerca de dezenove anos, com um avental onde estava bordado o nome Andrew aproximou-se, perguntando se podia ajudá-lo.
Tiago pediu algumas balas e aproveitou para fazer perguntas ao rapazinho.
Vermelho de vergonha, Andrew confessou que jamais se aproximara do saloon. Os país o matariam caso o fizesse. Portanto, nada podia informar sobre o crime, a não ser o que Tiago já sabia. O embaraço do rapaz era tão grande que deixava patente que ainda não tivera encontro sexual com uma mulher. De repente, Tiago até se sentiu velho, em seus vinte e oito anos.
Pegando o pacote de balas que o garoto lhe estendia, Tiago pagou, e em seguida perguntou:
— Onde está a srta. Evans?
— No escritório dela, atrás da loja.
Tiago começou a andar na direção indicada.
— Espere! — protestou Andrew. — O senhor não pode entrar lá. É privativo.
Com um olhar intimidante, Tiago esclareceu:
— São assuntos oficiais.
Deixando o rapaz paralisado no lugar, ergueu a cortina que separava os fundos da loja e entrou.
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No pequeno escritório, Lílian ocupava-se em calcular a quantidade de rolos de algodão estampado que precisava ter em estoque para a ocasião da festa colheita, no outono. A safra sendo boa, haveria dinheiro extra nos bolsos, e as esposas dos fazendeiros iam precisar de tecido para fazer vestidos novos para o baile. Ao mover a pena pela ordenada coluna de números, a gatinha cinzenta pulou para seu colo, batendo-lhe na mão e ocasionando um rabisco no caderno.
— Sabe, você não está ajudando nada — falou em tom severo, mas era vão. O animal esfregou-se em seu peito, ronronando de contentamento. Vencida, Lílian pôs-se a acariciar-lhe o pêlo.
— Vejo que está trabalhando duro.
A voz masculina sobressaltou-a. No mesmo ato ela se empertigou toda, provocando um miado de protesto da pequena gata. Ao erguer o olhar, encontrou Tiago, lindo de tirar o fôlego. Apoiava-se no batente de forma casual. Sua elevada estatura e poderosa virilidade tornavam ainda menor o espaço já em si pequeno. Lílian tentou levantar a cadeira para aumentar a distância entre ambos, mas o armário de arquivo às suas costas não permitiu a manobra salvadora.
O odor másculo que era só dele chegou-lhe às narinas. Era uma fragrância que ficara impregnada em suas roupas por um breve espaço de tempo, na noite anterior, relembrando-a dos beijos trocados.
Colocando a gatinha sobre a mesa, ela levantou-se, alisando a saia para disfarçar a perturbação.
— Boa tarde, Tiago. — Esperava que sua voz soasse mais calma do que o bater descompassado de seu coração. — Que surpresa.
— Vim fazer uma compra. — Ele exibiu o saco de papel com as balas e em seguida indicou a pequena gata. — E verificar como ela está passando. Parece muito feliz. Você já lhe deu um nome?
— Alice.
Tiago ergueu uma sobrancelha, entre intrigado e divertido. Em reação, Lílian assumiu uma expressão altiva.
— Ela é minha, não é? Posso chamá-la como quiser. E nunca apreciei nomes idiotas como Bola de Neve, Pompom e outros do gênero. Queria que tivesse um nome de verdade.
Ele deu um passo adiante. No diminuto escritório essa ação deixou-os perturbadoramente próximos.
— Ela não passa de um animal — apontou Tiago, reprimindo um sorriso.
— Eu sei, mas... — As palavras morreram na garganta de Lílian quando o viu estender a mão em sua direção. Todo seu corpo se arrepiou em expectativa, e uma onda de calor percorreu-a da cabeça aos pés, deixando-a afogueada. Ele ia acariciá-la bem ali, em seu escritório onde qualquer um poderia entrar e...
O braço estendido de Tiago passou por ela, em vez de tocá-la, ele pegou a gatinha.
— Como vai, Alice? — falou em tom suave, acariciando-a. Alice o fitou com seus olhos verdes e começou a ronronar alto demais para um animal tão pequenino.
As pernas de Lílian cederam e ela desabou sobre a cadeira. Sabia exatamente o que Alice estava sentindo. Se Tiago estivesse acariciando a ela com certeza iria ronronar também. Deus do céu, como iria fazer para sobreviver àquele ano. Tratava-se apenas do segundo dia e todo seu mundo já virara de pernas para o ar. Tinha o pressentimento de que ia ser o ano mais longo de sua vida.
— Vim também para lhe fazer algumas perguntas sobre o crime cometido aqui no mês passado. Uma garota do saloon espancada até morrer. O que você sabe a respeito?
— Por que deveria saber alguma coisa?
Tiago devolveu-lhe a gatinha.
— Porque alguém que viveu a vida toda nesta cidade morreu de forma brutal. Não por doença ou acidente, mas por assassinato. Isso diz respeito a toda a comunidade.
Lílian torceu as mãos no colo, nervosa. A zanga e o desprezo de Tiago eram quase palpáveis.
— Ouvi falar do caso, é claro. Mas desconheço os detalhes, e não sei informar nada sobre a moça.
Exasperado, Tiago correu os dedos pelos cabelos escuros.
— O que há de errado com a gente desta cidade? Por que ninguém se importa com ela? Por que não se interessam em saber o que aconteceu? Em fazer justiça?
— Eu não a conhecia. Lamento muito que tenha tido um destino tão terrível, mas não há meios de uma pessoa como eu conhecer uma garota do saloon.
— E isso, em sua opinião, encerra o assunto?
— Claro que não. — Ela o encarou. — É medonho pensar que um ser humano possa ter morrido dessa maneira. Sinto muito, Tiago, mas o que posso fazer?
— Não tem medo por si mesma? Por sua própria segurança? Afinal, vive sozinha naquela casa afastada.
As sobrancelhas de Lílian se franziram.
— Não vejo motivo para ter medo. Quem quer que tenha matado aquela pobre mulher não pode estar interessado em alguém como eu.
Inclinando-se, Tiago colocou as duas mãos sobre as dela. Somente alguns poucos centímetros os separavam. Ela podia sentir-lhe a quente respiração.
— Como sabe?
Lílian queria fugir, mas por nada no mundo permitiria que Tiago visse o quanto a perturbava.
— O xerife Roberts concluiu que o assassino só podia ter sido um desses vagabundos de estrada. Passam muitos por aqui. Disse que o motivo deve ter sido uma briga sobre o preço de certos... serviços.
— E sendo assim o caso foi encerrado e ninguém mais se importou com o fato.
— Tiago Potter, você não tem o direito de ficar aí me dizendo essas coisas e fazendo perguntas.
— Laurie não concordaria com essa afirmação.
— Quem?
— A garota morta. Ela tinha nome, como todo mundo. — Os olhos escuros, zangados, não se desviavam dela. — Também tinha a sua idade, Lílian. Não era tão bonita quanto você, nem tão bem-educada. Mas porque trabalhava num saloon e recebia pagamento pelas coisas que você estava disposta a me dar de graça, é justo que tenha terminado assim como terminou?
Indignada, Lílian tentou livrar-se do aperto das mãos dele.
— Isso não é verdade! Nunca estive disposta a lhe dar nada! — Mas, enquanto protestava, Lílian recordava tardes e principalmente aquela noite às margens do riacho. Tinha desejado entregar-se a Tiago, sim. Só que nada acontecera.
Tiago endireitou-se, soltando-a. Só então ela se deu conta de que a porta tinha ficado aberta e que qualquer pessoa que passasse poderia ouvi-los. Rezando para que isso não tivesse acontecido, apressou-se a fechá-la.
— Fale baixo, por favor — pediu.
— Ah, sim. A preciosa reputação — zombou ele, sentando-se e esticando as longas pernas, de modo a prendê-la junto à porta.
Em cima da mesa, Alice dormia. A visão lembrou Lílian de que Tiago a havia presenteado com o animalzinho para desculpar-se pelas palavras rudes da véspera. E lá estavam, discutindo de novo. Respirando fundo, encarou-o.
— Você não esperava realmente que eu a conhecesse, Tiago — conseguiu dizer. — Sinto muito por ela ter sido assassinada. Como também sinto por não poder lhe informar nada de útil sobre o caso. Mas isso não lhe dá o direito de me culpar nem pela vida que ela levava nem por sua morte.
Por um momento Tiago ficou calado, pensativo.
— Não a estou culpando. Sabe pelo menos me dizer se alguém duvidou dos resultados da investigação?
— Não que eu me lembre. Todos aceitaram a palavra do xerife Roberts. Afinal, por que ele iria mentir?
Inclinando-se, Tiago apoiou os cotovelos nos joelhos e ficou fitando o chão.
— Não disse que mentiu. Só queria saber por que não investigou mais a fundo.
— Você acha que o assassino é outro?
— Não sei. Só sei que a teoria do vagabundo de estrada é simplista demais.
Tiago parecia tão desolado que Lílian precisou de toda a sua força de vontade para não tocá-lo. Gostaria de poder abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem. Só que não tinha certeza disso. Nem se Tiago desejava ser confortado por ela.
— O nome dela era Laurie — ele falou.
— Sim, você já me disse.
— Laurie Smith.
A compreensão atingiu-a como um raio e Lílian precisou segurar-se na maçaneta da porta, como apoio para os joelhos enfraquecidos. Tentou manter as feições inexpressivas, mas era impossível. Nesse momento, os olhos negros de Tiago a encararam com atenção.
— Então você se lembrou.
— Sim — ela sussurrou. — Era aquela... — O gosto amargo na boca a impediu de continuar.
— Aquela mesma mulher que fui acusado de ter espancado, sete anos atrás. Interessante, não acha?
— Ela livrou-o da acusação.
— Ouvi dizer.
— Mas pelo jeito não sabe como.
— O que quer dizer?
Lílian mordeu o lábio, arrependida do que deixara escapar. Não queria falar a respeito. Tinha medo que Tiago descobrisse o quanto fora magoada na época. Ninguém jamais ficara sabendo de seu sofrimento e humilhação. Fora a única coisa que lhe dera forças para prosseguir com a própria vida naqueles dias terríveis. Quando a sórdida história chegara a seu conhecimento, percebera que havia tomado a decisão correta ao recusar-se a partir com Tiago. O que teria acontecido se o houvesse acompanhado e depois descobrisse? Estaria destruída.
— Lílian, quero saber do que está falando. — Levantando-se, Tiago aproximou-se, segurando-a pelos braços com delicadeza.
— Eu... — Ela tentou encará-lo, mas logo desviou o olhar. — Quando Laurie Smith inocentou você, o xerife quis saber como podia ter certeza, se o local estava escuro. Ela disse que... — a voz de Lílian falhou e foi preciso ela respirar fundo para continuar — ...que teria reconhecido você em qualquer circunstância. Tinha estado com ela muitas vezes, a maioria no escuro. Na cama. — Piscando, Lílian tentou conter as lágrimas. — Foi assim que fiquei sabendo que você passava as tardes comigo, tentando-me além da razão com beijos e carícias e as noites com ela, na cama.
Um palavrão escapou dos lábios de Tiago, fazendo Lílian encolher-se.
Soltando-a, ele virou-se de costas.
— Nesse caso, mesmo que soubesse de alguma coisa, não me diria.
— Se pensa assim, é porque não me conhece nem um pouco.
— Tem razão. Eu não a conheço mesmo. — Pegando o chapéu que pendurara num gancho da parede, voltou-se para encará-la. — Foram sete anos, Lílian. Apesar do que vivemos juntos no passado, somos estranhos agora.
"Então, por que meu coração bate feito louco quando fico perto de você?", era o que Lílian gostaria de perguntar, mas não o fez. Tiago na certa não teria resposta para isso. Pelo menos não uma que lhe fosse agradável ouvir.
— Acho que não temos mais nada a dizer — disse ele. — É melhor ir embora.
De repente, Lílian se deu conta de que não gostaria que ele partisse daquele jeito. Queria dizer alguma coisa que acertasse a situação entre ambos. Queria poder ajudá-lo, mas não sabia como.
Com delicadeza, ele afastou-a da frente da porta, que abriu, Com um frio aceno, deu um passo para o corredor.
Foi então que uma lembrança assomou à mente de Lílian.
— Tiago, espere.
Ele se deteve.
— Não sei se o que vou dizer pode ser de alguma ajuda, mas acabei de me lembrar que houve outra garota de saloon assassinada aqui, há uns quatro anos. Também foi surrada até morrer.
— E o que concluíram?
— Isso não sei dizer. Meu pai estava muito doente na época, e eu não saía de sua cabeceira. Realmente, não estava em estado de espírito para me interessar pelo caso. Só sei que as circunstâncias foram muito parecidas com as da morte de Laurie Smith. Espero que isso possa ajudar a sua investigação.
— Obrigado por me contar. Ninguém mais mencionou o fato. O que não deixa de ser estranho.
— Acho que esqueceram.
— Claro. Afinal, não passava de outra garota de saloon, não é? Mas não deixarei que continuem a esquecer. — Ia voltar a afastar-se, mas num impulso, virou-se de novo para ela. — Diga-me, Lílian, você faria algumas perguntas sobre o caso, aos seus conhecidos? Talvez lhe contem coisas que não diriam a mim.
Lílian não ficaria mais chocada se ele lhe tivesse pedido para tirar as roupas e desfilar nua na sua frente.
— Não posso! O que iriam...
— Pensar? — ele concluiu por ela. — Esqueça. Fui um idiota em pedir.
— Tiago, não seja injusto. Não posso sair pela cidade perguntando sobre uma... garota do saloon. Além disso, não acredito que as pessoas de minha relação saibam de alguma coisa.
Saindo para o corredor, ele lançou-lhe um olhar de desprezo.
— Responda só mais uma coisa, Lílian. Essa sua vida tão certinha não é muito fria e solitária?
Sem esperar pela resposta, ele se afastou.
Lílian ficou olhando para a porta, retendo as lágrimas. Tiago não fora razoável. O que lhe pedira era absurdo. Mas num ponto ele tinha razão. Seu mundo era muito mais frio e solitário do que ele podia imaginar.
Em passadas zangadas, Tiago seguiu em direção à delegacia, maldizendo Lílian por sua incompreensão. Como sempre, a reputação e a posição social vinham antes de tudo. Já fora assim no passado e pelo jeito continuaria assim para sempre.
Suas passadas foram diminuindo de ritmo ao lhe voltar à mente a expressão ferida de Lílian ao falar sobre a maneira como Laurie o inocentara sete anos antes.
Um suspiro fundo escapou-lhe do peito. Na verdade fora para a cama com Laurie, sim. E não apenas uma, mas muitas vezes. Era muito jovem na ocasião. Perdidamente apaixonado por Lílian e decidido a tratá-la com o respeito que sua inocência merecia. Mas todas aquelas tardes repletas de beijos ardentes e algumas poucas carícias mais ousadas, sem que a paixão de ambos se consumasse, o haviam levado à loucura. Assim, buscara alívio para o corpo abrasado de desejo em Laurie. Esta era jovem, cheirava bem, e quando ele fechava os olhos podia fingir que o corpo quente era o de Lílian.
Mas não conseguia apagar da mente a lembrança da expressão de dor e orgulho ferido no rosto dela. Lílian era inocente demais para entender as necessidades de um homem. Jamais entenderia que o fato de buscar alívio físico com Laurie em nada diminuíra seu amor por ela. Hoje as coisas seriam diferentes. Amadurecera e aprendera a controlar-se. Mas isso já não tinha a menor importância. Não havia mais nada entre eles. E nunca mais haveria. Terminado o contrato, partiria para sempre.
Desviando do trecho enlameado diante da delegacia, Tiago subiu para a calçada e abriu a porta. Determinado a tirar Lílian da cabeça, concentrou-se no crime de quatro anos antes. Tão mergulhado em pensamentos, custou a notar a presença de Thomas e de uma mulher de meia-idade, alta e robusta, no interior do escritório.
— Xerife — disse Thomas assim que o avistou —, que bom que chegou. Esta... esta senhora está esperando para tratar de um assunto urgente.
A mulher voltou para Tiago um olhar frio e duro. Havia algo malévolo em sua expressão, o que explicava o constrangimento do jovem Thomas.
— Sou o xerife Potter — apresentou-se Tiago. — Em que posso ajudá-la? — Depois de pendurar o casaco e o chapéu, cortesmente ofereceu uma cadeira à visitante.
— Meu nome é sra. Jarvis. — De cara amarrada a mulher tratou de sentar-se. Suas roupas eram surradas e pouco asseadas, e os cabelos grisalhos estavam repuxados num coque desgracioso na altura da nuca. Somente a força de vontade férrea impediu Tiago de recuar diante do cheiro desagradável que dela emanava.
— Em que posso ajudá-la, sra. Jarvis?
— Estive na igreja e aquela dona de nariz em pé falou que não quer saber de gente dessa laia. Até que tem razão, porque eu também não gosto dessa gentinha.
Tiago lançou um olhar interrogativo para o auxiliar, que deu de ombros.
— Não sei do que ela está falando, senhor. Não quis tratar do assunto comigo. Preferiu esperar a sua chegada.
— Eu vou explicar — a mulher falou, irritada. — Venha cá, menina.
Uma pequena figura moveu-se num dos cantos da sala. Estivera tão quieta até então que Tiago não a notara. Diante da ríspida ordem, a garotinha aproximou-se lentamente.
Se isso era possível, suas roupas encontravam-se em estado ainda pior do que as da mulher. O vestido e o casaco eram curtos demais e puídos em vários pontos. As perninhas finas apresentavam diversos machucados. Os sapatos deixavam de fora um ou dois dedos.
Uma onda de indignação começou a tomar conta de Tiago. Tinha conhecido a pobreza na infância, mas sua mãe sempre o conservara dignamente vestido e asseado: Ao mesmo tempo, seu coração encheu-se de compaixão pela garotinha.
— A senhora está dizendo que a esposa do pastor recusou-se a providenciar comida e roupas para a sua filha? — Era típico de petúnia, pensou, furioso. Para ela, a caridade só devia ser aplicada aos cidadãos bem posicionados da cidade, os que menos precisavam.
— A menina não é minha filha — esclareceu a sra. Jarvis. Pegando o bracinho da garota, empurrou-a com rudeza na direção de Tiago. — Diga "alô" ao xerife, vamos.
— A-a-alô — a pequena balbuciou, tremendo. Não podia ter mais que cinco ou seis anos e estava apavorada.
— Receio ainda não ter entendido o seu caso. — Tiago começava a perder a calma com a mulher.
— É muito simples. Aquela garota prostituta, Laurie Smith, me pagava para tomar conta da bastardinha aí. — E apontou a garotinha, que até então não se atrevera a erguer os olhos. — Mas, agora que morreu, a grana acabou. Não dirijo um orfanato, e tenho meus filhos para alimentar. Não vou ficar com essa boca inútil nas minhas costas.
Tiago apertou os punhos para controlar a raiva que o dominava.
— Minha senhora, veja como fala na frente da criança. Não precisa usar esse palavreado.
— Falo como quiser e estou avisando. Não vou ficar nem mais um minuto com esse peso. Já que a dona da igreja não quis saber do caso, o problema agora é todo seu. E passe bem!
Com essa, a horrível mulher levantou-se e marchou para a porta, deixando Tiago e o ajudante boquiabertos.
N/A: Nossa, quando a gente pensa q ñ tem mais nada, aí vem mais uma surpresa. O q será q nosso maravilhoso xerife vai fazer? E ainda tem mais um assassinato ai. Qm será o assassino? Tantas perguntas sem resposta. Mais as perguntas vão se respondendo logo logo!!!!!!!!!
Patty Black Potter:O clima ainda vai esquentar muito mais pode apostar, continue lendo e comentando. bjs
Declaração urgente: o ministério dos autores de fanfics adverte "reviews faz muito bem a saúde"
beijinhos
