Capítulo 03
O dia ele não recordava, mas sabia que acontecera durante o verão.
A temperatura estava alta, a ponto dos únicos lugares habitáveis serem aqueles com a presença de um potente ar condicionado. Não havia trabalho ou reuniões. Nenhum dos Guardiões ou até mesmo Tsuna se daria ao trabalho de permanecer trancado em um abafado edifício.
O dia estava bonito demais para ser desperdiçado com assuntos relacionados à Máfia.
Gokudera não lembrava quem havia dado a ideia de pegar o carro e dirigir em direção a praia mais próxima. Talvez fosse dele, o calor estava insuportável. Talvez fosse de Yamamoto, há tempos o moreno comentava que gostaria de ver o mar.
Ou talvez a ideia partiu dos dois. Um dos raros momentos de consenso que não envolvia uma cama.
O carro estava quente mesmo com todas as janelas abertas. Os cabelos prateados do Guardião da Tempestade estavam presos em um curto rabo de cabelo. Seus olhos protegidos pelos óculos de Sol, que não apenas o escondiam dos raios solares, mas permitiam que ele olhasse para o homem sentado ao seu lado sem medo.
Yamamoto estava no banco do passageiro. O moreno se abanava com um pedaço de papel, movendo às vezes a camiseta de baseball devido ao calor. O assunto entre eles era trivial, rotineiro. O que realmente importava naquele momento era a situação e a possibilidade de poderem passar algumas horas juntos. A última missão fora longa e árdua, eles mal tiveram tempo de se encontrarem por dias.
Os lábios do Guardião da Chuva se moviam formando largos e curtos sorrisos. Sua voz - grossa e brincalhona - parecia dar a todos os assuntos um toque de graça.
Porém, a melhor parte era quando ele ria. Seus olhos negros tornavam-se pequenos, e o carro chegava a ecoar com a gargalhada. Por algum motivo o som daquela risada também vibrava dentro de Gokudera. E seus olhos não perdiam um único detalhe.
Aquela imagem era uma das lembranças favoritas do Guardião da Tempestade e ao abrir os olhos e encarar o teto de seu quarto, o homem de cabelos prateados respirou fundo.
Era a décima noite que ele tinha o mesmo sonho. As imagens e os locais mudavam, mas a sensação ao acordar era a mesma: o vazio e a solidão pareciam ser a única companhia que ele possuía naqueles dias.
O despertador tocou cinco minutos depois.
Movendo apenas a mão, o braço direito do Décimo o desligou. Seus olhos verdes ainda estavam no teto, e ele tinha consciência de que mesmo dormindo em uma cama de casal, seu corpo ocupava apenas metade do espaço. A sua metade.
Mais alguns minutos e o Guardião da Tempestade ficou de pé, caminhando na direção do banheiro. A luz do dia entrava pelas cortinas claras. O verão estava no fim, mas a temperatura continuava alta. Provavelmente o outono não seria dos mais frios.
Caminhando para fora do quarto, Gokudera tentou animar-se. Aquele seria um longo e quente dia, e não importava o quão mal humorado e desmotivado ele se sentia. Era tudo pelo Jyuudaime.
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Os planos, ou melhor, o plano para aquele dia apareceu no campo de visão do Guardião da Tempestade assim que ele parou em frente ao portão de entrada. O Colégio Namimori surgiu diante de seus olhos com toda a sua beleza e tamanho. Após tantos anos era um pouco nostálgico pisar naquele pátio, mesmo aquela não sendo a primeira vez que ele retornava.
Gokudera recostou-se ao muro e acendeu um cigarro. A ideia para aquele dia não partiu necessariamente de Tsuna, mas o Décimo era o único motivo que o fazia estar ali.
Tudo começou dois dias atrás.
Ambos estavam no quente escritório do Jyuudaime, revisando e discutindo alguns relatórios quando Yamamoto chegou acompanhado por Kyoko. A visão da garota roubou a atenção do Décimo de seu trabalho, da mesma forma como o moreno fez com que o Guardião da Tempestade não se lembrasse qual assunto estava tratando anteriormente. Uma ridícula ironia.
Os dois recém-chegados lembraram Tsuna de que naquele mês aconteceria o jogo beneficente no Colégio Namimori. O braço direito do Décimo sabia pouco sobre isso, recordando-se do Jyuudaime ter mencionado o assunto uma ou duas vezes enquanto estavam na Itália. Ex-alunos dos clubes esportivos se juntavam e ofereciam um jogo a comunidade. Toda a renda arrecada iria para a manutenção do Colégio e dos parques da cidade.
Gokudera nunca mencionou, mas tinha certeza de que aquilo tudo era arquitetado por Hibari. Só havia uma pessoa que amava Namimori àquele ponto.
Os ex-jogadores de baseball realizariam o jogo em dois dias, e Yamamoto em pessoa apareceu para convidar Tsuna a assistir.
Aquela era apenas a terceira vez que Gokudera encontrava com o moreno. Depois do impacto inicial os dois se viram uma vez, mas o Guardião da Tempestade não procurou saber sobre o boato que escutara de Ryohei. Ele não tinha interesse de que suas dúvidas se transformassem em certezas.
Os olhos verdes do braço direito do Décimo pousaram pesadamente em seu Chefe. A situação estava calma, mas ele sabia que Tsuna tinha uma reunião importante naquele dia, e pelo olhar que o Jyuudaime lhe deu, o próprio rapaz de cabelos castanhos sabia disso.
- Nee, Gokudera-kun... - Os olhos de Tsuna brilhavam com a ideia de passar algum tempo com Kyoko, além de burlar um pouco seu trabalho. - Será que não podemos adiar a reunião? Já faz algum tempo que não saímos todos juntos. Eu mal consigo lembrar a última vez que assistimos a um jogo do Yamamoto.
O Guardião da Tempestade manteve o olhar sério.
Ele se lembrava da última vez. O mesmo jogo beneficente aconteceu no ano anterior, quando os dois ainda estavam juntos.
- Tem certeza de que não vai haver problema, Tsu-kun? - Na maioria das vezes Kyoko parecia mais preocupada com o trabalho do que o próprio Décimo.
Era difícil para Gokudera dizer não para o Jyuudaime, e não havia como negar um pedido daqueles.
Tsuna pareceu radiante com a ideia de ir ao jogo, e pela primeira vez naquele dia Yamamoto dirigiu a conversa diretamente para ele, estendendo o convite e convidando-o também para o jogo.
A resposta do homem de cabelos prateados foi indiferente, sem muito entusiasmo e ele apenas disse que iria se o Jyuudaime fosse. Como a presença do Décimo era garantida, então não havia nada que seu braço direito pudesse fazer.
Parado na entrada do Colégio, Gokudera fumou três cigarros até que a pessoa que ele estava esperando finalmente chegasse.
Tsuna estava acompanhado de um grupo de pessoas.
Kyoko estava ao seu lado, mas logo atrás vinha Ryohei, Hana, um rapaz e três moças que ele não conhecia. O estomago do Guardião da Tempestade se revirou conforme eles se aproximavam. Nos minutos que permaneceu ali observando as pessoas chegarem para o jogo, a ideia de que Kyoko poderia trazer as amigas passou pela sua cabeça, mas a realidade era bem diferente.
Quando o grupo finalmente se aproximou, o braço direito do Décimo cumprimentou somente seu Chefe - este com a mesma animação de sempre - limitando-se apenas a menear a cabeça na direção do restante do grupo. Seus olhos correram rapidamente pelas três garotas, sem que ele parasse para se apresentar ou perguntas seus nomes.
No fundo, o que Gokudera não queria era saber que uma daquelas jovens poderia ser a nova namorada de Yamamoto. E foi com esse pensamento que ele declinou o convite para assistir o jogo em si, dizendo a Tsuna que estaria pelos arredores, mas que retornaria ao término para acompanhá-lo quando fossem almoçar.
Ryohei tentou insistir para que o homem de cabelos prateados fosse ao jogo, mas nada parecia ser capaz de fazê-lo aceitar.
Encarando o Jyuudaime se afastar, o Guardião da Tempestade acendeu mais um cigarro, apertando o maço em seu bolso com força. Uma das garotas - a que estava no meio - virou-se e olhou na direção em que ele estava.
Aquele definitivamente não seria um bom dia, e ele soube disso desde o momento em que acordara.
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O Colégio estava do jeito que Gokudera recordava. Com exceção de algumas reformas e pequenas mudanças, os corredores que foram seus por vários anos ainda guardavam os mesmos sentimentos. Do lado de fora ele podia ouvir o barulho vindo do pátio, mas o silêncio que o segundo andar lhe proporcionava era mais convidativo.
Havia um lugar que ele precisava visitar. O lugar onde tudo começou.
A sala 2-A havia sido testemunha da confissão de Yamamoto cerca de cinco anos atrás. Foi em uma tarde de limpeza. Todos haviam ido para suas respectivas casas, e ao notar que eram os únicos presentes, o Guardião da Chuva surpreendeu Gokudera com a declaração de seus sentimentos.
As palavras do moreno nunca poderiam ser esquecidas, assim como sua voz trêmula e seu rosto corado. A confissão foi rejeitada, apenas para ser aceita no dia seguinte. De qualquer forma, ao parar no lugar que costumava sentar, o braço direito do Décimo sorriu ao tocar sua carteira. A caveira que ele havia desenhado no canto inferior direito ainda estava ali, assim como seus sentimentos por Yamamoto.
Eles nunca mudaram.
Gokudera permaneceu sentado em sua mesa durante basicamente todo o jogo. De onde estava ele podia vislumbrar uma parte do campo, e pela animação e as vozes, aparentemente o Colégio Namimori estava vencendo.
Havia mais um local que ele precisava visitar antes que suas lembranças fossem dissipadas pela realidade. O terraço fora um de seus refúgios favoritos durante seu tempo de estudante, não somente pelas horas que passou ao lado do Jyuudaime, mas por saber que sempre que resolvia cabular aula, um certo idiota viciado em baseball certamente o faria companhia.
Os corredores estavam silenciosos e tudo o que o Guardião da Tempestade ouviu foram seus próprios passos conforme subia as escadas.
A porta do terraço tornou-se visível, e Gokudera só esperou que ela estivesse aberta. Ele não queria ter que abri-la de outro jeito.
A porta estava encostada, não por descuido do zelador ou por causa do evento que acontecia no campo. Alguém já havia se adiantado e pensara exatamente como ele, provavelmente procurando um local sossegado para esperar o evento terminar.
O problema é que não era apenas alguém. Havia duas pessoas no terraço quando o homem de cabelos prateados abriu a porta, e aparentemente elas não estavam ali aproveitando o silêncio. Pelo menos uma delas.
A voz calou-se ao ver a figura do Guardião da Tempestade.
Dino que até aquele momento parecia estar visivelmente em uma discussão deu as costas e passou as mãos nos cabelos louros, deixando a cargo da outra pessoa lançar um olhar de desprezo para Gokudera. Hibari tinha os braços cruzados, e antes que um dos tonfas do moreno voasse em sua direção, o braço direito do Décimo fechou rapidamente a porta, respirando fundo.
O que quer que aqueles dois tivessem para resolver, ele não tinha intenção alguma de ficar para descobrir.
Refazendo o caminho, o Guardião da Tempestade lembrou-se da tarde que encontrara o Chefe dos Cavallone no bar afastado do centro de Namimori. Nenhum dos dois fez nenhuma pergunta, mas permaneceram ali até o anoitecer. Romário lhe deu uma carona, e após esse dia, ele não tivera notícias do italiano. A última coisa que soube foi que Dino retornara ao Ocidente no dia seguinte e aparentemente não retornara.
Bem, o Jyuudaime pelo menos não fora informado de seu retorno.
Gokudera percebeu que o jogo terminara ao notar a quantidade de pessoas a perambular pelo pátio e a entrada. Nenhum dos rostos lhe pareceu conhecido, ou pelo menos nenhuma daquelas pessoas era exatamente quem ele esperava. Assim que encontrasse o Jyuudaime ele analisaria a situação, e dependendo do momento, retornaria ao seu apartamento.
Por longos minutos o braço direito do Décimo permaneceu no mesmo local, encostado a parede do Colégio, procurando Tsuna com os olhos. Pessoas iam e vinham. Alguns ex-colegas de turma o cumprimentaram, outros o viram, mas mantiveram o mesmo olhar assustado dos tempos de Colégio.
Quando a espera pareceu longa demais, Gokudera apagou o segundo cigarro e decidiu ir atrás do Jyuudaime. Conhecendo o Décimo, ele ainda estaria no campo confraternizando com os jogadores. Com passos largos, o homem de cabelos prateados virou pra o lado oposto ao das pessoas. Ele conhecia muito bem aquele local, e havia maneiras mais rápidas de se chegar ao campo.
Durante todo o tempo que passou no Colégio naquele dia, o Guardião da Tempestade evitou fazer aquele caminho. Cada passo lhe era valoroso e era impossível não se lembrar das inúmeras vezes que pisara naquele mesmo chão para chegar aos vestiários e àquele lugar. Um dos muitos locais em que ele se encontrava as escondidas com Yamamoto.
"Áquele" lugar ficava entre o vestiário e o campo, escondido de praticamente tudo e todos. As sombras das paredes do Colégio projetavam-se sobre os muros que o cercavam, fazendo do local um excelente refugio durante o verão.
Ao passar pelo campo e não ver Tsuna, Gokudera suspirou. Seus olhos correram pelo entorno, parando na direção de seu antigo local secreto. Uma olhada e nada mais. Uma olhada e ele pegaria o telefone em seu bolso e ligaria para o Jyuudaime. Uma única olhada...
E foi apenas isso que o homem de cabelos prateados pôde realmente fazer.
Os passos que o separaram daquela parte do Colégio foram transpostos normalmente, mas assim que sentiu a sombra da larga parede, não foi apenas o frescor de um local coberto que chamou sua atenção. Seus passos diminuíram, e aproximando-se devagar, o Guardião da Tempestade tocou a parede, inclinando um pouco a cabeça para ver finalmente o lugar que ele tanto apreciou nos tempos de Colégio.
O corpo do braço direito do Décimo não se virou completamente. Metade de si estava escondida pelo edifício, mas não foi preciso que ele aparecesse por completo.
Seu lugar não era mais somente seu.
Aquela parede não sentiria mais o calor do seu corpo.
Yamamoto não era mais seu.
O moreno estava no mesmo local que estivera anos atrás, mas a pessoa em seus braços não era a mesma. A altura, a cintura fina, os braços e pernas delicadas... Não era Gokudera.
Os olhos do Guardião da Tempestade não conseguiram se afastar da cena. Por poucos segundos ele permaneceu ali, apenas observando o homem que um dia ele chamou de seu, ter em seus braços outra pessoa. Os lábios do Guardião da Chuva estavam presos aos lábios da mulher em um discreto beijo.
As pernas do homem de cabelos prateados moveram-se e ele deu meia-volta.
Uma de suas mãos encontrou o aparelho celular dentro do bolso, e sem nem mesmo olhar, um de seus dedos apertou o número um. A pessoa do outro lado da linha atendeu no terceiro toque e Gokudera ouviu o barulho do sorriso do Décimo mesmo sem poder vê-lo.
- Desculpe Jyuudaime, estou ligando apenas para avisar que precisei ir embora. Sim, sim, não estou me sentindo muito bem. Perdoe por não poder acompanhá-lo até em casa. Tenha um bom dia, Jyuudaime.
O Décimo Vongola disse meia dúzia de palavras, mas nenhuma delas chegou aos ouvidos de seu braço direito.
A saída do Colégio surgiu diante de seus olhos, e da mesma forma como Gokudera não sentiu suas pernas o levarem até ali, ele não soube dizer como entrou no carro, deu a partida e chegou são e salvo em seu apartamento minutos depois.
Seus pés tropeçaram na parte elevada da entrada, e ele caiu com barulho no chão. A dor em seus braços era irrelevante. Sem forças para mover um músculo, o Guardião da Tempestade permaneceu deitado onde estava. Os cabelos prateados bagunçados cobriam boa parte de seu rosto. Seu corpo tremia, uma mistura de vários sentimentos, mas seus olhos não choraram. As lágrimas que deveriam aparecer e fazer com que ele se sentisse melhor, mesmo que apenas fisicamente nunca apareceram. Até aquele momento o braço direito do Décimo não havia derramado uma lágrima com relação a Yamamoto.
Deitado no corredor da entrada de seu apartamento, Gokudera virou-se e cobriu o rosto com os braços. A cena que assistira não saia de sua mente, e quanto mais lembrava mais certeza ele tinha... Aquela garota era uma das amigas de Kyoko, a mesma que se virou e o encarou pela manhã.
Yamamoto estava seguindo em frente.
Continua...
