Ta, ok. Todo mundo sabe o quanto é difícil para um médico conseguir uma folguinha quando quer. Bem, eu consegui. Só que não foi como eu havia planejado. Há uma semana eu recebi uma notícia extremamente complicada e precisava contar ao Sanada o mais rápido possível. Achei que ele precisaria de muito tempo para conseguir assimilar tudo, então fiz o diabo pra que nós dois conseguíssemos um dia inteiro só para nós dois. Mas não foi como eu havia planejado. Hoje de manhã eu estava quase conseguindo criar coragem para contar a ele quando uma ligação safada o tirou de mim. Por que eu concordei que ele fosse trabalhar? Porque bem, eu tento ser o mais compreensiva possível... Mas já estou arrependida.
E agora, como irei contar a ele que estou grávida?
XxxxxxXxxxxxX
Uaaaah (*bocejo*). Estava sozinha naquela casa imensa e olhando bem agora, assustadora. Sem Sanada perto de mim, eu não teria absolutamente nada para fazer. Não pensei muito e decidi chamar minhas amigas para vir almoçar. Era sábado de manhã: para mim e Sanada, um dia de folga; para elas, final de semana livre.
- Matsu-chan? Tá livre hoje pra almoçar? – liguei pra Matsu. Foi a primeira em que pensei porque era a primeira da lista de chamada no meu celular.
- Almoçar aí? Mas é claro! Já estava saindo de casa pra comprar alguma coisa porque estava com preguiça de cozinhar aqui! Então vou dar meia volta e já estou indo...
- Certo então! Vou chamar as outras.
Desliguei e pensei por alguns minutinhos. Então tornei a ligar para a próxima da lista: Nouhime. Para minha sorte, Nouhime morava com Oichi, outra grande amiga minha. As duas sempre foram melhores amigas e após o colegial, decidiram morar juntas.
Falei com ela e ambas concordaram em vir, apesar de alegarem ter que voltar cedo. Não me importei muito: queria companhia provisoriamente, pois sabia que Sanada voltaria logo pra casa. Continuei preparando o almoço que compartilharia com meu marido; apenas dobrei a quantidade de ingredientes. Cerca de uma hora depois as três chegaram quase que ao mesmo tempo.
- Caramba! Que fome! – exclamou Matsu entrando desesperada. Nouhime acenou preguiçosamente e Oichi me cumprimentou timidamente com sua vozinha fina. Nós quatro éramos bem diferentes, mas ao mesmo tempo combinávamos perfeitamente.
Com a ajuda das três levei as travessas para a mesa e sentamos para comer.
- Onde está o Sanada? – Matsu perguntou de boca cheia.
- Hunf – suspirei – Foi trabalhar.
- Trabalhar? – admirou-se Nouhime – Pensei que vocês tirassem folga juntos.
- É, era o que tínhamos planejado, mas houve um chamado urgente do trabalho dele e ele não pode recusar...
- Então, quando você vai contar pra ele? – perguntou Nouhime.
- Contar o que? – questionei terminando de enfiar mais um dango na boca.
- Que está grávida! – exclamaram as três.
Puuuuuuf! Cuspi toda a comida no prato, tossi engasgada e ainda de boca suja arregalei os olhos e fui olhando de uma para outra:
- Como assim? Do que é que vocês estão falando?
- Ah, deixa de ser ingênua! – disse Matsu – É impossível não notar! Você tem comido mais que o normal – apontou para o meu prato empanturrado – duas vezes saiu correndo pra ir vomitar no banheiro domingo passado e usou a sua jeans no primeiro botão. Quer mais o que?
- Mas, mas... eu só fui saber terça no trabalho, quando minha colega Sakura alertou-me...
- Sakura? – Nouhime questionou – Aquela mulher de cabelo rosa que trabalha na UTI?
Fiz que sim.
- Vadia! – exclamou Nouhime torcendo a cara – Não gosto dela! É uma tremenda vadia!
- Ah, para – eu fiquei com pena – Não fala assim dela... Ela não é uma vadia...
- Você é muito inocente, Kasuga – começou Oichi que até então estivera calada – Você tem que ser mais maliciosa pra perceber o verdadeiro caráter das pessoas...
Fiz cara de boba para ela que quase nunca abria a boca.
- A questão – Matsu me despertou – é que todo mundo já sabe, menos o Sanada. E você precisa contar o mais depressa possível a ele...
- Eu sei... Mas estou tentando encontrar o momento certo pra isso...
- Esquece isso de momento certo! Pode ser tarde demais! – após ouvir aquilo de Nouhime, me desesperei e comecei a pensar em inúmeras tragédias que me transformaria em mãe solteira ou meu filho em um pobre órfão.
Só pude me desconcentrar quando meu celular tocou e era o Sanada.
- Alô? Mô? Oi, sou eu.
- Oi, você demorou pra ligar... Está tudo bem?
- Ah, mais ou menos. Realmente meu chefe está com problemas e vou ter que ficar para resolver isso. O resto do meu time está chegando e vamos verificar isso. Liguei pra avisar que vou chegar tarde em casa.
- Ah... poxa! E Nosso dia juntos?
- Eu sei amor... Eu também estou muito bravo com tudo isso. Mas vou tentar resolver o mais rápido possível pra terminar meu dia bem com você... Prometo que brinco com você quando chegar em casa... – fiquei vermelha ao ouvir isso.
- Sanada! – exclamei morrendo de vergonha na frente delas.
- Brincadeira mô. Não vou mais falar essas coisas... Sou um menino de Deus – fiquei mais tranquilo ao ouvi-la rir – Bom, então vou indo amor. Te ligo mais tarde de novo. Beijão. Te amo. Tchau...
Desliguei.
- Era o Sanada... Ele disse que vai chegar tarde em casa...
- Safado! Aposto que vai pra uma balada com o pessoal do trabalho! – riu Matsu.
- É, vai ter um monte de vadias lá! – Nouhime ajudou-a.
Olhei para as duas, apavorada.
- É brincadeira! – Nouhime tratou de me acalmar. Servi sopa para todas nós e tomamos chá com tortinhas coloridas. As duas mais ou menos, Oichi e Nouhime alegaram terem que sair porque tinham uma festa. Matsu também se retirou para aproveitar a carona até a casa do namorado dela, Toshiie.
Novamente fiquei sozinha. Lavei tudo e decidi ir à estufa cuidas das minhas plantinhas, para ver se me distraía, relaxava e esquecia todo tipo de assombração que pudesse me assombrar. Estava quase me esquecendo de tudo quando levei um susto com meu celular vibrando e tocando. Era o Sanada novamente.
- Alô?
- Oi? Querida? Eu não disse que ligaria mais tarde...?
- O que aconteceu amor?
- Bem, não sei te explicar direito. O caso é que eu vou precisar de um grande favorzão seu! Mas um favorzão grande mesmo! Gigantossauro!
- Tá amor! Pode pedir o que quiser!
Depois de ouvir tudo, quase entrei em choque.
- O que? Você quer que eu ROUBE tiopentato de sódio do hospital? Ficou maluco, Sanada? Isso é ilegal! É loucura demais!
- Eu sei querida! Mas isso é extremamente importante!
Sim. Pegar qualquer substância química num hospital, mesmo sendo médico, é ilegal. Sim, porque vários médicos são dependentes químicos e se utilizando se tal meio para conseguir suas "necessidades". Só é permitida a obtenção de substâncias do laboratório de um hospital por meio de um atestado médico. E o atestado nunca pode ser do mesmo médico que está precisando. Daí a complicação de tudo isso para mim.
- Você pode ao menos me explicar por que precisa disso?
- Poder eu posso... mas não agora. Não dá tempo. Preciso o mais rápido possível!
- Amor isso é...
- Eu sei Kasuga! – ele pareceu estar realmente desesperado – Mas você confia em mim, não é? Poxa, eu vou ser o pai dos seus filhos! Você tem que me dar um crédito...
E mal sabe ele o "quanto" ele é pai dos meus filhos... ou melhor, do MEU FILHO.
- Hunf. Ok, ok. Vou fazer isso... Me dá um endereço onde eu possa te encontrar pra entregar.
Anotei tudo e subi para o quarto. Troquei rapidamente o suéter azul que tinha sujado de tomate por um suéter preto. Corri para pegar meu Toyota Prius, que é ecologicamente correto, não agride o meio ambiente e é um excelente carro verde, e pisei fundo no acelerador. Eu não estava correndo para a maioria das pessoas, mas para mim, estar aos 70k/m era como estar à 120k/h.
Durante o caminho, não parava de elaborar meios de conseguir o produto: pensei em inventar um quadro clínico com alguém que tivesse injetado a Droga da Verdade; mas isso seria bem improvável, pois teria que arrumar alguém que pudesse ser um bom paciente, e precisaria de mais um médico para acompanhar meu trabalho... Então teria que injetar realmente a droga pra poder pegá-la no laboratório como amostra... Mas só de pegá-la na primeira situação, já seria missão cumprida. Continuei pensando em planos mais mirabolantes e quando me dei conta, o prédio do hospital já estava logo ao meu lado. Estacionei, fui para o prédio e logo na entrada havia uma série de ambulâncias e macas. Por mais que pareça normal, normalmente isso não é normal. Mas eu estava com tanta pressa que não parei para perguntar o que estava acontecendo. Entrei no prédio e alguém gritou meu nome:
- Kasuga-chan! – Moegi, a recepcionista, estava acenando para mim. Ela era uma mocinha gentil e extremamente esforçada a quem eu sentia extrema simpatia. Todos os dias nós conversávamos bastante ou no mínimo tomávamos um café juntas, mas hoje eu estava com tanta pressa que não tive tempo de cumprimenta-la direito.
- Oi, Moegi. Me perdoa por não falar direito com você, mas é que estou com muita pressa pra resolver uma coisinha.
- Ah, tudo bem Kasuga-chan! Foi um prazer encontra-la aqui hoje e espero que esteja relaxando na sua folga!
Sorri meio sem jeito: era óbvio que eu não estava relaxando. Mas tudo bem. Subi o elevador que pra minha sorte estava vazio e cheguei ao segundo andar. Na terceira porta a esquerda havia uma placa com os dizeres "Laboratório de Análises Clínicas". Antes que eu pudesse entrar, fui interrompida por outra pessoa que chamou meu nome.
- Kasuga!
Virei-me e me deparei com o Doutor Locki Ujimasa, oncologista e sobrinho do adorável legista Hōjō Ujimasa. Odiei ver esse cara ali... Ele é um mulherengo, safado, pervertido e que já foi motivo de muitas brigas entre mim e Sanada. O único motivo de eu ainda aturá-lo, é seu parentesco com o bondoso Hōjō.
- Oi Locki...
- Caraca, que coincidência te encontrar aqui hoje! Acabei de perguntar à Moegi se ela tinha visto você por aqui hoje e descubro que você acabou de chegar!
Dei um sorriso amarelo para esse... Loiro Oxigenado... E apressei-me a dispensá-lo.
- Pois é. Só vim buscar umas coisinhas que esqueci aqui ontem, mas já estou voltando pra casa.
- E aquele cuzão do seu marido? Como ele tá?
Continuei olhando para ele, pra ver se tinha entendido direito. Ele apenas abriu um sorriso gigante e tão branco que meus olhos arderam.
- Ele está bem... Está me esperando em casa. Acho melhor eu ir andando, antes que ele fique chateado.
Vire-me e comecei a andar para o final do corredor, para que Locki não visse meu verdadeiro destino. Só que para meu azar, ele simplesmente continuou sorrindo para mim até que eu entrasse no elevador outra vez e subisse para meu andar.
Vendo que não tinha outra escolha, decidi ir até minha sala para ver se conseguia fazer aquele esqueminha de arrumar um paciente ou de transferir algum caso para mim. Todavia... quando já estava perto da minha sala, minha mentora, Dr. Cuddy, apareceu e ao me ver, abriu largo sorriso:
- Kasuga! Como é bom vê-la aqui, hoje! Pensei que estivesse de folga...
- E estava... Mas lembrei que esqueci umas coisinhas aqui e vim buscar. Mas já estou de saída.
- Ah, e como vai a gravidez? Já contou a ele?
Arregalei os olhos, pasmada.
- C-como sabe? A Sakura saiu contando?
- Não... – Cuddy riu – Mas vi que Sakura estava fazendo um exame de sangue em você, e bem, exame de sangue numa pessoa saudável como você no qual conhecemos seu quadro clínico, só pode significar isso!
- Poxa... não era pra ninguém saber antes dele...
- Relaxa, todo mundo sabe, menos ele. E garanto-lhe que ninguém irá abrir a boca! – e ela deu uma piscadinha pra mim – Ah! – ela lembrou-se de algo e começou a remexer a bolsa – Já que está aqui, poderia me fazer um favorzão?
Fiz que sim. Eu sempre sou a garota que faz favorzões.
- É que minha filha voltou a ter ataques causados pela síndrome dela e preciso pegar esse medicamento aqui no laboratório – ela me mostrou um atestado escrito lorazepam – E queria que você assinasse autorizando a retirada dele. Eu vou passar na farmácia depois pra comprar, mas estou precisando urgente. A babá vem aqui pegá-lo.
Fiquei alguns minutos encarando-a, tentando assimilar o favor e pisquei várias vezes.
- Você pode fazer isso? – Cuddy perguntou parecendo curiosa com a minha careta.
- Claro! – fiz que sim várias vezes.
- Ótimo! Vou dar uma saidinha e já volto. Pode deixa-lo na minha sala.
Assim que Cuddy saiu eu me dirigi fervorosamente para o laboratório. Apertava o papel com tanta força que comecei a amassá-lo. Vocês estão capitando meu único pensamento? Podem pensar o que quiserem de mim, sei que é errado, mas... Bem... É minha única chance!
Desci outra vez para o corredor do laboratório e para minha alegria estava vazio dessa vez. Abri a porta e... Mas que diabos de dia é esse? O legista Hōjō Ujimasa estava remexendo em vários frasquinhos. Ele virou-se assustado e ajeitou os óculos quando me reconheceu.
- Oh, senhorita Kasuga! Que prazer encontra-la aqui hoje!
- Igualmente senhor Ujimasa... Quer ajuda? – perguntei notando a verdadeira bagunça que ele tinha feito no meio de tantos frascos espalhados pelas mesas. O laboratório era apertado, com estantes que iam até o teto, cobertas por frascos coloridos.
- Não será necessário, minha cara. Acabei de achar! Ah, que dia terrível esse!
- Nem me fale! Também está sendo horrível para mim. Eu que vim aqui apenas para pegar umas coisinhas já me deparei com inúmeras pessoas e já arrumei serviço no dia da minha folga – disse erguendo o atestado para o alto. Ujimasa sorriu: eu sabia que ele estava pensando a mesma coisa sobre Sanada. O legista era um dos pouquíssimos que sabia sobre o segundo serviço do Sanada; eu sabia disso e ele também. Mas nós dois nunca ousávamos comentar nada sobre isso. E neste momento, mesmo estando desesperada para saber sobre o novo caso do Sanada, tive que segurar-me para não questionar nada.
- Bom, fique a vontade! – disse ele indicando as prateleiras. Eu sabia o que ele queria dizer: estava esperando que eu pegasse o remédio e saísse para deixa-lo a sós novamente. Vi que não tinha escolha; não podia acrescentar o sódio na lista de pedidos da Dr. Cuddy. O jeito era pegar o lorazepam e dar o fora dali. A menos que...
Eu dei uma olhadela pelas estantes procurando pelo medicamento (ou pelo menos fingindo procurar) e avistei o sódio bem no meio da estante, do lado oposto aos medicamentos de convulsões. Uma ideia absurda me ocorreu:
- Senhor Ujimasa, poderia pegar isso aqui para mim? Estou sem óculos e não consigo enxergar direito...
- Ah, mas é claro! – e ele virou-se – É para a Dr. Cuddu, ham? A filhinha dela deve ter voltado às convulsões... Pobrezinha...
Enquanto o bom velhinho procurava o medicamento, eu passei a mão no sódio, no movimento mais rápido do mundo, jamais antes documentado! Ultrapassei a velocidade da luz! E meus batimentos cardíacos também. Enfiei o vidro dentro da blusa, no meio do sutiã e sorri para Ujimasa que se virava sorrindo e ajeitando os oclinhos.
- Aqui minha querida!
- Muitíssimo obrigada. Vou lá entregar rapidinho porque estou com um pouco de pressa...
Saí correndo dali e subi para a sala da Cuddy. Entrei na sala vazia e depositei o frasco em cima da mesa. Estava prestes a sair quando algo chamou minha atenção no notebook dela: uma mensagem cujo remetente era "Oda Nabunaga" e dizia "Entrei".
Na mesma hora, ouvi um movimento rápido atrás de mim e me virei rapidamente. Um homem estava parado me encarando. Ele tinha cabelos vermelhos muito longos e soltos, usava jeans e coturnos de soldado, uma regata branca, luvas pretas e tinha um visor que tapava seus olhos. Pensei em gritar, mas ele foi extremamente mais rápido, deu uma volta, me agarrou por trás e tapou minha boca. Com o braço direito ele alcançou o note e fechou a mensagem. Não tive reação para se quer tentar me soltar; apenas permaneci calada, imóvel e tensa.
Assim que a mensagem fechou, ele me soltou e antes que eu pudesse me virar, ele saltou pela janela quebrando-a e mil pedacinhos e caiu não sei onde. Fiquei ali, estática, imóvel, apenas encarando o grande buraco na minha frente e sentindo aquele vento forte balançar meus cabelos.
XxxxxxXxxxxxX
