Capítulo 4 – Calor sob a neve
A tão desejada chuva se foi embora poucos dias depois, mas as baixas temperaturas típicas da estação chegaram fortes em substituição. Logo as nevascas varriam a paisagem londrina, tornando ruas, telhados e todo tipo de vegetação indistintos em meio à monotonia vestida em tom de branco.
Os dias que se seguiram pareceram se arrastar para Draco, que seguiu em seu ousado plano nos intervalos de sua nova atividade no Ministério, preparando meticulosamente a proibida poção. Por várias vezes, durante um mesmo dia, teve o ímpeto de jogar tudo fora e tentar recuperar sua sanidade: quem em sã consciência seria enganado por um feitiço tão conhecido e clichê como aquele? Haveria um bruxo sequer que se deixaria enganar por um truque tão simples, tão batido?
Mesmo a contragosto ele acabava por responder para si mesmo que sim: não houve o caso do Comensal Barty Crouch Jr., que ficou durante quase um ano inteiro freqüentando a escola de Hogwarts sob o nariz do próprio Dumbledore? E o próprio Potter, que se vangloriou por diversas vezes após o final da guerra de ter usado esta poção para escapar de Lord Voldemort ao completar dezessete anos e também para invadir o Gringotes? E ele próprio já não a usara em Crabble e Goyle para que vigiassem a Sala Precisa enquanto ele tentava consertar o Armário Sumidouro?
Em todas as vezes ele acabava se rendendo ao seu próprio plano. Por isso mesmo que era genial: por ser tão óbvio! E por isso que o Ministério da Magia proibiu de forma tão veemente a confecção e uso da poção.
De qualquer forma, carregou suas dúvidas e suas intenções até que a tarefa estivesse completamente cumprida e, ao final desta, contemplou em êxtase a pequena garrafinha de latão. Esta coube perfeitamente em seu bolso, na qual armazenou o líquido mágico após ter adicionado os fios de cabelo tomados de Harry Potter e tê-lo filtrado cuidadosamente, a fim de apurar seus efeitos e facilitar sua ingestão.
Mesmo a contragosto, passou pela sala do "Santo" Potter no Ministério alguns dias antes, inventando uma desculpa qualquer apenas para confirmar a data e o horário de sua viagem para a Albânia: estava confirmada, e tudo corria a contento para a execução do ardil que tornaria verdadeira mais uma das predições de Trelawney.
Era só este pensamento que o fazia evitar o sentimento depressivo que ameaçava tomar conta do seu "eu", quando imaginava a "ruiva traidora do sangue" longe dos seus braços.
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Da mesma forma, para Ginny, aquele tempo longe da agitação do Quadribol profissional a impelia ao marasmo dos dias iguais, da monotonia da gélida paisagem inalterada que avistava dia após dia pela sua janela e da apatia que o seu relacionamento com Harry vinha mostrando cada vez mais intensamente.
Teve o bom senso de negar a si mesma os prazeres que a sua imaginação lhe proporcionava nos momentos de intimidade com seu marido, e não fez isso apenas por ele: se havia uma cura para o mal que a afligia, queria encontrá-la. Mas não negava que, nos momentos em que fitava o horizonte com o olhar perdido e o pensamento voando ao longe, era a imagem de um bruxo loiro e arrogante que habitava os seus devaneios.
Mas, um fato novo veio modificar este cenário, uma semana antes da viagem que Harry vinha preparando meticulosamente nos últimos tempos: uma proposta para assumir o cargo de Correspondente Sênior de Quadribol d'O Profeta Diário, uma atividade que ela desempenharia com grande satisfação e que lhe traria a distração necessária para libertá-la do fantasma do pecado que a assombrava.
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Finalmente chegou o momento ansiosamente esperado por Draco: o dia da viagem de Harry. Oculto por uma escultura que adornava os jardins cobertos de neve de Grimmauld Place, o bruxo vigiava desde cedo a entrada principal do número 12, e pôde observar com o coração aos saltos pela adrenalina que circulava em seu sangue, a figura de Ginny, que acompanhou Harry até a porta para se despedir: nenhum dos dois percebeu o vulto de dúbias intenções oculto na penumbra da praça.
Depois que Harry aparatou e a jovem bruxa se retirou para o aconchego do lar, Draco realizou um feitiço que o deixou com as vestes iguais às que seu desafeto usava. Aguardou alguns minutos, que mais lhe pareceram séculos, e então tomou um gole da poção que lhe permitiria permanecer por pouco mais de uma hora transfigurado em seu rival.
Enquanto se contorcia e sofria as dores da transformação ele pensou: "Que idiotice a minha! É claro que ela vai perceber! Não é nenhuma burra!". Mas seu próprio subconsciente tentou, mais uma vez, convencê-lo do contrário: "Bobagem! Este feitiço é um dos mais conhecidos, mas também é dos mais usados, assim como a Maldição Imperius! E, geralmente, ninguém percebe!".
Atravessou a rua com dificuldade, pois a neve atingia quase trinta centímetros de altura, subiu resoluto os degraus de pedra gastos que o levaram à porta pintada de preto, desbotada, arranhada e com uma maçaneta em forma de serpente. Não havia mais um fiel do segredo, pois não era mais necessário esconder a casa. Sentindo pela primeira vez um certo temor, ele bateu e aguardou alguns momentos.
Logo ouviu passos muito leves e o ranger da porta sendo aberta.
— Aaaahhhh! – gritou de susto ao ver o rosto de Kreacher a atendê-lo.
— O que houve, mestre Potter? Algum problema? – estranhou o elfo.
— Não é da sua conta, criatura horrível! Eu... esqueci as chaves! – ele disse e entrou rápido no hall da casa, sendo observado pelo elfo, que parecia aturdido.
Ele avançou pelo corredor iluminado por candeeiros a gás até chegar ao pé da escadaria que conduzia ao andar de cima, olhando à sua volta como que procurando por uma coisa óbvia.
— Onde está a Weasley? – ele finalmente perguntou, evitando incidir o olhar novamente sobre o elfo.
— Q-quem? – Kreacher perguntou, ainda mais confuso.
— Minha... esposa... Ginny! Onde ela está? Sou Harry Potter... o marido dela! – explicou em meio a gestos, como se tivesse que se expressar para uma pessoa que falasse uma língua desconhecida.
— Harry! – ele ouviu a voz de Ginny vinda do alto da escada. – O que houve? Por que está de volta?
— A... a viagem... f-foi adiada! Será somente amanhã! – ele disse sem encará-la, demonstrando-se muito interessado nas cabeças de elfos-domésticos encolhidas e montadas sobre placas, na parede lateral. – A nevasca... as chaves de portal estão... em pane.
— Que maravilha! – ela respondeu descendo rapidamente e se atirando em seus braços – Podemos ficar juntos o dia inteiro!
Ela beijou seus lábios e ele correspondeu fervorosamente, cingindo sua cintura e apertando o seu corpo contra o dele, como se aquele fosse o ultimo ato de sua vida. Kreacher se retirou silenciosamente.
— Harry! O q-que foi? – ela disse se afastando levemente – Seu beijo está... diferente!
Ele a apertou ainda mais contra si e a beijou novamente, calorosamente, ousadamente, cheio de desejo, como deve ser um primeiro beijo.
"Se ela descobrir tudo agora" – ele pensou consigo – "Só esse beijo já terá valido a pena!".
Seus corpos se separaram outra vez, ela apalpou o rosto e os lábios dele com uma das mãos, como um cego que tateia tentando enxergar o fundo da alma com o seu toque, olhando profundamente em seus olhos verdes, talvez procurando descobrir quem realmente estava ali dentro.
— Seu beijo está... diferente mesmo – ela balbuciou –, está... bem melhor! – e o beijou mais uma vez, correspondendo em igual intensidade ao desejo demonstrado pelo outro.
— Vamos para o nosso quarto! – ele pediu ofegante, durante uma pequena pausa para respirarem.
— Seu danadinho! – ela respondeu num sorriso malicioso – Acabamos de vir de lá... já esqueceu de tudo o que fizemos esta noite?
— S-sim... sim, claro! Mas, é que... eu não me canso de você! – ele disfarçou.
— Que lindo! – disse ela o olhando de lado, talvez com uma pequena ponta de desconfiança – Mas, vamos tomar o café da manhã! Depois subimos e...
Ela o arrastou por uma das mãos até o porão cavernoso onde ficava a cozinha, e que apresentava uma mesa fartamente disposta por Keacher para o desjejum.
O bruxo se sentou à mesa a contragosto, mas procurou demonstrar naturalidade para não chamar a atenção. Ginny o observou com grande interesse e, em determinado momento, após saborear um gole de chá, sugeriu-lhe num tom distraído:
— Podíamos aproveitar o dia para visitar a Hermione – disse ela, enquanto passava manteiga na torrada dele. – O que acha?
— A sangue-ruim? – ele deixou escapar.
— O que disse? – ela o olhou assustada.
— N-nada... apenas uma brincadeira! – gaguejou e levantou-se, dando o café da manhã por encerrado.
Ela o fitou durante alguns instantes, analisando a pessoa que estava à sua frente, quando sua atenção foi desviada pelo elfo, que pigarreou discretamente.
— O que você deseja para o almoço... Harry? – ela lhe perguntou, como se pudesse ler os pensamentos do serviçal.
— Eu só desejo você, Weasley! – respondeu-lhe num rompante.
— Do que me chamou? – ela perguntou olhando fixamente para ele, continuando a análise que iniciou anteriormente.
— Hã? G-Ginny... digo...
— Me chame pelo apelido que você sempre usa – ela o provocou, após um instante de observação, reparando que ele não sabia para onde ir, olhar ou mesmo colocar as mãos.
— Hmmm... – ele olhou para ela, provavelmente imaginando como alguém poderia tratar aquela beldade na intimidade – Err... "doninha"?
— Doninha? – ela sorriu, cada vez mais desconfiada. – Na verdade, é ruivinha... mas, gostei de "doninha"... pode me chamar assim, se quiser. – e o guiou mais uma vez pela mão até a sala de visitas, fazendo um breve gesto para o elfo como quem diz: "Faça o que quiser!".
Eles entraram na sala na qual ficava a antiga tapeçaria que mostrava a árvore genealógica dos Black. O rapaz passou a analisá-la distraidamente até encontrar o nome "Malfoy" em um dos cantos, enquanto Ginny se acomodou sobre o tapete de pele de animal, onde esteve com o marido logo depois de chegar do final da temporada de Quadribol e, com um gesto da varinha que trazia presa à cintura, acendeu a lareira que centralizava a parede principal do cômodo.
— Sente-se ao meu lado! – ela o convidou.
Ele se aproximou lentamente, o olhar fixo nela, sentou-se ao seu lado e, após acariciar os seus cabelos e um lado de sua face com as costas da mão, segredou-lhe num suspiro:
— Nunca tinha percebido como você é linda!
Ginny brindou-o com um sorriso enigmático, mas que possuía um grande teor de entusiasmo e satisfação. Ela inclinou-se em direção a ele e, mais uma vez, seus lábios selaram-se com paixão e desejo.
Sim! Aquele gosto era bom! E as sensações que aquele toque provocava poderiam ser comparadas ao mais doce néctar do paraíso! – este era o pensamento que passava pela cabeça dos dois simultaneamente.
Enquanto isso, flocos de neve atiçados pelo vento surravam a vidraça da centenária janela que deixava a luz fria e tênue do mundo lá fora invadir o ambiente, que começava a ter sua temperatura elevada gradualmente.
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