Shura deu um ponta-pé na porta do quarto, pegando o dono daquela casa no susto por alguns segundo. Isso até ele ver quem invadia sua privacidade, mudando de expressão no instante seguinte. Seu olhar era de puro ódio. Shura pôde ver o que ele segurava na mão esquerda, sentindo a indignação tomar conta de seu corpo perguntou entre os dentes:

- Onde está Marin?

- Se ela não está comigo e nem com você, é provável que esteja a procura de mais um otário pra iludir...

- Você não tem direito de falar assim dela.

- Oh, que lindo! O cavaleiro de Capricórnio está defendendo a Amazona descarada. – Aioria pretendia se mostrar muito irônico, mas suas palavras saíram quase como uma agressão. – Ela irá te usar até perder o interesse por você, e depois irá te dispensar como fez comigo.

- Você está amargurado, Aioria. Era de se esperar que ficasse assim, mas o que você fez foi imperdoável...

- Ela foi se queixar com você, e agora veio tomar partido dela. Pois saiba que ela pareceu gostar muito de sentir meu toque...

- Canalha! Não vou deixar você sair dessa sem lhe dar uma lição.

Shura desferiu um soco no rosto de Aioria, e este deixou a máscara de Marin cair no chão no momento em que seu corpo bateu com força contra a parede. Aioria olhou furioso para Shura e partiu também pro ataque. Era soco daqui, soco pra ali, defesa pra cá, contra-ataque pra lá. No meio dessa briga toda, os objetos do quarto iam caindo e se quebrando com violência no chão. Nenhum dos dois estavam preocupados com o que acontecia a sua volta, nem mesmo quando uma voz conhecida de ambos tentou colocar um pouco de juízo naquela baderna. O terceiro cavaleiro que acabara de chegar usou seu cosmo para manter os dois afastados.

- Alguém poderia me explicar o motivo dessa violência gratuita?

- Esse bastardo ousou forçar Marin. – Shura sentiu seus punhos tremerem, tamanho foi o ódio que sentiu. Então disparou – Ele a violentou, Shaka.

- O que? – Shaka e Aioria disseram em uníssono.

Aioria olhou para Shura tão espantado com o que ele havia dito, que até sua embriagues parecia ter passado. Mas no fundo de sua alma estava se sentindo infeliz por ser apunhalado com aquele tipo de acusação. Shaka alternava o olhar de Aioria para Shura procurando ver se o cavaleiro de leão desmentiria o que o outro falou, ou se o cavaleiro de capricórnio estivesse levantando uma calúnia sem fundamentos. Já Shura, apenas olhava com ódio contido para Aioria, esperando apenas o momento que Shaka enxergasse a verdade e deixasse que fizesse o certo. Justiça. Era tudo que passava pela cabeça de Shura: justiça com as próprias mãos.

Depois de longos segundos em silencio, Aioria perguntou sério:

- Marin te disse isso, Shura? – o cavaleiro de capricórnio não respondeu de imediato, aumentando ainda mais a tensão entre todos. Impaciente, Aioria pergunta praticamente exigindo uma resposta - Ela disse com todas as palavras que eu a violentei?

Shaka agora tinha seu olhar atento para a face de Shura. Conhecia Aioria. Sabia que ele jamais faria alguma coisa do tipo ao qual estava sendo acusado. Shura sentindo a tensão do ambiente aumentar com sua demora para responder, resolveu quebrar o silencio:

- Não. Ela não disse isso. – admitiu com um olhar cabisbaixo. Logo em seguida mostrou-se mais confiante e continuou – Mas a forma que ela saiu daqui, e o estado em que se encontrava ao chegar em minha casa, já diz tudo.

- Quer dizer que toda essa confusão foi por causa de uma coisa que você concluiu baseado em algo que você não tem certeza?

- Convenhamos, Shaka. Ela saiu daqui extremamente humilhada, ressentida, e magoada. O que mais você pensaria ao ver ela chorando e chamando Aioria de monstro?

- Qualquer coisa menos esse tipo de acusação que fez a pouco. É uma coisa muito séria pra se dizer assim, sem nenhuma prova.

- Aioria sempre faz ofensas a Marin. Não só a ela, como a mim também. Ele pode ter feito isso mesmo apenas para criar intrigas entre nós dois. – Shura percebe que o cavaleiro de Virgem continuava descrente, então apela – Pelo amor de Deus, Shaka. Ela chegou na décima casa completamente transtornada depois de ter encontrado com Aioria. E estava sem sua máscara.

- Então você é culpado também da mesma acusação.

- Eu? Mas porque, Shaka?

- Ela saiu da sua casa da mesma forma que havia chegado lá.

- Ah, mas essa foi outra questão. Estamos falando de Aioria...

- E eu estou afirmando que Marin saiu da sua casa depois de você a ter violentado.

- Mas eu nunca faria isso com ela. Eu amo Marin.

- Aioria jamais faria o que você o acusou de ter feito pela mesma razão que a sua.

Shura tinha que concordar com o pensamento do cavaleiro de virgem. Realmente Aioria amava muito Marin para lhe desejar verdadeiramente seu mau. Tudo o que ele falava sobre Marin ultimamente, servia apenas para demonstrar sua mágoa. Vencido pelo argumento de Shaka, a única coisa que Shura podia fazer era se desculpar. Seria difícil, mas teria que fazer isso. Quando estava criando coragem para falar aquelas difíceis palavras, algo o fez sobressaltar-se:

- Por todos os deuses!! O que eu fiz? – Shura exclamava exasperado, escutando Aioria dizer "Sim... o que você fez?" , mas ignorou aquele tom irônico e se pôs a caminho da saída dizendo preocupado – Eu tenho que falar com Marin...

- Aproveita e leva a máscara que ela esqueceu de pegar.

Shaka olhou para Aioria censurando-o por criar mais confusão ainda. Aioria nem se importou com o que o cavaleiro de virgem poderia estar pensando sobre ele. Sentia a cabeça doer, ao lembrar algumas coisas boas pelo que passaram quando ao menos falava com ela. Marin o acusava, Shura também, e apenas Shaka se mostrava amigo para defender-lhe a honra. Sabia que se contasse como tudo aconteceu, não resolveria seu problema, mas pelo menos serviria para diminuir o peso na sua consciência.

Em outro lugar...

Shura descia a escadaria sem prestar atenção nas pessoas que o saldavam com um sorriso e cumprimentos. Sua mente vagava longe dali: "O que exatamente aconteceu entre Marin e Aioria? A máscara dela estava lá, na mão dele... O que ele disse para ela se sentir humilhada? Droga! Nem faço idéia do que aconteceu, portanto, nem sei como agir para reparar meu erro... Eu a insultei." Do nada, Shura socou a coluna da parte externa da casa de Áries, assustando Mu, que estava concentrado num livro de medicina. Passado o susto, o cavaleiro de Áries levantou-se inquirindo:

- Posso saber o que eu ou a minha casa fez a você para que a quebre sem pestanejar?

- Desculpe-me, Mu. Não era minha intenção quebrar sua casa. Só estava precisando extravasar minha raiva.

- Você e o Aioria andaram brigando outra vez? Se o Grande Mestre souber disso chamará ambos. E no final das contas vai acabar sobrando pra Marin também.

- Andamos brigando sim, mas não é por isso que estou com raiva.

- Essa é boa. Você briga com Aioria e no final das contas você não está com raiva dele? Então de quem que você está com raiva?

- De mim mesmo. Sou um completo idiota.

- Então o problema é mais sério do que eu imaginava. Não seria melhor desabafar um pouco? Talvez isso ajude.

- Não. Eu me viro sozinho.

- Se fosse assim, não estaria com a cabeça quente, e já teria visto a solução para seus problemas. Olha, Shura, duas cabeças funcionam melhor que uma. Talvez uma visão de fora enxergue melhor.

Não custava tentar. Mau não deveria fazer se desabafasse com o cavaleiro de Áries.

Vila das amazonas

Horas mais tarde, lá estava Shura, confiante. Chegara a hora de se desculpar com Marin e tentar fazê-la se apaixonar por ele. Deveria contar tudo o que estava sentindo. Tinha que ser franco e objetivo com ela. Mas primeiro, teria que passar por aquela sentinela na frente da casa de Marin.

- Aonde pensa que vai? Ela não quer ver nenhum dos dois. Vocês a magoaram muito.

- Agradeço a sua boa intenção, Shina, mas realmente preciso falar com ela.

- Já não basta o que vocês fizeram ela sofrer? O que mais querem?

- Já disse que apenas preciso conversar com ela. Preciso me desculpar, e desfazer o mau entendido. Depois disso não a procurarei mais se essa for sua vontade. Juro por mi madre.

Shina cedeu para que o cavaleiro de capricórnio passasse. Não adiantava tentar deter um homem tão determinado quanto ele. Alem do mais, seria melhor que tudo se resolvesse de uma vez para que cada um tomasse seu rumo.

Ao entrar na cabana, Shura deu de cara com Marin olhando pela janela oposta a porta da sala. Seu olhar parecia perdido. No que ela deveria estar pensando?, pensava Shura. Ela poderia parecer distante, mas Shura tinha certeza que ela pressentiu sua presença ali.

- Me desculpe Marin. Estava com de cabeça quente quando disse aquelas coisas horríveis...

- Não há nada para desculpar. Você está certo em achar que estava sendo usado por mim.

- Não é assim. A idéia inicial foi ajudar a conseguir o que você queria. Infelizmente provocamos Aioria mais do que deveríamos. O que eu deveria ter feito logo quando a vi chorando perto da casa de leão era tentar contornar a situação.

- Você está querendo dizer que se arrepende de tudo o que fizemos?

Uma longa pausa por parte de Shura foi o suficiente para deixar o ambiente tenso. Como Shura poderia dizer uma coisa dessas? Os momentos que passaram juntos foi algo que nuca poderia imaginar que aconteceria com ele. O jantar, a dança, o corpo que se insinuava ao seu nos dias de treino, e o principal, ter visto pela primeira vez o rosto mais lindo que já havia visto. Não dava pra se arrepender dessas coisas que ocupavam sua mente nos momentos em que se encontrava sozinho.

- Me arrependo de ter magoado você, e de ter acusado Aioria de ter feito coisas das quais ele não seria capaz, embora ainda não saiba exatamente o que aconteceu entre vocês dois. – murmurando tão baixo que Marin não podia ouvir, prosseguiu – E nem gostaria de saber.

- Você foi tomar satisfação com Aioria? – Marin parecia tão preocupada com o que poderia ter acontecido que Shura respondeu com desgosto.

- Sim, mas não se preocupe, Shaka interrompeu a nossa briga antes de Aioria se machucar. – percebeu que a amazona parecia aliviada com a constatação de que Aioria estaria bem. Definitivamente ela ainda amava-o. Essa era a deixa de terminar com aquela farsa antes que alguém saísse verdadeiramente magoado – Marin, só tem duas coisas que gostaria de pedir-lhe. Perdão por todo o mau que fiz a você...

- Quanto a isso não se preocupe. Você teve fortes motivos para estar de cabeça quente. Eu também agi errado. – sentindo que a esperança não tinha ido embora, falou tentando esconder sua alegria interior - Bem, você disse que queria me pedir duas coisas. Ainda falta uma.

- Sei que deve ser difícil pra você tentar conversar com Aioria depois dele ter te magoado tanto, no entanto, acho que essa situação deve ser resolvida para que não venha acontecer mais nenhum aborrecimento posterior.

- Quanto a isso eu já havia pensado muito. Cheguei até a tentar dialogar com ele enquanto tentava enfaixar a mão dele. – um pouco desanima, continua - Irei procurá-lo quando estiver sóbrio.

- Sendo assim, ótimo. – fez-se uma longa pausa, havia chegado o momento que Shura tentava tanto evitar – Quero lhe pedir para que esqueça essa vingança. Não procure outra pessoa para seguir em frente com esse plano. É arriscado que alguém tente tirar proveito de você. Marin se for o caso, volte pra Aioria. Tudo o que mais peço a você é que não procure outra pessoa. Certo?

Marin não conseguia exprimir um "a" sequer. Esperava que ele pedisse qualquer coisa, menos isso. Depois de tanto tempo juntos, seria assim que os dois iam se afastar? Ela não podia acreditar no que Shura dissera: "se for o caso, volte para Aioria". Por que aquela frase doeu tanto em seu ser? E o que ele queria que fizesse agora, apertasse sua mão e saia dali como se nada tivesse acontecido entre eles?

- Obrigada por tudo, Shura. Espero poder contar com sua amizade.

- Sempre estarei a sua disposição. – respondeu Shura aceitando o convite para um abraço. Sua vontade era voltar atrás no que havia dito, e dar um beijo apaixonado. Afastou-se em direção a porta voltando logo a seguir – Marin...

A amazona de águia tinha se virado de costas quando ele estava saindo para que ele não visse que seus olhos estavam prestes a verter lagrimas. Esperançosa, voltou-se para ouvir o que Shura tinha a dizer:

- Seja paciente com Aioria. – quase que ele não conseguiu dar esse ultimo conselho - Cuide-se.

Continua...

O que será que aguarda para Shura, Marin e Aioria? Só o futuro dirá.

Espero que tenham gostado.

Até o próximo capítulo.