Capitulo III – Ele
Ao sentarmos na mesa vimos uma cena que eu desejei nunca, jamais, presenciar e muito menos minha pequena, que já está com olhos cobertos de lágrimas diante da cena
Jacob. Uma mulher. Dois garotinhos. Felizes.
Assim, como tenho certeza que eu desejei ser e que Liny desejou muito mais.
E o pior é que, por mais que eu não tivesse dúvidas, a semelhança entre os meninos e Jacob é incontestável.
De repente Liny levanta e corre em disparada em direção ao parquinho do Shopping.
― Liny! – gritei ― Carolliny! – gritei um pouco mais alto. Mas de nada adiantou e diante de meus olhos ela desapareceu. Sair do lugar ficou difícil. Parece que minhas forças acabaram e então desatei a chorar, não me importando nem um pouco de estar em público.
Ao chegar no Play Games, o parquinho do shopping, vejo varias crianças correndo e brincando com os fliperamas, muitas entre amigos, irmãos, pais e com suas mães. Procurei por cabelinhos pretos-chocolates e a encontrei em um banco olhando em direção a um casal que brincava de jogar boliche de máquina com uma menina de aproximadamente 6 - 7 anos, com os olhos cheios de lagrimas.
Andei em direção a Carolliny.
― Filha... – falei meio hesitante.
Ela me olhou com muita dor nos olhos.
― Por que mãe? Só... P-por quê? – seus olhos me encaravam cheios de lágrimas e ao mesmo tempo duvidosos, dolorosos, e desatou a chorar.
Abracei-a imediatamente e deixei lágrimas rolarem silenciosas pelo meu rosto.
― Meu anjo, por favor, não fique assim... Lembra o que te disse? Carolliny, lembra? Ele NÃO merece lágrimas derramadas por nenhuma de nós e principalmente vindas de você.
― Mas é difícil mãe! Ver a alegria com que ele pegava e abraçava aquele menino, o beijava no rosto, o olhar amoroso... Eu nunca, NUNCA recebi nem sequer um terço disso. Ele nunca me levou no shopping, nunca foi PAI de verdade... Mãe... Ele não foi... E eu sinto muito mais falta do que deveria... Muito mais – as palavras machucavam meu coração, e se machucava mais ainda ao ouvir seus soluços sofridos.
Ficamos abraçadas e ninguém pareceu perceber nossa situação, ou então ignoravam.
Percebi Liny ficar tensa e olhou diretamente para a entrada do Play Game. Segui seu olhar e vi Jacob, uma mulher loira, muito bonita e mais dois meninos, no que parecem serem gêmeos, ambos com o mesmo tom de cabelo de Jacob e mesmo tom de pele, entrando e indo em direção aos brinquedos. Levantei-me num rompante e peguei na mão de Liny. Só quero sair daqui e poupar sofrimento da minha pequena.
― Vem, Liny, venha. Só não olhe, pode ser pior.
Ela voltou a ficar com olhos marejados, nos abraçamos e seguimos para a saída, passando o mais longe possível de Jacob.
Como tinha uma boa quantia de dinheiro para comprar o presente de Cathy e ainda sobrou um pouco, decidi pegar um táxi em vez de ônibus.
Esperei até que viesse um, entramos e seguimos para casa. No caminho o rosto de Liny ainda permanece molhado e percebi que lágrimas silenciosas escorriam por suas bochechas rosadas enquanto olha pela janela do táxi com o olhar perdido.
Ao chegarmos, seus olhos pareciam pesados.
― Vem meu amor.
Paguei o motorista que nos olhou com compaixão e entramos. Fomos direto para meu quarto e deitamos na cama. Coloquei o corpo pequeno de Liny parcialmente em cima do meu e vagamente seus olhos se fecharam, seu rosto ficou seco e sua respiração mais leve. Olhei minha filha dormir um pouco mais tranquila para depois me permitir tirar um cochilo antes de Cathy chegar.
(...)
Acordei duas horas depois, Liny ainda dorme em cima de mim, agarrada a minha blusa. Olhei para seu rosto sereno e tranquilo, bem diferentes de quando estava acordada. Abaixo dos olhos pequenas olheiras.
Decidi deixa-la dormir mais um pouco.
Peguei o telefone primeiramente discando o número de Emmett para perguntar que horas traria minha filha de volta. Cathy resolveu dormir lá na casa do tio fazendo companhia a Sophia. Desejei boa noite a minha pequena menor e desliguei.
Tomei um banho, e logo em seguida desci para a cozinha com muita fome. Preparei uma vitamina. Tomava o segundo copo quando ouço gritos lá de cima.
Subi as escadas correndo, quase caindo no ultimo degrau, em direção ao meu quanto fui. Ao entrar lá, a imagem de Liny se contorcendo na cama e gritando me deixou angustiada e com uma raiva muito intensa pelo vagabundo do Jacob.
Me aproximei da cama.
― Filha – a sacudi ― Liny acorda.
― N-não! Por favor... Pai... Eu também sou sua filha! – gritava em pura angustia.
- Carolliny acorda! - Chamei mais alto.
― Não nos abandone... Não. Não. Não! – começou a chorar e se sacudir.
Eu não aguentava mais vê-la desse jeito. Gritei:
- CAROLLINY ACORDA!
Com um levantamento repentino e um grito estridente ela acordou, começando a chorar compulsivamente.
― NÃO!
― Filha! Filha está tudo bem. Foi só um sonho. Liny foi só um pesadelo – abracei-a fortemente tentando dar-lhe segurança.
― Não m-mãe. Foi a mais dura e cruel realidade – ela falou um pouco mais calma, mas com lágrimas caindo.
― Quer me contar? – perguntei carinhosamente acariciando seu rosto.
― Foi tão horrível – seu rosto se contorceu em uma careta, seus olhos encheram de água rapidamente ― Nós: eu, você, minha irmã e papai estávamos na sala e vocês dois discutiam alto. Ele disse que pegaria suas coisas e iria embora. Disse que nessa casa nada é dele, que eu e Cathy não somos filhas dele, que somos aberrações, que não merecemos nada. Disse que os dois meninos são o maior orgulho que ele tem.
"Eu chorava muito e disse que sou filha dele sim, mas ele negou e... E falou muitas coisas horríveis, mãe – caiu no choro novamente e não era a única, pois os meus olhos mais pareciam cachoeiras, respirou fundo uma, duas, três vezes antes de continuar o sonho ― Disse que somos apenas estorvos que ele não consegue se livrar. Ele subiu as escadas e voltou com uma mala. Só havia eu, você e ele na cena, Cathy sumiu. Você apenas olhava para ele com um brilho raivoso no olhar. Eu pedi para ele não ir, mas ele ficou agressivo e levantou a mão para me bater sem motivo coerente. Você vendo o que iria acontecer entrou na minha frente e o tapa foi tão forte que você caiu no chão inerte. Eu comecei a gritar "não" enquanto ele te chutava e xingava você por ter entrado em minha frente... Mãe, foi horrível."
Terminou de falar me abraçando mais forte ainda.
― Calma pequena. Foi apenas um sonho ruim – tentei acalma-la.
― Mas mãe...Isso pode acontecer. Eu não quero que se machuque por minha causa – Não a deixei terminar.
― Eu morreria por você e por sua irmã Carolliny.
Ela chorou mais um pouco no meu ombro.
― Eu te amo mãe. Muito pra sempre.
― Eu também meu amor. Você e sua irmã são as coisas mais preciosas de minha vida.
Fiz cafuné nela até ela dormir novamente. Minha raiva de Jacob aumenta cada vez mais, já não aguentava essa situação.
Eu não sei onde estou
Estou parado atrás
Estou cansado de esperar
Estou esperando aqui constantemente
Espero que eu encontre
O que eu tenho perseguido
Eu atiro pro céu
Estou cravado no chão
Então, por que eu tento?
Eu sei que vou cair.
Eu achei que podia voar
Então porque eu me afoguei?
Eu nunca vou saber porquê.
Está vindo a baixo, baixo, baixo.
Eu não estou pronto pra partir
Porque então eu nunca saberia
O que eu poderia estar perdendo
Mas eu estou perdendo demais
Então quando eu desistir
Pelo que eu estive desejando?
Eu atiro pro céu
Estou cravado no chão
Então, por que eu tento?
Eu sei que vou cair.
Eu achei que podia voar
Então porque eu me afoguei?
Eu nunca vou saber porquê.
Está vindo a baixo, baixo, baixo.
Oh, eu estou caindo, caindo, caindo
Eu não consigo achar outro caminho
E eu não quero ouvir aquele som
De perder o que eu nunca achei.
Eu atiro pro céu
Estou cravado no chão
Então, por que eu tento?
Eu sei que vou cair.
Eu achei que podia voar
Então porque eu me afoguei?
Eu nunca vou saber porquê.
Está vindo a baixo, baixo, baixo.
Eu atiro pro céu
Estou cravado no chão
Então, por que eu tento?
Eu sei que vou cair.
Eu achei que podia voar
Então porque eu me afoguei?
Está vindo a baixo, baixo, baixo.
