O Voo do Passarinho
Capítulo IV – A Criada, o Cozinheiro e o Bardo
Sandor Clegane havia partido, deixando para trás uma sensação de traição para Sansa Stark. Parada no ar frio da manhã de outono em Fellwood, o lugar na cocheira onde Estranho fora guardado na noite anterior representava o caos. Sansa não conseguia acreditar no que acontecera, na verdade, mais uma vez ela não queria acreditar na má índole das pessoas, embora tudo levasse a crer que o ex-Cão de Caça de Joffrey lhe roubara as jóias e a deixara para trás.
- Não... – A palavra saiu quase inaudível. – Não, não, não, não... – Conforme ia dizendo, sua voz aumentava e as lágrimas já escorriam pelas maçãs do rosto. – Não pode ser... Não... Ele... Ele não faria isso... Ele não... Não... Não... Não ele... – Levou as mãos ao rosto e com o dorso da manga de seu vestido tratou de secar as lágrimas. O raciocínio lógico começara a voltar. Talvez ele tenha deixado alguma mensagem na estalagem pra ela.
Com a mesma rapidez com que saíra a procura de Sandor, Sansa retornou para dentro da hospedaria. Diferente da noite anterior, a estalagem se encontrava ainda mais vazia. Havia apenas a garota que lhe ajudara com o banho na noite anterior, o nome dela era Sally se não se enganava, e o barulho que predominava no salão era o do crepitar da lareira.
- Senh... – Começou a criada, mas foi interrompida por Sansa antes que pudesse terminar a palavra.
- Onde... – Sansa respirou, não queria soar desesperada – O homem com quem cheguei à noite anterior, onde ele está?
- Foi por causa disso que a chamei quando saiu correndo. – Avisou Sally com uma serenidade transmitida como insolência. – O senhor que a trouxe partiu antes do sol raiar deixando paga a sua estadia por mais um dia. Embora não seja grande coisa, as refeições estão inclusa no pacote pago.
Os olhos de Sansa arregalaram-se. Sandor não a havia abandonado - não definitivamente -, como ela acreditara que o fizera. Ele deixara para ela uma esperança. Em todo o caso, o que será que ele estava a fazer que a deixara para trás? Será que pagar por um dia a mais a estadia da garota era uma forma de desculpas? O estomago de Sansa a incomodava. A sensação de ser esquecida e a fome que sentia eram os principais culpados.
- S-será... Será que... – Começou com timidez.
- Gostaria de comer algo? É isso?
Sansa concordou com um aceno de cabeça tímido. No mesmo instante Sally se retirou da presença da ruiva, deixando-a sozinha no salão principal.
- Obrigada... – Sussurrou, embora fosse a única a ouvir as palavras.
Assim que se viu só, Sansa procurou um lugar no largo salão para se sentar. Havia cinco mesas grandes, alguns bancos no balcão do bar e outros espalhados no local, a semelhança é que todos estavam posicionados de frente para um tablado de madeira, quando em noites de festividades artistas como bardos, poetas e atores realizam apresentações calorosas. A garota Stark optou por sentar-se na mesa do meio, uma posição privilegiada, cuja qual os nobres senhores se posicionam quando em um banquete. Ao reparar que com essa atitude podia indicar seus status de nascimento, levantou-se e sentou-se na mesa mais próxima ao palco.
- Willem logo trará o seu café. – Avisou Sally ao retornar ao aposento com duas canecas de cevada e sentou-se de frente a Sansa.
- ... Willian? – Indagou.
- Willem! – Corrigiu – O cozinheiro. – Empurrou uma das canecas para Sansa e bebeu um gole farto da outra.
- Ah! – Sansa reconheceu o liquido - Eu não... – "bebo", completou mentalmente. Seu pai lhe proibira de beber longe de sua presença e quando forçada por um nobre, deveria ingerir o mínimo aceitável. Mas outra vez, seu pai não estava ali e não havia ninguém para repreendê-la. – Obrigada. – Agradeceu, bebericando o que lhe fora dado.
Sally desatou a rir.
- Ora, vamos! Beba com vontade! – Sally esvaziou metade da caneca no outro gole e ficou esperando que a ruiva fizesse o mesmo.
Pela segunda vez em dois dias teve a atenção chamada pelo modo em que bebia. Segurando a caneca com as duas mãos levantou-a e despejou o líquido com vontade garganta a baixo. Filetes de cevada escorriam pelo canto de seus lábios. Quando pousou o recipiente alcoólico a mesa, apenas um terço do conteúdo restava.
Sally riu novamente.
- Bebeu como um maldito soldado! – Gargalhava.
- Oh... – Arrependera-se do modo que bebera. Definitivamente não foi uma boa escolha de quebra de desjejum. Sua cabeça parecia formigar. - ... Desculpe...
- Garota, com certeza você se desculpa e agradece de mais! – Sally bebera mais um pouco.
- O quê? Eu não...
- SALLY! Abra a porra dessa porta! – Gritou uma voz masculina vinda por de trás da porta que a criada passara quando fora levar o pedido de Sansa para a cozinha.
Sally terminara de beber sua cevada e se pôs de pé com uma revirada de olhos. Quando a porta foi aberta, um homem na casa dos 20 anos passou por ela. Ele era alto, tinha a pele escura e olhos negros. Lembrava muito os traços de Dorne e sobre a camisa amarela remendada e justa notava-se a presença de pequenos músculos.
- Mulher estúpida! Como espera que eu abra a porta com as mãos ocupadas!? – Empurrou com rudeza os dois pratos que trazia consigo para cima da criada. 'Tá querendo me foder, é!? – Desviou-se de Sally e se deparou com Sansa olhando-o com os olhos escancarados. A garota do Norte nunca vira tanta grosseria antes.
- 'Tá olhando o quê? 'Tá com algum problema, é!?
As palavras não lhe vinham. Imediatamente tratou de desviar os olhos e começou a se encolher em seu assento conforme o cozinheiro se aproximava.
- Garota estúpida. Não te ensinaram que é feio encarar os outros? – Perguntou, soltando os pratos na frente dela.
- Tsc. Está assustando ela com esse seu jeito, Willem. – Falou Sally se aproximando deles.
Sansa não ousou se manifestar. Seus olhos agora estavam presos nos ovos que lhe foram dados, eles parecia estarem crus e em um se via ramas de sangue.
- Aaahh! Não fode, Sally! Você viu o tipo de homem com quem ela anda, eu sou uma donzela perto daquilo. – Willem observou Sansa que arriscara olhá-lo de baixo.
Sally pareceu ganhar vida com a entrada desse novo tópico e retornou a sentar-se em sua posição anterior.
- Oi, sabe? Eu, o Willem e o Yros nos questionamos sobre quem você é. Nós tentamos retirar alguma informação do homem que a trouxe aqui, mas não conseguimos, então criamos algumas... teorias.
Willem sentou-se ao lado de Sally. Ele também demonstrou estar curioso sobre o assunto.
Sansa segurou com firmeza a cevada. Esperava do fundo do coração que nenhum dos dois lhe perguntasse quem era. E não fazia a mínima ideia de quem era o tal de Yros.
- Bom – Sally se manifestou – Eu acredito que você veio de Porto Real e era uma criada de alguma senhora da corte e durante a Rebelião de Blackwater comandada por Stannis Baratheon contra seu sobrinho Joffrey, o Rei, você aproveitou para fugir com o seu verdadeiro amor que era um cavaleiro. Só que como a invasão de Stannis fracassou e o rei continua sendo o Joffrey, vocês dois estão fugindo, pois se forem pegos serão duramente castigados. – A criada sorria enquanto contava o seu plano.
Sansa quase engasgou com a bebida. Um ataque de tosse ocorreu e quando se acalmou, lançou olhares incrédulos para os dois. Não sabia por onde começar sua incredulidade, se era no fato de Sandor e ela serem um casal ou do fato de Joffrey ter ganhado a batalha que pelo jeito de Cão de Caça falara, já estava perdida.
- Pois eu já não penso assim! – Willem se manifestou, impedindo que Sansa debatesse a teoria de Sally – Acho que você era uma puta, uma daquelas de luxo. Acho que você está prenha também e por isso que está fugindo com o pai da sua cria. Acho que ele te abandonou aqui. Fez o capricho seu para não abortar esse bastardo, mas no fim das contas não quer sustentar mãe e filho. Ele é um cavaleiro todo fodido, não tem tempo nem dinheiro pra desperdiçar com rameiras. Tenho certeza que ele voltou para se casar com uma moça nobre.
Sansa dessa vez ficou de queixos caídos. Estava indignada com o fato de ousarem a pensar que ela era uma prostituta! E principalmente que estava grávida de Sandor! "Ridículo! Ridículo! Ridículo!" Exclamava em sua cabeça, mas as palavras não lhe viam pelo choque e, mais uma vez foi cortada, mas dessa vez por Sally.
- Já Yros, ele pensa que você é uma Lady, pensa que você tem uma relação com os Tully por causa de seu cabelo vermelho e como é um momento de guerra, acredita que o homem que a acompanha seja um cavaleiro juramentado a sua casa. A função dele seria levá-la em até algum lugar seguro e oferecê-la em casamento a uma Casa poderosa, e assim irá construir uma aliança forte para a Guerra dos Tronos.
A última teoria era a mais sensata, embora tivesse vários erros. O que mais alarmou a garota nortenha foi a menção da Casa Tully. Isso demonstrava que a associação a Casa de sua mãe estava bem forte. Ela deveria fazer algo para desviar a atenção deles para esse lado.
- Todos estão muito precipitados. – Respondeu depois de pensar bem sobre o que faria. – Mas a teoria da Sally é a que mais se aproxima. – Mentiu, tentando ao máximo que conseguia soar verdadeira.
- Eu sabia! – Exclamou a criada, apontando seu dedo fino na face do cozinheiro. – Há! Chupa essa!
- Vá se foder! Você é tapada? Ela disse que é a que mais se APROXIMA! Além de burra ainda por cima é surda!? – Willem quase quebrara o dedo de Sally de raiva.
- Por favor! – Pediu Sansa – Não a machuque!
- Mesmo assim a minha foi a que mais se aproximou! – Choramingou Sally segurando seu dedo ferido.
- Conte a sua verdadeira história guria, e sem rodeios! – Ordenou Willem.
- E-eu... – Sansa olhou ao redor, procurando informações para uma mentira espontânea que fosse convincente. - ... Eu era uma cantora itinerante. – Soltou a frase ao observar o palco. – Gosto muito de canções sobre donzelas e cavaleiros e foi durante uma apresentação em Donzelarosa que conheci o cavaleiro com quem viajo. – A mentira começou a fluir. Soava mais convincente do que fora qualquer vez na corte, mesmo quando dizia a verdade. – Tínhamos plano de ir para Porto Real, mas como soubemos da invasão de Stannis, desviamos o caminho e acabamos por cair na Matadorrei e, coincidentemente acabamos parando em Felwood.
Sally e Willem se encararam. Pareciam estarem dizendo suas dúvidas, mas no fim pareceram bem convencidos do que Sansa acabara de contar.
- Se for verdade, não se importará em dividir o palco comigo, não é mesmo? – Uma voz vinda das costas de Sansa a fez saltar no mesmo lugar.
- Yros! – Willem e Sally exclamaram em coro.
Ao se virar, Sansa se deparou com o bardo que vira se apresentando na noite anterior. De imediato suas bochechas coraram. Ele era ainda mais bonito iluminado pelo sol da manhã e estava tão próximo dela, que podia sentir o cheiro de lavanda que vinha de suas madeixas louras.
- Prazer, mi Lady. – Estendeu suas mãos e tomou uma das mãos de Sansa e beijou-a formalmente, fazendo uma pequena reverência. – Me chamo Yros, como descobriu, mas ainda não tive o prazer de descobrir o nome da senhora.
O coração da ruiva estava na boca. Pensou em responder o seu verdadeiro nome, mas então isso seria óbvio de mais. Logo em seguida pensou em dar o nome de sua mãe e mais uma vez, isso lhe relacionaria aos Tully, como o bardo sugerira na teoria. Por fim, deu o nome que lhe agradava desde pequena.
- Jonquil.
Sally, Willem e Yros desataram a rir. Sansa ficou dar dor de seus cabelos. Sentiu-se envergonhada por passar um nome tão estúpido.
- Jonquil! – Exclamou Willem. – Vai me dizer, bela Jonquil, que o homem que a trouxe até aqui é o seu Florian!?
Todos riram ainda mais. Sansa se desconcertou ainda mais.
- Vamos, deixem-na em paz. – Ordenou Yros em meio a risos.
- Quem dá um nome tão ridículo a uma filha? Aposto que é uma bastarda de algum cavaleiro! – Sugeriu Willem.
- Isso é indiferente. És tão bonita quanto a própria Jonquil. – Yros piscou, tentando suavizar o ambiente por meio de galanteios. – Espero que divida o palco comigo essa noite.
- Não me atreveria, senhor.
- Disse que é uma cantora, por que não canta? – Perguntou Sally.
- E-eu... – Começou Sansa.
- Aposto que é uma puta que só canta na cama! – Zombou Willem.
- Willem! – Repreendeu Yros com severidade. – Não se atreva a usar esse linguajar perante a hóspede, entendeu? – O bardo sentou-se ao lado de Sansa. – Não dê ouvidos a esse brutamonte, ele fala como cozinha.
- Minha comida e minha fala são perfeitas. – Protestou, comendo o ovo frito com ramas de sangue.
Involuntariamente, Sansa e Sally enrugaram o nariz em sinal de nojo.
- Delicioso. – Willem lambeu os dentes.
- Vai tirar o apetite da garota dessa forma, Willem. – Yros balançou a cabeça em sinal negativo. – Por favor, minha senhora, experimente as torradas. – Tomando uma torrada entre as mãos, direcionou-as para Sansa. A garota tentou tomá-las em suas mãos, mas foi impedida pelo bardo. – Por favor, permita-me. – Falou, oferecendo a torrada. A garota nortenha com delicadeza mordeu um pedaço do aperitivo.
- Gostosa... – Comentou com as maçãs coradas.
- A única coisa que o nosso querido cozinheiro não fez. – Sorriu, mordendo o mesmo lugar que Sansa mordera. – Sally, vá buscar mais cerveja para Jonquil. – Comandou.
Sally se pôs em pé sem questionar e partiu em direção a cozinha.
- Willem, vá para a aldeia conseguir mais suprimentos. Esta noite faremos uma grande apresentação.
- Mas eu não... – Sansa começou.
- Shiu, trate apenas de se alimentar agora. – Deu dois tapinhas na cabeça da garota e ofereceu-lhe a torrada mais uma vez, que a ruiva mordiscou sem pestanejar.
Willem obedeceu ao bardo, porém partiu arrastando os pés e praguejando. Yros não deu importância a essa atitude. Estava entretido alimentando a hóspede. Sally retornara ao salão algum tempo depois trazendo uma caneca e um jarro de cevada. Encheu o copo que Sansa estava usando e em seguida a caneca que trouxera que era destinada ao cantor. Terminando a ação, partiu para o andar superior a modo de arrumar os aposentos. Depois de algum tempo que os dois estavam a sós, Yros quebrou o silêncio que havia se formado.
- Eu sei que a história que contou não é verdadeira. Consigo farejar a mentira ao longe, por mais convincente que ela pareça. – O bardo mantinha um sorriso ingênuo no rosto. Era impossível dizer o que ele pensava sobre aquilo.
- ... A minha história...
- Não desejo sabê-la.
- Então...?
- Quero apenas que cante comigo. – Confessou.
- Mas eu...
- Irá cantar. Sua voz é como a dos pássaros. Sei que não mentiu quando disse que era uma cantora.
- Nunca cantei para ninguém!
- Toda Lady aprende a cantar com a sua septã. Tenho certeza que a sua fez um excelente trabalho.
Ele sabia. Sabia que ela pertencia a corte. Talvez ele soubesse quem ela realmente era, mas por que ele manteria isso em segredo?
- Como...? Você...
- Minha querida Jonquil, quando eu encontro algo que me fascina, desejo levá-lo ao seu limite. Irei esperá-la em meus aposentos logo após o almoço. Tenho algumas coisas para resolver na Vila, por favor, não se atrase para nosso ensaio. Quero que nossa apresentação essa noite seja perfeita. – Yros levantou-se da mesa e depositou um beijo suave, mas cheio de promessa, na testa de Sansa. Sem mais nenhuma palavra, deixou-a para trás com os tormentos da posição em que se encontrava.
N/A: Olá, leitores! Tenho algumas coisas para comentar sobre esse capítulo, mas primeiro de tudo gostaria de agradecer as pessoas que favoritaram a minha estória! Meus olhos se encheram de glitter e fiquei mais feliz do que o Renly em uma fanfic dedicada a ele e ao Loras! *-* Também gostei de receber reviews e seguidores! Sou muito feliz por vocês estarem gostando! E como prometido, não abandonei o trabalho e até publiquei com maior frequência! :D
Bom, vamos ao que interessa agora:
1- Sinto muito, mas o Sandor não apareceu nesse capítulo. Ainda estou me decidindo se ele terá o capítulo seguinte dedicado apenas à ele ou se ele aparecerá no fim;
2- Decidi que cansei de trabalhar só com o Sandor e a Sansa, achava que a fanfic estava precisando de novos personagens para dar um UP na trama, que acabará de forma surpreendente! (sim, o final dessa fanfic já está pronto, eu sempre começo uma fanfic pelo fim. Há!);
3- A figura do Bardo (Yros) vai permanecer durante um bom tempo e prometo tentar fazer com que ele desperte emoções em você leitor;
4- Sou uma pessoa com mente aberta, então se vocês tiverem sugestões, não se acanhem! Saibam que a minha demora se dá pelo fato de estar no meu ano de TCC e na minha estagnação criativa.
Bom, como já sabem: Reviews, favoritar e seguir são muito apreciados! Mensagens em inbox também! Se acharem algum erro na fanfic, seja de coerência e digitação, me notifiquem. Estou super ansiosa que algumas coisas acabam escapando.
