Bem, eu não sei como eu começo a falar aqui... Acho que Afrodite, Muu e Milo já disseram bastante coisa, vou me esforçar mesmo para não parecer redundante! Vou começar quando eu comecei a sentir os sintomas, ok?
Um tempo antes de eu quase me casar com o Muu, eu comecei a me sentir estranho, como sentir dores musculares, principalmente depois do treinamento. Com as dores vieram as cãibras, que eu sentia a noite, e sempre acordava o Muu por isso. Eu não achei que fosse nada, então passei a comer mais banana e puxar menos no treinamento físico. Passei a meditar mais então. Eu raramente conseguia meditar, antes poderia cair uma bomba na minha frente que eu não percebia, mas eu passei a me distrair com coisas bobas, como o brilho do sol no meu rosto. Sem contar que passando a meditar mais, minhas pernas e meus braços passaram a ficar dormentes e doloridos com muita facilidade, mesmo horas depois de uma meditação leve. Resultado: passei a meditar menos.
Nisso eu já quase não treinava e meditava mais, e meu cosmo passou a diminuir, e nos treinos corpo a corpo, que eu sempre ganhava, eu só perdia. As dores passaram a ser mais freqüente, e não precisava de qualquer esforço físico – ou a falta dele – para começar a doer. Eu passei a vomitar a cada banana que eu comia. E passei a sentir dor não só nos membros, mas também nas costas, principalmente nas costas. Andar estava ficando muito difícil, parecia que a cada passo que eu dava eu recebia uma Exclamação de Athena na cara. Doía demais. Eu não me distraia mais, eu simplesmente "saia do mundo", eu me desligava completamente do que estava a minha volta e voltava horas depois.
Não posso negar que com a falta de treinamento e meditação meu cosmo diminuiu em doses quilometricamente cavalais. Se eu continuasse a andar de olhos fechados, como sempre fazia, o máximo que eu ganhava era um galo na cabeça. Na primeira vez que me viram de olhos fechados, ficaram todos assustados, até eu dar um ataque de dor. Fui para casa na hora, acho que ninguém percebeu.
Eu estava começando a ficar preocupado com isso.
Em uma certa noite, pedi a Buda para me dar uma luz sobre o que poderia ser, então eu tive um sonho. Nesse sonho, ele me disse essas exatas palavras:
"Shaka, você cometeu o pior dos pecados, você está abandonando sua Deusa para ter relacionamentos carnais com outro ser, do mesmo sexo que você até, Shaka. Isso é imperdoável. Você irá sofrer. É seu destino agora. Você irá perder tudo o que você tem, e qualquer um que ficar ao seu lado irá sofrer junto de você. Nada dará certo, nada do que você fizer sairá de forma como planejou, ninguém ficará de seu lado, você ficará decaído e doente, sua vida se resumirá a uma única pessoa, que por ela, e unicamente por ela você continuará a viver, Shaka. Você sentirá falta das pessoas mais importantes para você, você não poderá estar do lado de quem queria, e justamente a única pessoa que você não gostaria que estivesse junto de você na decadência do Homem mais Próximo de Deus será a única pessoa disposta a sê-lo.
Posso te dar certeza que sairá vivo disto, e que um dia isso tudo acabará. Nem você, nem ninguém escapará impune disto. Vocês não esqueceram, e apenas depois que todas as magoas, rancores, receios, dores e arrependimentos estiverem longe de sua vida e de sua família, você poderão dizer que são felizes.
Boa Sorte, Shaka"
Na manha seguinte a esse sonho, eu acordei em pânico. Não perto de Muu, depois que passei a sentir dores demais eu não dormia mais na casa dele, mas eu o queria ali comigo, contar para ele. Mas eu lembrei do sonho. Então resolveria tudo sozinho. Liguei para um médico, para fazer uns exames, meio incrédulo, não acreditava no que Buda havia me dito, mas estava tendo o mínimo de precaução.
Foi justamente quando recebi o exame que a pessoa mais digna de meu desafeto (na época) me viu: Afrodite.
Na hora eu estava muito abalado, acabei contando tudo para ele. Não vou negar que não gostava dele, que eu achava ele muito metido e arrogante, mas que na verdade eu é que era metido, arrogante, nariz empinado e um monte de coisas mais, que não vem ao caso agora.
Assim como Buda disse, eu acabei com a vida do Afrodite por ele ter ficado do meu lado.
Assim como Buda disse, minha vida acabou de uma hora para outra.
Assim como Buda disse, a única pessoa que eu não esperava ficar do meu lado foi a única disposta a sê-lo.
Assim como Buda disse, não seriamos felizes.
Afrodite e Muu devem ter contado em detalhes a suposta traição, não? O que eu posso dizer é que na época, simplesmente não achava ninguém digno de ser meu amante, não traia Muu por isso, não por causa de algum voto de fidelidade.
Por mais que qualquer um tente dizer, apenas eu posso dizer com detalhes o porquê de eu dizer "não" no casamento. Acho que foi uma mistura de medo, pelo Muu, porque foi só na hora em que Buda disse que Muu sofreria se ficasse ao meu lado que eu descobri que podia amar. Foi só na hora em que Muu disse 'sim' que eu vi que eu o amava. Foi só na hora em que eu disse 'não' que eu acreditei que ele me amava de verdade.
Se fosse qualquer outro no lugar de Muu, não queria mais me ver. Mas não o Muu, meu Muu. Ele simplesmente me disse, baixinho, sussurrando: "Não sei o que se passa na sua cabeça, Shaka, mas sei que você tem alguma razão. Eu espero você ficar pronto".
Não pude evitar conversar com Muu após o casamento falho, eu mesmo fui conversar com ele. Devia satisfações. Jurei para ele que iria voltar para ele, e foi a única vez que eu disse que o amava. Muu até tentou me convencer do contrario, mas não dava certo, eu já tinha decidido ir à Londres com Afrodite.
A viagem foi tranqüila, e a primeira coisa que fizemos quando chegamos lá foi ir para a clínica. Eu, infelizmente, teria que ficar internado, e não poderia ver Afrodite todos os dias. Confesso que não me importei quando me disseram, até achei melhor, mas eu não esperava sofrer o que eu sofri.
O pior dia de minha vida foi aquele primeiro dia que passei na clínica. Quando cheguei lá, fizeram uma bateria de exames em mim e me levaram para um quarto. No quarto não tinha nada além de uma cama, um armário e uma televisão. Não era escuro, mas a iluminação me dava certo medo, sentimento que eu não sentia até aquele sonho.
Naquela noite, a única coisa que me confortou era a constelação de Virgem e Peixes brilhando no céu.
Depois dos resultados dos exames, não me deixaram mais andar sozinho, eu ainda podia andar, mas me colocaram em uma cadeira de rodas, me disseram que era porque fazia parte do tratamento, que eu não poderia me esforçar. Mas na mesma noite, quando eu acordei, eu simplesmente não sentia nada abaixo da cintura. Eu achava que era algum afeito colateral, que era alguma coisa, até o medico me examinar.
Ele me dissera que por causa da doença minha espinha foi afetada, e que eu não poderia mais andar e começou a me dar explicar minha situação. Por dentro eu queria morrer, não queria acreditar que aquilo tudo estava acontecendo, não queria acreditar que eu havia ficado paralítico, não EU. Paralisia era coisa que acontecia com outras pessoas, não comigo.
Foi exatamente naquele momento que eu desejei mais do que nunca estar perto da única pessoa que estava disposta a ser minha família. Afrodite.
Eu suportei o Maximo que eu podia os dias até sábado, dia que eu via Afrodite.
Eu nunca me senti tão feliz na vida como no momento que eu vi Afrodite. Não sei como, mas ele só foi perceber que eu estava em uma cadeira de rodas depois da nossa pequena discussão. Ele sempre foi meio avoado. Naquele sábado eu descobri que tanto Afrodite quanto Mascara da Morte eram mais que dois Cavaleiros de Ouro sanguinários.
Eles eram mais humanos que qualquer um de nós.
Eles corriam por seus ideais, não importando qual a opinião do mundo sobre eles.
Eles defendiam sua família mais que qualquer um.
Eles tinham família.
E foi nesse dia que eu descobri que eu estava dentre as únicas pessoas que as razões do meu desafeto estavam dispostas a chamar de família e dispostas a morrer por elas.
Depois desse sábado minha única razão de viver se resumia a Afrodite. Eu sobrevivia à semana com doses enormes de medicamentos apenas para poder ver um sorriso no rosto de Afrodite no sábado para eu poder recarregar forças para o resto da semana.
Os seis meses se passaram muito devagar, eu sobrevivi, não vivi. A doença foi curada, graças a Deus a única seqüela foi minha paralisia, se levar em consideração que eu poderia ficar todo atrofiado em uma cama. Não posso negar que eu achei, durante varias noites, que era exatamente isso que ia acontecer comigo.
No dia em que saí, Afrodite se mudou. Não duvido que ele estava esse tempo todo juntando dinheiro para se mudar para um lugar digno do Cavaleiro Mais Próximo de Deus, como ele próprio me disse.
Bem, após a mudança, fomos procurar emprego para mim, e não nego, achei que meu sofrimento tinha acabado ali. Achei emprego, e no primeiro dia encontrei Milo e Kamus. Nós conversamos, vocês sabem, Milo lhes contou não? Bem, a parte que Milo não lhes contou foi minha reconciliação com Muu.
Assim que Muu chegou deu pra perceber que ele queria mais era chorar. Antes do jantar, conversei com ele a sós, e disse a ele que agora, mais que nunca, me sentia pronto. Ele entendeu o recado, não precisávamos de mais nenhuma palavra, nós simplesmente nos completávamos, e eu podia dizer que não trairia Muu, não pelo motivo fútil de antes, ou por causa de algum voto de fidelidade, mas porque o amava.
Bem, tudo ocorreu bem até o dia do acidente. Muu e eu estávamos vendo televisão quando tocou o telefone e era do Hospital. Disseram que na carteira de um paciente que dera entrada na UTI estava esse numero anotado. Eram Mascara da Morte e Afrodite. Imediatamente ligamos (eu e Muu) para Milo e Kamus.
Bem, depois das noticias do estado do Afrodite e do Mascara, os outros cavaleiros de ouro, o resto de minha família, chegaram lá. Todos eles me estranharam na cadeira de rodas, foi de certa forma até cansativo ter que contar para eles o que foi que tinha acontecido. Todos eles choraram, todos. Não sei se foi por mim ou pelo conjunto da obra, mas eu senti, pela primeira vez em tempos, que eu não era sozinho e que havia alguéns aí para mim.
Os anos que se passaram com o Mascara na UTI até sua morte e Afrodite em coma não foram de todo felizes, mas não foram tão tristes assim. Foi bom ver todos largando tudo que sabiam e que gostavam de fazer para ficar unicamente comigo.
O dia em que Dite acordou foi um dos melhores, se não foi o melhor, de minha vida! Ele simplesmente deu a volta por cima depois de descobrir a morte de Mascara, ver que eu ainda não havia voltado a andar e ver que estava 10 anos mais velho... ele simplesmente deu a volta por cima, hoje me arrependo de ter, um dia, considerado ele persona non grata em minha vida.
Talvez se pudesse voltar no tempo e evitar que tudo isso acontecesse eu seria uma pessoa mais feliz.
Talvez se eu pudesse voltar no tempo eu ainda teria um irmão entre mim.
Talvez se eu pudesse voltar no tempo nada disso teria acontecido.
Mas não me arrependo. As coisas são como as coisas tem que ser. Hoje não sou mais altivo e arrogante como costumava ser. Apesar dos pesares essa doença foi a melhor coisa que já me aconteceu. Hoje eu guardo a memória de uma pessoa, agora, importante para mim.
Hoje eu simplesmente arrisco dizer que sou feliz.
FIM
--- Changes ---
Gente, essa é a primeira fic de capítulos que eu termino e estou profundamente triste. É porque terminou...
Eu agradeço a quem leu, mandando review ou não, agradeço a todos. A quem me fez digitar o ultimo capítulo, Maia Sorovar, a quem me fez não desistir de postar a fic, mesmo que inconscientemente, Virgo-chan, a quem me incentivou, Lune Kuruta, Princess Andrômeda, Kiah-chan e Any-chan, aos meus 8 reviews até esse capítulo, aos meus 4 reviews até o capítulo Milo, antes de eu deletar pela primeira vez, a Natii, que é meu motorzinho, que faz eu postar minhas fics, mesmo que atrasadas, e sempre lê os meus capítulos antes mesmo de ir para a betagem.
VALEU MESMO!
Fim do projeto Changes.
AGUARDEM CONTINUAÇÃO, DEPOIS QUE A AUTORA DESATOLAR DE FICS.
LONDON
Aguardem...
