Disclaimer:Saint Seiya não me pertence, e esta história não tem fins lucrativos.
Sumário: Uma perseguição pela floresta. Caça e caçador. Um certo loiro perdeu seu Cosmo e, com ele, sua força e poderes como cavaleiro, ficando indefeso. Um certo moreno, poderoso inimigo mortal seu, está muito satisfeito, e mais do que disposto a tirar vantagem da situação. Ikki x Hyoga. YAOI, lemon.
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Nota: Eu juro que este era para ser o último capítulo, mas com quase 15 páginas (e ainda nem o terminei) achei que fosse demais.
Este pode ser o penúltimo, mas é o mais importante dos dois capítulos, onde tudo se revela.
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Temporada de Caça
Capítulo 4 – Fantasmas
"Hyoga!"
Ele estava contente, perdido naquele lugar gostoso em que a mente vai quando está meio que dormindo, meio que acordada. Ah, era como se estivesse flutuando no ar, deitado em uma nuvem bem fofa, o corpo tão leve...
"Hyoga, fala comigo!"
Estava bastante confortável, tentava ignorar aquela voz... Seria tão bom continuar assim por mais um tempinho, se entregar àquele esquecimento que o embalava como uma mãe...
"Merda! Por favor, loiro, acorda!"
Aquela voz insistente não parecia estar bem... Isso até parecia... um tom de desespero? Ah não - não podia deixar que ninguém sofresse por causa dele. Fez um esforço para trazer sua mente de volta à realidade.
Aos poucos, não sentia-se mais flutuando, mas com as pernas descansando no chão e os ombros seguros por braços fortes - o que era tão gostoso quanto, ou melhor! Suas pálpebras tremularam por um momento, e a primeira coisa que viu foi aquele rosto bonito perto do seu, aqueles olhos agoniados, cheios de preocupação, os cabelos azulados balouçando ao vento, assim como as copas das árvores atrás dele.
Mas por que...?
Ikki! O golpe, a floresta, o jogo deles... As memórias daquela tarde lhe voltaram à mente de uma só vez. Abriu os olhos, completamente desperto, e sorriu feliz ao moreno. "Oi."
"Oi." Aquela saudação era tão breve, uma mísera sílaba; mas carregava em si tanto carinho e preocupação, foi dita em um tom tão suave, um tom que poderia ter ser usado com uma criança pquena... era um bálsamo. "Você está bem?"
"Estou sim." Vendo a dúvida nos olhos do outro, tratou de logo apaziguá-la. Para mostrar que realmente estava bem, forçou-se a mover daqueles braços maravilhosos que o seguravam, sentou-se e deslizou a mão pelos cabelos que moviam-se com o vento; brisa fresca e perfumada com aquele cheiro verde de mato. "Não se preocupe, frango, estou ótimo."
"Ótimo nada, pato retardado!" A despeito das palavras irritadiças, a voz era só gentileza e peocupação. "Ninguém desmaia sem motivo. O que aconteceu?"
Hyoga pensou por um momento, tentando lembrar-se de como havia se sentido nos momentos e minutos antes de seu mundo escurecer. Riu baixinho, sacudindo a cabeça para si mesmo. Como descrever aquele avalanche de emoções e sensações em poucas palavras? Não poderia, então simplificou: "Eu estava bem tonto àquela altura, já estava por alguns minutos. Deve ter sido emoção demais, adrenalina demais. Quando você fez que ia me dar aquele golpe, então, uau," riu baixinho novamente. "Foi muita coisa."
Ikki não achou a menor graça; parecia um tanto zangado, os olhos azul-escuro contendo uma nítida acusação. "Pato sem-consideração quase me mata de susto e ainda ri! Se põe no meu lugar: eu venho correndo, golpeio a rocha ao seu lado," apontou para o monte de pedras no chão que, até poucos minutos atrás, haviam formado uma espécie de parede rente ao penhasco; o resto deve com certeza ter caído lá embaixo, "ela quebra, eu limpo a poeira do punho, e quando olho para você esperando ver sua cara de tacho, pronto para continuar a provocação, você estava caído no chão, desacordado. Ah, pato!... Corri até você. A minha primeira reação foi pensar que eu havia te machucado..." O moreno parou, arfando. Que expressão era aquela nos olhos dele... culpa? Angústia?
Hyoga sentiu um aperto no peito com o que lia naquele rosto querido. Estendeu a sua mão clara e segurou a mão mais bronzeada, acariciando-a com o polegar. "Ikki-"
"-Não, deixe-me continuar," Fênix o interrompeu, respirando pesado. Deixava o outro segurar a sua mão, sem retribuir. "Eu só não sabia como eu havia te machucado. Pensei que talvez uma das pedras tivesse voado com a força do impacto e te atingido, mas não havia nenhuma próxima a você, não encontrei um ferimento... Eu não sabia mais o que pensar, então tentei lembrar de tudo o mais o que havia feito a você." Sua voz diminuiu na última frase, reduzindo-se a um fio na última palavra. Ikki ergueu sua mão livre ao rosto do homem à sua frente e, com uma gentileza que ninguém que o tivesse visto em campo de batalha julgaria capaz, afastou uma madeixa loura dos olhos celestes, e envolveu aquela face alva com a mão grande e calejada, tão de leve como se o russo fosse feito de uma porcelana delicada. Seus olhos tinham um brilho estranho, uma umidade... estavam marejados?
Hyoga estava preocupado e confuso com a emotividade intensa atípica do outro. "Amor, eu não estou entendendo... por que você está assim?"
O mais velho ignorou a pergunta, mantendo o silêncio. Deslisava os dedos muito leves pela face do russo, observando a sua pele alva com intensidade, como se procurasse por algo. Com uma voz muito suave e quase tímida (e desde quando o Ikki era tímido? o loiro se surpreendeu) finalmente perguntou, ainda com os olhos em sua pele: "Eu não te machuquei muito... aquela hora? Não bati muito pesado?"
Ah. A bofetada. "Se está se referindo àquele tapinha que eu mal senti, que de tão fraco quase me fez perder a concentração..." Hyoga riu divertido. "Ikki, não vai me dizer que é por isso que está com essa cara de quem acabou de atropelar o cachorro do vizinho?" Sentindo um calor gostoso por dentro, percebendo mais uma vez o extremo cuidado do Amamiya mais velho consigo.
Ikki não acompanhou a risada, o mirando sério.
O russo resolveu brincar para amenizar a tensão do outro, que lhe parecia altamente exagerada. "Isso aqui está invertido! Eu é que fui perseguido, apanhei, fui insultado à beça, estrangulado, torturado, ameaçado, insultado mais um pouco... e você é quem fica todo sensível?" Riu divertido com o próprio comentário.
Fênix abruptamente largou a mão que ainda estava segurando sua e ergueu-se, afastando-se uns passos. Parou de costas para o loiro, de punhos cerrados.
Droga. "Ei, mas o quê?..." Não sabia o que dizer; obviamente já tinha dito besteira, era melhor ficar calado até que entendesse melhor o que estava se passando na cabeça do seu namorado. Ergueu-se e pensou em se aproximar, mas percebeu que Ikki precisava se recompôr, então permaneceu onde estava. Após alguns segundos muito tensos, chamou:"Ikki?"
Quando Fênix virou-se de frente a ele, Hyoga assustou-se com sua expressão. Estava furioso, os olhos escuros faiscando, o cenho franzido, a boca contorcida... a mesma cara de minutos atrás, no meio do jogo. Mas furioso com o quê?...
"Fazer o papel de vítima é que é bom, não é?" o moreno acusou, em um tom de quem procurava briga. "Você se divertiu, realizou a fantasia idiota que tanto queria, que tanto me pediu e encheu o saco para realizar. E o que teve que fazer? Nada; só entrar na brincadeira e se fazer de inocente. Não teve que controlar praticamente nada, só se deixar levar. Não teve que fazer nada contra os seus princípios, nada que não faria se realmente estivesse naquela situação."
Hyoga estava de olhos arregalados. Mas por que aquele rancor todo? Se ele soubesse, não teria pedido o que pediu de Ikki! Achou que os dois fossem se divertir, não só ele! "Olha, deixa eu-"
"Já eu?" Fênix continuou em um tom acusatório e raivoso, ignorando a tentativa do outro de falar. "Como você mesmo apontou, tive que fazer um monte de coisas impensáveis com você." Marchou até o loiro e agarrou-o pelo braço, sem muita gentileza. "Agi como um monstro, te machuquei, te humilhei, te chamei de covarde quando o covarde aqui era eu! Te esfreguei na cara supostas fraquezas, pisei em você quando já estava caído e desmoralizado. Ah, mas não tem problema, porque o Ikki é um monstro mesmo, tem bastante experiência em agir dessa forma, não é? Apenas agiu como si próprio! Representar o próprio papel mais uma vez não faria diferença!"
As palavras do outro, a dor e revolta brilhando nos olhos azul escuro assustaram o cavaleiro de Cisne. Estava aturdido, não entendia que diabos o namorado queria dizer e de onde vinha toda aquela angústia. "Me solta, está me machucando!" Deu um safanão no braço, mas ao ouvir o pedido, Ikki soltou-o imediatamente, encolheu os ombros, pareceu murchar. O russo balançou a cabeça tentando, de forma subconsciente, colocar os pensamentos no lugar. A tarde havia sido fantástica até agora; pensara que para os dois, mas agora via que fora só para ele. O que havia dado errado?...
"Vem cá." Segurou o braço do moreno gentilmente e o guiou dali. Ikki o seguiu sem comentário, em uma postura derrotada. Hyoga os levou até um tronco de árvore grosso caído, onde sentaram-se de frente um ao outro, as pernas de cada lado do tronco. Hyoga o olhava nos olhos, mas o moreno desviava o olhar, envergonhado. Moveu-se para mais perto. "Querido," disse com ternura, fazendo um carinho no rosto do outro. "Obviamente temos que conversar. Preciso que me conte o que está acontecendo, frango, o que se passa na sua cabeça. Que história é essa de monstro?"
O moreno virou o rosto mais ainda, contorcido de dor com a pergunta, fugindo dos olhos claros como se não aguentasse encará-los. Ficou calado por vários momentos, como que buscando força e coragem para falar. Por fim, disse, baixo: "Nós dois sabemos que é o que eu sou, Hyoga. Talvez um monstro dormente, domesticado, mas ainda sim um monstro. Como um vulcão inativo, que passa anos quieto, calmo, a ponto de não preocupar ninguém... até um dia explodir e deixar um rio de lava incandescente e morte no seu caminho."
O coração se Hyoga se comprimiu no peito. "Amor, que besteira mais sem tamanho é essa? Você não é um monstro!"
O moreno finalmente o encarou, os olhos marejados. "Ah, não? Já se esqueceu de tudo que eu fiz um dia? Do homem descontrolado e cheio de ódio que você conheceu no Torneio Galático? De tudo que causei, e de coisa muito pior que poderia ter causado, se não fosse impedido?"
Hyoga segurou as mãos morenas nas suas. "Ikki, por todos os deuses, isso faz tanto tempo! Não é possível que isso ainda te aflija! Você se redimiu, mudou muito, lutou do nosso lado... Pagou cem, quinhentas vezes o preço por qualquer coisa de errado que tenha feito, será que não percebe?"
"Eu tentei matar meu próprio irmão, pato!" Agora as lágrimas caíam livres pelo seu rosto, o que era algo raro de se ver naquele homem sempre tão forte e senhor de si, mostrando a intensidade das suas emoções.
"Há um milhão de anos atrás, em outras circunstâncias!" Hyoga exclamou, agoniado com o rumo dos pensamentos do outro.
Ikki pareceu não ouvir. "Tentei matar o Shun, meu irmão caçula, a única família que me resta nesse mundo, que não tinha culpa de nada que me aconteceu! E depois quase matei você, loiro, quase mesmo, só não consegui porque o rosário de sua mãe o protegia..."
Hyoga respirou fundo. Moveu-se mais para a frente no tronco e puxou o moreno de encontro ao peito em um abraço apertado. Com uma mão passou a acariciar os cabelos azulados, e com a outra afagava as costas do leonino, enquanto o sentia tremendo e soluçando em seus braços sem fazer um ruído, como se expressar sua dor em alta voz fosse vergonhoso. Tinha certeza que era a primeira vez em anos que Ikki se permitia botar aquela mágoa para fora; imaginou como a angústia devia pesar no peito dele, guardando aquilo tudo para si, por anos, calado.
Hyoga disse,"Eu fui mesmo um idiota, um insensível! Jamais deveria ter pedido isso de você... especialmente o golpe final. Para mim isso foi só uma fantasia, uma brincadeira... jamais imaginaria que isso te abalaria desse jeito, amor, que traria tantas memórias ruins à tona. Me perdoa." Abraçou Ikki mais forte, como se pudesse transferir um pouco daquela dor para si e aliviar o peso do coração do outro. Após alguns segundos em silêncio, disse em um tom brincalhão, ainda lhe afagando os cabelos: "E que história é essa do Shun ser a sua única família, ein? E eu, não conto? Quer que eu o ponha pra fora pra dormir na escadaria hoje à noite?"
O moreno finalmente parou de soluçar. Ergueu o rosto molhado, secando as lágrimas com as costas das mãos. "Como isso pode não te trazer memórias ruins, Hyoga? Como pode ter querido vivenciar aquilo de novo, mesmo que por brincadeira?"
O loiro pensou antes de responder. Sabia que Ikki se referia ao 'golpe final', não à brincadeira como um todo. "Porque para mim aquilo é só uma memória, frango. Não me traz sentimentos ruins, não mesmo; tanto que hoje em dia posso me divertir com aquilo. Passou, não importa mais!" Beijou a mão bronzeada e morna. "Vivenciar aquilo como um faz-de conta foi muito gostoso, Ikki. Me senti tão vivo. Sei lá, me arrepiei, foi forte, intenso, mas de uma forma boa, sabe?"
"Não, não sei realmente... pato masoquista."
O russo sorriu triste. Suspirou. "Eu já te perdoei há tanto tempo, Ikki... o seu irmão também, o Seiya, o Shiryu, a Saori... Você pode até ter lutado contra nós em um certo ponto no tempo, mas depois disso salvou nossa vida inúmeras vezes. Inúmeras! Todos já o perdoaram há anos, menos você mesmo. Por que isso?"
Ikki baixou os olhos novamente. "Não é só uma questão de perdão, loiro, ah, se fosse assim tão fácil... O problema é... e se eu..." Respirou fundo e encarou os olhos do outro com suas íris escuras. "E se eu voltar a ser aquele homem um dia, pato? E se algo de horrível acontecer com as pessoas que eu amo, ou sei lá que outro evento cataclísmico possa ocorrer na minha vida, e eu perder o controle novamente, deixar-me cegar pelo ódio, voltar a ser o cavaleiro vingativo e maligno que eu um dia fui?"
"Mas-"
"-E não venha me dizer que isso é impossível, pois o passado é prova concreta de que eu tenho uma grande capacidade para o mal!"
Hyoga o olhou de lado, pensativo. "Essa é a parte que está te incomodando, não é? Medo de si próprio. Acho que chegamos à raíz da questão."
O cavaleiro de Fênix o olhou calado, mas seu silêncio era confirmação o suficiente. Passou uma perna para o outro lado do tronco, sentando-se de lado para seu companheiro. "Esse lado negro está aqui, dentro de mim," bateu no próprio peito com o punho. "Quando ele emergiu com toda a força, naqueles anos atrás, a sensação não era a de estar sendo possuído por um demônio, ou de ter criado uma personalidade diferente - nada assim. Eu me sentia como... eu mesmo. Era eu quem estava ali, tomando aquelas decisões horríveis, cometendo crimes imperdoáveis, e não algum tipo de dupla identidade a quem seria fácil pôr a culpa." Virou o rosto e olhou nos olhos do outro, a mão no peito apontando para si. "Era eu mesmo, loiro."
Hyoga queria negar o comentário veementemente, convencer o outro de que estava errado, mas sabia que não deveria. Não assim. O que Ikki dizia tinha um tanto de verdade; simplesmente menosprezar sua palavras e negá-las não ajudaria a ninguém, não faria juz à verdade. Teria que ser honesto.
"E sabe o que mais me assusta?" o leonino continuou. "Eu disse que estava cego de ódio, mas essa expressão está errada; não foi bem assim. Eu sabia muitíssimo bem o que estava fazendo. Nunca enlouqueci, nunca perdi a razão. Sabia que as coisas que fazia eram erradas, mas justifiquei cada uma delas a mim mesmo, racionalizei tudo, decidindo mandar a consciência às favas. Eu poderia ter me apegado firme aos meus princípios, mas não quiz fazê-lo, pois a tentação de entregar-me ao ódio era tão imensa. Foi uma decisão consciente minha, loiro. Não demorou muito até que eu parasse de pensar, parasse de me questionar, e então ser assim, agir assim me pareceu muito natural. Tão normal quanto respirar."
"E você tem se atormentado com isso esses anos todos... Por que nunca me disse nada?"
Ikki ignorou a pergunta. "Eu sou um ser livre; o que me impede de voltar a tomar tais decisões, qualquer belo dia desses? O que me impede de abandonar a pose de bom menino e fazer o que me der na telha, mandando tudo e a todos à merda?"
Hyoga chegou mais perto do outro e tocou-lhe o braço, afetuosamente. Olhou dentro dos olhos escuros. "Eu bem que queria ter uma resposta perfeita para você, Ikki. Queria ter todas as respostas. Queria te garantir que isso nunca mais irá acontecer, queria apagar de vez essa imagem monstruosa que você tem de si mesmo. Mas você está certo: é livre, tem o poder de ser quem quiser no futuro. As idéias, os valores que lhe orientam hoje, poderão não lhe servir amanhã. As pessoas mudam, suas convições mudam. E sim, esse seu lado negro, egoísta, impiedoso, é bem real. Se é possível que volte a agir como um vilão, amanhã ou depois? Claro que é."
Ikki estava de boca entreaberta, chocado com as palavras. Com certeza esperava uma negação de tudo que disse, e não uma confirmação fria.
"Mas se quer saber mesmo o que penso," o aquariano prosseguiu, "acho mais fácil ver o Shun se prestando a esse papel, ou o Shiryu... ou eu mesmo. Um de nós se viraria para o mal mais facilmente do que você, cavaleiro de Fênix!"
"Quê?"
Hyoga sorriu. "Simples. Vamos tomar o Shun. Ele sempre foi meigo, gentil, um cara bem legal. Não sabe o que é ser egoísta, cruel, sádico. Se uma tentação forte de fazer algo de ruim lhe tomasse conta, seria bem possível que ele caísse em suas garras, já que não tem experiência nisso. Não entende tudo o que você falou sobre tomar-se uma decisão consciente em fazer o mal. Ainda não aprendeu como podemos enganar e manipular a nós próprios, se a vontade de fazer algo errado for grande o suficiente."
"Meu irmão jamais se tornaria uma pessoa cruel!" Ikki esbravejou.
"Provavelmente não. Mas ele também tem um lado negro, Ikki. Ele, eu, a Saori, o carteiro, o dono da padaria, o tio do cachorro quente... todo mundo! Cada um de nós é capaz de muita maldade, já nascemos com isso. Todos os dias fazemos escolhas, conscientes ou não, sobre que tipo de pessoas queremos ser. Como você mesmo disse, essas são escolhas nossas, nenhum espírito do mal nos invade e possui e nos obriga a segui-las."
"Hyoga..."
O loiro segurou o queixo do mais velho delicadamente e moveu o rosto para que olhasse para si. Os olhos do moreno estavam marejados novamente. Lhe era difícil ver aquele homem, sempre tão forte e seguro, sentindo-se tão pequeno, tão fragilizado. Ao mesmo tempo, amava-o ainda mais pela profundidade de seus sentimentos, pela capacidade de sentir-se culpado assim por algo errado que cometera há tanto tempo. Isso só confirmava o tamanho enorme do seu coração.
Baixou a voz, usando de um tom mais terno. "Mesmo que algo de horrível lhe aconteça um dia, e um grande ódio o consuma, você não cairia na mesma armadilha duas vezes, Ikki. Já passou por isso, sabe as artimanhas que a própria mente pode lhe pregar, já aprendeu sua lição da pior forma possível. O seu lado escuro até existe, mas a sua luz é tão luminosa, tão intensa, que ele está acuado num cantinho, sem a menor chance de voltar à tona. A não ser que você assim decida."
O moreno agora sorria por entre as lágrimas, os olhos refletindo um alívio incrível. Estava sem palavras. Finalmente disse: "Pato... só você mesmo..."
O russo sorriu de volta, feliz. De alguma forma sabia, sentia, que havia tirado um peso enorme dos ombros do amado. Era como se aquela carga negativa já não estivesse mais ali; como se o outro já estivesse mais leve, absolvido de uma culpa tão pesada e tão antiga. Era ridícula a idéia, um trauma de tantos anos se dissipar assim tão depressa, com apenas um pouco de compreensão e das palavras certas... mas às vezes a vida era assim mesmo, engraçada, e os problemas aparentemente mais difíceis se curavam quando vistos de outra perspectiva. Colocar os demônios para fora, ao invés de trancafiá-los no peito, era sempre a melhor solução para resolver um problema - Hyoga sempre acreditara nisso, e não graças a seu mestre Camus, que tentara, em vão, lhe meter na cabeça o oposto. "Não me agradeça. Te ajudei com uma neura antiga, você realizou a minha maior fantasia, estamos quites por hoje!"
Fênix sorriu e puxou o aquariano de encontro a si. "Vem cá, loiro." Os dois moveram-se no tronco de forma que o mais jovem estivesse meio reclinado, com as costas e a cabeça apoiadas no peito do mais velho. Ikki o envolveu com os braços. "Eu te amo, sabia?"
Continua...
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Nota: escrevi, reescrevi, revisei, mudei palavras, parágrafos... mas o desgraçado do capítulo metido à besta parecia não sair do lugar, se recusava a me deixar terminá-lo! Haha, eu culpo o capítulo, mas é o meu perfeccionismo que está em falta. Finalmente ficou parecido com o que eu quero, ainda que muito longe de perfeito. Os primeiros capítulos haviam sido mais fáceis...
Espero não ter decepcionado ninguém, que porventura teria preferido ver o Hyoga sofrendo de verdade... Mas não, o loirinho estava se divertindo o tempo todo, enquanto era o Ikki quem sofria - a verdadeira vítima dessa estória!
Bom, a fic está quase no fim, mas nossos meninos ainda têm muito o que conversar! O último capítulo segue rapidinho.
Muito obrigada a todos que estejam acompanhando, especialmente os que deixam reviews e põe um sorriso enorme no meu rosto!
Beijos a todos!
Mila
